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Livro Elite Da Tropa (Bope) 



 

 
 
Tags:  de  livro  bope  elite 
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Published:  December 17, 2009
 
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Gostaria de uma ajuda, eu adquirir um pacote de TV no PC no site www.tvacaboparatodos.net tenho acesso a vários canais através de um painel de controle que eu visualizo no próprio navegador, como eu faço para gravar os programas e série de TV no PC, lembrando que não tem nem um programa instalado no meu PC é todo pelo próprio navegador.
Quem tiver uma luz por favor me ajude meu e-mail: riclife@ig.com.br

 
 
Notes:
 
Slide 1: http://br.groups.yahoo.com/group/digital_source/
Slide 2: ELITE DA TROPA LUIZ EDUARDO SOARES ANDRÉ BATISTA RODRIGO PIMENTEL OBJETIVA 2
Slide 3: Prefácio Há quem pense que as pessoas se corrompem porque ganham pouco. Raciocínio estranho. Afinal, há milhões de pobres, no Brasil: gente séria e honesta. Por outro lado, os crimes de colarinho branco multiplicam-se feito epidemia. E há o próprio caso do Batalhão de Operações Policiais Especiais, o BOPE, da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, que até recentemente era um grupo pequeno e fechado, composto por 150 homens treinados para ser a melhor guerra urbana do mundo. Eles recebiam o mesmo salário de seus colegas da polícia convencional, mas eram incorruptíveis. Foram acusados de brutalidade desmedida, mas sua honestidade foi amplamente reconhecida. Qual o antídoto para a corrupção? Na história do BOPE, a resposta foi uma só: orgulho. Orgulho pessoal e profissional. Respeito ao uniforme negro. Antes a morte que a desonra. O processo de seleção era tão difícil e doloroso, o ritual de passagem era tão difícil e doloroso, o ritual de passagem era tão dramático, que o pertencimento passou a ser o bem mais precioso. Ser membro do BOPE, partilhar dessa identidade, converteu-se no patrimônio mais valioso. A auto-estima não tem preço. Portanto, não se negocia. Quem escala o Himalaia não se agarra ao dinheiro. O maratonista não corre atrás do lucro. O guerreiro, que estende o risco ao limite extremo, não mira o pagamento. O alvo é a glória, recompensa muito maior que os bens materiais. O monge que fustiga o corpo não quer levar vantagem. A ambição é mais elevada: o contato com o sagrado. As emoções são labirintos complicados. Pode ocorrer, na contramão do bom senso, o encontro inusitado entre honra e desonra, numa dobra improvável da alma humana, ou numa esquina obscura da cidade. Sob a forma, por exemplo, da mistura de violência com fidelidade, desrespeito e lealdade. Era aí que morava o maior perigo para o BOPE, em sua época 3
Slide 4: áurea, isto é, antes de se tornar o Batalhão que é hoje, formado por quatrocentos homens e mais parecido — em todos os sentidos — com os demais batalhões da polícia convencional do que jamais se permitira ser no passado. O embrião do BOPE — o Núcleo da Companhia de Operações Especiais da PMRJ — foi criado em 19 de janeiro de 1978, sob inspiração do então capitão PM Paulo César Amêndola de Souza, mas apenas em 1991 foi batizado com o nome atual. O BOPE não foi preparado para enfrentar os desafios da segurança pública. Foi concebido e adestrado para ser máquina de guerra. Não foi treinado para lidar com cidadãos e controlar infratores, mas para invadir territórios inimigos. Tropas similares servem-se de profissionais maduros. O BOPE acelerava meninos de 20 e poucos anos até a velocidade de cruzeiro do combate bélico. Vamos cobrar a loucura da guerra a quem foi treinado para matar? Nos exercícios diários, os soldados do BOPE aprendem a entoar seus cantos de guerra: "Homem de preto, qual é sua missão? É invadir favela e deixar corpo no chão." "Você sabe quem eu sou? Sou o maldito cão de guerra. Sou treinado para matar. Mesmo que custe minha vida, a missão será cumprida, seja ela onde for — espalhando a violência, a morte e o terror." "Sou aquele combatente, que tem o rosto mascarado; uma tarja negra e amarela, 4
Slide 5: que ostento em meus braços me faz ser incomum: um mensageiro da morte. Posso provar que sou um forte, isso se você viver. Eu sou... herói da nação." "Alegria, alegria, sinto no meu coração, pois já raiou um novo dia, já vou cumprir minha missão. Vou me infiltrar numa favela com meu fuzil na mão, vou combater o inimigo, provocar destruição." Se perguntas de onde venho e qual é minha missão: trago a morte e o desespero, e a total destruição." "Sangue frio em minhas veias, congelou meu coração, nós não temos sentimentos, nem tampouco compaixão, nós amamos os cursados e odiamos pés-de-cão.* "Comandos, comandos, e o que mais vocês são? Somos apenas * Cursados são os membros do BOPE; pés-de-cão são os policiais militares convencionais. 5
Slide 6: malditos cães de guerra, somos apenas selvagens cães de guerra." O BOPE é a principal referência deste livro — diretamente na primeira parte, e indiretamente, na segunda. Mas a polícia não se resume ao Batalhão de Operações Policiais Especiais. E os dramas cotidianos da violência não envolvem apenas a elite da tropa. Todos os dias, no estado do Rio de Janeiro, um grande número de policiais arrisca a vida no cumprimento de seu dever constitucional, com dignidade e coragem. Eles recebem salários desproporcionais às ameaças que enfrentam e à importância de sua função. Muitos sofrem danos físicos e mentais. As baixas fatais contam-se às centenas. Trabalham freqüentemente, em condições precárias e incompatíveis com a complexidade de sua missão, tanto preventiva, quanto investigativa e repressiva. Além disso, têm visto sua imagem pública degradar. Casos sucessivos de corrupção e brutalidade feriram de morte, no Rio, a confiança da sociedade em suas polícias, as quais, por sua vez, nem sempre souberam compreender a natureza de seu papel, numa república como a brasileira, regida pelo Estado Democrático de Direito. Este livro foi escrito com o propósito de enriquecer o processo de reflexão dos policiais e da opinião pública. Seu objetivo não é depreciar os profissionais da segurança, mas valorizá-los; não é atingir as instituições, mas promover seu aperfeiçoamento. Não há democracia sem polícia. Se desejamos construir uma sociedade justa e democrática não podemos deixar as polícias à margem e à deriva — quando falamos de polícias, estamos nos referindo a um universo de cerca de 45 mil profissionais, no Rio, e 550 mil, no Brasil. Os três autores sonhamos com o dia em que poderemos celebrar, no Rio de Janeiro, a reconciliação entre a sociedade e as instituições policiais, entre os membros de cada comunidade e os policiais. Para que esse 6
Slide 7: momento se realize, é preciso, no entanto, como ensinou Nelson Mandela, olhar nos olhos a verdade e reconhecê-la, sem meias palavras e subterfúgios, sem hipocrisia e retórica política. Nua e crua. Mesmo que seja dolorosa e disforme. Mesmo que a encontremos apenas pelas mediações da ficção. "Verdade e reconciliação", ele dizia, quando derrotou o apartheid. Só se alcança a reconciliação, atravessando-se o duro momento da verdade. A psicanálise também demonstra que o luto é uma etapa necessária à superação do sofrimento. O luto supõe o reconhecimento das perdas. Elite da Tropa é dedicado aos que trabalham, nas polícias e fora delas, para que a reconciliação seja um dia possível. Os relatos que compõem este livro são ficcionais, no sentido de que todos os cenários, fatos e personagens foram alterados, recombinados e tiveram seus nomes trocados. Se, por acaso, nossa imaginação se equiparar ao que efetivamente acontece, talvez isso decorra do fato de termos escrito este livro a partir das nossas experiências, e de termos vivido, cada um à sua maneira, a realidade da segurança pública do Rio de Janeiro. Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel 7
Slide 8: Diário da Guerra 8
Slide 9: Tiro Amigo A notícia sobre o Amâncio me pegou de surpresa. Talvez seja uma bobagem dizer isso. Claro que foi uma surpresa. Quem é que poderia estar preparado para saber, de uma hora para outra, que um de seus melhores amigos levou um tiro de fuzil nas costas e está entre a vida e a morte, num Centro de Tratamento Intensivo hospital militar? Mais que surpresa; foi quase um tiro que eu levei. Ele era policial também, ex-sargento do BOPE. Deu baixa quando nasceu o primeiro filho. A mulher pediu e ele achou que a preocupação dela fazia sentido. Engraçado. Quando a gente está no BOPE, praticamente não pensa no perigo. Mas o perigo é nosso companheiro permanente. Tanto que nunca deveria soar surpreendente a notícia de que algum colega foi ferido e está entre a vida e a morte em um CTI. Talvez o caso do Amâncio seja tão chocante justamente por ele já ter saído do BOPE e pelas razões que o haviam levado a sair. Era uma puta ironia que ele tivesse sobrevivido a tantas dezenas de incursões do BOPE nas favelas mais perigosas e acabasse alvejado daquele jeito, numa tarde de domingo, quando se preparava para voltar para casa, no final de um plantão de 24 horas, provavelmente louco para rever a mulher e o filho. Ele estava lotado na P2 do 2o. Batalhão. P2 é o setor responsável pelo serviço de inteligência. Segundo as leis, a P2 deveria voltar-se exclusivamente para os desvios de conduta dos colegas do próprio Batalhão. Mas não é nada disso o que acontece. Como a Polícia Civil, com raras exceções, não investiga porra nenhuma, é a P2 que faz campana* na entrada das favelas, grampeia os * No vocabulário policial, fazer campana significa vigiar, espreitar sem ser visto. (N. dos A.) 9
Slide 10: telefones dos traficantes e segue os suspeitos pela cidade. Por isso, os policiais lotados nas P2 andam em carros civis, com chapa fria. Há várias vantagens em ser policial. Uma delas é conhecer todo mundo no hospital militar. Na guerra urbana, há sempre o que fazer por lá. A gente passa levando gente, visitando, telefonando para saber notícias. Portanto, você pode entender por que não foi difícil entrar no CTI, contrariando prescrições médicas. Sentei ao lado do Amâncio, todo plugado, e segurei sua mão. Ele abriu os olhos, ensaiou um meio sorriso, fechou os olhos e sussurrou: "Não foi nas costas porra nenhuma. Foi na barriga. Tiro na barriga." Senti um tremor que me atravessa o corpo quando estou prestes a explodir. Falando assim, dou até a impressão de que sou uma arma. Quem explode é granada. Mas tem situações em que eu me sinto uma arma. Mais especificamente, uma granada. Nesse caso, a metáfora é bem apropriada. Amando apertou minha mão e brincou: "Lembra da granada?" "Claro, porra, quem é que poderia esquecer?", eu disse. "Ávida de toda a turma esteve em sua mão. Literalmente." UMA CLAREIRA NA SERRA DO MAR, INVERNO, TRÊS DA MANHÃ, ALGUNS ANOS ANTES Para você não perder o fio da meada, é importante conhecer a história da granada. Mas para isso, é preciso que a gente deixe o hospital, um momento, e volte no tempo, até as provas de ingresso no BOPE. Depois de cavalgar 100 quilômetros, sem arreio e sem descanso, mortos de fome e sede, completamente devastados pelo esgotamento com as coxas e a bunda em carne viva, nós tínhamos a opção de sentar ou não na bacia com salmoura. A experiência mostrou que valia a pena sentar, mesmo ao preço de uma dor lancinante. Alguns desmaiavam de dor. Ainda assim, era melhor. Quem se poupava, no dia seguinte não conseguia nem se mexer: as feridas inflamadas, cobertas de pus; a coxa, o saco e a bunda inchados. Resultado: imobilizados, eram reprovados. E o pior era o ritual de 10
Slide 11: humilhação do desligamento: tinham de cavar a sepultura e simular a própria morte, deitando-se no fundo da cova. Vamos saltar a salmoura, porque depois é que vem o melhor — ou o pior, depende do ponto de vista. Enquanto alguns cavalos morrem de fadiga — não estou exagerando, morrem mesmo —, a comida é servida. Mas se você está pensando em um farto e saboroso bandejão, engana-se. A comida é jogada sobre uma lona, estendida no chão — lembre-se de que estamos em pleno campo e que é noite de inverno. Temos dois minutos para comer. Eu disse "dois minutos". Com as mãos. Coma o que puder, como puder — é o lema. Vale tudo. Nessas horas é que a gente vê que, reduzido ao nosso mínimo denominador comum fisiológico, somos todos, os humanos, entre nós parecidos, e semelhantes aos mamíferos inferiores. A briga pela sobrevivência é um troço feio de ver e pior ainda de sentir. Mas depois da tempestade vem a bonança, assim como depois da experiência física extrema, vem a contemplação, a abstração e o adestramento intelectual. Agora, procure imaginar o seguinte: um bando de marmanjos sujos, enlameados, fedendo a cavalo, com o saco esfolado, a bunda e as coxas queimando, exauridos até a última gota de energia, ainda cheios de fome e sede, com as unhas negras repletas de vestígios do jantar, as mãos ensebadas, obrigados a assistir a uma longa aula teórica e entediante sobre táticas antiguerrilha, em que não há referência a ações, apenas aos conceitos fundamentais. Adicione o seguinte ingrediente: a aula era lida, em tom propositalmente hipnótico. Éramos um bando de enfermos, sonâmbulos, espectros. Arregalávamos os olhos, sabendo que um cochilo custaria muito caro. Amâncio não resistiu e bateu a cabeça, embriagado de sono. O professor se ergueu devagar. Dirigiu-se até ele. Mandou que ficasse de cócoras sobre um tronco, tirou do cinto uma granada, puxou o pino e colocou-a na mão direita do aluno relapso. Um deslize seria o fim daquela simpática e brava matilha. Dali em diante, ninguém tirou os olhos do 11
Slide 12: Amâncio — todos vigiando a vigília do colega. O pavor nos despertou como não faria o melhor café quente e amargo. DE VOLTA AO CTI "Nós estávamos na sua mão", repeti. Amâncio mantinha o meio sorriso armado, como uma tenda no acampamento da tropa. O combate agora era dele, só dele. Ele estava só, com a granada amarrada à mão. Apertei sua mão para ele saber que eu continuava a seu lado. "Sabe o que aconteceu? O que realmente aconteceu?", perguntou com um fio de voz. Eu lhe disse que era melhor não falar, ele precisaria de toda energia disponível para resistir àquela batalha e vencê-la. Não quis fazer drama e falar assim, com imagens de guerra pela vida e essas coisas que ficam bonitas num livro, mas fazem um mal danado quando ditas ao pé do leito de morte de quem sabe que não há batalha porra nenhuma; o que há é um massacre sem comiseração. Mas ele insistiu. Foi assim que fiquei sabendo o que se passou na tarde daquele domingo. SANTA TERESA, DOMINGO, QUATRO DA TARDE Este é o relato fiel do que Amâncio contou: "Eu e meu parceiro voltávamos para o 2o. Batalhão no Gol descaracterizado que a gente usava em algumas missões. Estávamos na rua Almirante Alexandrino, em Santa Teresa, porque tínhamos seguido um cara que fazia a ligação entre os traficantes do morro Santa Marta e os vagabundos do Tabajara. Mas perdemos o cara e, como já tinham passado as 24 horas de nosso plantão, resolvemos voltar. Ali em cima, perto da favela do Balé, tem uma bifurcação. Queríamos descer para o Cosme Velho e Laranjeiras, mas o meu parceiro, que dirigia o carro, pegou o lado errado. Quando a gente viu, estava num declive muito íngreme que nos levava direto para o miolo da favela. 12
Slide 13: Não dava para recuar, nem para frear, abandonar o carro e correr a pé, de volta. A gente praticamente deslizava para o meio da favela. Nosso carro era uma bandeira só. Porra, dois homens, num Gol daqueles, ou a gente era bandido ou polícia. Nos dois casos iríamos tomar tiro. O carro seguiu devagar, ladeira abaixo, e já dava pra ver que os traficantes estavam reunidos bem no meio da rua. Estavam distribuindo as cargas e as armas. Tive a intuição de que a gente só tinha uma saída, acelerar. "Gritei: acelera, pisa até o fundo e abaixa a cabeça. Parecia um strike no jogo de boliche. O carro disparou ladeira abaixo e nós pegamos uns três ou quatro. Foi uma puta porrada; voou moleque pra todo lado; o carro capotou algumas vezes. Consegui escapar, no meio uma chuva de bala. Corri atirando e buscando uma cobertura. Não o que aconteceu com o Amílcar. Não pude mais olhar pra trás. Só fiz correr pelos becos na direção oposta à da entrada. Você deve se lembrar da favela. Ela fica num vale, entre a ladeira que desce de Santa Teresa e a escadaria que sobe, na outra ponta. Fugi pra escadaria. Eles não me seguiram. Devem ter ficado cuidando dos feridos. Vai ver que o chefe estava entre os atropelados. Corri com todas as minhas forças e subi a escadaria pulando os degraus. Quando estava mais ou menos na metade, apareceram uns colegas do 1o. Batalhão no alto da escadaria. Fiz um sinal e me senti salvo pelo gongo. "De repente me apontam o fuzil lá de cima e eu só sinto aquele coice na barriga. Ficou tudo preto. Acordei aqui, depois da cirurgia. I oi tiro amigo, meu irmão. Tiro amigo. Agora, eu te pergunto: por quê? Está certo que sou negro e que estava armado e sem uniforme, mas, porra, para quê atirar antes de identificar o camarada?" Amâncio não passou daquele dia. No enterro, na salva de tiros tive vontade de mandar pararem aquela farsa, aquela palhaçada. Mas pensei na viúva, no filho, ponderei um pouco e achei que o melhor mesmo seria colocar uma pedra no caso. Melhor ter um pai herói, morto pelos inimigos, do que vítima de um mal-entendido. Digo malentendido para manter um certo nível de sobriedade, em homenagem à 13
Slide 14: memória de um amigo querido, um homem de valor. O que senti mesmo foi vontade de chorar e de vomitar as verdades sobre essa merda toda. Mil e uma Noites O Batalhão de Operações Policiais Especiais, BOPE para os íntimos, chega à praça de guerra. Estamos com gana de invadir favela, um puta tesão. Desculpe falar assim, mas é para contar verdade ou não é? Você vai logo descobrir que sou um cara bem formado, com uma educação que pouca gente tem no Brasil. Talvez você até se espante quando souber que estudo na PUC, falo inglês e li Foucault. Mas isso fica para depois. Vou tomar a liberdade de falar com toda franqueza, e, você sabe, quando a gente é sincero, solta o verbo e nem sempre as palavras são as mais sóbrias e elegantes. Se você está esperando um depoimento bem educadinho, pode esquecer. Melhor fechar o livro agora mesmo. Desculpe, mas me irrito com as pessoas que querem ao mesmo tempo a verdade um discurso de cavalheiro. A verdade tem de ser convocada a comparecer, e ela só baixa no cavalo desbocado, que se recusa a filtrar a voz que vem do coração. Por isso, a verdade está mais para discurso de cavaleiro e de cavalo, do que para os salamaleques da corte. Esse depoimento é como se fosse minha casa. Ele vai ser belo, sublime e horrendo, como eu sou, como tem sido a minha vida. E como é a sua vida também, com toda certeza. Entre, fique à vontade. A casa é sua. No início você vai estranhar um pouco algumas coisas, mas depois vai se acostumar. Eu também estranhei no começo. Quando entrei pra polícia, estranhei muita coisa. Mas logo me acostumei. A gente se acostuma. Portanto, meu caro amigo, caríssima amiga — posso chamá-los assim? —, apertem o cinto e vamos em frente. 14
Slide 15: A primeira história acontece na favela do Jacaré. Foi mais ou menos assim. A gente está chegando ao Jacaré cheio de amor pra dar — se é que você me entende —, com uma puta disposição. Mal descemos da viatura, dois viciados dão de cara com a gente — porque a viatura parou justamente depois da quebrada da ladeira principal. Eu era tenente, na ocasião, e comandava a patrulha. Eles não tiveram nem tempo de disfarçar ou tentar uma fuga. Peguei o mais alto pelo braço e dei umas sacudidas, para o filho da puta acordar e perceber que tinha caído na ratoeira. Estava desarmado e trazia uns papelotes de cocaína no bolso. — Quer dizer que o veadinho veio curtir um branco, não é? Vai ver a boneca também curte fazer passeata vestidinho de branco, pedindo paz, hein? Fala aí, mané. — Não, senhor. — Não senhor o quê, porra? Não comprou pó ou não gosta de passeata pela paz? — Eu não vendo não, senhor. Vim comprar só mesmo pro meu consumo pessoal... — Ah! É pro consumo pessoal, então tá. Arranquei um extintor de uma de nossas viaturas e descarreguei nas narinas do sujeito. Parecia um pastelão: — Quer pó? Quer do branco? Então toma pó, animal... Bem, nesse ponto devo admitir que me subiu um calor e não me contive. Mas dei só umas porradas, porque tive uma idéia luminosa. Mandei o Rocha parar de bater no outro viciado. — Venham cá, os dois. De pé, olhando pra mim. Tá, aqui, meu celular. Vocês têm três opções: ligar para o papai e pedir pra ele vir buscar vocês, é a primeira; comer uma dúzia de ovos cozidos, cada um, em beber água, é a segunda; entrar na porrada é a terceira. E aí? Os dois escolheram os ovos. Eu sabia. A última coisa que viciado quer é que o pai descubra. O que eles não sabiam é que os ovos estavam na viatura desde a véspera, por causa de uma ocupação que o BOPE estava 15
Slide 16: fazendo. Naquele calorzinho carioca gostoso, de janeiro, os ovos certamente correspondiam a uma boa surra. Deus escreve certo por linhas tortas. O livre-arbítrio foi respeitado. Mesmo assim, cumpriu-se o desígnio divino. Cuidado, não pense que sou evangélico. Isso é puro preconceito seu. Nem todo policial ou bandido que fala em Deus é evangélico. Está vendo só? Não é só o policial que é preconceituoso, afinal de contas. Por falar em preconceito, assinale aí em sua agenda que sou negro. Negro na acepção politicamente correta da palavra, porque, do ponto de vista meramente físico, sou mulato, moreno, na verdade. Mas faço questão de deixar claro — sem trocadilho — que sou negro e prefiro que você pense em mim como negro, ok? O diabo é que só havia uma dúzia de ovos, o que me obrigou a improvisar. Mas eu até que sou bem criativo, modéstia à parte. Tanto que a solução foi engenhosa. Enquanto o viciado baixinho engolia os ovos, para os aplausos vibrantes de meus comandados, o outro se enterrava até o pescoço na caçamba de lixo. Confessa... não foi uma sentença interessante? Se, nesse momento, você ficou horrorizado e evocou os direitos humanos, acho melhor fechar logo esse livro, cara, porque está arriscado a ter uma síncope daqui a pouco. Bem, na verdade, não quero que você feche o livro, nem gostaria que você ficasse com má impressão de mim. Não leve tão a sério o que eu digo. Às vezes, falo o que me vem à cabeça e acabo passando uma imagem falsa de mim mesmo, como se fosse um desalmado, um perverso, ou coisa assim. Mas não é nada disso. Quando você me conhecer melhor, vai ver que não é nada disso. Só fiz questão de contar essa história porque o final dela é muito engraçado. Aconteceu assim: eu descia a favela no bagaço; tinha sido uma noite daquelas. Mais de três horas caçando vagabundo, sem resultado. Dois soldados da minha unidade já esperavam na viatura. De longe dava para ouvir a gargalhada deles. Quando me aproximei, apontaram a lanterna pra caçamba de lixo, de onde despontava a cabeça do viciado, enterrado naquela merda até o pescoço. — O que é que você está fazendo aí, cara? — perguntei. — O senhor mandou eu ficar aqui. 16
Slide 17: — Pode sair, porra. Juro por Deus que tinha esquecido. Se não fosse pelo barulho dos ratos, os rapazes não teriam visto. E se não tivessem visto, era capaz de ele estar lá até hoje. Tarja Preta e Fitinha Azul Não sou comédia, quero que você saiba. O caso do Tuiuti é interessante. Quer dizer, é útil para você me conhecer um pouco melhor. E conhecer minha turma do BOPE. A história anterior pode induzir a erro. Sobretudo porque, hoje em dia, a gente fala em polícia todo mundo pensa logo em zorra, bateção de cabeça e corrupção. O episódio da lixeira acaba soando meio ambíguo e você pode ter tido com a impressão de que, se os pais dos viciados aparecessem, eu e meus colegas teríamos cobrado propina para liberá-los. Vou deixar claro desde já: isso não existe no BOPE e nunca existiu. Na verdade, houve um caso ou outro, mas os próprios companheiros deram um jeito de expulsar os responsáveis, antes que nossa honra fosse conspurcada. Porrada em vagabundo, execução de marginal, esse departamento é com a gente mesmo. Mas não tem negócio, não. Conosco não existe essa coisa de arrego. É engraçado — engraçado e triste ao mesmo tempo — que até a linguagem dos bandidos e dos policiais corruptos vai ficando cada vez mais parecida. No final, a gente vai ciliar mais de perto, o dinheiro é um só, a motivação é a mesma e tudo acaba sendo um único embrulho: a polícia vende as armas para os traficantes, vai buscá-las no morro para o espetáculo das exibições políticas na mídia. No dia seguinte, devolve todas elas e ainda cobra uma taxa aos traficantes. Essas armas são usadas contra a própria polícia, mas essa cambada não está nem aí para as conseqüências. 17
Slide 18: No dia a dia, se o BOPE não age, a turma da boquinha dos batalhões negocia um percentual da venda do tóxico e faz arrecadação diária. De vez em quando, alguém rompe o acordo e o tiroteio come solto. Por isso mesmo, é importante que eu seja inteiramente transparente, para que você separe o joio do trigo. Com o BOPE não tem acerto, não tem negócio. E não é para me gabar não, mas nós somos a melhor tropa de guerra urbana do mundo, a mais técnica, a mais bem preparada, a mais forte. Não sou eu quem está dizendo; os israelenses vêm aqui, aprender com a gente; os americanos, também. Essa qualidade se deve a muitos fatores, um dos quais é o seguinte: em nenhum lugar do mundo se pode praticar todos os dias. Somos uns 150 homens, aproximadamente. Sempre que se quis aumentar esse número, deu merda. Não é fácil ingressar no BOPE. Isso eu posso garantir. Não é para qualquer um. Temos um puta orgulho do uniforme preto e do nosso símbolo: a faca cravada na caveira. Os marginais tremem diante de nós. Não vou iludir você: com os marginais, não tem apelação. A noite, por exemplo, não fazemos prisioneiros. Nas incursões noturnas, se toparmos com vagabundo, ele vai pra vala. Sei que essa política não foi correta. Agora, não tem mais jeito. A gente mata ou morre. Antes da implantação dessa política, há muitos anos, o marginal se rendia, quando se via inferiorizado. A ordem de atirar para matar, não admitindo rendição de bandido, acabou provocando um efeito paradoxal: aumentou a resistência deles e a violência contra a polícia. Claro, o sujeito sabe que não adianta se render, então luta até a morte. Pelo menos adia a morte e leva alguém junto. Com isso, cresceu muito o número dos autos de resistência seguidos de morte, que são os registros das mortes de civis em confrontos com a polícia. Por outro lado, multiplicaram-se os assassinatos cometidos contra policiais. Por vingança. Essa espécie de vingança ainda mais doentia, dirigida a toda uma corporação. Espelho da vingança que nós mesmos praticávamos, às vezes contra uma favela inteira. O sangue é um veneno. Quanto mais se derrama, mais fertiliza o ódio. E a roda não pára de girar. No final, todos pagamos a conta, a começar pela sociedade. Foi uma insanidade, aquela política. E agora? Os herdeiros da loucura somos nós. O jeito é atirar 18
Slide 19: mais rápido para não morrer. Os políticos e os acadêmicos que discutam o sexo dos anjos. TUIUTI, AGOSTO, ÀS SETE DA MANHÃ . Esse caso ocorreu em um ano já distante. Descíamos do morro do Salseiro, na Tijuca, onde passamos uma noite pesada. Em frente ao antigo estádio do América, na Campos Sales, um carro estava parado no meio da rua, com a porta do motorista aberta, ao lado de um carro-forte. Uma senhora aflita fazia sinal. Paramos atrás do carro. Éramos cinco. Encontramos o corpo de uma mulher, debruçada sobre o volante, com um tiro de fuzil na cabeça. Você pode imaginar o quadro. Não vou lhe dar os detalhes chocantes. Dá para entender por que a tal senhora, mãe da vítima, se recusava a aceitar a morte e insistia na remoção do cadáver para atendimento médico, por mais que o óbito fosse evidente. Se lhe contasse como estava o console e o pára-brisa, você entenderia por que falo em óbito evidente. Deixamos com ela o cabo Ronaldo, para as providências, e partimos no encalço dos assassinos. Eles tinham assaltado o carro-forte e levado 6 milhões de reais. A moça, assustada com a correria à sua frente, tentou manter o carro imóvel, atendendo à ordem do bandido, mas tirou o pé da embreagem, por nervosismo, provocando o solavanco que assustou o marginal. Ele disparou um tiro seco e preciso. Para você ter idéia do estrago, um tiro de fuzil, no interior do corpo humano, danifica uma área correspondente a cinqüenta vezes o diâmetro do projétil. Ronaldo respeitou o auto-engano da mãe. O desespero materno se manifesta por linguagens estranhas. Sentou praça a seu lado como sentinela de sua dor e foi, aos poucos, lançando pontes entre a loucura e a realidade. A mãe da morta atravessou o abismo, lentamente. Até hoje, todo fim de ano, ela se lembra da 19
Slide 20: gente, telefona, manda cartões. A gratidão que brota em situações extremas não se apaga. Deixamos Ronaldo e disparamos. A 1 quilômetro dali, na praça da Bandeira, havia um ajuntamento. Abrimos passagem no bolo de gente. Um sargento gordo, no chão, olhos esbugalhados, estava morto numa poça de sangue. Tiro de fuzil no pescoço. Depois de uma noite tensa, aquilo foi demais para nós. O sangue subiu à cabeça, e dois dos nossos homens gritaram um bocado com o povo que se amontoava para espiar o cadáver. "Vocês reclamam da polícia, falam da gente... esse homem era um pai de família, a mulher dele está esperando em casa, os filhos também, ele estava trabalhando", disse o soldado Castro. O cabo Álvaro continuou: "Vocês querem que a gente prenda os filhos da puta que fizeram isso? Pra eles voltarem pra rua, rindo da nossa cara? Os filhos da puta mataram uma menina, roubaram um carro forte, assassinaram um trabalhador. O que é que vocês dizem agora? Algum filho da puta vai falar em direitos humanos? E os direitos desse homem que sangrou até morrer, feito um porco no curtume?" Castro recomeçou: "Vocês querem o sangue dos assassinos? Querem que a gente vá à caça? E depois? E depois, porra? Vocês vão depor a nosso favor, na frente do juiz? Vão arrebentar as grades da jaula em que nós estaremos apodrecendo?" Duvido que alguém tenha ouvido aqueles gritos, no meio daquela confusão toda. A morte do guarda de trânsito deu um nó no tráfego e tive de deixar outro de nossos homens para cuidar da remoção do cadáver e pôr ordem no caos. A cidade tinha de continuar sua jornada para dentro da fumaça, do mormaço estilhaçado na lataria dos ônibus, do cheiro de sangue e gasolina. Mais um dia igual aos outros. Afinal, no estado do Rio de Janeiro, 18 pessoas são assassinadas diariamente. E isso se repete feito um mantra há mais de vinte anos. Aprendemos a conviver com essa maldição. Sobretudo nós, policiais, que estamos mais expostos aos riscos e à miséria em que os bandidos germinam como plantas selvagens. Somos as feras da selva. Feras profissionais. 20
Slide 21: Voltamos à viatura. Havia duas possibilidades: os marginais poderiam ter ido em frente, à direita, seguindo para o Rio Comprido, pela avenida Paulo de Frontin, ou retornado à esquerda, em direção à estrada de ferro, São Cristóvão e Maracanã. Decidi tomar a esquerda. Quando passávamos debaixo do Tuiuti, pedestres nos fizeram sinal, indicando a favela. Acho que o próprio tráfico do Tuiuti não gostou da visita incômoda de assaltantes de carro-forte, que subiram o morro com homicídios qualificados nas costas para dividir responsabilidades e riscos. Embicamos ladeira acima. Não foi difícil localizar a casa em que se esconderam. Os moradores colaboravam abertamente. Sinal de que os bandidos não eram dali. Eles não ousariam desafiar a lei do silêncio que o tráfico impõe. Éramos quatro. Posicionamos nossas armas, avisamos que a casa estava cercada e mandamos os bandidos sair, um a um, com as mãos na nuca. Nada. Fuzilamos a casa, dispostos a derrubá-la. Foram uns quatrocentos tiros. Ficou de pé, vazada feito paliteiro. Um vagabundo avisou que ia sair. Deu os primeiros passos para fora. Delgado fez a mira e apertou o gatilho. O cartucho estava vazio. Ele ainda teve tempo de recarregar, enquanto o bandido aguardava, de pé, com as mãos na nuca, trêmulo e pálido. Agora, sim, deflagrou o tiro no peito do vagabundo. Nenhum sinal de vida no interior da casa. Era hora de invadir. Encontramos dois corpos entre os escombros e um sobrevivente. O cara estava desfigurado, mas vivo. A cena ficaria por muito tempo conosco, revirando o estômago e assombrando o sono. Cada homem da tropa a digeriu como pôde. Dois de nós acabaram recebendo o apelido tarja-preta por causa disso — esse apelido é dado a quem toma esse tipo de remédio. Mesmo para quem vê a morte todo dia, não foi fácil encarar a vida sob aquela forma. O infeliz perdera o queixo. Não tente imaginar. Você não conseguiria. Aliás, melhor mesmo que não consiga. "Ela está morta; ela está morta" — um senhor negro trazia uma menina no colo, banhada cm sangue. Vinha dos fundos da casa. "Os bandidos mataram minha neta" — e nos mostrava a criança. "Foram os tiros dos bandidos", repetia. O soldado Délio tirou a menina dos braços do avô e 21
Slide 22: correu para a viatura. "Vamos salvar a criança, vamos salvar a criança." Corri com ele, segurei-o pelo braço e lhe disse, olho no olho: "Délio, a criança morreu. Ouviu? Ela está morta." Ele permaneceu imóvel, olhando em frente, a criança no colo. Depois de alguns minutos, veio até mim: "Capitão, fomos nós que matamos a menina. Ela estava nos fundos. Os marginais estavam de costas pra ela, atirando na gente. Era impossível atingir a menina. Nós atiramos de frente, em direção à casa. O tiro foi nosso." Olhei de novo para os olhos dele, bem no fundo: "Esquece isso." "Nós matamos a menina, tenente", ele insistiu. "Esquece, porra. Esquece. O avô dela está convencido de que foram os bandidos; então, foram os bandidos, porra. Esquece. Acabou." O vagabundo sem queixo morreu a caminho do hospital. No final da manhã, fui conferir as ocorrências no Instituto Médico Legal. Contei sete corpos, lado a lado, no galpão gelado. Eu me senti numa gruta sombria, estuário secreto dos rios que fluem no subterrâneo da cidade — ela continua a fazer barulho, alheia ao subsolo. Délio era só um dente na engrenagem; eu era outro. Nós mal conhecíamos o funcionamento dos aparelhos que estavam em movimento. Além disso, àquela hora, tínhamos sido vencidos pela mais profunda exaustão. Vidal ficou no Tuiuti, guardando as sacolas com dinheiro. As aves de rapina da Polícia Civil têm excelente olfato. Chegaram em equipe e decididos, mandando a PM se afastar. Tomariam conta do caso. Vidal subiu nas sacolas e girou 360 graus, apontando o fuzil em todas as direções: "Quem puser a mão na grana, leva chumbo. Não estou brincando, não. Eu atiro mesmo. Vou atirar. Estou avisando. Vou atirar." Os coleguinhas preferiram não brincar com fogo. Depois de 24 horas no ar e das guerras em que nos havíamos metido ao longo daquela jornada, Vidal seria bem capaz de atirar mesmo. A relação dos policiais do BOPE com o comandante varia muito. Quando o cara passou por tudo o que nós passamos, no treinamento e no exame de seleção, e quando tem colhão para defender a nossa honra diante das sacanagens da política, tudo bem. Tem a nossa lealdade. Mas quando o 22
Slide 23: sujeito é um oportunista e sacrifica tudo para agradar o comandante geral da PM e o governador, aí fodeu. Me desculpe ser assim direto, mas fodeu. Foi o que aconteceu no último capítulo desse caso do Tuiuti. O comandante foi procurado pelo banco cujo dinheiro nós havíamos resgatado. A seguradora pagaria 5% aos policiais que se empenharam na recuperação dos 6 milhões. Ou seja, 300 mil reais migrariam da conta biliardária da seguradora para minha poupança de meus modestos colegas de farda. Nenhuma fortuna, mas nada desprezível: dividida por cinco — ou oito, se quiséssemos homenagear todo o pessoal que compõe a unidade sob meu comando, independentemente de ter ou não participado daquela operação (aliás, imprevista — tivesse sido planejada, os oito teriam estado presentes) a grana engordaria em 60 mil ou em 37 mil e 500 reais as nossas contas. O comandante resolveu enviar uma lista, digamos, mais generosa, fazendo caridade com o dinheiro alheio: incluiu-se a si próprio, mais uns cinco ou seis amiguinhos do peito. Resolvemos melar a festa. Conversamos com a seguradora, explicamos as dificuldades sugerimos uma solução salomônica: que a doação fosse feita em equipamentos para a unidade, sobretudo em coletes à prova de bala. Os nossos eram velhos, pesados e frágeis. Acabou sendo muito útil. E a indignação do comandante funcionou como um prêmio suplementar. Lavamos a alma. Por falar em alma, chegou o dia das condecorações. Muitos meses já haviam passado, mas a ferida continuava aberta. Délio não se conformava com a morte da menina e o espectro do marginal desfigurado ainda assombrava alguns de nós. Perdemos sono e sossego, por um longo tempo. O ritual de condecoração faria com que revivêssemos a experiência, porque os registros da ocorrência, com todos os detalhes, seriam lidos na cerimônia. Revolver esse passado era a última coisa que poderíamos desejar. Se nos quisessem premiar, que nos deixassem em paz, nos esquecessem e nos permitissem esquecer. A memória, às vezes, parece um cofre em que a gente é enterrado vivo. Não houve jeito. Prenderam no nosso peito aquele fato, envolto numa fitinha azul. 23
Slide 24: Emergência Nem todo mundo que chega ferido à linha de montagem do hospital da PM sai para receber as honrarias fúnebres. Alguns se salvam. Às vezes, salva-se até mesmo quem se acha muito vivo. Ainda que a esperteza lhe custe caro. Foi o que aconteceu com o tenente Ricardo, um rapaz, que gostava de valorizar o próprio passe. Antes do relato, algumas notas técnicas. Elas teriam sido muito úteis ao tenente. Os médicos que se especializaram no atendimento às vítimas de armas de fogo, no Rio de Janeiro, tornaram-se referências internacionais — como aconteceu com o BOPE, modéstia à parte. Eles têm contado com a colaboração da polícia e dos bandidos, cuja produtividade mórbida tem-se aperfeiçoado ao longo dos anos. Não tem faltado osso estilhaçado, músculo destroçado, órgão rompido, membro mutilado em escala industrial. Da plástica à ortopedia, os médicos brasileiros estão entre os melhores do mundo. Quando se trata de medicina de guerra, especializada em lesões por arma de fogo, como já disse, não tem pra ninguém. No início, nossos especialistas visitavam cirurgiões americanos que atuaram no Vietnã. Agora, são os gringos que nos procuram. Uma lição que aprendemos com eles salvou várias vidas: quando o projétil é de grosso calibre, melhor sacrificar tecidos e órgãos, até o limite do possível, do que tentar preservá-los. A experiência demonstrou que a 24
Slide 25: preservação acaba sendo contraproducente. Em resumo: se o tiro é de fuzil, abre-se a vítima de cima a baixo e só não se remove o que for vital. Por isso, abriram o sargento Romero de alto a baixo, quando levou um tiro de fuzil lateral na bunda, que entrou numa nádega e saiu pela outra. Aparentemente, eram só dois furos, um de entrada, outro de saída, com uma trajetória reta intramuscular. Nada que o tempo não cicatrizasse. Tanto que o primeiro atendimento, aos cuidados de um profissional não especializado, não envolveu nem uma sutura. Só dois curativos e um antiinflamatório. Mal sentou na viatura que o levaria para casa, Romero esvaiu-se em sangue. A hemorragia era drenada pelo ânus. Entrou em choque e quase morreu. Foi reconduzido às pressas à sala de emergência. Sofreu, enfim, a cirurgia que lhe extraiu não sei quantos metros de intestino e lhe salvou a vida. Pena que o tenente Ricardo não soubesse disso quando chegou à sala de emergência, posando de durão. Ele levara um tiro amigo de uma pistola, na viatura. Não foi o único, aliás. Muita gente teve a mesma sorte — ou melhor, o mesmo azar. Alguns não sobreviveram. Ricardo vinha sentado na frente, e o colega, desatento, sentado no banco de trás, não tomou as medidas de segurança necessárias. A arma sem protetor, inadvertidamente, disparou, atingindo o ombro do tenente, por trás. Para driblar a corregedoria e impressionar as enfermeiras, Ricardo entrou avisando: "Não foi nada. Uma bobagem. Um bando de traficantes me armou uma cilada, mas dei um jeito neles. Foi só um tiro de fuzil no ombro." Antes que contasse a próxima vantagem, deram-lhe um sossega-leão na veia, entubaram-no e chamaram os cirurgiões especialistas, que o abriram do umbigo ao i pescoço, adotando o procedimento padrão. O tenente sobreviveu, mas aprendeu que nem sempre vale a pena bancar o machão, exagerando o calibre do heroísmo. 25
Slide 26: Golfinhos de Miami Minha mulher, que tem mania de psicanálise, costuma dizer que quando a gente passa determinada impressão é porque ela expressa pelo menos um lado nosso. Se minha mulher tem razão, o que você percebeu não está inteiramente errado. Mas, de todo modo, parcial. Em português claro: eu não sou inteiramente isso que você está pensando. Ainda que não seja totalmente o que eu mesmo gostaria de ser. Como prefiro o português claro às frescuras psicológicas, vou direto ao ponto. Eu digo que faço e aconteço, afirmo que sou direto, chamo de frescuras a visão crítica de minha esposa, mas acabo dando mil voltas, mil e uma piruetas em torno do assunto que quero comentar. É que o tema é espinhoso, é cabeludo. O assunto é violência. Quer dizer, a violência que a gente comete. Alguns chamam tortura. Eu não gosto da palavra, porque ela carrega uma conotação diabólica. Acho que há casos e casos, e que nem toda tortura é tortura, na acepção mais comum do conceito. Está entendendo? Não? Pois é, a coisa é bem complicada. Eu próprio também não sei se compreendo direito. O que quero dizer é que não me envergonho de não me envergonhar de ter dado muita porrada em vagabundo. Primeiro, porque só bati em vagabundo, só matei vagabundo. Isso eu posso afirmar com toda certeza. Sinto minha alma limpa e tenho a consciência leve, porque só executei bandido. E, para mim, bandido é bandido, seja ele moleque ou homem feito. 26
Slide 27: Vagabundo é vagabundo. E tem mais — essa não é uma regra do BOPE, é minha mesmo, mas eu sigo à risca: não espanco nem mato mulher. A menos que seja em legítima defesa. Mas aí não tem jeito, é matar ou morrer. Fora disso, respeito mulher. Até porque não é preciso fazer diferente. Mulher se assusta logo e entrega até a mãe. Nem é preciso bater. Homem, não. Tem cara que é tão safado que agüenta firme uma noite de porrada e não entrega. Talvez porque saiba que a vingança dos comparsas seria ainda pior do que o castigo do BOPE. Bem, essa questão toda é muito enrolada e eu, por mim, saltaria essa parte, mas me sinto obrigado a contar algumas coisas, já que o acordo foi não esconder nada. Depois você avalia, faz seu próprio balanço e me diz se eu sou um covarde ou se fiz a coisa certa — ou, pelo menos, o que você teria feito em meu lugar. Vai me dizer que não obrigaria um seqüestrador a falar, mesmo que tivesse de usar a força? Se sua filha estivesse seqüestrada, correndo risco de vida, nas mãos de uns doentes, vai me dizer que você não espancaria o filho da puta até a morte pra tirar dele a informação? Pois é, a única diferença é que você não saberia como bater direito e acabaria desperdiçando energia, acertando os pontos menos sensíveis e empregando mais ódio e desespero do que técnica. Nós somos pura técnica. Hoje, olhando para trás, me sinto meio inibido em narrar fatos, mas no calor dos acontecimentos, confesso que não tinha nenhum problema com isso. A verdade é a seguinte: eu e meus colegas nos divertimos bastante. Portanto, não é bem verdade essa história de "pura técnica". Somos técnica, diversão e arte... como diria o Arnaldo Antunes. Lembro-me, por exemplo, de um marginal que pescamos meio por acaso, logo que chegamos ao morro da Providência, num mês de março. Nossa equipe estava completa. Éramos oito. Primeiro, demos uma coça regulamentar para que ele desse as peças — esse é o nome que os traficantes cariocas dão às armas e o verbo "dar", nesse contexto, a gente emprega com o sentido de entregar. Ele portava um revolver fuleiro e jurava que só tinha aquilo mesmo e que era só assaltante, não estava metido com tráfico de drogas. Nesse momento, minorada dele passou, viu o tumulto, se 27
Slide 28: aproximou e o chamou pelo nome. Foi quando as fichas caíram. A gente se deu conta de que o cara era simplesmente o dono do lugar. Já pensou que sorte? De repente, sem mais nem menos, o dono, o gerentão cai na nossa rede. Era tudo o que a gente poderia pedir a papai do céu. Daí em diante, intensificamos o trabalho. O verbo é trabalhar. Quando o subordinado chama o comandante pelo rádio e pergunta, "chefe, posso trabalhar o meliante?", está pedindo autorização para fazê-lo cantar, ou seja, para fazê-lo contar o que sabe. Da mesma forma que o governador autoriza o secretário de segurança a autorizar o comandante da PM, a autorizar o policial, quando lhe diz: "Faça o que for necessário para resolver o problema". O governador dorme o sono dos justos; o secretário descansa em berço esplêndido; o comandante repousa como um cristão; e o soldado, lá ponta, suja as mãos de sangue. Se der merda, o bagulho estoura no elo mais fraco, é claro. Quem paga o pato é o soldado. Quem vai a juízo é o soldado. Quem freqüenta as listas das entidades internacionais de direitos humanos é o soldado. O governador é ambíguo para descansar em paz; o secretário é sutil para preservar a consciência; o comandante cultiva os eufemismos e opta pelo vocabulário enviesado para proteger a honra e o emprego. Sobra para o soldado, que bota pra foder por dever de ofício. É curioso: a ambigüidade só pode ser cultivada nos ambientes solenes do Palácio do Governo, onde a impostura e a violência são adocicadas pela coreografia elegante da política. Quando a arena é a favela, os rituais são outros, menos sofisticados. Na praça de guerra não há espaço nem tempo para a solenidade e as ambivalências. O que era doce fica amargo, azeda e cai de podre. A gente, que atua lá na ponta da cadeia de decisões, colhe o fruto podre e faz o que pode para digerir. Por isso, talvez seja mentira dizer que só há ambivalências nos salões da corte. Elas estão por toda a parte. E estão aqui entre nós. E dentro de nós, em mim e em você. Um modo de adaptar a ambigüidade ao terreno do combate é divertirse com a dor alheia. Desconfio das nossas risadas. Até hoje escuto aquelas gargalhadas que a gente dava e elas me soam um pouco estranhas. Não sei 28
Slide 29: mais com tanta certeza se a gente gostava daquilo e achava mesmo tanta graça. Mas a gente ria, ia fazer o quê? E procurava curtir as tarefas práticas com o máximo de criatividade. Eu, por exemplo, me orgulhava de inventar modalidades novas. Tinha noite de gala, com estréia e tudo. Um show que foi o maior barato eu denominei "Golfinhos de Miami". A estréia aconteceu justamente naquela noite. Aproveitamos a resistência do Juninho para testar a eficiência e a beleza do novo espetáculo. A idéia era amolecer aquela macheza toda com água. Água é um ótimo condutor de energia. A idéia foi um desenvolvimento mais ou menos natural das torturas tradicionais com saco plástico e água: sufocamento e afogamento. Todo policial do BOPE sai do quartel com seu saquinho plástico, peça que já foi integrada ao kit básico. O saco serve para pôr na cabeça do marginal, apertando bem na base, que fica amarrada no pescoço. O sujeito sufoca, vomita e desmaia. É o momento de afrouxar. É meio nojento, mas eficaz. Trabalhamos o Juninho com afinco, horas a fio. Primeiro porrada, a velha e boa porrada, que costuma bastar. Nada. Enfiamos fiapos de madeira debaixo das unhas. O animal urrava, mas não abria o bico. Foi então que me ocorreu estrear os Golfinhos. Fomos até uma caixa d'água. Retiramos dois fios da rede de iluminação pública. Mandamos o Juninho entrar na caixa e mergulhamos as pontas dos fios, uma em cada lado. Que beleza! Você precisava ver aquilo. Ele saltava com leveza e graça. Só faltava trilha sonora e um jogo de luzes. Mesmo assim, o filho da puta não cantava. Mergulhei os fios n'água muitas vezes. Acho que o marginal chegou perto do óbito, como a gente dizia. Fui ficando nervoso e irritado. Você há de convir, já eram horas, e nada. O sangue me subiu à cabeça e comecei a atirar na caixa, até ser contido pelos colegas. Fiquei fora de mim. Por sorte do vagabundo, a trajetória da bala sofre uma refração no meio líquido. Se não fosse isso, ele estava fodido. Salvou-se por pouco. Não sou de errar tiro. Bati um rádio para o comandante. Contei que estávamos trabalhando o marginal havia bastante tempo, sem sucesso. Queria eliminar o vagabundo, mas tinha de ouvir meu superior, dadas as condições especiais 29
Slide 30: que cercavam o caso. Ele mandou conduzir o sujeito à delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), que lida com menores. O jeito foi levá-lo. O cara estava branco feito uma folha de papel. Tinhoso. Diante da delegada, ele resmungou: "Os policiais do BOPE me torturaram", e mostrou os dedinhos roxinhos, com as unhinhas levantadas. A doutora delegada era uma profissional escolada e não nos decepcionou. Encarou o sujeito e emendou de primeira: "Ah, é? Coitadinho... Tá doendo, tá, filhinho? Quer que chame a mamãe, seu filho da puta?" Se não fosse a cooperação entre os profissionais das polícias seria impossível fazer o serviço que nos compete com um mínimo de eficiência. A população reclama da gente porque acha que é muito fácil manter a ordem na cidade. Mal sabe que, enquanto o jantar está sendo saboreado em família, na frente da televisão, no conforto do lar, do outro lado, no submundo, muito sangue está correndo, o nosso e o dos vagabundos. 30
Slide 31: Olho por Olho Força máxima: rápida, devastadora e eficaz. Esse é o lema do BOPE. Se você fosse governador ou governadora do estado do Rio, dispensaria nossos serviços ou, mesmo que não usasse nossa tropa, preferiria mantê-la disponível para pronto emprego, preparada para atuar, a qualquer momento, mesmo que fosse apenas em alguma emergência crítica? Na verdade, não me interessa sua resposta. Até porque não tenho como saber o que você está pensando nesse exato momento, mas aposto, de olhos fechados, que lá no fundo, bem no fundo, você gostaria de contar com a mão forte do BOPE para esmagar o vandalismo e toda essa praga. Por falar em olhos fechados, acabo de me lembrar de uma história que tem a ver com isso, nas premissas táticas e nas conseqüências práticas. Era mais uma noite daquelas. Aliás, como são todas as noites da nossa tropa. O capitão Ângelo comandava a equipe, Dessa vez, o soldado Marques era o ponta — o ponta é o policial que vai à frente do grupo de assalto, abrindo passagem, indicando o caminho e passando informações por sinais. O comandante é sempre o terceiro. A favela estava quieta. Já era tarde. O plano era surpreender o grupo do Fabinho, no morro do Limão. Tínhamos o mapa do lugar. Graças às incursões anteriores e a algumas informações elementares obtidas no interrogatório de um traficante, sabíamos onde estavam as armas e onde os bandidos costumavam se reunir para organizar o bonde, que descia para a Tijuca barbarizando. 31
Slide 32: O morro era margeado por um muro alto e longo. Nossa intenção era descer em absoluto silêncio, colados à face externa do muro e penetrar na favela pela parte baixa, a mais vigiada pelos falcões do tráfico e, portanto, a menos propícia a uma ação policial. Mas esse era justamente o motivo da escolha: sendo menos propício, o ponto seria a opção menos provável, o que significava que poderia ser, paradoxalmente, o mais vulnerável. Descíamos o morro no breu mais cerrado, pisando com cuidado, quase sem respirar. Aquele tipo de formação em fila indiana era muito arriscado. Uma falha qualquer e estaríamos fodidos. Se jogassem uma granada por cima do muro não sobraria nada do lado de cá. Os movimentos eram dirigidos pelos sinais do Marques: permanecer imóvel, avançar, acelerar, estancar. Nesses casos, o ponta age como um cão farejador. A audição também tem de estar atiladíssima. Os oito homens se movem obedecendo a uma coreografia rigorosa. A disciplina é a de uma orquestra. Com uma diferença: o mais leve deslize não desafina, mata. Quando a gente mergulha numa procissão desse tipo, companheiro atrás de companheiro, a confiança mútua é tão importante a autoconfiança. Nada disso faltava, graças a Deus. Eu me orgulhava da destreza do coletivo e tinha fé em mim e na minha arma. Só fui descobrir o que era medo de morrer bem mais tarde, quando tive meu primeiro filho. O pavor estampado no olhar do inimigo era nosso combustível. Na verdade, era mais que isso; era nossa droga. A farda negra com a caveira atravessada pelo punhal era privilégio de poucos. Não era fácil resistir aos testes para ser admitido no BOPE, não era para qualquer um enfrentar o treinamento; assim como não era mole, depois de aprovado e admitido no Batalhão de Operações Policiais Especiais, tomar o ônibus iodos os dias como um cidadão comum, chegar ao quartel como simples mortal, vestir o uniforme negro que era nosso orgulho — mas também significava uma puta responsabilidade — e transportar-se para outra dimensão, onde a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro saía de cena e era substituída pelo inferno da guerra. A faixa de Gaza convivia conosco; Bagdá era aqui: 18 mortos por dia, há vinte anos. 32
Slide 33: A cidade só tangenciava essa outra dimensão, essa outra versão de si mesma, quando uma bala perdida atravessava as fronteiras. No mais, carregava sua sombra como o peregrino traz no ombro a sua cruz, sentindolhe o peso e intuindo-lhe o tamanho, sem olhá-la de frente para conhecer sua forma e compreender sua natureza. Você deve ter reparado no que eu disse: "chegar ao quartel como simples mortal". Deve ter achado meio bizarro, talvez até engraçado: "Porra, será que esse maluco está se achando um deus imortal?" Relendo o que escrevi, confesso que também achei estranho, mas resolvi deixar como está, porque saiu tão espontâneo, que retrata bem os meus sentimentos. E como o propósito é você me conhecer melhor, decidi manter. Não, não me acho nada disso; nem meus companheiros do BOPE são malucos. Mas o fato é que, quando você convive com a morte todo dia, toda noite, quando sabe que é matar ou morrer, enquanto você sobrevive, a sensação é de vitória sobre a morte, uma espécie de vôo rasante sobre o precipício. Se você quiser chamar isso de onipotência, tudo bem. Eu queria ver você passar por essa experiência. Seria interessante verificar se seus conceitos não mudariam um pouquinho. Mas tudo bem. Pode pensar o que quiser. Não vai mesmo fazer diferença. Vamos voltar à história do muro. Seguíamos, passo a passo, evitando o barulho dos galhos secos e do mato alto, temendo cruzar com um cão vadio, fora de rota. A subida da polícia nas favelas é marcada por três sons típicos: tiros, fogos dos olheiros do tráfico e latido dos cães. Essa é a trilha sonora das incursões policiais. Em geral, a gente vai subindo e vai calando os animais. Quando o tiro é certeiro ele não sofre. Naquela noite não poderíamos calar os cães, porque não queríamos dar bandeira de nossa presença. Mas, se não o fizéssemos, os latidos dariam uma bandeira suficientemente ostensiva. Era um puta dilema. Portanto, só nos restava contar com a sorte. É óbvio que contemplamos esse risco quando planejamos a operação. Não somos tão imprevidentes quanto você está imaginando. O fato é que apostávamos que não haveria cães por ali. Nunca os víramos daquele lado. E, realmente, eles 33
Slide 34: não apareceram. Confesso que não pensava nisso, quando descia margeando o muro. Quando a gente se concentra numa operação de guerra, tudo muda, todos os sentidos ficam alterados. A gente não ouve praticamente nada e só enxerga o que está no foco da atenção. É o que a gente chama visão de túnel. O nome é bastante preciso. É como se a pessoa estivesse num túnel, com um único ponto de luz. O tempo gira em torno daquele ponto e fica como que congelado, talvez porque que se confunda com o espaço, quer dizer, com a imagem. Não sei. Só posso lhe dizer que a gente sai desse mundo e viaja. O universo passa a deslocar-se em câmera lenta. É como se toda velocidade do mundo fosse absorvida pelos músculos e as sinapses que mantêm o cérebro alerta. O resultado é que, no final de um tiroteio, a gente tem a impressão de que passou meia hora. Vai olhar no relógio, passaram dois, três, cinco minutos. Algumas coisas extraordinárias acontecem, num momento como esse. Uma vez, por exemplo, eu comandava uma invasão a uma favela em Copacabana. O ponta se perdeu do resto da equipe e eu determinei que esperássemos. Estávamos numa subida estreita. Não havia viva alma. Adiante, a ruela dobrava à esquerda. Não era comum aquele silêncio, aquela quietude. Nem os cachorros latiam. Nenhum logo explodia. Eu estava determinado a avançar, Com cautela, mas avançar. Quando o cérebro já disparava o comando para as pernas, uma velhinha surgiu na esquina e desceu em nossa direção. Ela trazia uma dessas bolsas de pano, boa para fazer feira. Andava com firmeza, apesar da idade, e não mostrou nenhuma surpresa quando nos viu, encostados à parede. Ao passar por mim, sem me olhar, cochichou: "Meu filho, não sobe não. Se subir vão matar você". Não respondi. Aprendi a respeitar esse tipo de comunicação, nas favelas. É preciso ter o máximo cuidado e não manifestar qualquer reação, para que os vagabundos não percebam e se vinguem da pessoa que tenta nos ajudar. Por isso, contei até vinte e, em vez de avançar, joguei uma granada na boca da ruela, só para atrair a resposta dos traficantes e identificar sua localização e 34
Slide 35: poder de fogo. A imediata e intensa fuzilaria mostrou que os bandidos estavam preparados, à nossa espera. Comentei com o sargento Aguinaldo, a meu lado: "A velhinha salvou nossa vida. Era uma emboscada." "Que velhinha?", ele perguntou. "Como, que velhinha? A velhinha, ora bolas. Aquela senhora que passou por nós com a bolsa e sussurrou a mensagem pra mim". "Tenente", ele disse, "tenente, não teve senhora nenhuma, não teve velhinha nenhuma. Ninguém passou por aqui desde que nós chegamos. O senhor acha que uma velhinha ia passear entre dois fogos, assim, sem mais nem menos? E que, além de tudo, eu não ia ver?" Fiquei gelado. Aliás, até hoje fico arrepiado quando conto essa história. Na visão de túnel, tudo é possível: encontros inusitados de terceiro grau com personagens irreais ou até mesmo delírios — dependendo da interpretação de cada um, posso ter ficado maluco, temporariamente, ou posso ter mantido perfeito estado mental; neste caso, fantástica não seria minha imaginação, mas a realidade. Bem, há também a hipótese de que meu parceiro é que tenha ficado momentaneamente cego pela tensão. Cego e surdo. Mas esse assunto transcende meu entendimento. Melhor voltar à favela do Turano, ao grande muro. Pois é, estávamos ali, colados ao foco, pregados à missão pela adrenalina, passo a passo, muro abaixo, agarrados aos fuzis, prendendo a respiração. Foi uma longa caminhada. Prefiro o confronto aberto do que a expectativa. Às vezes torço para que a bomba arrebente de uma vez. Tenho a sensação de que a lenta antecipação coagula o sangue e me sufoca. A explosão do confronto fluidifica o corpo e a mente. O sangue lava o espírito. Mais um passo, e outro, mais um, em silêncio, morro abaixo, margeando o muro. O soldado Marques levantou o braço direito. Paramos. Chegara à ponta inferior do muro. Hora de virar e começar a subir pelo outro lado, onde estaríamos muito mais expostos. Quando Marques saltou para o outro lado, deu de cara com um grupo de traficantes descendo, também margeando o muro. Eles estavam relaxados e desatentos, ainda que armados até os dentes. Não esperavam aquele encontro. Nosso ponta só precisou 35
Slide 36: apertar o gatilho. Corremos para apoiá-lo, enquanto os vagabundos se dispersavam em desespero, fugindo morro acima, procurando escapar à linha de tiro. Não tiveram tempo de reagir. Tínhamos de ter acertado alguém. Não era possível que todos tivessem sobrevivido. Subimos atrás dos marginais, atirando. De fato, acertáramos pelo menos um deles: descobrimos um rastro de sangue e seguimos a pista. Bem acima, já na parte superior do muro, num platô, um vagabundo se arrastava. Ele correra até ali, mas as forças se extinguiam. Um de nós atirou para completar o serviço. O tiro atravessou as têmporas, de um lado a outro, em linha reta, e jogou no chão os dois globos oculares, que rolaram como bolas de bilhar. Eu me lembrei de uma cena famosa do Rei Lear, de Shakespeare, que tive de ler na faculdade. Aquele negócio de geléia viscosa saltando fora da órbita sempre me provocou náusea. Por isso, reconheço que na hora não pensei em Shakespeare porra nenhuma. Na verdade, olhei para outro lado, sob pretexto de dar cobertura à equipe. Fiquei um pouco nervoso e pedi para executar o marginal de uma vez. Ele já estava mesmo virando monstro. O cara vira monstro quando vai partindo desta para a melhor — no caso dos bandidos, a rota deve ser inversa; deve ser desta para a pior. Nesse momento de passagem, acontece uma espécie de metamorfose com o moribundo — para você ver que eu não sou nenhuma besta, devo lhe dizer que isso me lembra um conto do Kafka com este nome e que conta a história de um sujeito chamado Gregor Samsa, que vira barata. Não falo para me gabar, não. Seria ridículo. Falo para que você faça um juízo correto sobre mim e não se iluda com os próprios preconceitos. Na metamorfose em que o vagabundo vira monstro — como a gente diz no BOPE —, o filho da puta parece que regride, volta a ser criança e começa a chamar pela mãe. É de lascar. Assim, escrevendo, parece cômico, não é? Mas lá na favela, no teatro de operações — as narinas repletas de pólvora, pedaços de corpo espalhados pelo chão —, não tem graça nenhuma. 36
Slide 37: Foi aí que me surpreendi. Eu, não; todo nosso grupo. Capitão Ângelo não autorizou a execução. Levantou o braço. Era a ordem para não atirar. Aproximou-se do vagabundo, abaixou-se e lhe perguntou, ao pé do ouvido: "Aceita Jesus?" Repetiu, elevando a voz: "Aceita Jesus?" O infeliz disse que sim, aceitava. Fazer o quê? Até eu. Pois é isso mesmo que você está pensando: o capitão era evangélico e levava a religião tão a sério, que, quando subia as favelas em nossas incursões, dificilmente passava por uma imagem de santo sem atirar. Ele mirava, arrebentava a criatura de louça e resmungava: "Idolatria, blasfêmia." Fazia outras imprecações, mas a gente não ouvia direito. — Capitão, porra, capitão, assim os moradores vão odiar a gente mais ainda — um de nós ousava dizer, quando ele estourava os santos. — Não tem problema. Melhor ser odiado do que admitir o culto das imagens. Isso é coisa do demônio. Por isso é que o crime não pára de crescer. Antes de conhecer o Ângelo, eu já tinha visto de tudo: tiro em ratazana, no quartel, tiro em cachorro, tiro em vagabundo, tiro em caixa de som de baile funk, tiro em caixa de luz — quando a gente tem visor noturno —, mas tiro em santo... era novidade. O diabo é que a gente queria executar o vagabundo e saltar fora da favela. Era tarde e os bandidos poderiam estar se reorganizando, preparando um contra-ataque. Nós não íamos mesmo descer com o cadáver favela abaixo muito menos com um sujeito agonizante, mas ainda com força suficiente para gritar alguma bobagem, no meio percurso, e nos criar mais dificuldades. O jeito era fazer como de hábito: executar e cair fora. Ponderamos com o capitão, mas ele estava inflexível: "Não vamos matar o rapaz. Ele aceitou Jesus. Vai se recuperar." Chamamos o helicóptero da Polícia Civil. Esse era um procedimento raro, raríssimo. Só chamávamos quando estávamos cercados, em condições especialmente sérias. Ou quando um dos nossos se feria com gravidade e a localização impedia a remoção imediata, em segurança. Mais raro ainda era usar a aeronave para remover o corpo de algum bandido. Só mesmo em 37
Slide 38: situações extremas. Por exemplo, morto fosse importante, na hierarquia do tráfico, e o corpo, caso entregue aos moradores, servisse de bandeira a protestos. O helicóptero chegou. Não podia aterrissar. Não havia espaço suficiente. As árvores impediam. O terreno era irregular. Os tripulantes jogaram a caçamba. Pensavam que o cara estivesse morto. Quando descobriram que o vagabundo estava vivo, recusaram-se a içá-lo. Eu compreendi. No fundo, concordava com eles. Levar para quê? Deslocar uma aeronave até ali por quê? Tudo isso para salvar a vida de um marginal e levá-lo a fazer um cursinho de aperfeiçoamento em criminalidade, na penitenciária, com pós-graduação em ressentimento e ódio? Tudo isso para que ele um dia voltasse às ruas para matar e roubar? Depois de muito bate-boca dos tripulantes do helicóptero, pelo rádio, com Ângelo e depois de algumas ameaças — o capitão parecia possuído por um espírito subitamente legalista —, levaram o vagabundo. Na noite seguinte, o hospital foi invadido e ele foi resgatado por seus comparsas. De volta à favela, cego, acabou abandonado pelos cúmplices. Já não era útil. Não durou muito. Não sei se a alma foi salva, mas o corpo não tinha mesmo muitas chances. 38
Slide 39: Justiça em Domicílio Cássio era uma figura. Capitão Cássio. Quem não o conhecesse subindo favelas, comandando equipes do BOPE, empunhando com coragem um fuzil e se arriscando pelos companheiros, poderia ter uma impressão errada dele. A primeira vista, parecia meio arrogante, metido a intelectual, olhando todo mundo do segundo andar, com um jeitão de David Niven, aquele velho ator de bigodinho, que o Nelson Xavier ou o André Vali imitariam muito bem, se vestissem um fraque e falassem inglês com sotaque britânico. O Cássio passeava seu charme com um certo ar meio biltre, como diria meu avô; meio cafajeste, como diria meu pai. Ele estava mais para Jece Valadão do que para Charles Bronson, mas adorava um final feliz. Só que, para o réu, o final era previsível e sempre infeliz. Exatamente como nos filmes de Bronson, em que os 427 bandidos que mataram e estupraram sua filha vão sendo eliminados, um a um, pelo vingador solitário, o justiceiro das famílias ameaçadas. Vou explicar por que falei em réu. Cássio queria ser advogado. Até aí, tudo bem. Muita gente boa da polícia sonha com um futuro melhor. Quem não quer mais prestígio, poder e dinheiro? Nada de mais. Isso é natural. Se o cara tiver uma boa base, for inteligente, estudioso, contar com o apoio em casa e não perder a disposição para atingir o objetivo, pode dar certo. Quanta gente boa da polícia não faz 39
Slide 40: prova para o Ministério Público? Por que não a Ordem dos Advogados ou mesmo a Magistratura? Era um sonho legítimo do Cássio. Ninguém discute. Só que ele era uma peça. O capitão subia as favelas levando uma cadeirinha de armar, aquela que os diretores de cinema usam. Quando chegava ao lugar que planejara ocupar, enquanto esperava que o resto da equipe fizesse uma varredura no morro, mandava os soldados que ficavam com ele fazer um gato e pendurar uma lâmpada bem em cima da cadeira. Sentava ali, tirava um livro de direito da mochila, abria o diabo do livro e começava a estudar — fazia anotações e tudo, na maior tranqüilidade. Era capaz de passar horas assim. Participei de uma das incursões noturnas comandadas pelo Cássio. Fiquei responsável pela busca de armas e drogas, e pela prisão dos traficantes. Não conseguimos muita coisa. Depois de quase duas horas, levamos só um vagabundo ao capitão, que lia, sentado com aprumo na cadeirinha de diretor, sob a luz improvisada e, claro, devidamente escoltado. O bandido estava com um fuzil, uma pistola mais ou menos um quilo de cocaína. O sujeito tinha sido adotado pelo tráfico local, porque teve de fugir de sua favela, tomada por uma facção rival. Não era dali. Isso facilitava nosso trabalho. Não ia ter choro nem vela. Os moradores não fariam arruaça. Não ia ter irmã chorando, tia se descabelando, mãe desmaiando. Quando apresentei o caso ao capitão, ele aplicou a fórmula com apuro: "Vamos fazer o julgamento do réu." Distribuiu as funções: eu seria o promotor; o réu faria a própria defesa. Determinou que fizéssemos um 360 graus, que significa um círculo completo de proteção, para evitar surpresas e prevenir ataques. Relatei a ocorrência, como se estivesse diante de uma autoridade judiciária. Imitei um promotor e pedi a condenação. Treinando a linguagem empolada e a coreografia do tribunal, o capitão, imitando um juiz, passou a palavra ao réu. O sujeito não estava entendendo nada. Disse que não era traficante, que tinha ficado com as armas e as drogas, porque a turma do tráfico local, percebendo que a polícia se aproximava, queria queimá-lo, exatamente porque ele sempre se recusam a colaborar. Cássio não gostou nada da cara- 40
Slide 41: de-pau do vagabundo. Sentiu que ele estava ofendendo o Judiciário e fazendo o BOPE de bobo. Não demorou muito, disse que estava pronto a prolatar a sentença — isso mesmo, prolatar. E prolatou. O marginal foi sentenciado à pena capital, que deveria cumprir-se, imediatamente. O bandido parecia zonzo, não sabia se a mise-en-scène era a sério. O capitão há muito encarnara o juiz. Agora, arregaçava, imaginariamente, as longas mangas da toga, porque lhe competia assumir a função de carrasco. O vagabundo tremia e implorava clemência, mas esse comportamento não agradava a Cássio: a sentença já fora proferida e não admitia recursos. O capitão mandou o soldado Lobo empunhar a arma do próprio traficante, repetiu solenemente a condenação, autorizou o pobre-diabo a dizer o que quisesse, e determinou que ele fosse calado com um tiro na testa. "Vamos embora", ordenou. Estava encerrada a sessão. 41
Slide 42: Justiça Doméstica Camargo foi um dos nossos melhores comandantes. Era firme e justo, e não aceitava que o BOPE fosse usado pela política de propaganda do governo, que delega à mídia as decisões sobre nossas prioridades. Graças ao rigor de gente como ele, nosso batalhão resistiu à corrupção, durante muitos e muitos anos. Enquanto o conjunto da polícia se desmoralizava, a gente permanecia como uma ilha de excelência e credibilidade. Não é conversa fiada, não. Sei que isso parece demagogia barata, mas não é. É a pura verdade. Se não fosse isso, nada mais faria sentido. Quem observa de fora, não tem a mínima idéia do que acontece dentro dos quartéis, nas operações e, sobretudo, na cabeça e no coração dos policiais. Às vezes, é doloroso enfrentar a praga da corrupção, principalmente quando a gente tem de cortar na própria carne para evitar que a doença contagie o corpo inteiro. É como amputar um braço ou uma perna para salvar a vida. A diferença é que, no BOPE, depois de mutilado, o corpo se regenera: outro braço cresce, a perna renasce. A gente volta a ser o que era. Em termos, claro, porque fica a cicatriz, fica a lembrança. Uma cicatriz de que não esquecemos é o Lisboa. Antes de entrar para o BOPE, ele era policial civil e nunca abandonou alguns amigos dos velhos tempos. Eram umas amizades que não faziam bem. Além disso, ele passava 42
Slide 43: por uma dificuldade financeira grave. A família tinha tido algum problema sério. Ninguém sabia o que era, mas ele volta e meia reclamava da vida — o que, aliás, não era incomum, considerando-se os salários que a gente recebia. No caso dele, as coisas pareciam ser mais complicadas do que o habitual. Até que, ao final de uma operação que comandei, ele se aproximou de mim, cabisbaixo, falando baixinho: "Sabe o que é, capitão (eu já era capitão naquela época), estava pensando se não seria possível que o senhor cedesse um fuzil desses que a gente apreendeu. O senhor sabe que eu não sou disso, mas, afinal, não vai fazer falta e, nesse momento, resolveria a minha vida. Uma arma dessas está valendo uma boa grana e a minha situação..." Eu lhe dei ordem de prisão imediata, abri um procedimento pedindo a expulsão do BOPE e relatei o caso ao coronel Camargo. Dois meses depois do episódio, já de volta ao trabalho, mas restrito a funções burocráticas, enquanto aguardava o julgamento interno, o Lisboa se meteu em outra encrenca. Camargo foi informado pela P2 de que o Lisboa tinha montado, com os antigos companheiros da delegacia, um esquema de tráfico de armas. As evidências não deixavam margem a dúvidas. O comandante Camargo reuniu os oficiais e tivemos de tomar a penosa decisão. Na manhã seguinte, quando chegava do plantão, Lisboa foi morto, na porta de casa, por dois homens, numa motocicleta. A única testemunha do justiçamento relatou à imprensa: "O Lisboa parecia conhecer os dois homens da moto, porque ele parou, tranqüilo, quando foi chamado pelo nome. Aproximou-se como se fossem todos amigos. Estava amanhecendo e eu saio muito cedo, mas a rua estava deserta. Eu nem me preocupei e fui em frente, na direção oposta. De repente, ouvi um tiro seco e o ronco da moto. Me assustei e corri, mas o Lisboa já estava morto. O tiro foi de profissional, bem no meio da testa." Não se tratava propriamente de justiça, mas de interrupção da gangrena institucional e de sinalização aos companheiros. De fato, a indiscutível culpa do Lisboa não era nossa maior preocupação. Se talvez bastasse aplicar as penas previstas no Código Penal e no regimento disciplinar da corporação. A lei não escrita é mais importante quando a 43
Slide 44: matéria é a honra e o objetivo é a reafirmação da integridade de uma história coletiva. Engana-se quem pensa que o mundo real são os poderes visíveis, as leis escritas e a grana. O mais importante não é dito, nem escrito, nem contabilizado. A família foi amparada e vacinada contra a verdade. O sepultamento prestou todas as honras à memória de um soldado honrado, que tombou no cumprimento do dever. Zelamos para que os filhos de nosso companheiro herdassem esse legado inspirador. O Avesso da Vingança O sargento Juarez já retornava à viatura, na favela da Boa Esperança, na Ilha do Governador, quando um sniper do tráfico lhe arrebentou a cabeça por trás, num tiro de longa distância. A comoção de sua equipe estendeu-se à família e contagiou todo o BOPE, onde ele era um dos veteranos mais queridos. Nós, oficiais, mal conseguíamos conter os ânimos dos soldados. Na verdade, estávamos tão revoltados quanto eles. Não era só ódio ou indignação; era fúria. Também achávamos que a resposta tinha de ser imediata e radical. Todos tinham sido feridos por aquele tiro covarde. Covarde e humilhante. A honra do Batalhão estava em jogo, além da memória de um companheiro. Era hora de colocar em prática o que aprendemos no curso de operações especiais: "O máximo de, violência, morte e confusão, na retaguarda profunda do inimigo.". Fomos adestrados para nos transformarmos em cães selvagens. Pois, muito bem, tinha chegado o momento feroz. Formamos um grupo de oficiais para conversar com o comandante em nome do coletivo, depois do sepultamento. Queríamos vingança. O coronel Camargo disse que sim, claro, a reação era necessária e legítima; ele compartilhava nosso sentimento. Mas achava que era preciso cautela, 44
Slide 45: porque operações desse tipo já tinham provocado grandes desastres, no passado, envolvendo morte de inocentes e crises políticas de proporções internacionais, com efeitos desastrosos para a imagem da polícia. Preferia uma solução mais racional — foi a palavra que ele usou, não sou eu quem está dizendo. Repetiu aquele velho chavão: "Vingança é um prato que se come frio." E completou, mais ou menos assim: "Não vamos voltar à favela da Boa Esperança, hoje. Vamos planejar uma bela operação, que se desdobre no tempo, para liquidar todo o grupo, um a um, mas com precisão cirúrgica. Somos guerreiros, não somos açougueiros." Insistimos, mas não adiantou. Saímos da sala do comandante, inconformados. Sentamos no alojamento de oficiais. Éramos uns nove ou dez. Tínhamos de imaginar uma saída. Com que cara iríamos dizer aos soldados que nada seria feito? Que tínhamos de botar o rabo entre as pernas e que essa era a coisa sensata a fazer; que isso era racional. Convocamos a equipe do Juarez e mais alguns homens que estavam disponíveis. Daríamos um jeito à nossa maneira. Um de nós tinha um amigo no setor de cautela de armas do Exército. Conseguimos vinte fuzis, munição, granadas, visores noturnos. Combinamos nos reunir à meia-noite, numa escola municipal, perto da favela. Fomos à paisana, com carros descaracterizados. Tive de ameaçar o vigia para que ele abrisse o portão. Escolhemos uma sala de aula. Gomes abriu o mapa, expôs a localização habitual dos traficantes. Ele conhecia bem o lugar. Discutimos um plano de ação. Éramos 24. Designamos o Gomes para comandar a operação e distribuímos as funções. Invadiríamos a favela com três grupos, ocupando as principais vias internas. Um quarto grupo subiria o morro vizinho imitaria a parte superior da Boa Esperança. Em seguida, pressionaria os vagabundos de cima para baixo, até que caíssem no cerco armado na área inferior da favela. Vestimos os capuzes e rezamos pela alma de nosso companheiro morto. A estratégia e a tática funcionaram à perfeição. Ninguém escapou, com exceção do assassino do Juarez, que já havia fugido da comunidade, 45
Slide 46: justamente por temer a retaliação. Ninguém provoca o BOPE impunemente. A caveira tem um nome a zelar. Oito marginais foram executados para que se fizesse justiça. Descemos a favela em paz, devolvemos as armas e nunca fomos convocados pela corregedoria da PM para tratar do assunto. Às vezes, o silêncio e a inércia são inteligentes. Na prática, nunca houve operação alguma. Nenhuma arma dos policiais do BOPE, mesmo periciada, indicaria qualquer participação. Nossos rostos não foram vistos. O vigia não ousaria testemunhar contra nós. Mesmo assim, os vagabundos não tiveram dúvida sobre quem nós éramos. Eles sempre sabem muito bem quando enfrentam a caveira. Registramos nos nossos caderninhos o nome do rapaz que escapou. Os traficantes o denunciaram. Nós o acharíamos, mais cedo ou mais tarde, onde quer que ele estivesse. No final da tarde do dia seguinte, coronel Camargo chamou os quatro oficiais mais ligados ao Juarez para uma conversa em seu gabinete. Entramos e cumprimos todas as obrigações que a situação exigia: prestamos continência e permanecemos em posição de senti do diante da mesa do comandante, que mal notara nossa presença, elevando rapidamente os olhos, erguendo e abaixando quase imperceptivelmente a cabeça. Na mesa à sua frente, estavam uns papéis rabiscados, ao lado das medalhas militares e das fotografias familiares. Parecia um pelotão de fuzilamento, só que, ali, naquele momento, os sentenciados éramos nós. Por mais que se aprenda a criticar e a se distanciar das formalidades que a hierarquia impõe; por mais que, privadamente, sejamos os primeiros a ridicularizar a religião laica que é a PM, com os seus ritos, o fato é que, diante da autoridade, tudo muda de figura: quem não tremeria? Você poderia pensar que a causa de meu tremor não era a hierarquia militar, mas a culpa que sentia pela ação da noite anterior. Engano seu. Não havia culpa nenhuma. Culpa, por quê? A memória do Juarez não merecia aquela resposta: A honra da corporação não valia nada? Culpa eu sentiria se tivesse sido covarde, isso sim. 46
Slide 47: — Eu me sinto mal, diante de tudo o que ocorreu. Acho que a culpa foi minha — disse o coronel, com um fio de voz, num tom que não era o seu, numa empostação nada habitual. Tudo bem que houvesse culpa na história, mas não era minha. Isso é o que eu queria dizer. Quem estava culpado era o coronel. — Estou me sentindo muito mal — ele repetiu e se levantou da cadeira. Andou até as estantes, na parede oposta à porta de entrada, e estancou, de costas para nós. Puxou um livro, abriu, virou a cabeça para trás em nossa direção e ordenou que ficássemos à vontade. Folheou o livro e voltou a virar a cabeça. — Podem se sentar. Sentem-se — apontou o sofá, na lateral da sala, e as cadeiras diante da mesa. — Não estou bem e... — completou, andando em nossa direção — quero falar com cada um de mês de homem para homem. Quem está aqui não é o coronel, muito menos o comandante, é um cristão, um servo de Deus. Vocês acreditam em Deus? Os quatro policiais convocados pelo coronel para aquela estranha visita ao seu gabinete afundamos no sofá e nas cadeiras. O silêncio prolongado enterrou o gabinete numa atmosfera desconcertante. Tinha a sensação de que mergulhávamos aquém do nível do mar, rumo ao centro da Terra. Nenhum de nós ousou responder. Confesso que comecei a ficar muito mais assustado do que se estivesse recebendo um esporro humilhante ou a descompostura típica, aquela que se recebe quando se faz uma cagada irremediável, ainda que estivesse convencido de que não fizéramos nenhuma cagada. Era lícito vingar um colega executado a sangue-frio por criminosos sanguinários. Ou não era? Lícito talvez não fosse, mas legítimo era. — Você — dirigindo-se a mim — acredita? Tem fé? Quase respondo "obrigado". Sei que não faria sentido. E daí? Nada estava fazendo sentido. Então gaguejei e balbuciei: Ahn, ahn. — Ahn, ahn, o quê? O que é ahn; ahn? O que é que isso quer dizer? Acredita ou não acredita? Eu disse que sim. 47
Slide 48: — Sim, senhor, claro. Por quê? — Porque o que eu vou contar pra vocês não é coisa desse mundo. Não se pode entender com a lógica desse mundo. Aturdido, confuso, atônito, eu quase disse: "Ahn, ahn, claro, muito obrigado, sim, senhor." — Por que é que você está me olhando com essa cara? — O coronel me desafiava. Parecia que ele estava lendo meus pensamentos. Quanto mais eu me atrapalhava, mais o seu radar seguia minha fuga para o fundo da Terra. — Eu, eu sei sim, senhor. — Sabe o quê, capitão? — voltou a me provocar. — Nem todas as coisas desse mundo têm razões... desse mundo; quer dizer, nem tudo é racional. — Você acredita nos espíritos? — Sim, senhor. — Vou repetir: capitão, você acredita nos espíritos? — Acredito nos espíritos, sim, senhor. — Muito bem. Alguém duvida? Alguém, aqui nessa sala, duvida dos espíritos? Silêncio. — Tem algum ateu, aqui? — Não, senhor — respondi. Acho que minha vontade era só quebrar o silêncio. Tenho uma certa dificuldade de lidar com o silêncio diante de autoridade — me dá a sensação de que uma granada vai explodir a qualquer instante na minha cabeça. Quando me chamava a atenção, meu pai costumava interpretar meu silêncio como sinal de indiferença e desrespeito. O resultado é que o silêncio geralmente era sucedido por um cascudo. Granada na cabeça. — Não perguntei a você, capitão. Você já tinha respondido. Quero saber o que pensam seus companheiros. Felizmente, o capitão Irley não deixou a peteca cair: 48
Slide 49: — Não tem nenhum ateu, não, coronel. Todo mundo aqui tem fé em Deus e crê nos espíritos. Santos nós não somos, coronel, mas posso garantir ao senhor que ateu ninguém é. Os outros dois, Paulinho e Miro, balançaram a cabeça, concordando. Estavam sentados lado a lado no sofá, suando em bicas, com o rabo entre as pernas e um letreiro na testa: "Fizemos uma cagada." Mais um pouco, se o coronel insiste um pouco mais, se pressiona mais um pouquinho, aposto que os dois iam derreter e confessar o pecado original. Nem parecia que tinham sido treinados no BOPE e aprovados no teste Charlie-Charlie — a referência, aqui, é CC, sigla que designa "campo de concentração", sobre o qual você vai ler mais adiante. Fuzilei os dois com olhos fixos, esperando que seus olhares colassem no meu, franzindo o cenho para lhes passar a mensagem de que o mínimo que se espera de dois marmanjos é hombridade. Se não amarelaram no morro, por que se entregariam ao comandante? Tão importante quanto vingar o Juarez era respeitar o pacto de lealdade entre os parceiros. Me deu vontade de sacudir aqueles dois filhos da puta e gritar: "Porra, caralho!" Encarei o Irley buscando sua cumplicidade, como quem diz: ninguém merece confiança. Não se pode acreditar em ninguém. — Todos acreditam. Que bom. Assim vai ser mais fácil — disse o Camargo. Andou em volta da mesa com as mãos juntas atrás da cintura, olhos postos no chão. Parecia pensar, enquanto falava. Falar para ganhar tempo, enquanto calculava. — Muito bem — prosseguiu, sentando-se em sua cadeira, atrás da mesa e nos encarando a todos, um a um. — Eu creio nos espíritos e lhes falo como um servo. Cumpro uma missão. Missão que exige muita energia e, sobretudo, humildade. Baixou a vista, mexeu nos papéis desalinhados, pôs as duas mãos sobre o tampo da mesa, fechou os olhos, voltou a abri-los e continuou: 49
Slide 50: — Há muitos anos eu faço um trabalho religioso, fora daqui. Não trago para o quartel minha vida privada. Não confundo a carreira na polícia militar com as minhas coisas pessoais, muito menos com as experiências espirituais. Sou médium. O Camargo é médium. Trabalho no centro Luz do Mundo. Vou lá com minha família. Quem dá passe, psicografa, recebe as entidades, não é o coronel, não é o comandante do BOPE. Quem psicografa é o Camargo, estão entendendo? — ele. — Então, vocês vão compreender que, agora, é o Camargo quem precisa lhes dizer uma coisa. Não é o coronel, é o homem, o servo de Deus, o sujeito que carrega nas costas a cruz de uma missão. Respirou, hesitou, olhou o tampo da mesa, misturou ou organizou a papelada, voltou a nos encarar, um a um, e prosseguiu: — Essa noite não consegui dormir. Não preguei os olhos. Virava na cama, pra cá e pra lá. Minha mulher estranhou, porque eu durmo feito uma pedra. Nunca tive insônia. Não sou sujeito de ter insônia, vocês compreendem? Fui pra sala. Acendi o abajur. Não me sentia bem. De início, pensei que fosse coração, mas não quis preocupar minha mulher. Ela acorda cedo, mais cedo do que eu pra cuidar do neto. Fui percebendo que não era nada físico. Peguei um copo d'água, bebi e senti que o que eu tinha era uma puta angústia. Tanto que a água lavou o mal-estar. Quando percebi que a água era o remédio, deduzi que o problema não era desse mundo. Era espiritual, entendem? Algum de vocês é kardecista? Antes que eu preenchesse o vazio com alguma bobagem, o Irley que seu padrinho era leitor assíduo do Chico Xavier, mas o coronel não ouviu. Acho que não ouviu, porque continuou falando: — O kardecismo é uma ciência. Uma ciência cristã, entenderam? Claro que tem aspectos religiosos, mas não deixa de ser uma ciência. Não Sim, senhor — me apressei a devolvê-lo à sua narrativa para evitar outro interrogatório. Eu estava aliviado. Quem estava confessando era 50
Slide 51: tem nada a ver com aquelas maluquices da macumba. O espiritualismo é muito exigente. A gente tem de se preparar, estudar, não é pra qualquer ignorante, não. — O meu padrinho também dizia isso — o Irley insistia com a história do padrinho, mas o coronel não estava nem um pouco interessado na cultura científica da família de meu colega. Foi logo atropelando os comentários do Irley: — Bebi um segundo copo d'água e os canais se abriram. Sentei à mesa da sala com lápis e papel, apertei os olhos, pus a mão direita nos olhos, vocês sabem que sou canhoto... e comecei a rabiscar, escrever, escrever. Quando a gente recebe... — Meu padrinho leu pra mim o Nosso Lar, do espírito André Luiz, que o Chico Xavier psicografou — interveio de novo o Irley, cada vez mais íntimo do coronel. — Pois é, o Nosso Lar foi a primeira grande obra... A gente não sabe o que escreve, não vê a mensagem que o espírito transmite. É o espírito que escreve com as mãos humanas. Por isso se diz que quem escreve é o médium. — O meio — era o Irley, de novo, pontuando o comandante. — O meio, exatamente. Quando recuperei a consciência, vocês sabem o que encontrei? Sabem o que eu li? Têm idéia de quem era a mensagem? Camargo não esperou a resposta do Irley: — Do Juarez. Confesso que, naquele momento, senti um frio na espinha e não consegui dizer nada para quebrar o gelo. O Irley também se rendeu Por isso, coube ao próprio Camargo romper o silêncio: — Do Juarez, sim, senhores, do Juarez. Depois de olhar para cada um de nós, o comandante leu mensagem. Confesso que nunca me senti bem com essas coisas Senti a gravitação do 51
Slide 52: planeta puxando a sala para baixo. É um modo de dizer que tive de apertar o braço da cadeira e trincar os dentes para controlar uma vontade doida que me deu de desaparecer dali. O Juarez, com palavras bem suas, o seu jeitão típico de falar, pedia aos colegas que não se vingassem por sua morte, que uma desgraça só já bastava, que não era isso que ele desejava, que nós, por favor, fôssemos dormir, esfriar a cabeça, que nós orássemos por ele e apoiássemos sua mulher e seus filhos. E que não acrescentássemos outros cadáveres à história dele. — Fiz questão de ler pra vocês, porque, no fundo — prosseguiu o coronel —, a mensagem é dirigida a vocês, oficiais que ele admirava, aos quais ele sempre foi fiel, nos quais sempre confiou. Senti que era minha obrigação servir de ponte entre ele, onde quer que esteja, e cada um de vocês. Vamos fazer uma oração à alma de nosso irmão, Juarez. Coronel Camargo pôs-se de pé. Eu, Irley, Paulinho e Miro saltamos, despertando de uma espécie de torpor. O comandante disse umas palavras. Nós fechamos os olhos e abaixamos a cabeça. Repetimos "amém", no final, em voz alta. Ele nos pediu que refletíssemos mil vezes naquela mensagem, antes de tomarmos qualquer medida impensada. E completou: a melhor homenagem à memória do Juarez será respeitar o seu desejo. — Vou fazer uma visita à viúva, ainda hoje, mas não vou dizer nada a ela sobre essa mensagem. É melhor que isso fique só entre nós. Confio em vocês. Podem ir. Camargo fez questão de estender a mão a cada um, como se precisasse selar um pacto entre nós. Saímos do gabinete em silêncio. No corredor, caminhamos de cabeça baixa. Ninguém conseguia dizer nada. Nunca falamos do assunto. Eu nunca conversei sobre isso com ninguém. Procurei esquecer. Era como se precisasse sepultar o encontro, a psicografia, a mensagem, o gabinete do coronel, talvez porque tudo aquilo tivera o efeito de ressuscitar o Juarez, cuja palavra não parou mais de me assombrar. 52
Slide 53: Dois Andares O cabo Nestor e o soldado Amparo desciam a favela da Conceição, na Zona Oeste do Rio. O resto da equipe já deixara o morro, transportando um volumoso lote de armas apreendidas, na operação daquela noite. Depois de uma incursão forte do BOPE, sem prisões ou mortes, a comunidade respirava a serenidade de um cartão-postal, Todo mundo sabia que os bandidos ficariam bem longe, por algum tempo. Amanhecia e os trabalhadores saíam dos barracos a caminho do asfalto, apressados para embarcar nas funções do dia. Com o sentimento de missão cumprida, Nestor e Amparo pensavam em café com leite, pão, manteiga e o sono dos justos. Ao fundo, o alarido de marmitas, crianças, bolsas e poeira. Como o faro de policial fica ligado 24 horas por dia — em serviço ou na folga, acho que até dormindo a gente permanece alerta —, os colegas perceberam alguma coisa estranha no jeito de dois rapazes. Para não perder a viagem, revistaram os caras. Eram irmãos Um deles portava uma pistola e jurava que não era traficante: 53
Slide 54: — Não sou do movimento, não, senhor. Sou só assaltante Não tenho outra arma, não. Garantia que não sabia nada sobre as armas do tráfico. Amparo insistiu: — Ou você dá as peças, ou vai pra vala. O sujeito ficou apavorado: por um lado, sabia muito bem que não se brinca com o BOPE; por outro lado, entregando as armas, talvez se safasse, mas não escaparia dos seus comparsas, na prisão ou na favela. Seria tratado como X-9. O fato é que resistia, negava, jurava era só um ladrãozinho de merda, que não tinha nada, que a arma era só aquela ali mesmo. O irmão tremia e garantia que não tinha nada a ver com o que o outro fazia ou deixava de fazer, que era trabalhador — essa conversa fiada. Nestor decidiu levá-los para casa: — Vamos ver se vocês vão ou não vão dar as peças. Onde é moram? Vamos pra lá. Subiram uma ruela sinuosa e entraram numa casinha de dois andares, próxima a um beco. Sala e cozinha escuras e apertadas, separadas por uma cortina engordurada, azul-marinho. A geladeira ficava na sala, ao lado da televisão. Um sofá rasgado e uma cadeira, sob um tapete de parede com motivos venezianos: gôndolas, pontes, canais. A escada lateral de madeira, íngreme. Um dos irmãos repetia que a mãe era doente, um AVC a deixara paraplégica, passava os dias em casa e morreria se soubesse que os filhos tinham qualquer problema com a polícia. Nestor, paternal e compreensivo, fazia o contraponto a Amparo: — Se vocês derem as armas, não vai acontecer nada com vocês, nem com sua mãe. A porta rangeu. — Quem está aí? A voz feminina vinha do segundo andar. Provavelmente era verdadeira a história da mãe doente. 54
Slide 55: — Somos nós, mãe. Fica tranqüila. Os polícias só vieram ver se tem alguma coisa errada, aqui -- disse o cara da pistola, que era mais alto e um pouco mais velho. — A senhora fica aí em cima. Não queremos nada com a senhora — disse o Nestor. — Agora, deixem de vendagem e passem os fuzis. Onde estão as peças? — Amparo fazia o papel do meganha durão: — Vamos, porra. Não temos a manhã toda não, caralho. E sentou a mão na cara do mais baixo. — Porra, seu polícia, não esculacha. Tô dizendo que não sei de arma nenhuma. A única arma era aquela pistola. Estou falando a verdade. — Não fode — Amparo respondeu com uma coronhada e um chute no joelho. O rapaz envergou e começou a chorar: — Não sei de armas, porra; não tenho peça nenhuma. A mulher gritava lá de cima: — Os meninos são trabalhadores. Nossa família é honesta. Não tem arma nessa casa. Deixem eles em paz. — Não se mete, porra — Amparo respondeu. E aumentou o tom: — Cala essa boca, sua puta. Se não fechar essa boca suja, eu vou encher de porrada esses filhos da puta. — É melhor a senhora ficar na sua; se não, as coisas podem se complicar — ponderou Nestor, a voz hierática de um sacerdote da segurança pública. — E você, seu vagabundo de merda? Amparo deu um tapa de mão aberta na cara do menino mais alto. Nelson Rodrigues dizia que tapa não dói, mas o som do estalo humilha. Não sei se não dói. Conhecendo a força do Amparo, não sei não. Agora era Nestor quem entrava na pilha: — Dá logo as peças, caralho. 55
Slide 56: — Pô, eu já disse ao senhor que não tenho nada a ver com isso, não sei de nada. Esse menino era mais baixo e mais frágil. Passou do choro ao soluço feito criança, o que deixou o Amparo fora de si. — Dá logo, cacete, ou te estouro a cabeça aqui mesmo. — Não atira, pelo amor de Deus. Meus filhos, pelo amor de Deus. São meus filhos. Nosso Senhor Jesus Cristo. A mulher entrou num surto histérico. Não ajudou. As orações não ajudaram. Nem os apelos. Ao contrário, os brados da beata, ecoando como se fosse um coro de Igreja, enlouqueceram Amparo. Reagiu na mesma linguagem, vociferando como o Deus do Primeiro Testamento: — Cala essa boca, sua filha da puta. Apontou o fuzil para a coluna em que se fixava a escada e disparou para assustar os garotos e a mãe, e restaurar a ordem no recinto. Acontece que, por um desses ardis da sorte ou do azar, a bala ricocheteou na coluna e acertou a nuca do rapaz que chorava. A explosão injetou adrenalina nos personagens, acelerou o tempo, detonou o equilíbrio de Nestor e Amparo, aumentou o volume dos gritos da mulher e paralisou o rapaz mais alto. Ante os vestígios do irmão na parede, ele ficou verde, amarelo, azul e branco. — Meus filhos, meus filhos, quem atirou? Pelo amor de Deus, Seguiram-se uivos estridentes da mãe que intuiu o pior. — Eu dou. As peças estão na caixa d'água — o sobrevivente encarando Amparo. — Agora é tarde. Como é que nós vamos ficar, hein? Amparo sabia que não tinha saída. Por isso, teve que continuar atirando. Nestor também sabia e pôs-se a disparar. O rapaz corria pela cozinha e a sala como um peru bêbado, em véspera de Natal, implorava, guinchava, subia na pia, deslizava pelo sofá, saltava geladeira, empurrava a 56
Slide 57: TV, e os ruídos se misturavam à ebulição da mulher, no segundo andar, que acompanhava a cena pelos sons. Parecia incrível que fossem necessários tantos disparos em um espaço tão pequeno. Imagina dois cavalos, três cavalos incontroláveis condenados a travar uma luta de vida ou morte no interior de uma casa modesta; um confronto arquetípico entre deuses gregos, ciclopes e unicórnios, movendo céus e terra, raios, fogo, ventos e oceanos. Gênesis e apocalipse entre quatro paredes: chão e teto salpicados de sangue, ossos, cacos de vidro, blocos de gesso, pedaços de madeira e pano, fragmentos de tijolos, imagens diluídas na nebulosa de poeira, cheiro de pólvora e carne queimada. O menino tombou, agarrado à cortina, os olhos arregalados o imóveis. Quando Nestor e Amparo fecharam a porta, só a voz da mãe se ouvia. Um erro leva a outro. Nesse caso, um golpe de azar exigiu uma ação indesejada: não faria sentido permitir que uma testemunha sobrevivesse. A mulher foi preservada porque não viu ninguém. Às vezes, somos nós ou eles. Nem sempre fazemos o que é certo ou o que gostaríamos de fazer. Nem sempre os resultados são os melhores, Não pense você que Nestor e Amparo eram monstros insensíveis, Tenho certeza de que eles também sofreram com a carnificina. Que tiveram pesadelos. Tomaram tarja preta para dormir. Mas a gente acaba se acostumando. 57
Slide 58: Botas de Sangue Lembro-me de uma novela, estilo mexicano, um dramalhão bem ruidoso, com título parecido: bodas de sangue. Ah! Sim, não era novela, não. Era um romance do Nelson Rodrigues, assinado com algum daqueles pseudônimos incríveis que ele inventava, do tipo Suzana Flag. A essa altura você deve estar pensando que eu sou obcecado pelo Nelson. É verdade. Sou mesmo. Aliás, nesse caso, com um pequeno twist e alguma boa vontade, as bodas sangrentas poderiam muito bem ser atribuídas a Garcia Lorca. O bom gosto e o mau gosto se separam e se superpõem, dependendo da perspectiva. Isso tudo é muito relativo. Não é preciso ser doutor em estética para saber. Mas 58
Slide 59: isso não importa. O que interessa é contar a história, a estranha história das botas do cabo Alves. Ou do soldado Alves, porque na época das botas ele ainda não tinha sido promovido. Estávamos no fórum, apoiando o deslocamento de um preso perigoso para depoimento à Justiça. Conversávamos do lado de fora da sala de audiências, porque o corredor estava praticamente vazio e a situação, sob controle. Colegas acompanhavam o preso, dentro da sala; outros se postavam na entrada do prédio; havia ainda companheiros nos pontos estratégicos — escadas, saídas de emergência etc. Um sistema de câmeras completava o trabalho de vigilância, a cargo outro colega. Portanto, nenhum problema em trocar algumas palavras. Digo isso para que você não pense que éramos profissionais relapsos, batendo papo em serviço. Por favor, não confunda o BOPE com a polícia que você costuma ver, por aí. Em certo momento, o cabo Alves sussurrou: — O senhor viu quem passou, capitão? Eu tinha visto um rapaz empurrado numa cadeira de rodas, de algemas, conduzido por um policial militar. — E daí? — perguntei. — Não reconheceu? — insistiu Alves. — Estou pasmo. Como é que aquele filho da puta sobreviveu? Aquele é o Naldinho, das botas. — O Naldinho? Tem certeza? Não é possível. Parece outra pessoa. — Claro, capitão, deve estar uns 20 quilos mais magro e pelo menos um ano mais velho. — Aquela operação já tem um ano? — Pelo menos. Além do mais, ele deve ter envelhecido vários anos. Não sei como é que o cara sobreviveu. — Alves, para ser bem sincero, também não. — Será que ele viu a gente? — Que nada. Ele passou de cabeça baixa. Parecia anestesiado — Será que ele ficou abonado? 59
Slide 60: — Ficou, não, Alves, o Naldinho sempre foi meio débil. Aliás, nunca conheci um traficante que fosse um gênio. Você já? — Não, capitão. Mas agora fiquei preocupado. Será que ele viu a gente e disfarçou? Só faltava o filho da puta, além de ressuscitar foder a gente. — Fica frio, Alves. Desliga, porra. É a nossa palavra contra a dele e não se esqueça que a Justiça está sempre do nosso lado. Você algum auto de resistência dar alguma merda? O cabo Alves teve de concordar. Na verdade, falei com muita ênfase para convencer a mim mesmo. Eu não tinha tanta certeza assim de que o filho da puta não nos tinha visto e reconhecido. Nem que a gente estivesse blindado contra qualquer merda. O caso do Naldinho aconteceu na favela de Murici, em Niterói. Alves ainda era soldado, se não estou enganado. Ele era o ponta. Eu comandava a operação. Não me lembro bem se ainda era tenente ou se já era capitão. O fato é que nós oito estávamos incursionando para prender ou eliminar os traficantes, que estavam infernizando as redondezas com seus bondes noturnos, que desciam a favela para fazer falsas blitzes, roubar carros e pertences de motoristas e passageiros, especialmente as armas que encontrassem. E quem estivesse armado era morto, imediatamente, fosse ou não policial. Se fosse policial, o requinte de crueldade era maior. A subida tinha sido bem planejada. Cercamos uma favela próxima, a Coréia, ostensivamente, dando toda bandeira de que invadiríamos com força total. Mas nosso alvo era a Murici. Durante o dia, tínhamos combinado com o 22o. Batalhão uma limpeza no terreno. Não explicamos o motivo, mas pedimos que eles subissem executando todos os cães que achassem pelo caminho. Inventamos uma história meio maluca a propósito de uma suposta epidemia de raiva, na favela, constatada pela Secretaria de Saúde, e sobre a necessidade de não compartilhar a informação com os moradores, para evitar pânico. Não sei se engoliram a besteira, mas aplainaram o caminho para nós, garantindo o silêncio de nossa incursão noturna. Uma longa caminhada morro acima, sem um único latido. Os falcões — garotos do 60
Slide 61: tráfico responsáveis pela vigilância estavam desativados, porque todas as atenções se voltaram para o morro da Coréia. O campo não poderia ser mais favorável. Mesmo assim, como sempre, subimos com toda cautela: o ponta avançando até o próximo local estratégico, de onde se pudesse visualizar a próxima etapa da incursão, e assim sucessivamente. Alves fazia o sinal para o segundo e para mim, eu definia a orientação mais adequada, em cada momento, procurando seguir, na medida do possível, o que tínhamos previsto. Numa dessas situações raras e complicadas — mas, afinal, para isso existe o ponta —, virando a esquina ao fundo de um beco, logo depois de pisar em um bueiro solto e imperceptível naquela penumbra, Alves foi surpreendido por um traficante que descia armado. Alertado pelo barulho, o vagabundo atirou na sombra que mal divisava à distância, porque estava no outro extremo do pátio. O beco desembocava em um pátio amplo, razoavelmente iluminado, cercado de casas de dois andares, a quadra da escola de samba, postes, fios enrodilhados pelos milhares de gatos e algumas árvores isoladas, que o poder público plantara, provavelmente para que não se dissesse que não falou de flores. Filhos da puta. Eles todos, os traficantes de um lado, os políticos de outro. Nem sei se é mesmo assim, um lado e outro. Às vezes, é o mesmo lado, o bolo é um só. É o crime organizado, aquele que penetra as instituições públicas, como reza a cartilha. Mas deixa isso pra lá, que a guerra já vai começar na frente da quadra da escola. Alves não foi atingido, mas acertou o vagabundo. Nós corremos para apoiar o ponta, buscamos abrigo nos postes e nas árvores. Os traficantes abriram fogo, cobrindo o bandido designado para resgatar o comparsa ferido. Jogaram uma granada. O soldado Rodrigues saltou para perto do lugar em que a granada caía e não para longe, como faria um amador. Protegeu a cabeça, junto ao chão, e sobreviveu. Sua agilidade o salvou. Foi atingido por estilhaços, mas nada mais grave. Apertamos a pressão e impusemos o recuo aos inimigos. 61
Slide 62: O vagabundo se contorcia, sangrando como um porco. Avançamos e montamos um 360 graus. Os vagabundos se deram conta de que estavam lidando com o BOPE e fugiram. O moribundo era nosso butim. O tiro lhe abrira a barriga e cuspira as vísceras para fora. Aproximei o cano do fuzil do rosto do infeliz e ele ainda teve força pura pedir que eu não esculachasse. Bandido tem pavor de morrer desfigurado, porque assim não pode ser velado com caixão aberto. Quando ia dar o tiro de misericórdia entre os olhos, naquele ângulo que mata mais rápido, uma moradora abriu a janela e começou a me hostilizar: — Não mata, não mata. A polícia vai matar o rapaz. A polícia vai matar. Assassino. Se tem uma coisa que me deixa puto, é isso. — Fecha a janela, sua vaca, ou morre também, sua puta. Gritei e apontei a arma para cima. A mulher fechou a janela, apagou a luz. Lamento ter de empregar expressões vulgares. Não faria sentido mentir e fingir que, naquela hora, eu tive sangue-frio para dizer: “Minha senhora, se não for incômodo, será que daria pra senhora fazer a gentileza de fechar a janela, porque eu tenho de executar esse cidadão e a senhora está distraindo minha atenção?" A mulher fechou a janela e apagou a luz, sim, mas quem diz que não continuou olhando e, quem sabe, fotografando e filmando? Não dava mais para completar o serviço. O jeito era descer com o porco sangrando. O vagabundo, provavelmente, apagaria antes de chegar à viatura. Nossa única preocupação era o Rodrigues. Ele disse que estava bem, só se ferira nas mãos e nos braços, mas, com explosões, nunca se sabe. Há casos em que a pessoa absorve o impacto e sofre uma hemorragia violenta, mas custa a perceber; vai-se esvaindo sem se dar conta. Puxamos o porco ladeira abaixo, sem fazer nenhum esforço para poupar o filho da puta. Lamento ter de escrever desse jeito, mais uma vez. Foi assim. Quando chegamos ao sopé do morro, enquanto aguardávamos a ambulância, o Alves não se conteve e 62
Slide 63: meteu o pé na massa vermelha, meio esbranquiçada, meio enegrecida, que pendia do ventre aberto do vagabundo. E ainda pronunciou a maldição: — Pronto, assim o filho da puta não escapa. Tem terra, bosta, bactéria e germe pra caralho. Engole essa merda, seu puto. É ruim isso, eu sei, é de mau gosto, é nojento. É o que eu chamo trabalho sujo. Porra, mas aconteceu. O que é que eu vou fazer? Agora você entende por que o Alves ficou da cor do papel quando Naldinho cruzou conosco no fórum, um ano depois. O cara sobre viveu. Quando não é a hora, não é a hora, não adianta. Sniper Como todas as melhores forças de combate do mundo, o BOPE tem seu sniper, aquele sujeito que é capaz de aparar o bigode de um gato com um tiro, a meio quilômetro de distância, mesmo no tumulto de um seqüestro. Nosso sniper era o Duque, sargento Alceu Duque dos Santos. Naquele fim de tarde, ele subiu a favela de Nazareth conosco, determinado a estrear seu 63
Slide 64: novo fuzil Remington 7.62, de alta precisão, com cano flutuante e luneta Leopold. Alcançamos o platô lateral superior do morro, de onde tínhamos uma visão ampla da movimentação na favela. A incursão era preventiva. Tínhamos notícia de que os vagabundos que comandavam o tráfico local pretendiam pôr o bonde na rua e barbarizar o bairro. Com BOPE fungando no cangote, a molecada não seria doida de brincar com fogo. Levamos visores noturnos e nos preparamos para passar a mesmo. Enquanto nos acomodávamos, ocupávamos os pontos estratégicos e planejávamos uma ação saneadora, para nos livrarmos de uma vez dos vagabundos daquela comunidade, o Duque se divertia com seu potente Remington 7.62, lustrado, elegante, girando pra lá e pra cá no bipé que o sustentava. Parecia um menino feliz mijando em direção às estrelas numa noite de verão, depois da primeira transa com a menina mais cobiçada da turma. Lá ia ele, virando para todos os lados a incrível luneta Leopold, acoplada à arma, fazendo pose de herói nacional. — Duque — eu disse —, acho que você andou assistindo muito filme de guerra, ultimamente. Está querendo brincar de bandido mocinho? Só falta fazer a trilha sonora, imitando o som dos projéteis que cortam o céu. O que é que você tanto olha? A favela está tranqüila, não tem ninguém fora de casa. A malandragem já sabe que a gente está aqui. Pode relaxar. — Eu sei, capitão, eu sei. É que daqui, com a luneta, também: dá pra ver perfeitamente a favela do Bugre. Tudo bem. Eu tinha mais com que me preocupar. Chamei o Torres e o Vargas para definir alguns detalhes do plano de ação e me esqueci do nosso sniper. Não passou muito tempo — uma meia hora, quarenta minutos, talvez —, o Duque me chama, agarrado à sua arma, o olho direito pregado na luneta: — Capitão, capitão. Acho que estou com um bandido no alvo. — Mas você está mirando para fora da favela. — Pois é, capitão. Acho que identifiquei um vagabundo lá no Bugre. noite por ali 64
Slide 65: — No Bugre, rapaz. Mas dá pra você ver que é um bandido. Como é que você sabe? — Dá pra saber, sim, capitão. Dá uma espiada o senhor mesmo com seu binóculo. O cara está com um fuzil. Quer dizer, tudo indica que é um fuzil. — Tudo indica ou é um fuzil? — Mais ou menos. — Como mais ou menos? É mais ou menos um fuzil? — É um fuzil. Um fuzil. Dá pra ver o cano longo, direitinho. É fuzil no duro. Olha, só, capitão. Espia. Apontei meu binóculo, me abaixei para ficar ao lado do fuzil, busquei a posição mais adequada, grudei os olhos nas lentes, mas não vi porra nenhuma. Nem fuzil, nem pessoa alguma, mal vislumbrava uma bruma leitosa, o mormaço tardio numa nuvem de areia. — Não estou vendo porra nenhuma, Duque. — O senhor já vai ver, capitão. Ajeita direitinho. Dá uma olhada naquela pedra. Tá vendo aquela pedra pontiaguda, grande, lá no alto? Agora, desce reto, passa pelas casas, a bicicleta, desce mais, morro abaixo, o verde, a terra e a alça de terra... Pronto. Achou? O senhor tá vendo? Ele se esticou ao meu lado, meteu a cara, mexeu nos anéis que regulavam o visor e exclamou: — Pronto. Agora, olha ele lá. Olha lá. Olhei, fixei a vista com o máximo de intensidade. Via uma forma tênue longilínea que parecia se mover, mas eu nem tinha certeza se o vulto era uma pessoa, se efetivamente se movimentava, muito menos se portava uma arma. — Você está doido, Duque. Está vendo coisas. — Não estou não, capitão. É um cara, sim, e está armado. — Deixa o cara, esquece. 65
Slide 66: — Pô, capitão, ele está bonitinho, bem na alça de mira. Deixa eu dar um teco. Vai ser um só. —Que é isso, Duque? Esquece essa bobagem. — Mas, capitão, o sujeito se mexe feito bandido, eu conheço essa gente. É um vagabundo, sim senhor. — Esquece, porra. — Puxa, capitão, ele está bem paradinho, quietinho, parece um passarinho pedindo um teco. É só um. Deixa eu dar uma pancadinha só. — Duque, você já imaginou a merda que daria se você estivesse enganado? E se não houver fuzil nenhum? Se for uma bengala? Se for um pedaço de pau? Se for qualquer outra merda, cacete? Além do mais, dessa distância dificilmente você acertaria o seu passarinho. Porra, muda o disco. Relaxa. Deixa essa merda pra lá. Estica as pernas. Toma um gole d'água. Vem ajudar a gente a finalizar o plano. — Puxa, capitão. Seria um tirinho só. Essa arma é a oitava maravilha do mundo. Não tenho como errar. Olha o filho da puta ali, logo ali, tranqüilo, paradinho. Capitão, ele está pedindo. — Esquece, porra. Não enche o saco, Duque. Pou! Foi um estampido só. Duque parecia tomado por uma compulsão. Parecia um drogado. — Acertei o filho da puta, capitão. Acertei. Está no chão. O cara está no chão. — Puta que o pariu, Duque. Quem foi que te deu a ordem, porra? Não ouviu o que eu disse? — Pô, capitão, é que ele estava pedindo... — Corre lá, caralho. Eu vou com você. Chamei alguns soldados para nos acompanharem. — Vamos ver o que você aprontou. Descemos a favela de Nazareth, numa carreira desabalada. Atravessamos algumas ruas. Chegamos à base da favela do Bugre, que parecia pacificada, seja porque estávamos ali por perto, seja porque tínhamos leito, uns dias antes, um trabalho do tipo antibiótico tarja-preta: 66
Slide 67: de amplo espectro. Não deixáramos pedra sobre pedra. Se bem que, se o Duque estava certo, alguma semente talvez tivesse resistido e já começasse a se desenvolver novamente — mas isso era sempre assim. Subimos com cautela, profissionalmente, mas em alta velocidade. Eu já havia suado o equivalente ao índice pluviométrico daquele mês inteirinho. Finalmente, chegamos à área onde o Duque supostamente atingira seu alvo. Um bolo de gente cercava um sujeito estirado. Todo mundo correu, quando nos viu. O cara estava vivo, chorava e apertava a região pélvica. Alguns metros adiante, os bagos boiavam numa poça de sangue, espalhados, estilhaçados. Ao lado do pobre coitado, o fuzil que só o Duque tinha visto. Visto ou intuído, sei lá. A moral da história parecia ser essa mesmo: para o sniper, mais importante que a pontaria é a intuição. Pensei que o Duque fosse tirar uma onda e gozar da minha cara — entre nós o companheirismo era muito mais profundo e antigo do que a relação hierárquica. Mas ele estava inconformado: — Porra, capitão, que merda. Ainda não me acostumei com essa arma. Que merda. Sacanagem com o cara. Olha só que cagada. Não era isso que eu queria fazer. Se eu acerto, o sujeito não ia nem sentir. Caveira Quando vejo uma autoridade da área de Segurança Pública de "conversa fiada na televisão, confesso que fico puto. Em geral, esses dirigentes são políticos, uma turma que costuma bater no peito e bradar discursos moralistas, na maior hipocrisia. Quando o problema são os bandidos, o papo é um só: "Vamos apurar e punir com rigor, doa a quem doer." Quando o alvo 67
Slide 68: somos nós, os policiais, a desconversa é mais ou menos assim: "Vamos afastar imediatamente quem estiver desonrando o uniforme que veste. A integridade e a história da instituição têm de ser preservadas." O pior é que nossos superiores hierárquicos, nas próprias polícias, freqüentemente agem como políticos. E até viram políticos, no final da carreira. Tudo bem, nada contra os políticos. Eles são como os policiais, honestos ou desonestos. Cada caso é um caso. Não dá para generalizar. Mas admito que chego a ficar enojado quando vejo algumas farsas e manipulações demagógicas. O que mais me revolta é a hipocrisia. Ela, às vezes, é fatal. Outro dia, trocava idéia com um amigo, o Franco, e esse assunto veio à baila. Acabamos nos lembrando de um caso revelador. A conversa começou com o Franco me dizendo o seguinte: — Porra, cara, vai ficar o maior barato. Vou fazer aqui, no braço, perto do ombro. — Vai ser o quê? Uma sereia? Um coraçãozinho flechado? O Duília? — Qual é, meu irmão? Não fode. Vai ser coisa de sujeito homem. — Uma âncora... — Que âncora, rapaz. Não sacaneia, porra. Vai ser uma caveira. Claro. — Esse negócio de tatuagem pra mim não tem sentido. Pra que a caveira? — Muita gente do BOPE tá tatuando a caveira. Já recebi telefonema de colegas que se tatuaram, no maior orgulho. É importante, cara. É nosso orgulho, nossa honra. Fica pra sempre. Assim como ser membro do BOPE. É uma coisa que fica pra sempre na gente. É como se fosse uma medalha. É a nossa bandeira. O tempo passa, a gente envelhece, sai do BOPE, sai da polícia, mas a história não se apaga. O orgulho fica. E quando a gente se encontrar, um dia, já reformado, vai se lembrar com orgulho. É o nosso símbolo, porra. A nossa religião. — E se, de repente, você descobrir que um punhado de filho da puta manipula o seu orgulho? Vai lavar a caveira pra não fazer papel de babaca? da 68
Slide 69: Franco me olhou meio puto, meio curioso. Expliquei: — Viu o jornal, hoje? — E daí? — Viu ou não viu? — Vi. — O que é que você acha? — Sobre o quê? — O tiro, porra. A tragédia. Sei lá como chamar. Lá em Vigário. Não viu aquele menino baleado pela equipe do capitão Plácido, pelos nossos bravos companheiros do BOPE? — O artista? — Aquele cara é legal pra caralho. — Eu sei, conheço ele. Todo mundo admira ele, lá na comunidade. Ele é um super exemplo pra todo mundo. E canta bem paca. — Então, porra. O que é que você acha? — Acho triste. Uma coisa horrível. Deve ter sido um acidente, uma fatalidade. — Fatalidade porra nenhuma. Conversei com o Plácido, hoje de manhã. — Foi proposital? — Claro que não. Ele tá arrasado. Mas é como se tivesse sido. No fundo, pode-se dizer que sim, foi intencional. — Não tô entendendo. — Você sabe que o pessoal da Secretaria de Segurança está louca atrás do Matias Matagal. A sociedade quer sangue, quer vingança. O governador cobra a prisão do vagabundo a qualquer custo, de qualquer maneira. Cobra todo dia, toda hora. O secretário diz que vai ficar maluco; que não agüenta mais a pressão. Você pode imaginar o sufoco em que estão o comandante-geral da PM e o chefe da Polícia Civil. — Posso imaginar. —Numa hora dessas, neguinho esquece tudo: técnica, lei, metodologia de trabalho, tudo. Quer resultado. Resultado a qualquer preço. 69
Slide 70: — Depende do resultado, cacete. Arrebentar a perna de um cara que não tem nada a ver com porra nenhuma, e que é um ídolo da comunidade, é um resultado de merda. — Aí é que está o ponto. Você matou a charada. O que aconteceu lá em Vigário, foi, literalmente, um tiro no pé. SEXTA-FEIRA, NOVE DA NOITE, GABINETE DO COMANDANTE DO BOPE O telefone vermelho interrompe a reunião do coronel Rubilar com quatro oficiais e o subcomandante. Assistiram juntos à fita do Jornal Nacional e discutiam planos alternativos para uma operação emergencial especialmente delicada. Metade do noticiário fora ocupado pelo sepultamento do empresário carioca, seqüestrado e assassinado no cativeiro, depois de barbaramente torturado. A comoção tomou conta da cidade, do estado e do país. O Rio virou a capital da violência. Houve até leitura solene de editorial exigindo o fim da impunidade. — Rubilar, o que é que aconteceu? Fui informado de que o BOPE ainda não chegou a Vigário Geral. O governador não pára de me ligar. Está na maior ansiedade. Ele também foi informado pela Polícia Civil de que o Matias está em Vigário. O comandante-geral tinha me garantido que o BOPE já estava a caminho. — Secretário, infelizmente, não podemos incursionar na favela a uma hora dessas. Hoje é sexta-feira. Seria uma irresponsabilidade. Tecnicamente, não há condições. Hoje é dia do baile funk. Uma quantidade grande de gente circula na comunidade. Uma invasão nessas condições só pode acabar em desastre. — Desastre é lavar as mãos, coronel. Para que serve o BOPE? — Secretário, com todo respeito, o BOPE serve justamente para resolver problemas, não para criar mais um. A gente tem a responsabilidade de servir com competência à segurança pública. A última coisa que o BOPE quer é lhe dar dor de cabeça. O senhor e o governador já têm problemas 70
Slide 71: demais. A sociedade não agüenta mais e é claro que a gente tem de agir. O BOPE não se nega a intervir, nem se furta a arriscar a vida dos nossos homens. Fomos treinados para cumprir as missões mais difíceis. Mas não posso, não podemos ser cúmplices de uma irresponsabilidade. Eu estaria sendo mau conselheiro se lhe dissesse que a ação é viável. Não é, secretário. Lamentavelmente, não é. E o que lhe afirmo se fundamenta no exame estritamente técnico da situação. Estou dizendo ao senhor o que já disse ao comandante-geral da Polícia Militar. Se o senhor julgar pertinente, posso repetir ao próprio governador. Posso explicar tudo, tecnicamente. — Tecnicamente, Rubilar, tecnicamente? Mas o que é isso? Parece que você está em outro mundo. Será que você não está entendendo a gravidade da situação? Rubilar, o governo está acuado. A população está desesperada. O governo federal está estudando a hipótese de uma intervenção. Uma intervenção, Rubilar. Você sabe o que isso significa? — Sei, secretário. Eu compreendo sua angústia... — Como é que você pode vir com argumentos técnicos? O desespero é técnico? A intervenção federal é técnica? O assassinato foi técnico? Não quero saber de técnica nenhuma. A única técnica que interessa é o resultado. Quero o vagabundo, o Matias Matagal; quero esse monstro vivo ou morto. É o que o governador determinou. O que a população deseja. Rubilar, eu ordeno o imediato deslocamento do BOPE para Vigário Geral. — Secretário, por favor, compreenda minha situação. Não se trata de afrontar sua autoridade ou a do governador, nem a do comandante-geral. O que eu não posso é dar uma ordem que vai provocar um desastre. O Batalhão de Operações Policiais Especiais é diferenciado, secretário, não só pela força, mas também pelo treinamento. O que nos distingue não é a força, mas a técnica, porque a força, quando é eficiente, é uma decorrência da técnica. Por isso, o BOPE, em combate, fere menos e mata menos; é menos ferido e morre menos. Sei que o senhor sabe disso tudo, mas estou tomando a liberdade de compartilhar essa reflexão, porque minha resistência a deslocar meus comandados é uma manifestação de responsabilidade. 71
Slide 72: — É uma manifestação de insubordinação, isso sim. Vamos deixar as coisas em pratos limpos, Rubilar. A rigor, eu não deveria nem estar falando com você. Pela hierarquia, eu só falaria com seu superior, o comandantegeral da Polícia Militar. Telefonei pra você por deferência ao BOPE. Parece que você não compreendeu meu gesto, nem está se dando conta do que é que está em jogo. Sendo assim, só me resta ser direto: sou eu ou você. O Matias está em Vigário e é necessário caçá-lo. Se você não for, o BOPE vai com outro comandante. Você tem trinta minutos para invadir Vigário. O secretário desliga. Rubilar pousa o fone no gancho e grunhe alguma coisa inaudível. Os oficiais e o subcomandante continuam em silêncio, esperando as palavras que não vêm. O coronel tira com força o fone do gancho e disca o número do gabinete do comando geral da PM. — Comandante, sou eu, Rubilar. Ligou. Acabei de falar com ele. É por isso que estou ligando pro senhor. Ele quer o BOPE em Vigário, agora. Eu disse a ele o que já tinha dito ao senhor, mas não teve jeito. Comandante, por favor, isso é muito sério. O senhor quer carregar uma catástrofe em sua biografia? Eu não quero. Meus oficiais estão de acordo comigo. Qualquer profissional sério, comandante, sabe que não faz sentido uma operação improvisada a toque de caixa, de uma hora para outra, em meio ao baile da comunidade, com centenas de pessoas transitando. Não é isso que ensinamos aos recrutas. O BOPE não pode ser instrumento de uma aventura irresponsável, comandante. Por favor, fale com o secretário. Fale, novamente. Diga que é uma questão técnica. Por que o senhor não tenta um contato com o governador? Rubilar ouve em silêncio. Rosna um último "Sim, senhor", e desliga. Volta-se para os subordinados que acompanham a cena com a respiração quase suspensa e diz: — Política. O comandante-geral disse que não pode fazer nada. Que a decisão é política, não é técnica. Foda-se a comunidade. Foda-se o BOPE. Po-lí-ti-ca. 72
Slide 73: SÁBADO, 11 DA MANHÃ, CORREDOR DO HOSPITAL Familiares do cantor se misturam a jornalistas na expectativa de uma notícia do centro cirúrgico. Consternação e revolta. As vozes se confundem. Ouve-se um relato: — Ele estava no carro quando o blindado do BOPE entrou na favela. Contou que, quando viu aquele farol do blindado focalizando o carro, mandou a namorada ficar imóvel e abriu lentamente a porta, gritando que estava saindo, na boa. Muita gente passava correndo pra tudo que era lado. Quando pôs o pé na rua e começou a descer do carro, veio a rajada. Ele só sentiu a pancada violenta e o calor úmido do sangue se espalhando debaixo da calça. Ainda teve tempo de avisar à namorada que tinha sido atingido. Ela não acreditava. Se recusava a acreditar. Ele desmaiou antes de sentir dor. Foi um inferno. Se Deus quiser, vai recuperar os movimentos e vai voltar a andar. Mas os outros dois meninos nem chegaram ao hospital. Morreram junto ao alambrado, perto da Casa da Paz. O noticiário da rádio mais popular da cidade informa: "O comandante do BOPE acaba de ser destituído por determinação do secretário de Segurança. Segundo o porta-voz da secretaria, favelado também é cidadão; a comunidade de Vigário Geral merece o mesmo tratamento que a polícia confere à população do Leblon." Em entrevista por telefone, o secretário afirma: "...faltou técnica aos policiais do BOPE." Política O coronel Leme era um político nato. Mais que isso: um diplomata. Seus colegas brincavam, insinuando que ele agia, 24 horas por dia, como o 73
Slide 74: ministro de relações exteriores de si mesmo. Era polido, afável, prudente e, sobretudo, sagaz nas estratégias de ascensão na carreira. Aprendera a dizer o que o interlocutor quisesse ouvir. O que não é fácil. Freqüentemente, requer agilidade mental e habilidade para antecipar expectativas alheias. Claro que, às vezes, buscando harmonizar o inconciliável, acabava desagradando a todo mundo. Quando comandava um batalhão da capital do estado, foi chamado a um trailer que a PM fixara na entrada do Maracanã. Domingo de sol, bandeiras em guerra: era um clássico do futebol carioca. A multidão que lotava o estádio nem sempre portava só a camisa do clube e o espírito armado. O magricela detido no trailer era prova disso. Trazia, debaixo da camiseta, uma pistola Taurus, nove milímetros, .99, de uso exclusivo das Forças Armadas. O cabo e o sargento que o prenderam o entregaram ao major Roger com aquela satisfação de quem acha agulha no palheiro. O homem se chamava César Castro ou Carvalho, uma coisa assim. Nome de gente graúda. Peixe grande. Podia não ser vagabundo fichado ou bandido famoso, mas não era nenhum bagrinho. Os policiais mostravam a si mesmos — e a seus superiores — que seu trabalho eu importante, sério, honrado e competente. O nome disso é orgulho... E isso não tem preço. César, o magricela, insistiu com o major: precisava telefonar para um amigo que resolveria o problema. Usou o próprio celular. Falou longamente com alguém. Parecia mais enrolado com o interlocutor do que com a polícia. Uns quarenta minutos depois, o trailer recebeu uma visita ilustre: chegou o deputado. Simpático, apertando mãos. Uma celebridade. Bonitão e seguro. Tinha pressa. Não podia perder o jogo. Seus votos vinham do futebol, aquela usina de paixões e interesses, que fervia os nervos das dezenas de milhares de torcedores apinhados nas arquibancadas, gerais e cadeiras do velho e nobre Maracanã. Exigiu a presença do coronel Leme. Precisava falar com o coronel, imediatamente. Um deputado não negocia com majores. Leme entrou esbaforido no trailer: — Deputado, que honra receber sua visita. Um prazer revê-lo. 74
Slide 75: O tema era o magricela. "Para que prender uma pessoa de bem", indagava o deputado, em tom de discurso doméstico. Sim, ele garantia que, apesar da arma absolutamente ilegal e inexplicável, o cidadão era um sujeito de bem. — Mas deputado, por favor, compreenda, o crime está capitulado no Código Penal. É muito grave. Não é uma arma qualquer. Como é que eu vou libertar o homem? Como é que posso não conduzir o caso à delegacia para o registro da ocorrência? Um inquérito tem de ser aberto. O deputado subiu o tom. Insistiu. Repetiu-se. Reiterou cada ponto do argumento: tratava-se de um homem de bem. Ele conhecia o passado do magricela, seus parentes, sua vida. Empenhava nesse testemunho a sua palavra. O que estava em jogo, afinal, era sua palavra, sua credibilidade. Será que o coronel poria em dúvida o depoimento de uma autoridade, que era, além disso, um fraterno amigo da Polícia Militar, um dileto aliado do comandante-geral e até, ousaria afirmar, um amigo e admirador do próprio Leme? O coronel começou a ponderar, vacilar, gaguejar. Mesmo assim, ainda tentou resistir: — Deputado, contar com seu apreço é um privilégio para a corporação e para mim mesmo, pessoalmente. Jamais poria em dúvida seu testemunho. No entanto, o fato, o senhor compreende, sendo assim grave, torna o caso um pouco delicado. O senhor entende que não estamos apenas nós dois, diante desse fato. Meus subordinados cumpriram o dever e detiveram o seu amigo. O senhor pode imaginar o que eles pensariam de mim, da própria instituição a que servem... Sei que o senhor sabe do que estou falando e entende a minha situação. Ninguém mais do que eu deseja atendê-lo, entretanto, minha posição, o senhor entende... O deputado não recuou. Pelo contrário, mostrou-se desconfortável e um pouco irritado. Usou o adjetivo "inflexível", recorreu à expressão "má vontade" e chegou a admitir que o quadro talvez já começasse a merecer um qualificativo extremo: "ingratidão", diante de tanto que fizera pela PM, na Assembléia Legislativa. 75
Slide 76: O coronel pediu-lhe licença por um instante e chamou Roger. — Major, estamos ante um caso peculiar que requer tato. Temos de pensar, acima de tudo, na instituição. Ela é mais importante que uma ou outra prisão. Esse varejo não leva a nada mesmo. Eu estaria sendo irresponsável se permitisse que se criasse uma situação constrangedora para a corporação, na Assembléia. Além do mais, o deputado deu a sua palavra. Garantiu que o sujeito não é bandido. Então, major, é melhor o senhor determinar ao sargento e ao cabo que tomem as providências para liberar o sujeito. Roger, educadamente, pediu ao coronel que passasse a ordem, diretamente. Não concordava com aquele procedimento e não aceitava desmoralizar-se com os subordinados. Claro que não respondeu ao coronel com essas palavras. Mas transmitiu a mensagem, com jeito. Tanto que Leme viu-se obrigado a comunicar ao sargento e ao cabo, diretamente. Engoliu o embaraço em seco, empertigou-se e escondeu a vergonha sob a máscara da autoridade. Os subordinados tiveram uma aula prática de política. Depois da tempestade, a bonança. Por isso, Leme sentiu-se leve quando voltou ao deputado para dar-lhe as boas-novas. Era o momento de colher os frutos. Conquistaria para sempre a simpatia do deputado. Nunca se sabe qual será o futuro. Não é demais precaver-se. Quem sabe, um dia, ele não seria indicado para o comando geral ou mesmo para a secretaria? O apoio político seria imprescindível. — Deputado, em homenagem à nossa amizade, à sua integridade pessoal, às suas reconhecidas contribuições à Polícia Militar do estado do Rio de Janeiro, dei um jeito na situação: o rapaz está livre. Já determinei a mudança do registro. Oficialmente, o episódio não existiu. A arma será classificada na lista das apreensões e pronto, o senhor já pode aproveitar seu domingo. O sorriso triunfante do coronel tombou, alvejado pela reação do deputado: Leme não tinha entendido nada. O deputado precisava levar consigo a arma. A arma era tão importante quanto o magricela. O representante do povo levantou a voz. Classificou a solução que Leme 76
Slide 77: construíra como uma verdadeira desconsideração, um desplante. Quando o deputado descobriu que não havia mais o que fazer, porque a arma já tinha sido despachada para o setor responsável, saiu com rispidez. O magricela seguiu-o, e olhou para trás, antes de bater a porta do trailer. O coronel sofrerá a maior derrota dos últimos anos. Uma derrota que não cabe no Maracanã. Como encarar Roger, o sargento e o cabo? Como evitar que a história se propagasse pela instituição? O que fazer para prevenir o contraataque do deputado? Sentiu-se mais vulnerável, em seu bunker, do que os 100 mil torcedores que lhe cumpria proteger. 0 Destino no Meio da Rua 77
Slide 78: A PM nem sempre foi o BOPE para mim, ainda que nunca tenha tido dúvidas quanto à minha vocação e sempre tenha sonhado com o dia em que seria aprovado no teste e receberia minha caveirinha. Durante vários anos, cumpri minha trajetória como policial militar, em diferentes batalhões no Rio de Janeiro. Um dos momentos mais importantes de minha vida ocorreu na época em que estava lotado no 23o. BPM, responsável pela área que vai do Jardim Botânico à Gávea, passando por Lagoa, Ipanema e Leblon, sem esquecer Rocinha, Vidigal e adjacências. O dia D aconteceu quando o comandante do 23º determinou que eu me deslocasse com urgência para a rua Marquês de São Vicente: "Manifestação de estudantes da PUC bloqueando o trânsito e provocando engarrafamento monstro." A tropa sob minha responsabilidade não era lá flor que se cheirasse, o que me preocupava, sobretudo porque, do outro lado, estavam as flores da burguesia carioca — aquelas maravilhosas patricinhas da PUC — e os mauricinhos que cheiram pó, no sábado, e fazem passeata pela paz, no domingo. O comandante me alertou: — Veja lá, tenente, o que vai me aprontar. Vai devagar. Se você descer o cacete nos herdeiros da elite carioca, sou eu que vou pagar a conta. Cuidado. Na PUC só tem padre e sobrenome. Segura o seu pessoal. Abre a rua e não faz confusão. "Sim, senhor", foi o que me ocorreu dizer, enquanto eu pensava na merda que é o nosso país — com o perdão da heresia antipatriótica. Aliás, se meu pai fosse vivo eu não teria coragem de escrever isso, assim, com essa franqueza. Mas, o que fazer? O país é ou não é uma merda? Se os pobres desdentados e negros descem o morro e fecham a avenida, a ordem é botar pra foder, baixar o cacete e, se o tempo fechar, atirar antes e perguntar depois. Agora, se são os filhinhos de papai da Zona Sul, lourinhos, com sobrenome de rua, o tratamento tem de ser cinco estrelas, policiamento vip, 78
Slide 79: até porque, se o tempo fechar, a corda arrebenta do nosso lado... Naquele caso, do meu lado. Você pode imaginar meu humor, descendo da viatura e mandando minha tropa se desarmar e ficar à distância. Fui sozinho, andando na direção dos líderes do movimento. Meu propósito era mandar aquele bando de veadinhos e garotas histéricas sair da rua. Porra, aqueles filhos da puta têm casa própria, roupa lavada, futuro garantido, universidade privada de primeira qualidade e ainda querem encher o saco de quem precisa trabalhar, interrompendo o trânsito, se esgoelando para ecoar os slogans mais ridículos. Se ainda fossem subversivos da época da ditadura, se pelo menos arriscassem a vida, sacrificassem o conforto, pegassem em armas... É verdade que eu continuaria odiando eles todos... Pensar nessas coisas me fazia lembrar que foram aqueles covardes que acabaram com a vida de meu pai e, por tabela, destruíram a vida de minha mãe. Mas não era uma boa hora para pensar nisso. Tudo tem sua hora e seu lugar. Ali, quanto menos eu pensasse nessas coisas, melhor. Tinha de manter a calma e controlar a arruaça, sem dar um tiro. Não ia ser fácil. Se um de meus policiais erguesse o braço, era certo que um fotógrafo pularia da primeira árvore, bem no meio da cena, e o flagrante da violência policial estaria nas manchetes do dia seguinte — e eu é que ia acabar me fodendo. Eu, o comandante do batalhão e o comandante-geral da PM, nessa ordem. Começando por baixo, é claro — isto é, por mim. Portanto, era bom esfriar a cabeça. Andei firme, exorcizando os fantasmas que me azucrinavam a cabeça. Procurei focalizar a mente na missão. A missão. Olhando e caminhando com firmeza, começando a analisar a situação e avaliar as alternativas táticas disponíveis, agora que me aproximava da linha de frente da passeata, minha atenção foi atraída por uma figura que, de relance, parecia familiar. Ele se destacava e desaparecia, engolido pela turba com bandeiras e faixas. Fixei o olhar e identifiquei, entre rostos, panos, letras, gritos e buzinas, uma silhueta definitivamente conhecida: "Peraí, não é o Nelinho? Porra, é o Nelinho. Claro que é ele, pensei. Era. O Nelinho em pessoa, ele mesmo, com aquele sorrisão escrachado e malandro, os dentes separados, o cabelão 79
Slide 80: escorrido aliás, seu grande trunfo com as meninas do cursinho. "Porra, é o Nelinho". Era ele o líder daquela bosta. Quem sabe, ele quebra meu galho e me ajuda a resolver essa encrenca? "Caralho, eu devia ter desconfiado. Claro, só podia ser. Ele adora uma sacanagem. Adora uma confusão. Aposto que só se meteu nessa merda de passeata pra comer alguma beldade. Mas como é que eu laço pra abordar um grande amigo, um velho chapa, no meio do exército inimigo, sendo que o amigo não é mais nem menos que o general, o manda-chuva da tribo inimiga? Se eu chamo o líder dos estudantes de Nelinho, me desmoralizo. Se chamo de Nélio, pior ainda. Ele vai se sentir insultado. Vai ficar puto, com razão. Vai deduzir que fiquei besta, não reconheço mais os amigos, mudei, virei autoridade, essas coisas. Se eu disser senhor Nélio Braga, aí eu é que vou me sentir ridículo. Imagina, chamar o Nelinho de seu Nélio Braga. Onde já se viu?" De repente, ele bateu os olhos em mim e correu em minha direção. Estávamos a uns 50 metros um do outro. A passeata avançava lentamente, ondulando ao som dos hinos favoritos da juventude, no sentido da Gávea para a praça Santos Dumont, no Jóquei. Eu caminhava em sentido contrário. O trecho inicial da Marques de São Vicente, para onde seguia a multidão, permanecia vazio, porque o trânsito fora desviado lá atrás, no Jardim Botânico. Os carros que seguiam no mesmo rumo da passeata não tinham escolha senão acompanhá-la, a passo de cagado. Por isso, Nelinho não encontrou obstáculos e pôde correr para me abraçar , no espaço deserto. As testemunhas mais próximas se comprimiam nos bares, nas lojas e nas janelas dos prédios. Meus comandados tinham ficado a uns 200 metros, mais ou menos na esquina da rua com a praça. — Cara, cara, puta que o pariu, não acredito — ele gritou, vindo em minha direção, com a maior alegria. — Puta merda, é você. Que barato! Me dá um abraço. — Não é bom, Nelinho. Agora, não. Não vai pegar bem nem pra mim nem pra você. Depois a gente toma uma gelada e mata a saudade. 80
Slide 81: — Porra, cara, que barato, que legal te ver. Como é que você está? Você sumiu, não dá mais notícias, não freqüenta mais a praia, não vai ao futebol, desapareceu das festas, não responde aos recados. Porra, que saudade. Como é que está a dona Luiza? E o Carlão? — Tudo na santa paz. Eu ando mesmo meio desaparecido. Muito trabalho, você sabe. Mas você parece que está ótimo. Cercado de mulher bonita, pra variar, nesse cortejo de patricinhas. — Pô, que é isso, cara? O papo é sério. A luta é justa. Aliás, você devia tirar o uniforme e aderir... Brincadeira. O cabo Anselmo já fez isso e deu no que deu... — Quem? — Deixa pra lá. — Nelinho, pô, você bem que podia me dar uma força. Já que você está com a maior moral, você bem que podia me ajudar a liberar um lado da pista. Ficaria tudo resolvido, sem problema nenhum. Eu cumpriria minha missão, numa boa, e você mostraria que é um bom negociador, garantindo a continuidade da manifestação e tudo o mais. — Deixa eu falar com os caras. Acho que não vai ter problema, não. Mas vê se não some de novo. Promete que vai me ligar. Eu continuo no mesmo lugar, na casa de papai e mamãe, como você costumava dizer... Enquanto conversávamos, a passeata avançava em nossa direção. Quando concluímos nosso acordo, estávamos muito próximos da linha de frente da manifestação. Tanto que Nelinho, que voltou correndo para a linha de frente da passeata, teve de puxar uns três ou quatro pelo braço para a lateral da rua e andar mais rápido do que a massa, os braços abertos, apoiados nos ombros dos parceiros, Era o único jeito de criar uma espécie de concha para a deliberação emergencial. Quando faltavam poucos metros para a multidão me envolver, virei de costas para a linha de frente e voltei apressado, rumo ao início da rua, onde estava minha tropa. Nelinho me deixara sozinho no meio da pista e, por alguns instantes, minha questão passou a ser estritamente simbólica: se caminho ao lado da liderança, dou a impressão de que estou ajudando a 81
Slide 82: puxar a manifestação; se continuo parado, sou engolfado pela massa e desapareço, correndo o risco de não merecer um tratamento, digamos, hospitaleiro, no interior da turba; se ando de costas, encarando a primeira fileira, faço um papel patético, além de acrobático — com os riscos de levar um tombo e presentear os fotógrafos com a imagem do dia: a queda hilária da Segurança Pública, aos pés dos estudantes desordeiros. Nelinho encerrou as tratativas e voltou correndo: — Tenente, tenente. Parei e girei o corpo. A passeata prosseguia sua marcha. Meu amigo estendeu a mão, fingiu formalismo e encenou para as câmeras da imprensa o que poderia ser interpretado como a celebração de um acordo. Piscou o olho e liberou uma das pistas. Quer dizer, para todos os efeitos, quem liberou fui eu. Os méritos eu acabei capitalizando, porque, afinal, a autoridade era eu e foi minha chegada ao evento que mudou o quadro, em benefício da segurança pública, como disse um repórter, segundo o relato que minha mãe fez do que ouvira no rádio. Preferi não lhe contar a história do Nelinho, para não desvalorizar o filho de dona Luiza. Quando o trânsito começou a fluir pelo lado esquerdo da pista, um senhor se aproximou de mim com um ar de irmão mais velho. — Tenente, permita que me apresente. Sou o padre Raul de Matos, pró-reitor da PUC. Parabéns pela condução do conflito. O senhor agiu com grande destreza e sensibilidade. Juro que ele falou destreza. Não estou exagerando. E continuou: — Eu percebi que o senhor dialogou com as lideranças do movimento estudantil, ouviu os rapazes e as moças, ponderou, argumentou, negociou uma solução e produziu um resultado eficiente. Na verdade, tenente, o senhor deu uma aula de gerenciamento de crise, uma lição sobre o comportamento justo e eficaz da polícia na democracia. O senhor, tenente, está encarnando a polícia do futuro, a polícia para a cidadania, que garante direitos e liberdades. Que diferença, tenente, que diferença do comportamento que nos habituamos a testemunhar todos os dias no Rio de 82
Slide 83: Janeiro. Aqui não esteve a repressão do Estado, mas a proteção da cidadania. Parabéns, tenente. Enquanto ele falava, eu sorria um pouco constrangido, porque é sempre bom receber elogios. Mas não pense que renunciei ao meu espírito crítico, não. Aquela arenga do padre eu sei muito bem aonde conduz. De todo modo, me surpreendi com o que ele disse, depois de toda a xaropada. — Tenente. Você está estudando? — Eu tinha vontade, padre, mas, sabe como é... — O senhor gostaria de fazer uma faculdade? — Meu sonho é fazer Direito, padre. — Então, combinado. Pode me procurar. Toma, aqui, meu cartão. Não deixa de me procurar. A PUC faz questão de lhe oferecer uma bolsa integral para o curso de Direito. Agradeci, guardei o cartão e continuei cuidando do trânsito e da ordem pública, na rua Marquês de São Vicente, como se nada tivesse acontecido. Mas minha cabeça voou para longe. Confesso que tive vontade de chorar, sair gritando, abraçar meus companheiros. Não sei se já tinha dito isso. Acho que não. Fazer Direito era meu sonho, Sempre foi. Não era exagero o que disse ao padre. Era a mais pura verdade. Um sonho adiado por falta de grana, os problemas em casa. no meu pai. Imaginei meu pai ouvindo a notícia. Passei a manga do uniforme no rosto. Muita fumaça, cheiro de gasolina. A poluição irrita os olhos. E deixa a gente emocionado pra caralho. 83
Slide 84: Bom Aluno Não há guerras só no mundo externo, esse lugar objetivo em que as coisas ocupam espaço e cumprem as leis da natureza, independentemente da nossa vontade. Há também os conflitos internos, que se travam dentro de nós, dividindo a nossa vontade ao meio. O campo de luta é o espírito, ou a mente, tanto faz. Tanto faz em termos, porque justamente o que caracteriza esse jogo íntimo é o balanço das palavras, com seus significados liqüefeitos, esponjosos, vaporosos, fluidos: sua imprecisão e seus ardis. Digo isso porque foi assim que vivi o ingresso na PUC; foi uma batalha campal. A praça de guerra era eu mesmo. De um lado, a vontade de realizar o sonho da universidade, o curso de Direito; de outro, a vontade de adiar a universidade e o curso de Direito. Talvez você compreenda o que eu quero dizer, colocando-se em meu lugar. O dia-a-dia de um policial é pesado. Um corre-corre alucinado. Exercícios físicos, deslocamentos, convocações, sirenes, pressões, riscos, estresse, confrontos, levar esporro de cima, dar esporro pra baixo, fingir sempre que está no comando de tudo. Combinar esse cotidiano de Indiana Jones tupiniquim com a rotina de estudante — a paisagem mental das leituras, o ritmo lento das aulas, a curva sinuosa das divagações, a nebulosa dos conceitos — não é mole. Por isso, pressionado pelas tarefas de policial, as pequenas tarefas de cada semana, fui adiando, postergando, retardando, empurrando com a barriga o momento tão esperado — e temido — da matrícula, sem nenhuma razão palpável, um ano se passou entre meu encontro com padre Matos, na rua Marquês de São Vicente, e as providências práticas que, finalmente, transformaram seu convite na formalização de minha matrícula. O que de fato aconteceu foi o seguinte: eu sabia que seria foda fazer o meu trabalho à noite, numa favela; pisar, de madrugada, no fio da navalha entre a vida e a morte; e passar a manhã na PUC, ouvindo neguinho falar 84
Slide 85: mal da polícia. Eu sabia que aquela não era a minha turma, ainda que meu desejo talvez fosse parecido com o desejo dos futuros colegas. Até chamá-los de colegas soa mal, soa errado. No fundo, pensando na PUC, eu me sentia traindo meus companheiros de corporação. Sei que não há nada errado em querer estudar, pelo contrário; sei que estudar é a coisa mais normal do mundo, que meu desenvolvimento intelectual e meu aprimoramento cultural e toda essa baboseira poderia ser útil até mesmo para a polícia etc. etc. Não há nada errado, não tem nada de mal, mas alguma coisa não bate bem, não rima, não dá para assimilar. Não sei exatamente o que é. Também não interessa. Vamos deixar isso de lado que já estou dando muitas voltas e vou acabar ficando zonzo; ou você vai achar que no próximo capítulo eu vou fazer psicanálise... Porra, veja lá o que pensa de mim, ok? 85
Slide 86: A Mulher do Almeida Copacabana me engana que eu gosto. Difícil resistir ao charme do bairro e aos encantos clandestinos. Os policiais convencionais que se estabelecem no 19º Batalhão, cedo ou tarde, se lambuzam na fartura de mulheres, estrelas, babados, shows, bebidas, strip-teases e línguas estrangeiras, turbinados pelo branco e pelo preto, conforme o gosto do freguês e a disponibilidade dos aviõezinhos, que formam uma rede de apoio mútuo com camelôs, flanelinhas, leões-de-chácara e travestis. Pó e fumo, cocaína e maconha, branco e preto, o bairro alucina à noite. As meninas que trabalham nas boates e saunas costumam manter uma relação ambígua com os policiais. Gostam deles, sobretudo dos mais jovens, porque se sentem atraídas e protegidas; mas temem as chantagens. Sentem-se sob o risco constante de verem-se constrangidas a transar com o policial e não receber o pagamento nunca. Como é que iriam cobrar desses fregueses especiais? Alguns policiais convencionais — devo admitir que certos caveiras também são assim — têm o espírito fraco, a carne mais fraca ainda, ou são românticos, e se apaixonam pelas prostitutas. Foi o que aconteceu com o sargento Almeida. Gordo, baixinho, muito feio, de meia-idade, conquistou um mulherão. "A mulher do Almeida..." "Ah! a mulher do Almeida". Esse era o papo no refeitório, no plantão, nas rondas, nas patrulhas. "Que mulher, tem o Almeida!" "Já viu a mulher do Almeida?" A mulher do Almeida desbravou territórios, conquistou espaços, colonizou fronteiras e ocupou, soberana, a fantasia coletiva da tropa. Almeida não deixava faltar nada ao colosso que trazia na coleira. Todo o dinheiro que ganhava ia direto para as despesas da mulher. Mimava a moça a leite e mel, como uma deusa amestrada. Tudo era ela, ela sempre, 86
Slide 87: ela antes, ela acima de tudo, ela em primeiro lugar. Comprou um carro decente. Modesto mas decente. Ela não podia trafegar naquele Dodge caindo aos pedaços, que fora a parte que coubera ao sargento, no espólio do primeiro casamento. Um apartamento no nome dela. Bom apartamento. Simples, mas confortável. No Flamengo. Almeida preferia mantê-la afastada de Copacabana tanto quanto possível, pelo menos durante o dia, ainda que seu acordo conjugai garantisse o respeito à vida profissional da amada. De madrugada, atendido o desejo do último cliente, ela telefonava ao Almeida, porque ele fazia questão de buscá-la onde ela estivesse. Tinha prazer, enchia-se de satisfação, dizia sentir-se útil como um marido provedor levando a mulher para casa depois do batente. Ele saía cedo. Ela dormia até as duas da tarde. Um dia, Almeida foi chamado às pressas. Estava supervisionando a oficina do seu batalhão, o 19º, quando recebeu o recado. A mulher estava na linha, queria falar com ele. Eram dez horas da manhã. Coisa rara, raríssima. Chegou pálido ao telefone — era um tempo em que os problemas humanos se acomodavam ao ritmo da telefonia fixa. Nada grave, graças a Deus. Ela só estava precisando do carro, porque tinha marcado hora no salão de beleza e queria fazer umas compras no shopping. — Imediatamente, querida. Não leva mais que vinte, trinta minutos. Um beijo, coração. Boas compras. Saiu da recepção acelerado, pensando no Azevedo, o companheiro de todas as horas, na alegria e na dor, na saúde e na doença, como eles gostavam de dizer. Se é que o cabo Azevedo poderia deixar o almoxarifado por quarenta minutos, uma hora. Não podia. Estava cheio de serviço e o auxiliar tinha saído para acompanhar a esposa grávida, num exame. O maior azar. Almeida também estava enrolado. O comandante lhe encomendara um serviço que não tinha como ser adiado. O jeito foi chamar o Guedes, recém-chegado ao batalhão, que ainda estava se aclimatando na oficina, fazendo de tudo um pouco pra aprender o serviço. — Meu filho, vem cá. Faz um favorzinho aqui pra mim e eu vou aliviar o seu plantão, tá bem? Pega o meu carro, ali, aquele Siena vermelho, 87
Slide 88: e leva lá pra minha casa. Entrega a chave pra dona Samantha, no 702. Pode estacionar na garagem. Vai rápido, porque ela está com pressa. Esse é o endereço. Não tem erro. Você se localiza bem no Flamengo? Onze horas, meio-dia, e nada do Guedes voltar. Almeida foi buscar o Azevedo para almoçarem: — Essa rapaziada nova é foda. A gente pede um favor e eles se aproveitam. Esse garoto me deixa sozinho, no meio do expediente, sabendo a quantidade de coisa que eu tenho de aprontar ainda hoje. Deve estar na praia, passeando. — Tem certeza de que ele acertou o caminho? Já ligou pra Samantha? — Já. Não tem ninguém em casa. Sinal de que o carro já está com ela. Se não, ela teria me ligado ou estaria em casa, esperando. — É. Duas, três horas. Nada. Almeida começou a ficar encucado. A noite, em casa, antes do jantar, Almeida olhava a rua pela janela da sala. Samantha fazia uma boquinha com o marido antes de sair para o batente e exigia o ar refrigerado. Era uma característica pessoal. "Cada pessoa tem o seu jeito", dizia o Almeida. "Ela gosta do ar. Não suporta o calor. Somos muito diferentes. Mas o amor está nessas pequenas coisas, não é? A gente tem de aprender a conviver com as diferenças. Eu tolero bem o frio, tolero perfeitamente. Já me adaptei.". Almeida estava angustiado. O Guedes não saía de sua cabeça. Detestava desconfiar da mulher, mas a cabeça ia acabar estourando se ele não falasse. Decidiu falar: — Coração, o rapaz que eu mandei te trazer o carro, ele te tratou bem? Te respeitou? Confesso que fiquei preocupado, porque era pra ele voltar pro batalhão, mas ele não voltou, e aí fiquei pensando, porque... Samantha não gostava de ser controlada. Detestava. Se tinha uma coisa que ela não suportava, era desconfiança. Odiava controle, ciúme, essas coisas. Não admitia. E depois, ela era uma profissional e o próprio Almeida 88
Slide 89: tinha prometido, tinha jurado nunca se meter no trabalho dela. Além do mais, o rapaz era sadio, educado e se dispôs a pagar adiantado. Almeida dissimulou o mal-estar. Afinal, Samantha tinha razão. Girou a cabeça para o lado, como costumava fazer em certas situações e pensou: "Se era uma coisa assim, profissional, tudo bem." Cada um com a sua profissão. Ele deu um beijo na testa de Samantha. Não queria que ela fosse para Copacabana com raiva no coração. 89
Slide 90: Brizola Matar Brizola? — Isso mesmo. —Você está louco? — Não sou eu. Somos nós. A decisão foi do grupo. — Vocês estão loucos. —Loucos mas não covardes. —Você está me chamando de covarde? — Querer cumprir a lei é ser louco? Lutar contra o crime é loucura? Se é, somos loucos, sim. — Você está maluco. Desde quando matar o governador é cumprir a lei? — Se o governador é a anti-lei, se impede o cumprimento da lei, se bloqueia a luta contra o crime, se não deixa a polícia agir, se amarra nossas mãos... — E desde quando o Brizola amarrou as nossas mãos? — Ele nos impôs a cumplicidade, nos obrigou à passividade. Que policial sou eu? Que policial é você? — Que é isso, rapaz? Se estamos proibidos de subir morro, de invadir favela, de prender traficante... Então, não é? Não nos amarrou? — Claro que não. Esse papo não tem pé nem cabeça. — Ah, não? Não é verdade? — Não é isso, cara. Não é nada disso. Você não está entendendo nada. — Ah, não? — Não, claro que não. Isso deve ser coisa daqueles seus tios reacionários, nostálgicos de 64, que odeiam o Brizola. 90
Slide 91: — Está bem. Então me diz uma coisa: podemos ou não podemos, hein? O BOPE está ou não autorizado a entrar nas favelas e prender os vagabundos? — O que o governo não quer e nós também não deveríamos querer é ficar subindo favela a toda hora, promovendo aquele banho de sangue, matando e morrendo por nada. — Como "por nada"? O que você quer dizer com "por nada"? Lutar contra o crime é nada? Defender a lei e a sociedade é nada? — Será que você não percebe, cara? — Percebe o quê? Você é que está na estratosfera. Sempre te achei meio esquerdista mesmo. Qualquer hora dessas você vai entrar pra uma ONG e vai começar a falar em direitos humanos. — Porra, cara, mas que burrice, que pobreza. — Já comprou sua sunguinha pro verão? E uma camisetinha branca básica, pra caminhada pela paz? Que caretice. — Ah! Agora, sim, agora você se revelou. — Como "me revelei"? — Claro, não viu o que você falou? Pensa que não ouvi? — Falei o quê, porra? — Caretice. Me chamou de careta. Que isso, cara. Fala feito homem. Ou já anda dando uns tapinhas, puxando um baseado? Puta que o pariu. Só faltava essa. Logo você? Um sujeito sério? Viciado? — Que merda. Não dá pra conversar com você. — Mas eu não vim aqui conversar com você. Pra falar a verdade, esse papo é uma perda de tempo, uma babaquice. Vim aqui cumprir uma missão. — Então, desembucha. — Vamos matar o Brizola. — Lá vem você de novo com esse desvario. — Esse o quê? — Desvario, piração, loucura. 91
Slide 92: — Que saco, cara. Muda o disco. Só sabe voltar pro mesmo lugar. Não é loucura porra nenhuma. Já levantamos os dados elementares. — Mesmo que não fosse loucura, que fosse justo e necessário, e sair assoviando, na maior? — Como eu dizia, já levantamos as informações fundamentais. E vou repetir só mais uma vez pra ver se entra na sua cabeça: não sou eu, somos nós. É o BOPE, quer dizer, a nata do BOPE. Somos nós. Você incluído. — Ah, tá legal, só faltava essa. Vocês piram e ainda querem me levar pro buraco com vocês. Tem graça. — Não é brincadeira, não. É sério. Eu estou falando sério. Será que você ainda não percebeu? Nós estamos falando sério. E você está envolvido, queira ou não queira. Até porque, meu caro, sendo missão de segurança máxima, quem hesitar, dança. Não vamos recuar nem incitar defecções. Qualquer defecção será tratada como alta traição. Você sabe muito bem o que isso significa. — Vocês enlouqueceram... Talvez, não. Talvez haja algum grupo político por trás disso. É isso? São os mesmos que quiseram explodir o gasômetro? São aqueles "sinceros mas radicais"? São os que mataram o sargento na porta do Riocentro? Qual vai ser o próximo passo? Explodir banca de revista? — Já temos o mapa dos deslocamentos diários dele. Descobrimos que ele tem parentes em Santa Teresa. Ele vai lá uma, duas vezes por semana. Como você vê, não é nada impossível. Se for bem planejado e bem executado, o plano é perfeitamente viável. — Puta que o pariu. Onde é que fui amarrar o meu bode? O grupo não podia se reunir em qualquer lugar. Era preciso cuidado. Se uma coisa dessas vazasse, estaríamos fodidos. Eu, inclusive. Na época, eu não passava de mero coadjuvante. Por isso, fui simples testemunha desse diálogo. Quando dei por mim, já estava metido até o pescoço na conspiração. Não tinha muita clareza sobre os argumentos do Mauro e do Olavo. Minha cabeça dava um nó. Tinha a impressão de que os dois tinham razão. Eu será que você não se dá conta de que não é fácil matar um governador de Estado 92
Slide 93: concordava com o que cada um deles dizia, e os neurônios iam virando mingau. Só me restava agir. Fiquei responsável pela identificação de uma sala que servisse de quartel-general. Vetamos conversas telefônicas ou menção ao projeto fora do nosso QG clandestino. As regras eram rígidas: não chegaríamos juntos, nem fardados, não iríamos com nossos carros e nunca repetiríamos o trajeto para chegar ao ponto de encontro. O grupo ficaria restrito ao número mínimo, para reduzir os riscos de sermos delatados ou descobertos pela contra-inteligência. Os membros do grupo eram policiais da mais absoluta confiança, O mais frio era o Diego. O mais cerebral era o Sabino. O mais experiente, o Valter. Por isso, cabia ao Sabino o primeiro desenho do plano de ação. Diego ficaria com a execução e Valter supervisionaria o conjunto do trabalho. Eu carregava o piano. Quando pensávamos no Sabino, pensávamos ao mesmo tempo na mãe do Sabino. Ela estava sempre conosco, indiretamente, espiritualmente. É muito comum compartilharmos intimidades, na trincheira. Às vezes, a gente tem a sensação de que cada palavra pode ser um testamento para a posteridade e o papo furado mais bocó cintila numa espécie de clarão místico. Bem, talvez eu esteja exagerando um pouco. Mas o que quero dizer é que falamos mais do que devíamos sobre nós mesmos, as namoradas, mulheres e famílias. O personagem inesquecível do Sabino era sua mãe. Dona Rosália era tão evocada, em tantas situações diferentes, que já passara a freqüentar as conversas, mesmo na ausência de Sabino. Seqüestramos dona Rosália para nossas vidas. Já era possível prever o que diria a santa mãe do Sabino em cada nova situação, mesmo nos contextos que nada tinham a ver com os dois. Parte da destreza do Sabino, ele atribuía à mãe. O equilíbrio e a serenidade que lhe davam um aspecto mais maduro vinham da mãe. Isso ele não dizia; nós deduzíamos. A sabedoria de dona Rosália contagiava o filho por osmose, pelo DNA ou pela pedagogia cotidiana. Por extensão, em alguma medida, nos tornamos todos seus aprendizes, à distância. Nunca a encontráramos, mas provavelmente seríamos capazes de 93
Slide 94: identificá-la a quilômetros. E quantas vezes ela nos salvara? Mesmo que tenha sido através da prudência do filho, ela nos tirou de poucas e boas. Sábado à tarde, lá estávamos nós, o exército de Brancaleone. Debruçados sobre o mapa de Santa Teresa. Um sol abrasador focalizava o litoral efervescente. Ninguém estava interessado num bando de malucos discretos, pais de família em bermudas para as compras da semana. De todo modo, nunca abrimos as cortinas. Para respirar, o ventilador de teto e a água gelada. Sabino chegou atrasado. Isso jamais acontecia. Trouxe más notícias — ele disse. O silêncio foi tão ativo — engraçado chamar o silêncio de ativo, mas era isso mesmo — e foi tão intensa aquela atividade imóvel do silêncio, que parecia nos projetar para fora de nossas cabeças. Pensei logo no pior: nosso ponto de encontro teria vazado por algum erro meu. Sabino estalou a língua no palato. Ele costumava fazer isso quando estava nervoso. — Não vai dar. Vamos ter de abortar. — Como assim? Por quê? — Não me lembro quem disse o quê em qual ordem, mas todos nos precipitamos sobre o Sabino: como assim, abortar? — É isso mesmo, abortar a operação. Minha mãe acha muito perigoso. Acha uma maluquice. De novo, o silêncio. Diego foi quem falou primeiro: — Você contou pra sua mãe? Sabino balançou a cabeça pra frente e pra trás, olhando para o chão e elevando o lábio inferior à altura do superior, até cobri-lo inteiramente — que era outra de suas manias. — Nesse caso, vamos ter de matar também sua mãe — Diego completou o raciocínio, com aquele espírito prático que o distinguia. A sala convulsionou-se num alvoroço de vozes e braços, todos de pé. Brizola morreu em 2004, de morte natural, sem saber que, no início dos anos 90, dona Rosália salvou-lhe a vida. 94
Slide 95: Sexo é Sexo Quero dizer o seguinte: sexo, pra mim, é homem com mulher. Tem cara que curte transar com várias mulheres ao mesmo tempo. Isso também existe. Deve ter mulher que prefira o contrário: vários homens ao mesmo tempo. Tudo bem. Problema dela e dos homens dela. Não sou nenhuma freirinha do Sion. Sei de tudo. Sei que o homossexualismo é parte da natureza humana. Não é a minha, mas não condeno ninguém por sua opção sexual. É uma coisa íntima. Entre quatro paredes, tudo é permitido, desde que seja mutuamente consentido. Não vou fazer nenhum discurso moralista sobre isso. Até porque, pelo que tenho visto, os arautos da moral e dos bons costumes são os piores. Estou dizendo tudo isso por uma razão muito simples: quando o tenente Santiago empalou um vagabundo do Andaraí com uma vassoura pra ele confessar onde estavam as armas, não estava promovendo uma cena de sexo, como muita gente boa da polícia andou dizendo por aí. Não era sexo. Sei lá o que era, mas sexo não era. Aliás, o cara acabou dando as armas. De qualquer modo, acho que o Santiago tinha mesmo uma certa vocação para diretor de filme pornô, um negócio meio perverso: antes de empalar o gerente, ele cercou a boca de fumo e prendeu todo mundo: fogueteiros, aviõezinhos, viciados... Todo mundo. Depois, mandou os rapazes baixarem as calças e determinou que as meninas fizessem boquete em todos eles. Montou uma verdadeira coreografia devassa. A garotada toda em fila, ombro contra ombro, calça arriada. As garotas foram postas de frente para eles, numa linha paralela. Três, quatro metros de distância entre um gênero e outro. Olhos nos olhos. Tudo muito 95
Slide 96: severo, metódico, simétrico e disciplinado, Elas tiveram de baixar as alças dos vestidos ou arregaçar as blusas para exibir os peitinhos. Algumas foram sorteadas para a tarefa ingrata. Se você pensou que as escolhidas, por uma incrível coincidência, foram as meninas da favela, acertou. As patricinhas brancas foram poupadas. Só tiveram de assistir. Cabe a você deduzir se houve racismo ou pragmatismo. Ou os dois. Não se brinca com filhinhas de classe média, impunemente. E tem mais. Santiago avisou: os meninos que não ficassem de pau duro iriam entrar na porrada e, ainda por cima, seriam autuados. Não sei se ele quis inventar, punindo a turma com a pena moral máxima, que é a humilhação, e jogando com as variações do significado da palavra boca. O fato é que deu a maior merda. Ele foi acusado pelos próprios colegas, os oficiais ficaram furiosos, os policiais ficaram indignados. Não pelo rapaz empalado. Isso parecia parte da operação policial. Heterodoxa, mas policial, porque o fim visado não era o prazer. O objetivo era prático e o sofrimento era um método. Mas a sacanagem escrachada, com humilhação e sexo forçado, era demais. Não sou eu quem está dizendo. Como já afirmei antes, não julgo, avalio, denuncio ou critico, nem a mim nem aos outros. Minha missão é relatar o que aconteceu. É uma espécie de trabalho de parto. Só que, nesse caso, é a verdade que se dá à luz. Posta no mundo, cada um que lide com ela como quiser. O ambiente era de revolta generalizada contra o Santiago. Ainda que ninguém tivesse tomado nenhuma atitude formal contra ele, havia uma tensão no ar, um clima de constrangimento. Nada mais. Pelo menos até o capítulo seguinte, que começou com a visita de três líderes da comunidade ao batalhão. Eles queriam formalizar uma denúncia na corregedoria. Como sempre acontece, a notícia ecoou pelos corredores em alta velocidade. O Santiago logo ficou sabendo. Para se certificar, tirou o nome do uniforme e foi à ante-sala da corregedoria. Entrou como quem não quer nada e perguntou aos três se estavam esperando atendimento para uma denúncia. Eles disseram que sim. Santiago encarou cada um dos três e respondeu com 96
Slide 97: frieza profissional, como se fosse o anfitrião, pedindo que aguardassem mais um pouco. O oficial encarregado os receberia em alguns minutos. Saiu do batalhão e postou-se na primeira esquina, em um recuo do terreno, no final do longo muro que cercava a velha construção policial. Uma hora depois, passaram pela esquina os três homens do Andaraí. Um deles era mais alto e caminhava mais devagar. Ia um pouco atrás dos outros. Foi na cabeça desse último que Santiago acertou o tiro fatal. Avisou aos sobreviventes que, da próxima vez, não os pouparia e voltou caminhando para o batalhão. O clima, que já não estava bom, azedou, e o comandante decidiu punir o Santiago, exemplarmente, como gostam de proclamar as autoridades, quando não sabem o que dizer e o que fazer. Santiago foi chamado ao gabinete do coronel. A relação entre os dois nunca fora das melhores. Essa é uma longa história, que começara um ano antes, quando Santiago chegou ao batalhão, transferido para a capital por conta de uma briga com o prefeito e outras autoridades municipais. Eu o conhecia porque ele tentara entrar para o BOPE três vezes e estava sempre se voluntariando para operações que envolviam algum tipo de cooperação entre os convencionais e os caveiras. Ele foi reprovado as três vezes no teste de altura. Depois eu conto essa história. No interior, cidade pequena, ele, tenente novinho, virgem, cheio de amor pra dar, orgulhoso da farda que vestia e do poder que encarnava, centro das atenções femininas, ainda com grandes ilusões sobre a polícia e o sacrossanto combate ao crime, teve o azar de abalroar um apontador do bicho, que fazia anotações, apoiado na mala de uma viatura, ostensivamente. Santiago sabia que esse era um tema delicado, em qualquer latitude do estado, especialmente nas cidades menores, mas não via saída. Era bola ou búlica; tudo ou nada. Não poderia permitir aquela arrogância despudorada do brutamontes debruçado sobre o carro policial, em plena luz do dia, sob pena de perder toda sua autoridade. 97
Slide 98: — O que é que você está fazendo? Me passe esses papéis. E seus documentos. Quero ver seus documentos. O sujeito não se mexeu. Levantou os olhos do papel, olhou o jovem tenente de alto a baixo, e continuou anotando. — Será que eu vou precisar tomar outras providências? Não falei claro? Sai daí imediatamente e me passa os documentos. — Trabalho para o Eliseu. Sou homem do Eliseu. Se você é novo na cidade, é melhor se informar direitinho pra não fazer besteira. — Não me interessa saber pra quem você trabalha. Você não percebeu que está falando com um policial? — Vai te foder, garoto. Meu chefe manda no teu. Se teu negócio é grana, está agindo errado. O esquema aqui é diferente. Tu não leva nada não. Eliseu não gosta de varejo. Está tudo acertado com teu chefe. Você se entenda lá cora ele. E não enche o saco, se não quiser acordar com a boca cheia de formiga. Virou-se de costas e voltou às anotações. Santiago chutou a banquinha e a cadeira que estavam na calçada, e deu uma porrada com o cacetete nos joelhos do infeliz, que desabou sem tempo de reagir. Encostou a arma na cabeça do bicheiro e deixou claro quem é que mandava naquela merda: — Tá preso, filho da puta. Desacato. Algemou o sujeito, recolheu as provas, enfiou o malandro na viatura e o despejou na delegacia. No dia seguinte, ordenou a prisão de todos os apontadores do bicho da circunscrição sob sua responsabilidade. Como ele já esperava, o comandante do batalhão local o chamou para uma conversa: — Você compreende, Santiago. As coisas no interior são diferentes. — Pelo que estou vendo, coronel, não parecem ser muito diferentes, não. — São sim, tenente. É que você ainda não se ambientou, ainda não conheceu as regras do lugar. Aqui, a política é um pouco diferente. Você vai 98
Slide 99: logo compreender. Esse pessoalzinho miúdo, da contravenção, não faz nenhum mal à cidade. Na cultura local, eles são respeitados, dão sua contribuição, são ordeiros. De certa forma, indiretamente, pagam seus impostos. Para que você tenha uma idéia, ao contrário do que acontece na capital e nas cidades maiores, eles não querem saber de maquininhas caçaníqueis, nem de drogas ou prostituição de menores. Os apontadores, muitos deles são egressos, ex-apenados, estão aí, fazendo seu trabalho honestamente, tentando sobreviver. O que é que nós deveríamos fazer? Empurrá-los de volta para o crime? Fechar portas? Quem se beneficiaria com isso? — Quando o senhor diz que, de certa forma, eles pagam seus impostos, o senhor quer dizer que esta forma é aquela mesma em que eu estou pensando? — Tenente, não posso saber em que você está pensando, só posso lhe dizer que sua atitude não está contribuindo para a ordem pública. — Coronel, se o senhor quer saber, eu nem tinha a intenção de prender o sujeito. Por mim, não quero problema, não quero procurar sarna pra me coçar. Mas o senhor não tem idéia da cena: o sujeito estava todo jogado em cima da viatura, na frente de todo mundo, no meio da rua, à luz do dia. Ali, era eu ou ele. — Tudo bem, tenente. Mas que isso não se repita. Você não vai ter motivos para se arrepender. Nossos salários não são dignos da importância de nossa função social. Por isso, nada mais justo do que valorizarmos nossa profissão, sem sacrificar a ordem pública, é claro. Você vai ver que a vida no interior tem suas vantagens. O Santiago não estava preparado para aquela conversa. Ele era o tipo do policial vocacionado. Sabe aquele cara que treina a sério e entra em campo com a corda toda? Tanto que o sonho dele era o BOPE. Estava com todo o gás e com aquelas convicções de noviço. O papo com o comandante foi um balde de água fria. 99
Slide 100: Ele decidiu se fazer de desentendido e voltou a prender os apontadores. O coronel convocou-o novamente. Recebeu-o com expressão mais carregada, como era previsível. — Escuta, aqui, tenente. O negócio é o seguinte. Se não vai por bem, vai por mal. O prefeito me chamou. Levei a maior descompostura por sua causa. Só estou na posição que ocupo por conta do acordo político do governo com a prefeitura. Se você quer saber, não sou eu que recebo, não. É o prefeito, o governo, a secretaria, o comando geral. A minha parte é ínfima. Mesmo porque não sou goelão. Minha fatia, eu divido. Como você preferiu ficar de fora, vai pagar um preço por isso. Se você quer ser mais realista que o rei, paciência. Problema seu. Só não posso permitir que o problema fique sendo meu. Se você não sabe como é que as coisas funcionam na polícia, já é hora de aprender. Se não gostou, cai fora enquanto é tempo. Sua transferência sai em 48 horas. Estou colocando você em licença para que não te falte tempo para as providências pessoais. Você vai para a capital. Se eu fosse você, começaria a preparar a mudança. Um dia, no futuro, vamos voltar a conversar. Pode ir. Santiago me contou que sentiu um travo na garganta. Um misto de angústia, depressão e revolta. Por um lado, ele estava preparado para aquele desfecho. Imaginava mais ou menos aquele resultado. Por outro lado, mantinha uma certa esperança de que o comandante propusesse um acordo que o poupasse e respeitasse sua disposição legalista. No fundo, guardava ainda a expectativa de que o comandante recuasse para uma postura mais moderada, na pior das hipóteses dividindo a cidade e o autorizando a manter uma zona livre do bicho na região sob sua responsabilidade. Seria uma saída razoável — lhe parecia que sim —, uma espécie de solução de compromisso. Pelo menos para manter as aparências. Vá entender os mistérios da alma humana. Eu não tenho essa pretensão. Por isso, não me deixo impressionar pela veloz metamorfose do Santiago. Ele chegou à capital, devolvido à nossa selva por sua própria resistência à prostituição da polícia. Não sou eu que estou dizendo. Ele é quem usava essa expressão. A ironia está justamente aí. Seis meses depois 100
Slide 101: de se estabelecer na capital e dois anos antes de se transferir para o batalhão em cuja esquina matou o tal cara do Andaraí, Santiago já não era o mesmo. Copacabana derreteu o rigor puritano. A praia, as mulheres da noite, os turistas, as oportunidades. Sabe-se lá. No 19º Batalhão, Santiago se converteu no personagem que, nós, do BOPE, chamamos "um convencional típico". Só que pior do que isso, bem pior, como você vai ver daqui a pouco. Uma espécie de conversão ao contrário. Ele se rendeu à fé no deus pagão. Ou se entregou ao panteísmo, ao hedonismo. Sei lá como definir. Melhor dizer claramente: optou pela bandalha, o escracho, a sacanagem. Passou a representar o pior da polícia convencional. Tudo aquilo que eu e meus companheiros do BOPE mais odiávamos. Resultado: toda sexta-feira, lá estava o Santiago, supervisionando a coleta da propina do bicho e dos pontos especiais. Os pontos especiais variam conforme as características do bairro. As saunas, boates e casas de massagem são os exemplos mais comuns, sobretudo aquelas que preferem não ser incomodadas com batidas policiais para verificar a idade das meninas de programa, ou dos rapazes que fazem michê. É voz corrente que, na segunda batida, os clientes que têm um nome a zelar desaparecem para sempre e o empreendimento acaba condenado à falência. As clínicas de aborto e as oficinas mecânicas não autorizadas, que invadem as calçadas e atravancam as ruas, também são boas fontes. Estacionamentos irregulares e postos fixos de camelôs, agenciados por empresários do ramo, rendem uma boa grana. A polícia vive do que é ilegal. Quanto mais desordem houver, maior o lucro dos convencionais. Falando assim, pode parecer engraçado, mas nós, do BOPE, não achávamos a menor graça. Sentíamos nojo disso tudo. Enquanto arriscávamos a vida na guerra noturna, a máquina da corrupção mais semvergonha, mais medíocre, girava, girava, engordando a poliçada, cada vez mais rechonchuda, as panças arredondadas, o espírito amolecido pela gorjeta, a alma literalmente vendida ao diabo. Em pouco tempo, além desse pequeno varejo da corrupção, Santiago descobriu os filões mais promissores desse campo de negócios: as vans, a 101
Slide 102: segurança privada ilegal, os grampos telefônicos, as maquininhas de videopôquer e caça-níqueis, o velho mas sempre rentável bicho — no qual ele fora introduzido, traumaticamente — e os arregos, quer dizer, as transações com traficantes. Em certo sentido, eu poderia dizer, sem afetação, que ele progrediu do varejo para o atacado da sacanagem. Virou um expert, um profissional, um mestre na arte de extorquir, chantagear, blefar e manipular. Aprendeu também a mexer os pauzinhos na corporação para conseguir as transferências para os batalhões mais cobiçados, nos momentos mais convenientes. Essa habilidade o levou do 19º ao 23º Batalhão. Ele fez a festa na Zona Sul. Em seguida, se recolheu estrategicamente na área do Andaraí, onde se meteu naquela enrascada do boquete. Como ele não pregava prego sem estopa, cada transferência do Santiago correspondia a um movimento nas peças do xadrez que ele jogava sei lá com quem. Com os deuses, as fantasias, seus delírios de poder, os traficantes, os políticos, os coronéis, os donos da polícia? Alguns dias depois de ter assassinado o sujeito que o denunciara, Santiago foi convocado ao gabinete do comandante. Ele permaneceu trancado no gabinete mais de uma hora. Saiu em silêncio. A versão oficial confirmou a primeira hipótese que o porta-voz do comando divulgara para a mídia: os culpados foram os traficantes nus; Santiago era inocente. Em outras palavras, o comunicado formal declarava que a vítima fora surpreendida numa emboscada por traficantes do Andaraí, que se vingaram por terem sido denunciados, O homicida e seus cúmplices seriam presos a qualquer momento. Nunca mais se falou no assunto. 102
Slide 103: As Regras do Método Segurança privada ilegal, o grande negócio de delegados e coronéis; vans e ônibus clandestinos; bingos; grampos, legais e ilegais; as maquininhas dos ovos de ouro, que se multiplicam feito coelhos; o venerável bicho, gasto e antiquado, mas ainda na ativa; e as mil e uma transações com traficantes, em sua exuberante variedade, dos chamados arregos nas favelas — os pagamentos diários ou por turnos de policiais — aos acordos mais ambiciosos e arriscados, ou mais estratégicos, digamos assim. Às vezes, essas teias se embaralham e engatam na política, o que torna tudo mais saboroso — e muito mais explosivo. A história que vou contar, não inventei. Ouvi diretamente de alguns dos principais protagonistas. Na polícia é assim mesmo, tudo se sabe, nada se esconde. Pelo menos, não por muito tempo. É um tipo de trabalho duro e gratificante, que te enche de orgulho e vergonha, te sufoca com doses maciças de adrenalina e te leva ao céu numa espécie de viagem psicodélica, te mata de medo e te salva — pelo menos isso —, te salva da cadeira da sala, diante da TV, numa tarde de domingo, essa cova rasa que se cava a prazo. Tá certo, os policiais, sobretudo os do BOPE, são cadáveres adiados. Mas quem não é? É melhor tirar logo as máscaras, aposentar a retórica e os bons sentimentos. Nas trincheiras da nossa guerra santa de todos os dias, os melindres vão caindo de podre, rapidamente. Você fica impregnado do cheiro ácido da urina morna do colega. Tudo circula. Saliva, porra, sangue, 103
Slide 104: merda, pus e histórias. Nas operações de risco, as melhores e piores emoções saem às golfadas, como vomito. O tempo vira um elástico, que se comprime e estica. As palavras jorram, acontecem. Depois a gente passa o braço pela boca e seca a saliva que escorre. Nada demais, portanto, que tudo se saiba. Tudo se confesse. E tudo repouse no poço escuro do esquecimento com um É assim que as coisas são na polícia, para o bem e para o mal. Santiago se gabava de ter encenado, involuntariamente, um espetáculo digno da Segunda Guerra Mundial, da Coréia, do Vietnã. Era uma das histórias mais sórdidas. Ele já era um policial cascudo, como a gente diz. Quer dizer, maduro, vivido, velho na carreira. O contrário dos modernos, que são os que entraram para a corporação depois. Como um bom cascudo, dava conselhos. Foi o que fez ou pensou ter feito com um major que foi transferido para o batalhão convencional em que ele, Santiago, estava lotado. Aliás, o major era mais novo do que ele. A hierarquia tem dessas coisas. Ele era capitão. Nessa época, o Santiago já tinha sido promovido a capitão. O outro era superior a ele, era major; mas ele era mais velho. Isso pode acontecer por várias razões. Por exemplo: a idade com que se ingressa na academia e o tempo que se leva para ser promovido, porque as promoções não são automáticas. Entra muita política, nesses processos, e outras "cositas más". O tal major, que se chamava Coelho, veio do interior, igualzinho ao que tinha acontecido com o próprio Santiago. E aterrissou no batalhão da capital com a goela arreganhada, faminto, doido para arrumar a vida, rapidinho. Santiago mudou ou foi mudado pela capital e pela polícia; Coelho, não. A julgar pelo que se sabe de sua trajetória, tinha nascido daquele jeito. Logo percebeu que Santiago era o cara. Num sábado, substituindo o coronel no comando da unidade, Coelho convocou o Santiago. — Capitão, pode entrar. Entra. Senta aí. Quer um cigarro? Fica à vontade. Se quiser fumar, eu não me importo. — Não, obrigado. Não fumo. Quer beber alguma coisa? Não, agora não. 104
Slide 105: — Eu sou sou um cara muito humano, sabe, capitão. Um homem comum. A hierarquia, é claro que respeito a hierarquia, mas, sabe como é? Cada coisa a seu tempo e em seu lugar. Também não sou de, sei lá, de achar que só porque eu sou major e você é capitão... — Não é assim. A vida não é assim. E ela dá voltas. Não sou um cara, quer dizer, não me considero um cara tão vivido assim, mas já deu pra aprender algumas coisas. Tá me entendendo, capitão? — Claro. — Então, tá. É isso que eu queria te dizer. Já deu pra aprender algumas coisas. Que hoje a gente está em cima, amanhã está embaixo. Que não adianta dar murro em ponta de faca. Que cão que ladra não morde. Não é? Não é verdade? Pode ser sincero. — É. — Então. Por isso é que eu digo: melhor cuidar da própria vida e não ficar por aí bancando o açoite da humanidade, querendo que tudo seja perfeito, impondo a perfeição, cobrando os pecados dos outros, querendo salvar o planeta. É ou não é? Pode dizer. Fala. Seja franco. — Perfeitamente. — Então. Por isso é que eu digo: cada um sabe de si. Não vou bancar o que eu não sou. É ou não é? Hein? Pode falar, capitão. — É. — Então. Acho que estamos nos entendendo às mil maravilhas, capitão. Não acha? Hein? — Perfeitamente. — Também acho. Perfeitamente. Melhor trabalhar assim, não é? Melhor assim, se entendendo, compartilhando as coisas, cooperando, do que perseguindo, atrapalhando, pressionando, enchendo o saco, humilhando. É ou não é, hein? — Isso. 105
Slide 106: — Então. Foi pensando assim que resolvi te chamar pra essa conversa franca, uma conversa amiga, de igual pra igual. Sabe por que te chamei pra uma conversa de igual pra igual? Hein, capitão? Sabe? Pode falar. — Não, major. — Chamei você pra um papo franco, de igual pra igual, porque é isso que gostaria que tivesse acontecido comigo, quando eu era capitão, e porque é isso que queria que acontecesse comigo, hoje, entende? Eu gostaria que o coronel me chamasse pra uma conversa assim. Achei que você ia gostar de conversar assim comigo. Acertei? Hein? Fala, capitão, não precisa ficar inibido, não. Acertei ou não acertei? — Perfeitamente. — Então. Foi o que eu deduzi. Por isso é que eu te digo, capitão... Tem certeza de que não quer fumar? Se importa que eu fume? Um dia depois do outro. De que adianta prender esses pobres-diabos que a gente prende, hein? Me diz? São uns pobres-diabos. Se somar tudo o que eles roubaram, não dá um milésimo do que os grandes afanam, na surdina, com pompa e circunstância. Esses políticos filhos da puta, hein? É ou não é, capitão? — Por isso é que eu digo: não se deve pregar prego sem estopa. De que adianta a gente se matar, fazer o dever de casa, tudo nos conformes, entupir as cadeias de gente, entupir as penitenciárias, matar traficante como quem mata mosquito, encher os cemitérios, de que adianta?. Heim, capitão, me diz? Pra quê? Pra quê? Esses meninos que vendem droga, de pé no chão, são uns miseráveis, uns pobres-diabos magricelas, que não têm onde cair mortos. Nem cabelo na cara eles tem. São uns moleques pés-de-chinelo, uns bagrinhos, hein? Pra quê? Me diga, capitão, pode dizer. Pra quê? Hein? — É. — Não é verdade? É ou não é? Eles estão lá no morro deles, vendendo droga pra cambada aqui do asfalto. Mas a gente não desce a mão nos filhinhos de papai, ou mete? Hein, capitão? Mete? Não, é claro que não. A gente não é besta. A sociedade empurra esses bagrinhos da favela pra vala comum e nós somos os carrascos, nós somos os coveiros, capitão. Estou 106
Slide 107: errado, capitão? Pode falar. Eles são puros, esses filhos da puta da elite e esses políticos. Eles é que cheiram, fumam, gozam, roubam, e a gente mata e morre pra manter as ruas limpas. Uma putaria, capitão. Uma tremenda putaria. A polícia é que faz o trabalho sujo, capitão. Não é verdade? Por acaso estou mentindo? Pode falar. — É. — Então, capitão, por isso é que eu digo: mais vale um pássaro na mão do que dois voando. O que é que você me diz? Temos ou não que baixar a bola e tratar do que é nosso? Hein? Pode dizer, seja franco. Eu estou sendo franco. É como estou dizendo, capitão, mais vale um pássaro na mão. Longe de mim julgar os outros. Cada um cuida de si. É ou não é? Se cada um tratasse de si, tudo não seria melhor? Hein? Sinceramente, eu acho que seria. Por isso, pode ficar tranqüilo, capitão. Pode confiar em mim. Você tem aqui um amigo. Não quero chegar impondo, determinando. Sou militar mas sou um democrata, entende? Eu acho que a primeira coisa que um oficial deve fazer quando chega a uma nova unidade e quando chega com responsabilidade de comando, a primeira coisa é, ouvir os subordinados, os companheiros, ouvir com abertura, entende? O que você acha? Acha que estou certo ou não? Pode ser franco. — Certo. — Então, já estamos começando a nos entender, não é verdade? Estamos ou não estamos, capitão? Hein? — Certo. — Ótimo. Nesse caso, acho que devo uma demonstração de que sou um democrata. Não acha que seria bom, hein? Hein, capitão? Eu acho que devo à tropa uma prova; uma demonstração de que desejo uma perfeita integração com meus comandados. A mesma relação positiva que pretendo estabelecer com meu superior hierárquico, o coronel Penido, quero construir com meus subordinados. A tropa tem de entender isso. Concorda? — Perfeitamente. — Pronto. Então, chegamos a um consenso. Vamos fazer assim. Você continua fazendo como vem fazendo as coisas que considera necessárias. Eu 107
Slide 108: não pretendo interferir, certo? Concorda? Não vou interferir. Ao contrário. Não vim para atrapalhar, nem para impor coisa nenhuma. Eu sou uma pessoa tolerante. Não gosto de criar problema, entende? Não quero criar nenhum problema pra ninguém, certo? — Certo. — Então, ótimo. Está tudo acertado. Fica tudo acertado. Não quero receber nada que não seja justo. Veja aí o que vocês costumavam passar ao meu antecessor e eu me adapto. Eu me adapto. Posso discutir um ou outro detalhe, mas nada que crie qualquer dificuldade para entrarmos num acordo, certo? Quanto é que vocês fazem aqui, por mês? É por mês ou por semana? Imagino que a maior parte venha do tráfico, porque nessa zona tem muita favela. Coisa boa, né? Mas deve ter muita van, também, bicho, bingo, maquininha, sauna... Tem muita boate por aqui? — Major, as coisas, aqui, não funcionam assim não. São um pouquinho mais complicadas. O senhor está chegando do interior, onde tudo é mais direto, mais simples, mais organizado: o prefeito indica o comandante do batalhão, o coronel leva sua equipe, o bicheiro local se apresenta, ele ajuda a financiar a campanha do prefeito vitorioso — porque ajuda todos os candidatos, justamente pra não correr riscos —, em geral o pessoal que controla as maquininhas é o mesmo e quando o tráfico se organiza, tem de tomar bênção ao poder estabelecido e negociar o seu lugar. Tudo se encaixa. Acertando com uns, tudo fica acertado. Aqui, não. É bem mais complicado. Pra começo de conversa, o tráfico não dá pra todo mundo. O comandante, por exemplo, não gosta de receber do tráfico. Só recebe da contravenção. Aceita uns biscates, ultimamente as vans têm rendido muito, mas com tráfico não gosta de negociar não. É um cara duro, sabe? Se converteu não faz muito tempo. Está naquela fase puritana, sabe? — Sei. Eu compreendo. — Então, o melhor que o senhor tem a fazer é se apresentar. Porque não tem dúvida de que, nessa área do batalhão, o maior potencial está no tráfico mesmo. Mas o senhor tem de se apresentar. 108
Slide 109: — Quer dizer, eu vou lá, chamo os moleques, reúno os moleques... Não vai ficar meio... — Não, não é isso. O senhor tem que mostrar o quanto vale. Quer dizer, o senhor tem de justificar o preço que eles vão pagar. Eles vão pagar de acordo com o risco que o senhor representar, tanto pra vida quanto pros negócios. Pra ser mais direto, se o senhor me permite: se eles não avaliarem que o senhor é perigoso, não vão entregar o ouro. Esse pessoal do movimento dessa região é osso duro de roer. Por exemplo, o cabo Mazinho e o sargento Mosca fazem a festa, ficam uma baba. O pessoal já sabe que, no turno deles, se não tiver arrego, o pau vai comer, no alto e embaixo, na boca e na pista. Já o sargento Naves, o Pereba, o Ruizinho, essa turma não dá no couro. Eles gostam de ficar de conversa mole com as meninas do morro, tomam umas geladas nos botecos, comem churrasquinho de gato. Essa turma leva um troco e olhe lá. Por isso é que eu lhe digo, o negócio aqui é muito individualizado. Cada um tem de mostrar seu valor e vender sua mercadoria. Não basta chegar e mandar a conta Com todo respeito, major, não é assim que funciona. O major calou-se. Fechou a cara. Parecia emburrado. Despediu-se do Santiago sem aquela rasgação de seda anterior. Tanto que o Santiago chegou a pensar que talvez tivesse exagerado na dose. Mas o que estava feito, estava feito. Paciência. Não havia como mudar. Ele não queria dar a impressão de que não toparia algum acordo com o major, mas, afinal de contas, do ponto de vista dele, que já se achava um profissional do ramo, cooperar não podia significar carregar o outro nas costas. No domingo à noite, Santiago foi convocado às pressas. O coronel Penido, comandante do batalhão, fora informado pela P2 de que o major Coelho estava entornando o caldo, na maior favela da Ilha do Governador. Queria o Santiago no local, imediatamente. A ordem vinha naquele tom estridente e histérico que era habitual, quando o pescoço do Penido estava a prêmio. Tudo porque corria a notícia de que a imprensa já havia sido avisada e estava a caminho da Ilha. Penido bradava ao telefone as manchetes 109
Slide 110: hipotéticas da segunda-feira. Santiago ponderou que as redações já tinham fechado àquela hora. — Na terça, Santiago, então imagina as manchetes na terça-feira. E se o Fantástico resolve dar um furo de reportagem, ao vivo? — O Fantástico não faz matéria ao vivo, coronel. Fica tranqüilo. Vou chegar antes da imprensa. Profissional da grana, dos trampos, da mídia, da política interna à corporação, da psicologia militar, o Santiago estava se achando o máximo. Um profissional. Chegou mesmo antes da mídia. E foi a salvação. Salvação para o Penido, o Coelho e até para ele mesmo, porque uma eventual mudança drástica de peças no tabuleiro do batalhão desorganizaria todos os seus planos. A população da favela se concentrava num platô largo, longo, que formava um pátio vasto, quase uma aldeia indígena, com casebres em círculo, ou quase, num desenho elíptico. Havia centenas de habitações nas ruelas que sobem e descem, mas aquele era o espaço central, para onde todos os caminhos vicinais convergiam. As portas e janelas estavam escancaradas, todas elas, e as luzes internas acesas. As famílias, de pijamas e trajes íntimos, tinham sido jogadas para fora das casas. Homens, mulheres, velhos e crianças estavam virados para as paredes frontais das casas, com as mãos levantadas. Policiais vasculhavam gavetas, armários, embrulhos, colchões, fogões e geladeiras, com lanternas, tiros para o alto, chutes e golpes de fuzil nos objetos. As roupas eram atiradas ao chão e pisadas. As fotos, cadernos, livros e revistas iam para um saco preto, antes de serem queimados. Os eletrodomésticos estavam sendo destruídos e os adolescentes, todos eles, conduzidos debaixo de pau para as patamos. Coelho comandava o espetáculo com um megafone, proclamando-se o novo responsável pela lei e pela ordem naquele pardieiro. Mandava seus comandados punirem os gritos dos moradores com porrada nas costas e nas pernas. 110
Slide 111: Quando, finalmente, conseguiu se esgueirar para perto do Coelho, Santiago passou-lhe a mensagem, quase entre dentes: "O comandante me mandou lhe dizer que o senhor errou a mão. O senhor exagerou. Essa operação tá parecida demais com aquelas ações dos nazistas contra os judeus. Pode dar a maior merda, major. Ê mais eficiente fazer um a um, casa a casa. Mais discretamente. Sem tanto alarido. Não dá manchete, não tem risco e o retorno é imediato." Política Fiscal Mas que barbaridade. Ornelas observava o chefe, que apertava o celular com a mão direita, como se fosse estrangulá-lo, e mexia na cabeleira farta com a mão esquerda. — Que barbaridade. Andava de um lado para o outro, na salinha que servia de quartelgeneral para o tráfico da Mangueira, de onde se via o Maracanã e a silhueta das montanhas, na Zona Norte do Rio de Janeiro. — Bá, você deve estar de sacanagem comigo. Ornelas balançava a cabeça preocupado e olhava para o Nivaldo. Boa coisa não era. Quando Silas falava assim, boa coisa não era. — Que barbaridade. Nivaldo não resistiu: — Porra, Silas, fala português, caralho. Fala feito homem. — Não enche o saco dele, Nivaldo. Não vê que o cara tá puto? Ornelas era o braço direito do chefe e achava que tinha o dever de protegê-lo. Nivaldo olhou pra ele com uma cara, cuja mensagem era: "Vai ser puxa-saco assim na puta que o pariu." Mas foi só a cara. Preferiu não provocar. O ambiente já estava tenso demais. Melhor não provocar. Desde que namorou uma gaúcha, Silas passou a falar assim. Não tinha jeito. 111
Slide 112: — Mas isso é uma barbaridade, chê. Isso não se faz. É uma sacanagem. Isso vai contra tudo o que ficou acertado entre nós, porra. Tudo. Ornelas permanecia sentado com as pernas abertas em volta do espaldar da cadeira e os braços cruzados sobre ele. Encarava o chefe que lhe fazia caretas enquanto caminhava, ouvindo o interlocutor. — Com quem o Silas tá falando? — Nivaldo perguntou baixinho a Ornelas. — Aquele capitão filho da puta. — O que subiu pra acertar o arrego? — O outro, o mais forte. Aquele metido a durão. Silas voltou a falar: — Bá, isso é um absurdo, não posso aceitar. Como é que vou aceitar um negócio desses? Se aceitar, tô desmoralizado. E como é que vou confiar no arrego? Se é pra ir pro pau, vamos pro pau. O que não dá é pra ficar de sacanagem. Vocês vieram ontem, aqui, não vieram? O seu parceiro me ligou, do jeito que a gente combinou, e eu aprontei direitinho o paiol pra vocês. Foi ou não foi? Peraí, peraí. Me diga, foi ou não foi? Não fiz o combinado? Vocês subiram, fizeram aquele carnaval todo, levaram os vinte fuzis, montaram aquele teatro bacana pra televisão lá no asfalto. Foi ou não foi? Eu vi tudinho no RJ-TV. Foi o maior sucesso. Espera aí. Espera. Ouve. Eu, te vi lá no maior caô, dando entrevista e o escambau. Mas, tudo bem. Até aí, tudo certo. Cada um fez a sua parte. Tudo certo. Espera, cara, espera. Mas o que é que eu tenho a ver com isso? Isso é contigo. Eu não tenho nada a ver com isso. Isso já é problema teu. Não, de jeito nenhum. Qual era o acerto? Qual era o acerto, porra? Caralho, assim a gente não vai se entender. Assim vai dar merda. Olha o que eu tô dizendo, porra. Baixa a voz. Baixa você, caralho. — Ih, cacete, melou. Pode ir preparando a tropa — Ornelas sussurrou para Nivaldo, que não resistiu e declarou guerra à sua maneira: — Engrossa, Silas. É isso aí. Bota pra foder. Eles que se fodam. Tem de falar grosso mesmo. Eles só entendem a voz da bala, esses porcos. — Cala a boca, porra. Não vê que o chefe tá apertado? Silas prosseguia: — Não, de jeito nenhum. Olha, cara. Admite. Admite. Isso é uma baita sacanagem. Não é justo. Não existe mais regra? Ninguém respeita mais 112
Slide 113: nada? A palavra não vale mais porra nenhuma? Não existe mais justiça, porra? Não se pode mais confiar em ninguém? Claro, só posso pensar assim. O que é que você faria no meu lugar? Tô falando sério, porra. Mas não tenho de entender nada, não. Você é que não tá entendendo, caralho. Será que eu falo grego? Você me telefona, pedindo — ouve bem —, pedindo pra gente juntar vinte fuzis, preparar o paiol, no lugar combinado, que vocês viriam buscar, daquele jeito mesmo que tinha ficado acertado. Não foi assim? Então. Vocês não vieram? Não encontraram tudo que pediram? Não estava no lugar certo? Não foi tudo feito com toda honestidade? A gente cumpriu ou não cumpriu a palavra? Pois é, mas é o que tô te dizendo, rapaz. Exatamente. Então? Vocês não entraram e saíram na maior tranqüilidade? A gente não deu os tiros pra cima, respondendo às rajadas de vocês, tudo certo, tudo direito, como manda o figurino? Arrego pra nós é arrego, porra. Por isso é que a gente está estabelecido, com nome e respeito no pedaço. Você mesmo disse na TV que a operação foi um sucesso. Então, foi ou não foi? Rendeu RJ-TV, manchete nos jornais de hoje, tudo na maior limpeza. Pois então... Agora tá na hora de vocês fazerem a parte de vocês. Conforme o combinado. Como, "não dá"? Como, "deu problema"? E eu com isso? Já pensou se você tivesse entrado ontem na favela e eu tivesse te preparado uma arapuca? Eu sei que ia dar merda. Eu sei. Mas o que você tá me dizendo também é uma merda, porra. Ornelas soprou pra Nivaldo: — O filho da puta não quer devolver. Nivaldo balançou a cabeça, sentado na beira da cama, e acendeu um cigarro de maconha. — Quer um tapa? — perguntou a Ornelas, que levantou da cadeira e foi até a cama. Deu uma tragada, enquanto Silas andava em círculos e metia a mão esquerda no bolso da bermuda. Era um gesto habitual, quando ele precisava se concentrar para tomar decisões difíceis. Nivaldo virou-se para Silas: — O filho da puta não quer devolver? Silas tapou o bocal do telefone e respondeu: 113
Slide 114: — Quer cobrar. — Cobrar? — Nivaldo deixou escapar a voz e o verbo cobrar, repetido, ecoou pelo barraco. Ornelas comentou, baixinho: — Não acredito, cara. Não acredito nisso, cara. Não se pode confiar em ninguém. Não se pode acreditar em mais nada. Silas continuava girando, até que estancou e apoiou o pé direito na cadeira em que Ornelas estivera sentado, antes de juntar-se a Nivaldo para fumar o baseado. Era sua vez de falar. Queria dar o assunto por encerrado, restabelecendo sua autoridade: — Olha, aqui, Santiago. Vamos falar de homem para homem Eu não tenho saída. Vou ter de recomprar as armas de vocês. Não tenho saída. Sei que vocês sabiam que eu ia acabar aceitando, por que vocês sabem que eu sei que, se não revenderem pra gente, vocês venderiam pro pessoal do terceiro comando. E vocês sabem que eu posso até ficar sem esses vinte fuzis, mas não posso dar mole pros caras. Se fosse pra ficar com vocês, eu tava cagando. Não ia recomprar porra nenhuma. Deixava pra lá, só pelo gostinho de não fazer negócio com você. Eram armas perdidas. Tudo bem. Elas iam lá pra Divisão de Fiscalização de Armas e Explosivos (DFAE), aquele cemitério de armas que vocês têm lá na polícia. Mas eu sei que não vai ser assim. E sei que vocês sabem que eu sei que não vai ser assim. Por isso é que você teve a cara-de-pau de me propor esse negócio. Então, tá, Santiago. Negócio fechado. Vou pagar. Vou comprar. E, os vinte. Todos os vinte fuzis. Isso mesmo, topo o preço, sim. É, em dólar, claro. Certo, entendi o cálculo, sim. Mas não me faz de palhaço, porra. Não vem me dizer que é um preço camarada. Pode mandar trazer. Tá certo. É. Entendi. Certo. Vou dizer aqui pro pessoal. Vou dizer pro pessoal que não é recompra; é só uma taxa pela devolução. Pode deixar que eu digo. Agora, em compensação, você vai dizer pro seu pessoal que "política fiscal" é a puta que pariu. Silas desligou o telefone, deu um chute na cadeira, tirou o baseado da mão de Nivaldo, deu um tapa e ficou olhando o sol que descia atrás do Maracanã. 114
Slide 115: Traição Era um pedido especial do coronel Hugo Flores ao BOPE. O comandante determinou que eu visitasse o coronel, me inteirasse da demanda, planejasse a ação solicitada e distribuísse as tarefas, caso cumpri-las ultrapassasse o tempo de meu plantão. Foi uma longa viagem do Centro à Zona Oeste do município, sobretudo no calor carioca. Aliás, como diz um amigo, o Rio só tem duas estações: o verão e o inferno. Estávamos em pleno inferno — para Dante nenhum botar defeito. Você já deve estar imaginando cumprir esse trajeto em janeiro, cruzando a aridez do subúrbio. Tudo bem, só que nosso carro não tem ar-refrigerado. Deve ser por isso que se chama viatura. Lembre-se que, além do conforto, seu automóvel com ar-refrigerado aciona um upgrading instantâneo em seu status: você ganha o direito de ser um indivíduo e, se bobear, até um cidadão, e não se arrisca a ser chamado de elemento. Tudo isso só vale se você for branco, bem entendido. Não vamos ser cínicos e fingir que vivemos no paraíso da democracia racial. E não estou falando só porque sou negro e vítima do preconceito, não. Milhões de vezes me pego discriminando também. Na hora de mandar descer do ônibus, você acha que escolho o mauricinho louro de olhos azuis, vestidinho para a aula de inglês, ou o negrinho de bermuda e sandália? E não venha me culpar. Adoto o mesmo critério que rege o medo da classe média. É isso mesmo, a seleção policial segue o padrão do medo, instalado na ideologia dominante, que se difunde na mídia. Não, não é jargão 115
Slide 116: marxista, não. Depois eu conto por que lhe posso assegurar que não tenho nada a ver com marxismo, comunismo, essas coisas. Depois. Cada história há seu tempo. Agora, tenho de chegar logo à Zona Oeste, que o coronel Flores me espera para encomendar a missão especial. É manhã, cedo, mas planejar uma operação não é fácil. É preciso levantar as informações pertinentes, trabalhar com mapas, topografia, tudo isso demora. Pensando melhor, vou adiar mais um pouco a chegada à Zona Oeste só para lhe dar um quadro mais realista dessa questão. Vamos deixar o coronel Flores esperando mais um pouco para acompanhar uma patrulha que alguns colegas faziam na Tijuca. Eles vinham de uma batida na boca de fumo da favela da Galinha, descendo de viatura uma ladeira deserta, os faróis desligados. Um carro subia. Era suspeito. Favelado não tinha carro importado. Enviesaram a viatura num movimento súbito, desembarcaram armados e jogaram o foco das lanternas no interior do carro. Duas aeromoças e dois tripulantes de conhecida companhia aérea, ainda em uniforme de trabalho, certamente chegando de uma viagem e, pelo visto, buscando decolar para outra. Atrapalhadas e nervosas, as moças não demoraram a confessar: iam, sim, comprar droga, mas não eram traficantes. Quem consome prefere o rótulo de viciado, porque tem o dom de converter o crime em doença e o perpetrador em vítima. Tudo bem, estava na cara que não eram mesmo traficantes. Mas nem por isso o tenente Diogo refrescou. Ele ficava furioso com essa cumplicidade hipócrita da classe média com os criminosos. Os maconheiros financiavam os bandidos e depois faziam passeata contra a violência. Mandou todo mundo saltar. Percebeu, com as antenas de policial experiente, que elas eram casadas; eles, não. Dedução: não são pares. Pronto, impôs-se a linha de trabalho. Escolheu a mais graciosa. — Escuta aqui, sua putinha. Quer dizer que vocês vieram limiar, cheirar e trepar com os garotões. O veado de seu marido vai gostar de saber que o seu vôo está apenas começando. Cadê o celular? Isso, liga aí pro chifrudo que eu quero falar com ele. 116
Slide 117: A mulher chorava como se estivesse levando uma surra. — Você também — dirigiu-se à outra. — Pode ir digitando o número. Vamos fazer uma conferência virtual com os chifrudos. Chama o maridão, sua puta. Os rapazes intervieram, fazendo o tipo "vamos ser razoáveis". O gênero enfureceu Diogo. Naquele momento, qualquer palavra poderia ser a gota d'água. O problema é que, em vez de vir dos homens, a gota que faltava veio da mulher mais destemida, que resolveu topar a briga, dizendo que o tenente estava fazendo aquela cena para vender mais caro a liberdade. Levou uma porrada que a fez girar sobre o próprio eixo, antes de desabar. Tonta, foi erguida pelos rapazes, enquanto a fraquinha derramava-se toda, em prantos. A equipe de bordo caiu na real, mas o tenente atingiu seu próprio grupo, que achou o sopapo indecoroso, desnecessário, covarde. — Porra, tenente, numa mulher? O sargento Ávila traduzia o sentimento geral: "Numa mulher?" Fez esse comentário piedoso depois que os comissários tinham ido embora, liberados por Diogo, que também sentiu que havia exagerado a mão, por assim dizer. Meio culpado, despachou os suspeitos, desistindo dos telefonemas pedagógicos aos esposos cornudos. Moral da história: não se bate em mulher nem com uma flor? Negativo. Foi o próprio Diogo quem esclareceu: — Vocês ficam me olhando com essa cara e resmungando, mas eu queria ver se fosse uma negrinha de cabelo pixaim, mal vestida. Duvido que me viessem com essas delicadezas. Atire em mim a primeira pedra quem jura que não faria galhofa da pobre coitada e não faria questão de contribuir com um pontapé para a surra na negrinha. Como você vê, a cor da pele é nossa bússola. E, nisso, somos apenas adeptos modestos e fiéis da cultura brasileira. Nunca me esqueci dessa pequena história, porque ela é quase didática. De todo modo, já chega de considerações gerais. Não posso mais adiar a chegada ao batalhão do coronel Hugo Flores. Vamos lá. 117
Slide 118: Saí da viatura, no pátio do Batalhão, e fui recebido pelo ajudante-deordem do comandante, que me conduziu ao Flores, no segundo andar. Sempre achei incrível a organização espacial dos batalhões da PM. Parece mais uma repartição de funcionários públicos, com funções meramente burocráticas. O estado-maior fica longe do gabinete do comandante, que não se comunica com os setores operacionais, que, por sua vez, recebem chamadas como um hospital, como se a polícia não tivesse nada a ver com o conhecimento das dinâmicas criminais e sua prevenção. É também impressionante o número de policiais em tarefas absurdas. Por exemplo, checando as chamadas telefônicas feitas de dentro para fora do Batalhão. Para não falar do pessoal que conserta as viaturas, das equipes que se ocupam da cozinha, dos grupos da limpeza. Tem comandante mais agitado, que pega no pesado; mas tem os que convocam as PFEM — policiais femininas — para fazer as unhas dos pés e das mãos, e que passam o tempo articulando seus próprios negócios — em geral são empresas de segurança privada que eles colocam nos nomes das mulheres ou dos parentes. Chega a ser engraçado: na segunda-feira, o superior hierárquico enquadra o inferior, aplicando o regimento disciplinar medieval, duríssimo com o cabelo grande e leniente com o roubo, a extorsão, o assassinato etc. Na terça-feira, ambos se encontram na empresa de segurança, como patrão e empregado, ou seja, como cúmplices de um ilícito — porque, como você sabe, policial não pode fazer bico na segurança privada. Na quarta-feira, de volta ao quartel, o soldado já perdeu o respeito pelo superior e vive aquele teatro da ordem militar com ironia e repugnância. E assim vamos ladeira abaixo. Quando comecei a sacar isso tudo, mergulhei de cabeça na prova de seleção para o BOPE. Não sou bandido, nem tenho vocação para funcionário público. Aliás, para ser sincero, tenho mais nojo do policial bandido do que do bandido assumido. Mas deixa pra lá. Um dia escrevo sobre isso — depois que for expulso da corporação. 118
Slide 119: Entrei no gabinete do coronel Flores, prestei a continência regimental e fui autorizado a sentar-me. — Capitão, nós não temos conseguido entrar na favela do Cavalo. Os traficantes têm sido hábeis no bloqueio. São muitos e estão bem armados. Temos bons informantes lá, e já sabemos onde estão as armas e quem são os líderes do movimento. Mas enquanto não conseguirmos romper o cerco que montaram na parte baixa do morro, não haverá o que fazer. Assaltar pelo alto exigiria uma força especial, porque o terreno é íngreme e acidentado, e talvez esteja igualmente protegido. Nunca tive tanta dificuldade para uma abordagem policial. A ordem do comando geral da PM é para que ocupemos a favela. Mas, nas condições atuais, é impossível. Por isso, precisamos de vocês. Flores foi direto, educado, didático e profissional. Estive próximo de rever a imagem que tinha dele. O coronel, digamos, não gozava de boa reputação. Corriam muitos boatos. Diziam que ele era homem ligado a um famoso traficante, que liderava uma das facções criminosas do Rio de Janeiro. Você pode imaginar o que isso significa, mas, se não consegue, vou dar uma dica: partilha com os criminosos do lucro obtido pelo tráfico, em troca de certo direcionamento das incursões policiais, de acordo com os interesses da facção criminosa com a qual se negocia. Não é incomum esse tipo de aliança: a polícia é usada por uma facção contra a outra. Uma tática conhecida é a provocação de uma crise artificial numa favela dominada por determinada facção, para justificar operações que a enfraqueçam ou mesmo a expulsem do território, abrindo espaço para novos negócios, mantidos os antigos ideais... A facção beneficiada aproveita o momento para invadir a favela, dominá-la, apropriar-se da boca e da correspondente fatia do mercado de drogas. E assim caminha a humanidade. Se você está se sentindo revoltado, imagina o que eu e meus colegas sérios sentimos, quando descobrimos que estamos sendo manipulados e que nossas vidas não valem porra nenhuma. Infelizmente, nem todos os companheiros entendem o processo com clareza. Às vezes, culpam os políticos, sem compreender que, antes das manobras dos políticos, são os nossos 119
Slide 120: camaradas e nossos superiores, muitos deles, alguns deles — vá lá —, os principais responsáveis. E a mídia bate palmas, fazendo papel de trouxa, enganando os otários que pagam impostos, inclusive os nossos miseráveis salários. Mas não se apresse a tirar conclusões simplistas: "Coitados, eles se vendem por causa dos baixos salários." Bullshit. Porra nenhuma. Fosse por isso a Polícia Federal seria imune a esses probleminhas. E não é, como você deve saber. A maioria da população brasileira é miserável e não se corrompe. A primeira intervenção do Flores quase fez uma faxina na imagem que eu tinha dele. Eu disse quase. Confesso que esperava encontrar um personagem de gibi, um pequeno ditador de fancaria, um títere de opereta. Mas ele, à primeira vista, não se parecia com as caricaturas — eu nunca tinha estado com o Flores, pessoalmente. Ele era menos baixinho do que eu imaginava. Menos barrigudo do que supunha. Menos grosseiro do que diziam. Pena, a compostura derreteu logo. — Major — dirigia-se a um auxiliar —, mostre ao capitão o que sabemos e dê a ele aquele mapa. E vá testando o nosso herói, pra ver se ele é sujeito macho mesmo. Deu uma risada de desenho animado e saiu, batendo a porta. Fingi que não era comigo e fui estudar o mapa e os dados reunidos pela P2. Uma hora e meia depois, mais ou menos, o comandante voltou. Esperou que eu terminasse de lhe apresentar o primeiro esboço do plano e alertou: — Escuta aqui, capitão. Nós vamos aproveitar a limpeza que faremos hoje à noite, na favela do Cavalo, para acertar umas contas atrasadas com um traidor, ok? Então, vê se segura a onda, entendeu? Voltando-se para o major: — Amarildo, arma tudo direitinho que é a hora de passar o cerol no Múcio. — O sargento Múcio? — perguntou o oficial. — É, porra. Não se faz de idiota. 120
Slide 121: Levei um susto, mas preferi não registrar o que só a posteriori assumiu foros de realidade. Naquele ambiente e no meio daquele diálogo, parecia que o Flores queria me confundir só pelo prazer infantil de me sacanear. Brincadeirinha de macho, entende? A polícia é um vestiário de futebol permanente. Ou você adere à linguagem, verbal e corporal, ou vira veado. É como na escola, com o agravante das armas e da autoridade. Repassei o plano com o major, deixei com ele as instruções para a equipe do Flores, repisei as linhas mestras do movimento que o BOPE faria e me mandei de volta. No caminho, passaria na firma de um amigo para, novamente, tomar emprestados oito visores noturnos. Ou a gente se vira ou nada acontece — e os riscos aumentam. Você acha que o Estado nos oferece os equipamentos técnicos necessários? Pode tirar o cavalinho da chuva. Aliás, pensei em chamar a operação Cavalo de Tróia, mas me soou muito óbvio. A idéia era, em resumo, a seguinte: oito homens do BOPE invadiriam a favela pelo alto, em silêncio, com os visores, surpreendendo os traficantes por trás — eles nunca tinham sido abordados pela retaguarda, porque estavam protegidos por uma pedra alta. Somos bons de rapel e, com os visores, teríamos todas as condições para assaltar o QG dos traficantes. Limparíamos a área para a subida do grupo do coronel Flores. Na pior das hipóteses, os bandidos fugiriam para a parte baixa da favela. Se isso acontecesse, desceriam desorganizados e seriam vencidos pela tropa regular da PM, que já estaria preparada para o embate. Dificilmente daria errado. No fim da tarde, entreguei os visores e o plano ao capitão Técio, que me substituiria naquela noite. Ele comandaria a equipe do BOPE, encarregada da operação no morro do Cavalo. Passei todos os detalhes e saí exausto, louco para curtir uma noite de sexta-feira bem romântica com minha mulher. Afinal, ninguém é de ferro. Engraçado, alguma coisa não parecia certa. Eu tinha a sensação de que faltava algo. Revi, na memória, cada ponto do plano. Tudo parecia se encaixar perfeitamente. Mesmo assim, sentia um buraco no estômago, uma angústia, uma voz que me comunicava uma mensagem ininteligível. Não conseguia descansar, relaxar. Na cama, por mais que estivesse esgotado 121
Slide 122: fisicamente, o sono não vinha. Eu andava pela casa sem parar. Minha mulher tampouco conseguia pregar o olho, preocupada comigo, captando no ar minha ansiedade. Esse fenômeno não é raro. Quando eu participava do planejamento de uma operação e não integrava a equipe, era difícil desligar. Por motivos bons e maus: é horrível imaginar a derrota e é ruim não compartilhar uma vitória. Liguei o rádio, telefonei e acabei conseguindo falar com Técio: — Uma merda, rapaz. Deu a maior merda. Não estou entendendo nada — ele disse. — O que é que houve? A operação não deu certo? Algum companheiro está ferido? Alguém morreu, Técio? — Não, cara, a operação não poderia ter dado mais certo. O problema não foi esse. Um sargento morreu. Foi muito estranho. Porra, uma merda. Ele morreu na minha viatura. Um sargento lá do batalhão do Flores. — Caralho. Um sargento? Qual era o nome dele? — Não lembro. — Onde você está? Vou te encontrar agora. Preciso esclarecer uma coisa. Eu também não lembrava o nome que o Flores mencionara. Não lembrava porque não tinha levado a sério a ameaça que ele fizera. Não tinha levado a sério em termos, porque, no fundo, aquela angústia toda talvez fosse a presença perturbadora daquela ameaça, que ecoava na minha cabeça como uma espécie de maldição. Do mesmo jeito que passa mal quando come um alimento estragado, a gente sofre quando não digere bem uma informação, uma palavra. E um tipo de indigestão espiritual. O estômago e a mente ficam embrulhados. Eu me culpava por não ter contado ao Técio a tal história do sargento, para que ele ficasse atento. Merda total. E não conseguia lembrar o nome do cara. Talvez, ouvindo o nome de quem morreu, eu pudesse identificar se coincidia ou não com o nome que ouvira, no gabinete do Flores. 122
Slide 123: Coincidia. Múcio. O sargento morto se chamava Múcio. O nome era o mesmo. Não tive dúvida. Técio me contou o que aconteceu naquela longa noite, na favela do Cavalo. — Nós entramos por cima, conforme o plano. Descemos de rapei, com visores. Foi mais fácil do que supúnhamos. Descemos até o primeiro nível de assalto, passamos ao segundo estágio. Tudo certo. Sem sustos. Descemos para a plataforma de ataque. Tudo conferia. Os vagabundos estavam por ali mesmo, em torno da casa, que era o paiol das armas. Bloqueamos o beco para onde eles teriam de recuar e fechamos as duas pontas do ataque, em pinça, exatamente na formação planejada. Eles mal tiveram tempo para se coçar. Eliminamos todos ou quase todos. Foram nove. Apreendemos um bom lote de armas e alguns quilos de cocaína e maconha. Os bandidos que sobraram desapareceram. Devem ter procurado refúgio nas casas e dificilmente sairiam tão cedo. Pelo contrário, acho que, dadas as condições, não vão ter como reorganizar o bando. A tendência é que abandonem a favela. — Isso, a partir da meia-noite. — Exato. — E o Flores? — Pois é, avisamos ao pessoal do Flores pelo rádio que desceríamos tranqüilamente, mas atentos a alguma emboscada. Determinei que eles nos aguardassem naquele ponto que você marcou no mapa, para o encontro. — Houve algum problema na descida? — Nenhum. Paz de cemitério. Só mesmo a cachorrada, mas era até bom o alarme dos latidos pra ninguém se meter a besta e sair de casa. Do jeito que a gente estava ligado, sabe como é... — E aí, lá embaixo, você passou a bola para o Flores. — Passei. Estava tudo tranqüilo. A favela parecia um deserto. Todo mundo em casa. O maior silêncio. Ninguém se atreveria a nenhuma ousadia. De todo modo, indiquei a ele o caminho mais seguro para subir. Expliquei que tinha deixado os corpos lá em cima. Talvez ele viesse a ter problemas com as famílias. Essas coisas. Teve um detalhe que me deixou cabreiro. 123
Slide 124: — O quê? — O grupo do Flores trazia dois sujeitos algemados e encapuzados. Ele me disse que eram alcagüetes e que era preciso fingir que eles estavam sendo presos e maltratados, para evitar futuros problemas para os rapazes. — Entendo. — Achei meio esquisito, mas tudo bem. — E as armas que vocês apreenderam, também ficaram no alto da favela, com os corpos? — Tá louco? As armas, não. Nos trouxemos todas. — Ah! Bem. — Tá pensando o quê? Não sou nenhuma virgem do Sion. Sabe-se lá quem são esses policiais do Flores... — Sei. — Sei que você sabe, mas o que você não sabe, nem eu desconfiava, era que, uns vinte minutos depois que minha equipe tinha saído, o rádio anuncia emergência no morro do Cavalo. Porra, emergência no morro do Cavalo. — Que merda! — Exatamente. A gente já estava relaxando... a gente já se permitia sentir os efeitos da tensão, a fadiga... Bem, você sabe muito bem o que é isso. — Voltaram. — Dali mesmo. Acho que chegamos lá em uns dez minutos, porque as nossas — E? — Calma. Paramos um pouco antes da entrada da favela. Subimos a pé até o início da rua principal, que sobe o morro. O Flores estava sentado na calçada com um major. Tranqüilos. Não estavam com aquela cara travada que se carrega nos confrontos. Pareciam calmos. Ali na calçada, como se fossem jogar cartas. viaturas aumentaram a velocidade até o limite da irresponsabilidade, como diria o Fernando Henrique. 124
Slide 125: — Lembra o nome do major? — Não. Nem interessa. Eles se levantaram e me apontaram o policial caído. — Onde? — Logo ali adiante, bem no começo da rua que sobe a favela, ao lado de uma viatura. — Era o tal sargento. — Escuta. Apontaram o colega e com o ar mais resignado natural do mundo disseram que tinha morrido no tiroteio. — Que tiroteio? — Foi o que eu perguntei. Logo que a gente saiu, os traficantes começaram a atirar. A tropa do Flores respondeu com fogo cerrado e os bandidos recuaram. Nisso, enquanto o grupo do Flores subia, empurrando os vagabundos de volta para cima ou os dispersando, o policial foi atingido. Estava morto. — Mas... — Espera. Só que ele não estava morto. Puto com a pasmaceira do Flores, que não era capaz nem de resgatar o corpo do companheiro, jogado ali feito um animal, determinei que me cobrissem com fogo pesado e me arrastei até o homem. Cara, ele estava vivo. Sangrava muito, mas tinha pulso. Dei um grito, chamei o Dutra e puxamos o sujeito. Deixa eu te dizer uma coisa. Uma coisa muito estranha mesmo. Sabe que quando gritei que o homem estava vivo, olhando na lateral para o Flores e o major, sabe que eu tive a impressão de que os dois se assustaram? Eles não vibraram, nem se emocionaram. Eles se assustaram. Pareciam dois palermas, perplexos, sem ação. Porra, cara, que filhos da puta. O camarada logo ali, se esvaindo em sangue, e eles nem conferiram se ele tinha morrido ou não. Caralho. Nunca vi nada igual. — A ambulância da PM já estava lá? — Não e não dava tempo para esperar a ambulância. O cretino do Flores, provavelmente, demorou a chamar. Tivemos de jogar o homem em nossa viatura e correr feito loucos. Estávamos desesperados, cara. Foi 125
Slide 126: horrível. O colega morrendo na nossa frente, no nosso colo, vomitando sangue. Mas já era muito tarde. Não deu tempo. Uma merda, entende? — Entendo perfeitamente. E faz todo sentido. Tudo se encaixa. — Como, entende? O que é que se encaixa? Na verdade, nada se encaixa. Pensa comigo: nós saímos depois de limpar o terreno. Quando deixamos a favela, não havia o mais vago vestígio de capacidade de resposta do tráfico. Os vagabundos que sobraram estavam dispersos, apavorados, provavelmente sem armas e sem noção do que tinha acontecido e do que aconteceria. Além do mais, tinham perdido um grande número de comparsas — segundo nosso cálculo, executamos os mais experientes, os líderes, os organizadores. Como é que os putos saltariam da dizimação para a iniciativa, de uma hora para outra, sem mais nem menos? — Eu sei como. — Porra, cara. Impossível. Não teria dado tempo. Não haveria condições. — Eu sei, estou te falando que eu sei como teria sido possível. — Não fode, capitão. Além do mais, tem o seguinte... e isso foi para mim o sinal mais esquisito de todos: a chave não estava com o sargento que morreu. Quando vi que não vinha tiro nenhum em minha direção, fiquei mais tranqüilo e fui checar a viatura que estava ao lado do sargento. As chaves não estavam na ignição e não tinha marca de bala. O Flores me disse que ele tinha acabado de sair da viatura, quando foi alvejado. Mas como é que houve o tal tiroteio, se a viatura está incólume? E as chaves, por que não estavam com o sargento, nem na ignição? Onde é que foram parar? Por quê? Porra, cara, nada faz sentido. — Tudo faz sentido. Estou te dizendo. Tudo se encaixa. Eu não tinha te contado, mas ouvi o coronel Flores comentar com um major que eles aproveitariam a operação para se livrar de um sargento. — Você está de sacanagem. — Verdade. — Caralho, capitão, como é que você não me fala uma coisa dessas? 126
Slide 127: — Não sei. Acho que Não levei a sério, sei lá. Devia ter te contado. Claro. Pode ter certeza de que nunca vou me perdoar por isso. — Mas por quê? — Estou te dizendo: não sei, não pensei que fosse para valer. — Não, estou perguntando por que queriam eliminar o sargento? — Disseram que ele era um traidor, vendido ao tráfico. — Será? A história que ouvi é bem diferente. — Sobre o Flores? — Pois é. O que sei é que ele teria umas ligações bem esquisitas. — Também ouvi falar. — Não sei, rapaz. Não sei mais nada. Amanheceu com o céu fechado, um mormaço desgraçado. Minha cabeça parecia que ia estourar. Fiz questão de ir ao sepultamento do sargento, no fim da tarde. Notei que o Flores e o major estavam desconfortáveis. Coronel Ademar não saía de perto do caixão aberto. Era visível que estava profundamente mobilizado. Ele era um desses velhos oficiais, respeitados por toda a corporação. Quando surgiu a primeira oportunidade, me aproximei e lhe disse que precisava falar com ele, em particular. — Outra hora, capitão. Me procura outro dia. Hoje, não tenho condições de conversar, não. Perdi um amigo. Múcio serviu comigo até há poucos meses. Ele era um dos policiais mais honestos, leais e competentes que já conheci. Confesso que fiquei sem palavras e senti minha perna tremer. Minha visão embaçar. Minha visão do mundo tremer. No dia seguinte, o Flores voltou a pedir ajuda. Precisava da gente para resgatar uns corpos que tinham ficado em um platô elevado, numa alça de pedra. Avisou que era difícil subir até lá e, para o pessoal dele, impossível descer com os corpos. Explicou que alvejaram alguns traficantes remanescentes no morro do Cavalo. Os policiais foram ao alto da favela, por fora, mas não desceram porque não treinaram rapel. Atiraram de cima, 127
Slide 128: porque os vagabundos estariam no alto da pedra, mais abaixo. E os corpos ficaram por lá mesmo. Realmente, não foi fácil chegar ao local. Muito mais difícil foi baixar os corpos. Mas esse nem foi o maior problema. O pior de tudo era o cheiro, os urubus e a imagem. Nunca tinha visto nada igual e acho que nunca mais vou ver nada parecido. A história tinha sido um pouco diferente da versão relatada pelo coronel Flores. Havia dois corpos despedaçados de um jeito, que só me restou uma explicação: os dois encapuzados vistos pelo Télio não eram alcagüetes; foram levados para o morro do Cavalo para serem executados. Só que os policiais perderam a chave das algemas e, para não deixar pistas, arrebentaram as mãos e os braços dos rapazes. Dias depois, fui recebido pelo coronel Ademar. Ouviu minha história em silêncio. A porrada foi muito violenta. Ele não conseguiu esconder totalmente a emoção, que parecia ser um misto de ódio, indignação, vergonha e desalento. Mas permaneceu calado. Quando lhe perguntei o que eu deveria fazer, respirou, pensou um pouco e disse: — Capitão, você tem duas opções: denunciar à corregedoria, ser perseguido e acabar expulso da corporação; ou pedir desligamento e escrever um livro. Despedimo-nos. Saí do gabinete. Cumprimentei os colegas que assessoravam o coronel. Quando me aproximava da escada, ele abriu a porta e completou o conselho: — Capitão, se você escolher o livro, não se esqueça de manter o passaporte em dia. Nós dois rimos e acenamos um para o outro. Os colegas não entenderam as palavras, o riso e os sinais. Eu mesmo levaria um tempo para entender um pouco melhor e de forma mais abrangente o sacrifício do sargento Múcio. As cores da vida foram ficando mais turvas, à medida que aquele episódio ia sendo metabolizado. As tonalidades mais sutis começaram a se embaralhar. Aos poucos, as fronteiras foram sendo apagadas pela seqüência das loucuras mais extravagantes. A realidade foi se tornando mais 128
Slide 129: grave, mais absurda e menos verossímil. A tal ponto que, poucos anos depois, o testemunho verdadeiro não se distinguiria do delírio. Dois Anos Depois: A Cidade Beija a Lona 129
Slide 130: Santiago já aprontou poucas e boas. Aliás, muitas e péssimas. Ele excede a cota média de confusão e sacanagem. Abusa dos feitos, com empáfia. Meu avô diria que se trata de um boquirroto. Adora se vangloriar. Quem fala muito, fala o que deve e o que não deve. Uma hora dessas, o destino dá o troco. Sobretudo porque os relatos vão-se juntando a outros relatos, de outras fontes, tanto da polícia quanto da bandidagem — que é outro poço sem fundo de histórias, em que tudo se sabe e tudo se esquece, em benefício da própria sobrevivência. As histórias são varridas para o lixo. O problema é quando o entulho se acumula e alguma coisa empaca na obstrução do esgoto. Mais dia, menos dia, um repórter colhe a flor rebelde que fura o estéreo e levanta a cabeça — mesmo nos domínios do pântano, há o risco da flor improvável. Pronto: aí, sim, a casa cai. Dois anos depois do período em que ocorreram os episódios relatados no "Diário da Guerra", Santiago montou a ratoeira e enrolou o cacho de dinamites nos pilares da casa. Eis a oportunidade para que se perceba o protagonismo do BOPE de outra perspectiva. Para que você não se perca na história vertiginosa que vai começar, a lista de personagens pode ser útil. 130
Slide 131: ADEMAR CAMINHA VIANA TORRES — Deputado federal pelo estado do Rio de Janeiro. ALICE DE ANDRADE MELO — Namorada do policial do narrador do "Diário da Guerra" e do "Epílogo". AMARILDO HORTA — Deputado estadual, ligado ao governador. AMÍLCAR — Coronel da Polícia Militar do estado do Rio de Janeiro, diretor do Serviço de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública. ANACLETO CHAVES DE MELO — Diretor da penitenciária de segurança máxima, Bangu I. ANDERSON — Informante da Polícia Civil, ligado a Amarildo Horta. BABY — Apelido de Carlos Augusto, amigo de Renata. BARROS, CHICO SANTOS, VILMAR E ZARA — Policiais do BOPE, atuando em Bangu I. BRITO — Sócio do bicheiro Saramago. CARLOS MEIRELES — Ex-agente do SNI; oficial reformado do Exército. CEZINHA — Chefe do tráfico no complexo do Alemão. DINO — Chefe do tráfico na Rocinha. DIVALDO SININHO — Principal assessor de Anacleto Chaves de Melo. 131
Slide 132: DORIS — Vizinha de Renata. ELPÍDIO — Coronel PMRJ, chefe do Gabinete Militar do governo do estado do Rio de Janeiro. ÉRICO, ITAMAR E JÚLIO — Amigos de Baby. FÉLIX COUTINHO — Policial civil. FRAGA — Comandante-geral da Polícia Militar do estado do Rio de Janeiro. ÍNDIO — Chefe do tráfico na favela da Mineira. JAIMINHO ONÇA — Apelido de Jaime Correia, braço direito de Polinices. JARBAS — Síndico do prédio em que mora Renata. JONAS — Auxiliar do chefe do tráfico na favela da Mineira. JUVENAL — Recruta do Exército e ex-estudante de História. LEONARDO — Traficante de ecstasy. LÚCIO PÉ-DE-VALSA MORAES — Amigo de Luizão. LUIZÃO FRANÇA — Delegado da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro. MARIA DO CARMO — Cabo da PMRJ, atuando como secretária no Palácio Guanabara, sede do governo do estado do Rio de Janeiro. 132
Slide 133: MARQUINHO — Diminutivo de Marcos Paiva de Souza Carneiro, chefe de gabinete da Secretaria de Segurança. MAURO PEDREIRA — Delegado titular da Delegacia Anti-Seqüestro (DAS), da Polícia Civil do estado do Rio de Janeiro. MICHELE — Esposa de Moisés. MIRANDA — Policial militar; braço direito de Santiago. MOISÉS — Líder do Comando Vermelho. NAMORADO DE ALICE — Oficial do BOPE e estudante de Direito da PUC, é o narrador do "Diário da Guerra" e do "Epílogo". NEREU — Chefe do tráfico na favela da Coréia. NOCA — Chefe do tráfico no complexo da Maré. NUNO CEDRO — Grande empresário e amigo do governador, cujas campanhas financia. OTACÍLIO MALTA — Policial civil, principal auxiliar de Luizão França. PEDRINHO — Filho de Santiago e Renata. POLINICES VIEIRA DA SILVA — Superintendente da Polícia Rodoviária Federal no estado do Rio de Janeiro. RAMIREZ — Oficial do BOPE; amigo do narrador. 133
Slide 134: RENATA FONTES — Ex-esposa de Santiago; mãe de Pedrinho; assistente social da penitenciária de segurança máxima, Bangu I. RINALDO — Comparsa que ajuda Dino a fugir. RITA, RODRIGUINHO E MARCINHA — Esposa e filhos de Índio . RIVALDO — Chefe do tráfico na favela do Borel; ex-pastor evangélico. RUSSO — Traficante inimigo de Dino. SALES, SANDER, JUREMIR, CRICIÚMA, BERNARDINHO E ADRIANO — Policiais civis, auxiliares de Luizão França . SANTIAGO — Capitão da Polícia Militar do estado do Rio de Janeiro; ex-marido de Renata; pai de Pedrinho. SARAMAGO — Banqueiro do jogo do bicho. SAUL NOODLES — Repórter da TV Globo. SUELY — Diarista que trabalha para Baby. URUBU — Auxiliar de Cezinha. VAZ — Delegado da Polícia Civil do estado do Rio de Janeiro e diretor do Serviço de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública. VIKIE — Auxiliar de índio. VÍTOR GRAÇA — Chefe da Polícia Civil. 134
Slide 135: O secretário de Segurança e o governador são indicados por suas respectivas funções — sem nomes próprios, portanto. O Core é a Coordenadoria de Recursos Especiais da Polícia Civil, do Estado do Rio de Janeiro, unidade que, na prática, funciona como uma espécie de BOPE da Polícia Civil. POSTO DE GASOLINA DA PETROBRAS, NA RODOVIA BR-101, INTERIOR DA PARAÍBA, DIA 11 DE JULHO, ÀS 13H50 Dino não sabe se a cabeça lateja por causa do calor que faz dentro do carro, ou da pressão que sente, por dentro, por fora, no corpo todo, moendo os ossos e mastigando os nervos. Se algum dia tivesse lido Nelson Rodrigues, se a sua vida tumultuada lhe tivesse permitido ler, se o diabo da escola que freqüentou tivesse ensinado a ler alguma coisa que valesse a pena, ele diria: sol que derrete catedrais. Naquela tarde, o calor racha o asfalto e levanta uma névoa líquida, um vapor em que parecem boiar as coisas distantes. Dino não pode viajar à noite. Questão de segurança. De dia é menos arriscado. Sente um grande alívio quando abre a porta e pisa o chão de pedra do posto de gasolina. Uma sombra àquela hora, um copo d'água gelada, é tudo que quer. Enche os pulmões com o ar da Paraíba, ar de sua infância, oxigênio da liberdade. Como faz bem estar longe. Como é bom se sentir bem, de novo. Mesmo assim, ele sente um frio estranho. Pensa na mãe e nos panos que ela costumava mergulhar n'água fria antes de pôr em sua cabeça, quando tinha febre. Pensa na mãe, na febre e no gelo, e percebe que a boca está seca. Tem sede. Uma corrente elétrica atravessa corpo e alma quando conta o tempo que falta para chegar à casa da mãe: três horas, só três horas, depois de três 135
Slide 136: dias de viagem, um deles com Rinaldo, naquele carrinho de merda. Depois de tantos anos. Ela não sabe que ele está chegando, muito menos que pretende ficar. Respira fundo e faz a oração que a mãe-de-santo lhe recomendara, em Vitória da Conquista. Rinaldo deixa o frentista enchendo o tanque e vai ao banheiro, atrás do barzinho, no fundo do posto. Dino percebe que não há nenhum caminhão e imagina como seria tornar-se motorista de caminhão, àquela altura da vida. Talvez fosse melhor do que virar agricultor, profissão que matou seu pai muito cedo. Profissão dura demais, dura feito o povo do Nordeste, e seu destino. O dele não é tão diferente, afinal de contas. A vida do nordestino é uma guerra. Diferente da sua, mas só até certo ponto. Dino vai em busca da água gelada. Se o estômago não estivesse tão apertado pela agonia de não chegar nunca, ele até que comeria alguma coisa. Respira fundo. É bom estar longe, bem longe, e respirar sem medo. — E aí? Dino se espanta com a voz tão próxima. — E aí, como é que vai? Não tinha se dado conta da presença de alguém. De onde surgira aquela figura? — Não está se lembrando de mim? Fulmina o sujeito com os olhos, de alto a baixo. — Pois eu fui receber o arrego, várias vezes, das mãos de vossa senhoria. Antes mesmo de ouvir essas palavras, sua inspeção profissional identifica uma arma sob a camisa larga do sujeito de voz melosa. — Você não se lembra? Lá na Rocinha. Eu ia buscar a grana do Vitor Graça. Pois é, Vitor é meu chefe. Dino tenta pensar rápido, agir rápido. — Não olha pra trás ou você morre aqui mesmo. Eu vou desarmar você devagar. Você está na mira de meus parceiros. Um movimento e você morre. Dino deixa-se desarmar e continua tentando pensar em alguma coisa, rápido. 136
Slide 137: — Agora, entra em silêncio naquele carro marrom que você está vendo bem na sua frente. Você vai encontrar dois homens no carro. Outro carro com mais dois parceiros vai nos seguir. Não vai te acontecer nada. Pode ficar tranqüilo. Morto, você não vale nada. Queremos você vivo. Vamos dar um jeito no seu motorista. Só um susto pra ele ficar três dias calado. Dino olha o sujeito nos olhos. — O Dr. Vitor manda lembranças. Ele vai estar te esperando no Rio. Quer conversar com você. Dino permanece congelado, imaginando o sentido daquelas palavras. Não entende nada. De onde aquele cara tinha saído? O posto parecia deserto. Quem era o traidor? Na Rocinha, ninguém sabia de nada. Mesmo que tivessem grampeado o seu celular, não haveria como desconfiarem de alguma coisa. Além disso, ele tomara o cuidado de trocar de celular várias vezes e só usar pré-pago, para evitar que o seguissem pelo sinal do celular. — Vai andando e não olha pra trás. Quem tinha armado o alçapão? Como haviam montado a armadilha? Desde quando ele estava sendo seguido? Daria para escapar? Seria mesmo o pessoal do Vitor Graça? Vai ver o Russo fugiu da prisão para invadir a Rocinha e essa turma é da quadrilha. — Já disse pra ir andando, porra. BR 101, NO KM 666, DIA 11 DE JULHO, ÀS 15H25 Uma hora e meia de viagem. O carro marrom entra à esquerda, seguindo a seta com o nome da cidade. O segundo carro o acompanha como uma sombra. Mais uns 200 metros, faz o retorno na rotatória e passa veloz diante de um motel, um borracheiro, um campo de várzea, um punhado de moleques dentro da nuvem de poeira. O motorista conhece o lugar. Acelera para dentro da cidade. Pára na frente de uma padaria. Não era padaria. Era uma rodoviária. Descem, compram água, bebem café. Oferecem água e café a Dino. O segundo carro estaciona logo atrás. Ninguém desce. O homem que se identificou como subordinado de Vitor Graça vai até a janela do carro e 137
Slide 138: conversa com um sujeito de óculos escuros. Não dá para ver sua fisionomia. Percebe-se a silhueta: ele está falando ao celular. Chega o ônibus, lavado e azul, o esmalte brilhando. Ônibus do interior não faz turismo, transporta gente para lugares e pára como peregrino nos templos de bênção e reza. Veículo de migração é o necessário; é o que se tem. Um mundo de gente, bolsas e malas, levanta-se dos bancos de madeira, na calçada. Dino não sabe se a angústia está na atmosfera que os viajantes exalam ou se é apenas sua. Bebe água até encharcar os ossos. Passa a mão na boca. Seus acompanhantes não lhe dizem nada; mal conversam entre si. Só lhe resta adivinhar o que o aguarda no Rio. O letreiro no ônibus informa o destino: Rio de Janeiro. Ás vezes fechar os olhos e morrer é preferível à longa espera. Espera de quê? O futuro era farto, uma fartura prodigiosa. Ele teria futuro suficiente para empanturrar-se na viagem de volta ao Rio. E uma realidade comprida para digerir, minuto a minuto, cheirando a poeira, urina e vômito, regada a choro de criança e leite derramado. Pensa em leite derramado e quase sorri. Melhor que sangue. Pega a folha de jornal largada sobre o balcão. Serviria para abanar-se. Não tem mais idéia, espírito, mente, massa encefálica. Tem só crânio, comprimido nas laterais. Os olhos latejam e parecem espumar, cozidos feito ovos ao sol. Quase sorri de novo. Sobe os degraus do ônibus com sua escolta. BR- 101, DIA 11 DE JULHO, ÀS 22H20 Três homens de Vitor Graça embarcam no ônibus, com Dino, na Paraíba. Serão 48 horas de viagem. A viagem de volta ao Rio será mais rápida do que o caminho de ida. O ônibus é econômico e direto, não precisa serpentear para despistar. Um senta-se a seu lado; dois, no banco de trás. Nas inúmeras paradas, levantam-se todos para esticar as pernas, comer um prato feito, morder um sanduíche e cumprir todos aqueles ritos próprios às viagens longas. 138
Slide 139: Aos poucos, calor e cansaço entorpecem os corpos, e a luz do sertão produz uma espécie de embriaguez. Lentamente, a noite apaga a larga planície, cortada pelos espetos de luz dos faróis. Dino mergulha na nebulosa de suas lembranças, caçando o rosto do homem que o rendeu no posto de gasolina. Fecha os olhos, mas deixa uma fresta pela qual flagra seu perfil, agora sentado a seu lado, cão de guarda. Aperta os olhos e o fita de frente, no posto. Pode ainda ouvir a voz melosa. As lembranças brotam com cheiros e sons. Põe em marcha a máquina da imaginação. Roda filmes e filmes, revivendo noite após noite. "O filho da puta esteve comigo, sim. Ele não estava mentindo." Quando? Onde? "Talvez, sim, talvez tenha sido ele." Trinca os dentes. "Filho da puta." Pensa tão forte que teme ter dito filho da puta, mas não disse ou, se disse, seu ódio não chegou a despertar o cão, refestelado a seu lado, rosnando enquanto dorme. Dino captura a imagem do policial na treva de um beco da Rocinha, devolvendolhe as armas que lhe tomara na véspera e recebendo a grana prevista no arrego. RIO DE JANEIRO, RODOVIÁRIA, DIA 13 DE JULHO, ÀS 5H05 Dino e os três homens são os últimos a sair do ônibus. Ele espera encontrar a fanfarra de sempre: desceria os dois degraus, seria algemado diante das câmeras de televisão e jogado na caçamba de uma viatura com o giroflex ligado, que partiria a toda velocidade, seguida pelo cortejo dos carros de reportagem, para a exibição, ao vivo e em cores, no zoológico da Secretaria de Segurança Pública. Mas não há nada, nada além do movimento de sempre, gente descendo e subindo, puxando crianças pela mão, sacos e malas. Dino pisa a plataforma, inala gasolina, engole a náusea, firma as pernas. Ninguém, nada. Isso não cheira bem. É melhor a prisão do que o seqüestro. Se ninguém fica sabendo de que ele está nas mãos da polícia, tudo é possível. Podem executá-lo e desaparecer com o corpo. Qual o registro de que ele fora capturado no interior da Paraíba? Ninguém soube, ninguém viu. "Se quisessem me matar, já teriam feito, lá mesmo. Para que 139
Slide 140: me trazer de volta ao Rio?" A experiência briga com o medo na arena turva de sua consciência. — Nós vamos te levar pro hotel. — Onde, que hotel? — Aqui mesmo, na rodoviária. O chefe vai te ligar daqui a pouco. Relaxa, toma um banho, um café, e se prepara, porque o dia vai ser longo. Você vai voltar ao batente. Acabou a vida mansa. Fim das férias. O chefe tem de pagar as dívidas de campanha, meu camaradinha. Ele precisa de você. HOTEL DA RODOVIÁRIA, DIA 13 DE JULHO, ÀS SETE E MEIA DA MANHÃ Dino, depois do banho, do café amargo e do misto-quente meio frio, cai na cama. Repassa na imaginação os capítulos de sua vida: a chegada ao Rio com o irmão; a adolescência na casa de um tio, na Rocinha; o vício do irmão; a cocaína arruinando o irmão; o vício o levando à dívida e à ameaça; seu horror à droga e o desprezo pelos comparsas violentos; a necessidade de aderir ao tráfico para pagar a dívida do irmão; sua ascensão no crime; o sucesso e o gozo do poder; a descoberta de que aquela vitória era uma merda; a vontade de largar tudo e começar de novo; o sonho da fuga; o longo planejamento para a fuga; a saída da favela disfarçado; viagem a Vitória da Conquista; a visita à mãe-de-santo; o encontro com Rinaldo; a chegada à Paraíba; a emoção na travessia da fronteira; o trecho final para a casa da mãe no carro de Rinaldo; o encontro com o diabo no posto de gasolina; o inferno; a volta ao Rio; o desastre, a derrota, a iminência da morte. O ventilador no teto faz um ruído incômodo mas regular, de efeito entorpecente. Tenta usar o telefone sem sucesso. Está bloqueado. Não há janela. O basculante dá para uma área interna escura. Não seria fácil escapar. Os homens rondam a porta do quarto e farejariam qualquer movimento em falso. Despenca na vertigem do sono, rápido e fundo. Breu. 140
Slide 141: Silêncio. Vazio. Até que salta, ofegante. Pensa ter ouvido sirenes. O telefone está tocando. Leva alguns segundos até situar-se. Atende o telefone. Vitor Graça, em pessoa. Era ele mesmo, o chefe da Polícia Civil. Conhece sua voz e seu jeito de falar. Quer 400 mil reais até o fim do dia e 10 mil por dia, a partir da semana seguinte. Dino teria de voltar à Rocinha e retomar seu posto no comando do tráfico. A galinha dos ovos de ouro não pode suspender a produção. A Polícia Civil precisa desta fertilidade, conta com ela. "Não tenho 400 mil", chega a dizer. Use o telefone do hotel à vontade, você vai dar um jeito — é mais ou menos o que lhe diz Vitor Graça. Dino não ouve direito. Já pensa em um jeito de pagar o resgate e cair fora daquele lugar. Depois pensaria em algum modo de se livrar dos 10 mil diários. Quem sabe fugindo do Rio, novamente. Imagina-se longe e uma onda de angústia o sufoca. Vitor parece uma hidra, um leviatã de mil olhos. De que jeito zerar tudo, fazer o tempo parar e cair fora? Seria possível começar a vida de novo? DOIS MESES DEPOIS. COPA E COZINHA. CASA DE SANTIAGO NO ALTO DA TIJUCA, DIA 15 DE SETEMBRO, ÀS 20H15 Toca o interfone. O segurança da guarita avisa que a visita aguardada acaba de chegar. Santiago deposita talheres, copo e prato na bancada da pia. Caminha para a porta da sala. Recebe o visitante com saudação calorosa. — Obrigado por ter vindo. Achei melhor conversar onde a gente pudesse ficar mais à vontade. — Também prefiro. Oferece bebida. O visitante agradece. Aceita café. O anfitrião vai à cozinha buscar a garrafa térmica e xícaras, açúcar e adoçante. Serve ao convidado e troca amenidades, enquanto a voz testa os canais. Finalmente, palavras e vontade convergem para a mesma freqüência. Santiago começa a falar: — Você sabe que o Vitor tem sido um bom amigo nosso. 141
Slide 142: — Verdade. — Pois é, ele tem sido um cara fiel e é muito bom a gente ter, assim, do nosso lado, pessoas como ele. Você sabe. Ele é um sujeito de categoria. Eu acho, sinceramente, que ele vai longe. — Tem tudo pra isso. — Tirou a palavra daqui: tem tudo. É jeitoso, competente — Santiago insiste. — Fala bem. — Fala muito bem. Se comunica bem, o que é ainda mais importante, não é? — Sem dúvida. — Se comunica muito bem. Hoje em dia, ninguém pode chefiar uma polícia sem ter uma boa estampa, fotografar bem e mostrar desenvoltura na televisão.— Sem dúvida — admite o visitante. — Sem isso, hoje em dia, não se chega a lugar nenhum. — Lugar nenhum mesmo. — E ele tem tudo isso e tem classe. — Tem classe. Isso tem — reconhece o visitante. — Eu diria que ele pode chefiar qualquer polícia do Brasil, e tem mais: pode ir mais longe. — Ele pode, sim. O Vitor pode ir longe. Tem tudo pra isso. É muito habilidoso, sabe negociar, se entende bem com todo mundo. — Não há quem não goste do Vitor — Santiago reitera. — Todo mundo gosta dele. — E se ele tem tudo pra ir mais longe, por que não dar um empurrãozinho? Se a gente der uma mãozinha, ninguém segura. — Você acha que ele pode virar secretário? Secretário de Segurança? — pergunta o visitante. — Pode ir além. Olha, o Vitor pode crescer. Pode crescer muito. Pode ir além. — Você acha? 142
Slide 143: — Tenho certeza. Olha, parece que ele andou fazendo umas pesquisas por aí. O nome dele aparece bem. Bem mesmo. — Ele não teve muitos votos pra deputado estadual. Santiago explica: — Foi uma infelicidade. Ele foi muito infeliz. Deu muito azar. As eleições aconteceram num momento ruim. Tinha muito candidato forte, com muito dinheiro. Você sabe que, hoje em dia, voto é dinheiro, eleição é grana. — Isso é. — Ele teve pouco dinheiro e gastou mal. O anfitrião vai ao ponto: — Eu quis conversar com você, uma conversa séria, porque tenho certeza que o Vitor aprumou o barco e nas próximas eleições vai vir com tudo. Ele se elegendo, vai fazer o secretário, vai controlar a Polícia Civil, vai distribuir as delegacias e nós vamos poder trabalhar com tranqüilidade. Nós sabemos trabalhar, não é? É só não atrapalharem. — Isso é verdade. — Ele é parceiro de fé. Parceiro pra toda obra. É um irmão. — E a PM. Qual é o plano pra PM? — indaga o visitante. — Esse é o problema. Agora, você tocou no nosso problema. Esse é um osso duro de roer. Mais café? — Não, obrigado. A impressão que dá é que ninguém manda na PM, ninguém controla aquilo. É um acordinho aqui, outro ali, a gente correndo atrás, tendo de remendar aqui e acolá. — Um tremendo varejão. — Isso aí, varejão. Santiago arrisca: — Pois é, a gente precisa de uma solução global. Mesmo que custe um pouco mais, acaba compensando. Esse varejo é um barato que sai caro. — Sai muito caro. — Eu tenho me dedicado bastante a esse problema... Tem certeza? Nem café, nem chá? Não aceita um scotch? Se você não se importa, eu vou me servir. Preciso relaxar. Esses dias não têm sido brincadeira. Uma pauleira... Mas, como eu te dizia, tenho me dedicado bastante a esse problema e acho... belo scotch, uma delícia; você não sabe o que está 143
Slide 144: perdendo... acho que encontrei uma solução. A gente vai precisar negociar isso com muito carinho. O primeiro passo é destituir esse comandante-geral, que é ruim de roda. Já temos um candidato bem afinado com a gente. Vamos promover um grande debate, com muita mídia, e isso vai custar um pouco, vamos ter de conversar sobre isso também. O Vitor vai convidar policiais de fora do país, pesquisadores, ONGs, universidades, essa gente toda. O mote vai ser: diálogo entre as duas polícias. Vamos martelar muito essa tese. Nosso candidato a comandante-geral da PM vai crescer justamente porque vai aparecer na mídia como um defensor do diálogo, um amigo do chefe da Polícia Civil, um amigão pessoal do Vitor. Enquanto isso, vamos bater no atual comandante-geral. Vamos plantar notinha, essas coisas. A gente mata dois coelhos com uma cajadada só: rifa o Fraga e fortalece o Vitor. — E se o Fraga se enquadrar e se transformar no campeão do diálogo entre as polícias? — pergunta o visitante. — Não tem problema. Ele não cairia por falta de diálogo, por ser contra diálogo. Isso é conversa mole. Demagogia. É só pra dar ao governo uma bela justificativa. Tem uma armadilha pra ele, bonitinha. Um dossiê; belo dossiê. Tá quase pronto. — Muito bom. — Profissional, meu amigo. Com a gente só tem profissional. — Isso é muito bom. Santiago esclarece: — Pois é. Nossa dificuldade, no momento, pra fazer andar tudo isso, é desbloquear a conta do Vitor. — Como assim? — É um modo de dizer. O Vitor tem ótimas relações com o movimento na Rocinha. Um movimento, diga-se de passagem, bem-sucedido. Competente. Eficiente. — É, eu sei. — O pessoal é de primeira qualidade. O tráfico lá não tem criança, violência, tiro pra se exibir. É coisa madura, séria, pra ganhar dinheiro. Eles 144
Slide 145: ficam na deles, não aprontam confusão e fazem um bocado de dinheiro. Aquilo é uma senhora máquina. — É verdade. Santiago se levanta, vai à copa buscar gelo e, à distância, pontifica: — Mas não há mal que não se acabe, nem bem que sempre dure. — Vai acabar, a Rocinha? Volta à sala. — Um vagabundo filho da puta fugiu da prisão, o Russo, urna jogada lá, com os agentes penitenciários... — Aquele pessoal é de amargar. — De amargar. Tudo petequeiro. Eles topam qualquer marreca. — De lascar... — O vagabundo fugiu e quer tomar a Rocinha. — Pra quem? Tá a serviço de quem? — Não tá muito claro, ainda. Tamos na cola dele pra descobrir. — O dono do morro não tinha desaparecido, largado tudo? — Já voltou. O Dino. — Voltou? Santiago põe os pingos nos is: — Pois é, voltou. Vitor trouxe ele de volta, pra continuar produzindo. Tudo dependia da Rocinha. Os outros negócios do Vitor não dão nem pra saída. Ele tem a dívida de campanha, dívida com a caixinha dos delegados, dívida com a caixinha do governo, tem de investir na ampliação da rede. Tudo o que você pode imaginar. É muita responsabilidade. A Rocinha é fundamental. — Estratégica. — Justamente. Só que com a confusão que esse tal vagabundo, o Russo, armou, o secretário deslocou o BOPE pra lá como medida permanente. Em outras palavras, meu amigo: o BOPE está ocupando a Rocinha. — Eu vi na imprensa e soube da história, assim por cima, por que não é a minha área, você sabe... Puta, que problema, hein? 145
Slide 146: — Problemão. Tá tudo trancado. Com o BOPE não tem jogo. Você sabe. Cheque bloqueado, meu amigo. Não tá dando pra negociar com o Dino. O próprio Dino mal está conseguindo manter o tráfico. Teve de fechar a boca, provisoriamente. Por enquanto, tô operando só com aviãozinho. Com o BOPE na Rocinha, o negócio caiu muito. — E aí? — Aí, que eu tive de agir. — Convencer o secretário?... Mas ele não é meio duro de cintura? É Santiago quem admite: — Duro, muito ruim, roda presa. Não dá. Não é por aí. O único jeito é criar uma guerra em outro ponto da cidade e atrair os caveiras pra bem longe. É um artifício para forçar a saída do BOPE da Rocinha e liberar os negócios do Dino. — Criar uma guerra? — É. Atiçar pitbull contra pitbull. Jogar o Comando Vermelho contra o Terceiro Comando, num teatro de operações longe da Rocinha. — Gostei do "teatro de operações". Mas de que jeito? — Seqüestrando a mulher do líder do CV, por exemplo. A questão, meu caro, é que eu não tenho como fazer isso sem sua ajuda. Sem a ajuda de vocês. — Poxa, mas você tá jogando muito pesado. Tá querendo muito. Isso não é brincadeira. É complicado. Santiago abre o jogo: — Complicado e arriscado. Mas dá pra fazer. Com profissionalismo, dá pra fazer. Vocês são profissionais, controlam as rodovias federais, têm uma puta estrutura de comunicação, um nível de organização invejável. Vocês têm bala na agulha. Se vocês entrarem no negócio, dá pra fazer. Não tenho nenhuma dúvida. — Não sei. É complicado. E eu não posso me expor. Você sabe, na minha condição, pela posição que ocupo, com os compromissos que tenho... São compromissos muito sérios. Muita gente depende disso. É todo um 146
Slide 147: esquema pesado, você sabe... A política é complicada... A responsabilidade é muito grande. Como é que você tava pensando a operação? — A mulher tem de sumir e aparecer morta numa casa do Terceiro. É só invadir uma reunião do pessoal do Terceiro Comando, eliminar os caras e deixar o corpo da mulher de vela. Antes da manchete do dia seguinte, o CV já vai saber. Mas é preciso escolher bem. Não dá pra eliminar a cúpula do Terceiro, porque aí não tem guerra. Pegar só bagrinho também não dá. Ê uma questão de ajuste fino. Tem de acertar um ou outro fodão e tem de empurrar os caras pra um confronto em alguma praça de guerra bem distante da Rocinha. — E você já combinou com os beques? — Dá pra fazer. É complicado, mas dá pra fazer. O que tá em jogo é muito importante. Não é à toa que te chamei pra conversar. Isso é coisa de vulto, coisa pra equipe de primeira. Pra seleção. Vitor estaria disposto a dividir com você e sua equipe o ganho líquido da Rocinha durante o verão. Não podemos é perder o timing. O verão é a estação dos grandes negócios. 15 DIAS DEPOIS. GALERIA CENTRAL, PENITENCIÁRIA DE SEGURANÇA MÁXIMA, BANGU I, DIA 30 DE SETEMBRO, À UMA E MEIA DA MANHÃ Os homens de preto do BOPE apontam as mangueiras para as celas. Os presos continuam dormindo, tombados pela exaustão. O capitão Barros faz o sinal de comando. As torneiras são abertas. Os jatos d’água gelada esguicham para dentro das celas com força máxima, espirrando nas grades e nas quinas de aço, provocando um estrondo que amortece os gritos dos líderes do Comando Vermelho. Um minuto basta para encharcar corpo e alma. Os condenados terão mais trinta minutos de repouso. Os policiais farão um lanche rápido nesse intervalo. REDAÇÃO DO JORNAL DE MAIOR CIRCULAÇÃO — E REPUTAÇÃO — DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, DIA 30 DE SETEMBRO, À 1H34 147
Slide 148: O diretor da redação ao telefone com o secretário de Comunicação do governo do Estado. — Não vou discutir. Eu só digo a você que nós não podemos retardar mais. A edição de amanhã tem de entrar no ar, na internet. E eu tenho de mandar o jornal pra gráfica, já. Não dá mais para esperar. Você me prometeu a confirmação do furo e sabe que uma notícia como essa não posso dar sem confirmação. Não vou dar sem confirmação. É meu cargo que está em jogo. Imagina se eu digo que o prefeito da capital suspendeu as aulas das escolas municipais, ontem, sem necessidade, só pra difundir o pânico e disseminar a impressão de que os traficantes tomaram conta da cidade? Só por razões políticas. Você já pensou se eu publico essa bomba de hidrogênio e isso não se confirma? Você acha que vou entrar na tua só por seus belos olhos, ou porque você está me garantindo? Diante de todo o material, fartíssimo, que nós reunimos sobre as ações dos traficantes, impondo o fechamento das lojas, em diversos bairros da cidade, por que é que eu deveria privilegiar a sua interpretação? Claro que é interpretação. Até agora é só isso. Até agora você não me deu uma prova concreta, objetiva, de que foi manipulação política do prefeito contra o governo do Estado. Quem me garante que não se trata do contrário? Como é que eu vou saber que não é o governo do Estado que está tentando lavar as mãos e jogar a culpa na prefeitura? Como não houve? Claro que houve. Está comprovado que houve. Traficantes desceram os morros e ordenaram o fechamento do comércio. Foi o que aconteceu. Ou você me dá algum dado que confirme o que está dizendo, ou vou fechar o jornal. Não posso mais esperar. Se eu não mandar pra gráfica imediatamente, vou ter problemas graves com a distribuição. Você é do ramo, sabe disso. SALA DA ENFERMARIA, DIA 30 DE SETEMBRO, À 1H45 Chegam as primeiras vítimas do tratamento de choque determinado pelo governo do Estado. Dois homens na casa dos 30 anos. São os veteranos da turma. Parada cardíaca e outras paradas. Tudo pára, menos os órgãos da 148
Slide 149: segurança, bravos braços do Estado na manutenção da ordem pública. Já que não dá para garantir que o comércio abra as portas e as escolas voltem a funcionar, melhor prevenir, secando a fonte. Isto é, molhando a fonte. Regando a fonte até amolecer sua disposição de luta. A véspera foi o caos. Ruas desertas, comércio fechado, portas cerradas, trânsito fluente, largos espaços vazios e silenciosos. A única voz que se ouvia, aos berros, era da mídia e da oposição: a cidade nas cordas; a cidade beijando a lona; knockdown; joguem a toalha; intervenção federal, pelo amor de Deus; uma idéia, pelo amor de Deus; uma bandeira branca ou um tiro de canhão, rápido; pano, rápido. SALA DE REUNIÃO DOS TÉCNICOS PENITENCIÁRIOS, DIA 30 DE SETEMBRO, À 1H50 Dezesseis soldados e oficiais do BOPE sentados nas cadeiras, na beira da mesa e no chão. Tomam refrigerantes e copos de leite. Comentam a receptividade vip com que foram acolhidos. Lanche de madrugada era coisa rara. Mordem com pressa a mortadela. Têm mais dez minutos antes do próximo banho. Vilmar comenta com Zara, observado pelo Chico Santos: — Por mim, o banho seria outro. Definitivo. Esse negócio de jato d'água parece um troço meio esquisito. Não parece um troço sério, de sujeito homem. — Isso é porque tu não lá do lado de lá da mangueira. — Pois é, mas esse negócio de mangueira, não sei não. — Deixa de sacanagem. — Eu, por mim, preferia levar logo uma azeitona na testa Passar um dia e uma noite sendo bombardeado com água gelada, cara fica maluco. Barros suspende o recreio. Hora de trabalhar. PRÉDIO DA SECRETARIA DE SEGURANÇA PÚBLICA, NONO ANDAR, DIA 30 DE SETEMBRO, ÀS DUAS DA MANHÃ 149
Slide 150: O movimento permanece intenso. Assessores cruzam ante-salas. Secretárias atravessam corredores com garrafas térmicas. Motoristas cabeceiam, folheando revistas na recepção. Assessores de imprensa discutem, debruçados sobre os monitores, navegando na internet. Os auxiliares mais próximos dos dois chefes das polícias não se falam. Ninguém ousa entrar no gabinete do secretário. A luz vermelha continua acesa. GABINETE DO SECRETÁRIO, 30 DE SETEMBRO, ÀS 2H05 Paletó e gravata pendurados no cabide, atrás da porta do banheiro exclusivo. O chefe da Polícia Civil dá o último gole no resto do café frio. O comandante da Polícia Militar franze a testa e lê as palavras miúdas impressas nas margens da planta da penitenciária de Bangu I, que cobre três quartos da mesa. Os três homens de confiança do secretário conversam baixo, no sofá. O telefone vermelho toca, emitindo o som inconfundível. — Puta que o pariu. Não se pode nem mijar em paz. Que merda. Marquinho, atende aí pra mim. Diz ao governador que o secretário está urinando. Pergunta se urinar pode, se urinar não afeta a imagem política do executivo. Marquinho, eu tô brincando, hein! Olha lá o que você vai falar. FAVELA DA MINEIRA. SAI.A DA ASSOCIAÇÃO DE MORADORES, DIA 30 DE DEZEMBRO, AS 2H10 Índio tenta mais uma vez contato com Bangu I. Troca de celular com Jonas. Digita novamente. Espera ansioso uma resposta. — Nenhum sinal. Mudo, mudo. — Quando eu ligo, tá dando "fora da área de cobertura". Não dá nem caixa de mensagem. — Claro que não, Jonas. Tu é burro paca. Como é que vai dar "caixa de mensagem", porra. Tá tudo bloqueado. Os porcos fecharam o espaço todo em volta de Bangu. — Então, não vai ter jeito. 150

   
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