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Thomas Harris Hannibal 



 

 
 
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Slide 1: THOMAS HARRIS HANNIBAL Esta Obra foi digitalizada e revista por: V.C Tradução de Maria Emília Moura notícias editorial
Slide 2: Capítulo um Iria pensar-se que um tal dia temeria começar.. O Mustang de Clarice Starling subiu velozmente a rampa de acesso do BATF na Massachussetts Avenue, uma sede alugada ao reverendo Sun Myung Moon, no interesse da economia. A brigada aguardava em três veículos, uma carrinha particular em mau estado na frente e duas carrinhas pretas da SWAT 2 atrás, a postos e paradas na enorme garagem. Starling tirou o saco de equipamento do carro e correu até junto do primeiro veículo, uma suja carrinha branca com letreiros publicitários da Marcell’s Crab House dos dois lados. Através das portas da retaguarda abertas da carrinha, quatro homens observavam a aproximação de Starling. Parecia esbelta com o uniforme e movia-se rapidamente sob o peso do equipamento, com o cabelo brilhando àquela luz fantasmagórica. - Mulheres. Sempre atrasadas! - comentou um agente D John Brigham tinha a operação a seu cargo. C. O agente especial da BATF - Não está atrasada. Só lhe mandei o beep quando recebemos a informação - retorquiu Brigham. Deve ter voado de Quantico... Ei, Starling, passe-me o saco. - Olá, John - respondeu Starling erguendo a mão de polegar para cima numa rápida saudação. Brigham dirigiu-se ao rude agente disfarçado que se encontrava ao volante da carrinha e o veículo pôs-se em andamento antes das Iniciais de Burcau of Alcohol, Tobacco and Firearms - Bureau de álcool, Tabaco e Armas de Fogo. (N. da T) 2 Iniciais de Special Weapons and Trachs - Armas e Táctica Especiais, uma equipa policial que usa uniformes e armas de ataque militares, utilizada em acções que exigem coordenação e força extraordinárias. (N. da T) 3D.C. - District of Columbia. (N. da T)
Slide 3: 10 THOMAS HARRIS portas de trás se fecharem, desaparecendo na agradável tarde de Outono. Clarice Starling, uma veterana em carrinhas de vigilância, passou por baixo do ocular do periscópio e ocupou um lugar na retaguarda o mais perto possível do bloco de gelo seco de 75 quilos que servia de ar condicionado, sempre que tinham de montar guarda com o motor desligado. A velha carrinha emanava o odor a medo e suor que nunca sai. já ostentara muitos e diferentes letreiros. Aquelas sujas e apagadas letras nas portas tinham trinta minutos de uso. Os buracos de balas tapados com Bond-0 eram mais velhos. As janelas de trás tinham um espelho de sentido único devidamente opaco. Starling conseguia observar as grandes carrinhas pretas da SWAT atrás deles. Esperava que não fossem passar horas pregados nas carrinhas. Os agentes olhavam-na, sempre que virava o rosto na direcção da janela. A agente especial do FBI Clarice Starling, de 32 anos, aparentava a idade que tinha e fazia com que a aparência fosse agradável, mesmo de uniforme. Brigham retirou a prancheta do banco de passageiros da frente. - Como é que se arranja para lhe irem sempre parar às mãos estas tretas, Starling? - inquiriu, sorrindo. - Porque insiste em chamar-me - respondeu. - Preciso de si para isto. No entanto, vejo-a a passar autorizações para brigadas de assalto. Não pergunto, mas acho que há alguém em Buzzard’s Point que a odeia. Devia vir trabalhar comigo. Estes são os meus rapazes, os agentes Marquez Burke e John Hare e este é o agente Bolton do Departamento da Polícia de D.C. Uma brigada de ataque composta por elementos do BATE do DEA1 da SWAT e do FBI constituía o produto final de restrições de orçamento numa altura em que a própria Academia do FBI estava encerrada por falta de fundos. Burke e Hare pareciam agentes. O polícia Bolton, do D.C., tinha ar de xerife. Era um homem na casa dos 45 anos, pesado e viscoso. O prefeito de Washington, desejoso de parecer rígido quanto às drogas depois dele próprio ter sofrido uma condenação, insistia em que a polícia de D.C. colhesse louvores por todas as rusgas importantes na cidade de Washington. Daí, a presença de Bolton. - O bando drumgo está a tramá-las hoje - informou Brigham. - Evelda Drumgo. Eu sabia - replicou Starling sem entusiasmo. Drug Enforcement Administration. (N. da T.)
Slide 4: HANNIBAL - Abriu uma fábrica de gelo ao lado do Feliciana Fish Market, junto ao rio. O nosso homem diz que ela está a preparar um fornecimento de cristal, hoje. E tem reservas para o Grand Cayman esta noite. Não podemos esperar. A metafetamina em cristal, conhecida por «gelo» nas ruas, provoca um breve e poderoso speed e uma perigosa dependência. - A droga é da alçada do DEA, mas estamos de olho em Evelda por transporte interestadual de armas Classe 111. O mandado especifica algumas submetralhadoras Beretta e algumas Mac 10 e ela sabe onde há mais. Quero que se concentre em Evelda, Starling. Já lidou com ela antes. Estes tipos dão-lhe cobertura. - Ficamos com o trabalho fácil - comentou o agente Bolton com uma certa satisfação. - Acho melhor falar-lhes de Evelda, Starling - sugeriu Brigham. Starling esperou, enquanto a carrinha passava por cima de uns trilhos de caminho de ferro e depois pronunciou-se: - Evelda vai dar luta. Não dá essa sensação, era modelo, mas dará luta. É a viuva de Dijon Drumgo. Prendi-a por duas vezes com mandados, a primeira juntamente com Dijon. - Desta última vez trazia na bolsa uma 9 ram com três cartuchos e um Mace e uma navalha de ponta e mola no soutien. Não sei o que trará agora. - Na segunda detenção, pedi-lhe delicadamente que se entregasse e fê-lo. Depois, na prisão, matou uma companheira de cela chamada Marsha Valentine com o cabo de uma colher. Portanto, nunca se sabe... é difícil ler-lhe no rosto. O júri considerou que tinha sido em legítima defesa. - Ela venceu a primeira alegação e recorreu da outra. Algumas acusações relativas às armas foram retiradas porque tinha filhos ainda pequenos e o marido acabara de ser morto na Pleasant Avenue, talvez pelos Spliffs. - Vou pedir-lhe que se entregue. Espero que o faça. Vamos dar-lhe uma oportunidade. Mas ouçam-me bem... se tivermos de dominar Evelda Drumgo, quero ajuda a sério. Para lá da cobertura, quero peso em cima dela. Não pensem, meus senhores, que vão ver-me a lutar com Evelda na lama. já tinha havido uma altura em que Starling condescenderia diante destes homens. Não estavam a gostar deste seu discurso, mas vira demasiado na vida para lhe importar. - Evelda Drumgo está ligada aos Trey-Eight Crips através de Dijon - replicou Brigham. - Conta com a protecção deste gang, segundo garante o nosso homem e eles são distribuidores na costa. É Spray autoprotector (N. da T)
Slide 5: 12 THOMAS HARRIS sobretudo uma protecção contra os Spliffs. Ignoro o que farão os Críps quando virem que somos nós. Sempre que podem evitar, não se metem com o FBI. - Há algo que devem saber - prosseguiu Starling. - Evelda é seropositiva. Dijon transmitiu-lhe o vírus através de uma seringa. Ela descobriu quando foi detida e passou-se. Nesse dia, matou Marsha Valentine e lutou contra os guardas da prisão. Se não estiver armada e lutar, podem contar ser atingidos com todos os fluidos de que dispuser. Cuspirá e morderá, vai urinar e defecar-vos em cima se tentarem derrubá-la, portanto as luvas e máscaras são indispensáveis. Se a meterem num carro-patrulha, quando lhe empurrarem a cabeça, não esqueçam a hipótese de uma agulha no meio do cabelo e amarrem-lhe os pés. Os rostos de Burke e Hare ensombraram-se e o agente Bolton parecia descontente. Apontou com o queixo pregueado na direcção do revólver de Starling, um Colt.45 que usava num coldre por cima da anca direita. Anda sempre com essa coisa engatilhada? - quis saber. - Engatilhada e travada em cada minuto do meu dia - elucidou Starling. - Perigoso! - comentou Bolton. - Apareça num campo de tiro e explico-lhe, agente. - Bolton, fui eu que treinei Starling quando ela ganhou o campeonato de tiro entre Serviços há três anos replicou Brigham, interrompendo a discussão. - Não se preocupe com a arma dela. Como é que passaram a chamar-lhe esses tipos do Hostage Rescue Team, os Velcro Cowboys, depois de lhes ter dado uma lição, Starling? Anme Oakley? - Venenosa Oakley - respondeu, olhando pela janela. Starling sentia-se observada e sozinha nesta carrinha de vigilância malcheirosa a abarrotar de homens. Chaps, Brut, Old Spice, suor e cabedal. O medo invadiu-a com o sabor de uma moeda debaixo da língua. Uma imagem mental: o pai, que cheirava a tabaco e a sabonete, descascando uma laranja com o canivete, a ponta da lâmína em ãngulo recto, partilhando a laranja com ela na cozinha. As luzes traseiras da camioneta do pai a desaparecerem quando saiu naquela patrulha de xerifes que o matou. A roupa dele no armário. A camisa dele. Algumas roupas bonitas no roupeiro dela e que nunca usava. Triste vestuárío festívo em cabides, semelhantes a brinquedos num sótão. - Mais uns dez minutos - anunciou o condutor. Brigham olhou através do pára-brisas e consultou o relógio. é este o esquema - disse, enquanto exibia um diagrama desenhado Brigada de Salvamento de Reféns (N. da T)
Slide 6: HANNIBAL 13 rapidamente com uma ponta de feltro e um plano esborratado que lhe fora enviado por fax pelo Departamento da Construção. - O edifício do mercado de peixe situa-se numa fila de armazéns ao longo da margem do rio. A Parcell Street acaba na Riverside Avenue, desembocando nesta praceta em frente do mercado de peixe. - Vejam bem. O edifício do mercado de peixe está de costas para a água. Há uma doca que se estende ao longo das traseiras, aqui. junto ao mercado de peixe, no rés-do-chão fica o laboratório de Evelda. A entrada é pela frente, mesmo ao lado do toldo do mercado de peixe. - Evelda terá os vigias cá fora enquanto estiver a preparar a droga, pelo menos numa área de três quarteirões - prosseguiu. - já antes lhe deram a dica com tempo bastante para que se desfizesse do produto. Portanto, um grupo de incursão normal da DEA que está na terceira carrinha vai entrar de um barco de pesca, pelo lado da doca, às quinze horas. Podemos aproximar-nos mais do que alguém desta carrinha da porta que dá para a rua, uns minutos antes da rusga. Se Evelda sair pela frente, apanhamo-la. Se ficar lá dentro, atacamos por esta porta, depois deles atacarem pelo outro lado. A segunda carrinha é o nosso reforço, com sete tipos que entram às quinze horas, excepto se formos nós primeiro. - E como vai ser com a porta? - inquiriu Starling. - Se tudo parecer calmo, forçamos - respondeu Burke. - Se houver clarões ou disparos, passamos ao Avon calling - acrescentou, com uma pequena palmada na sua espingarda. Starling já assistira a este tipo de actuação: Avon calling é uma Magnum de sete e meio carregada com pólvora fina destinada a fazer explodir a fechadura, sem atingir as pessoas que se encontram no interior. - Os miúdos de Evelda? Onde estão? - interessou-se Starling. - O nosso informador viu-a deixá-los na creche - replicou Brigham. - O nosso informador está próximo da situação da família, tão próximo quanto é possível estar através de sexo em segurança. O rádio de Brigham deu sinal no auscultador e ele perscrutou a parte do céu que conseguia avistar pela janela da retaguarda. Talvez esteja só a controlar o trânsito - falou para o microfone de pescoço, após o que se dirigiu ao condutor. - Strike Two detectou um helicóptero há um minuto. Viste alguma coisa? Não. É bom que esteja a controlar o trânsito. Agora, vamos lá equipar-nos. Setenta e cinco quilos de gelo não chegam para manter quatro homens frescos na retaguarda de uma carrinha de metal num dia quente, sobretudo se se encontrarem metidos numa armadura. Quando
Slide 7: Bolton ergueu os braços, demonstrou que uma aplicação de Canoe não produz o mesmo efeito de um duche. Clarice Starling tinha cosido ombreiras por dentro da camisa do uniforme a fim de aguentarem o peso do colete Kevlar, segundo esperava é à prova de balas. O colete tinha o peso adicional de uma placa de cerâmica nas costas e uma outra na frente. A experiência feita tragédia ensinara o valor da placa nas costas. Liderar um ataque de surpresa com um grupo que não se conhece, de pessoas com vários níveis de treino, é um empreendimento perigoso. O Fogo dos próprios amigos pode danificar a espinha dorsal quando se segue na frente de uma coluna inexperiente e assustada. A cerca de três quilómetros do rio, a terceira carrinha desapareceu, a fim de levar o grupo de incursão DEA ao encontro do barco de pesca e a carrinha de reforço parou a uma distância discreta atrás da carrinha branca de disfarce. A paisagem começava a adquirir um tom descuidado. Um terço dos edifícios estava tapado com tábuas e carros destruídos assentavam em caixotes junto às curvas. Homens jovens preguiçavam nas esquinas em frente de bares e pequenos quiosques. Crianças brincavam à volta de um colchão incendiado no passeio. Se a segurança de Evelda estava cá fora, dissimulara-se bem no meio dos transeuntes vulgares. Junto às lojas de bebidas e nos parques de estacionamento dos pequenos mercados, havia homens sentados dentro de carros, conversando. Um descapotável baixo Impala com quatro jovens afro-americanos meteu-se pelo escasso trânsito e avançou atrás da carrinha. Os passageiros subiam o passeio em benefício das raparigas junto de quem passavam e o som ensurdecedor da aparelhagem estéreo repercutia-se no metal da carrinha. Observando através do espelho de sentido único da janela da retaguarda, Starling apercebeu-se que os jovens do descapotável não constituíam uma ameaça - um carro de ataque dos Crips é quase sempre um poderoso e enorme carro fechado ou station, suficientemente antigo para se fundir nos arredores e as janelas de trás descem por completo. Transporta uma tripulação de três, por vezes quatro elementos. Uma equipa de basquetebol num Buick pode parecer sinistra, se não se tiver a consciência tranquila. Enquanto aguardavam junto a um semáforo, Brigham retirou a lente ocular do periscópio e deu uma palmada no joelho de Bolton. - Olhe em volta e veja se há algumas celebridades locais no passeio - ordenou Brigham A lente objectiva do periscópio está dissimulada num ventilador no tejadilho. Só alcança os passeios.
Slide 8: HANNIBAL 15 Bolton fez uma rotação completa e parou, esfregando os olhos. - Tudo estremece demasiado com o motor a trabalhar - queixou-se. Brigham contactou pela rádio com a equipa do barco. - Quatrocemtos metros rio abaixo e aproximando-se - repetiu para a sua equipa na carrinha. A carrinha apanhou um semáforo vermelho um quarteirão mais à frente em Parcell Street e parou de frente para o mercado durante o que pareceu uma eternidade. O condutor virou-se como que a inspeccionar o espelho da direita e dirigiu-se a Brigham pelo canto da boca: - Não parece haver muita gente a comprar peixe. Cá vamos nós. A luz do semáforo mudou e às catorze horas e cinquenta e sete minutos em ponto, exactamente três minutos antes da hora zero, a carrinha de disfarce em mau estado parou diante do Feliciana Fisli Market, num bom lugar junto à curva. Lá atrás, ouviram o ruído quando o motorista puxou o travão de mão. Brigham cedeu o periscópio a Starling. - Verifique - disse, Starling moveu o periscópio de forma a apanhar a fachada do edifício. Mesas e balcões de peixe no gelo brilhavam sob um toldo de oleado no passeio. Peixe das margens de Carolina, apresentava-se artisticamente disposto em gelo moído, caranguejos moviam as patas em caixotes abertos e lagostas trepavam umas por cima das outras num reservatório. O vivaço vendedor colocara pedaços de gelo por cima dos olhos do peixe maior, a fim de que se mantivessem brilhantes até à chegada da fornada de donas de casa espertalhonas nascidas nas Caraíbas que vinham sempre cheirar e espreitar. O sol desenhava um arco-íris no jorro de água da mesa de limpeza do peixe lá fora, onde um homem de aparência latina e musculosos antebraços, cortava um tubarão às postas com golpes experientes e graciosos da sua faca curva e regava o enorme peixe com uma poderosa mangueira de mão. A água ensanguentada escoava para a sarjeta e Starling conseguia ouvi-la a correr por baixo da carrinha. Starling observou o motorista a falar com o peixeiro, dirigindo-lhe uma pergunta. O homem consultou o relógio, encolheu os ombros e apontou para um pequeno café local. O motorista deambulou um minuto pelo mercado, acendeu um cigarro e afastou-se na direcção do estabelecimento. De um altifalante no mercado os sons de La Macarena chegavam nitidamente aos ouvidos de Starling, na carrinha; nunca mais na vida conseguiria suportar aquela música. A porta que interessava situava-se à direita, uma porta dupla de metal emoldurada também em metal e com um único degrau em simétrico. Starling preparava-se para se afastar do periscópio quando a porta se abriu e deu passagem a um homem branco e enorme de camisa
Slide 9: 16 THOMAS HARRIS florida e sandálias. Trazia uma sacola pendurada e segurava-a com uma das mãos atrás das costas. Um negro magro surgiu por detrás dele, vestido com uma gabardina. - Cabeças para cima! - ordenou Starling. Atrás dos dois homens, com o seu alto pescoço e o rosto gracioso visível acima dos ombros destacava-se Evelda Drumgo. - Evelda vem atrás de dois tipos e parece que ambos estão de partida - informou Starling. Não conseguiu largar o periscópio com a rapidez bastante para impedir que Brigham fosse de encontro a ela. Starling colocou o capacete. Brigham ditava ordens para a rádio: - Força Um a todas as unidades. Ataquem. Ataquem. Ela saiu por este lado. Vamos mover-nos. - Ponha-os em terra o mais rapidamente possível - retorquiu Brigham, enquanto destravava a arma. - O barco estará aqui dentro de trinta segundos. Vamos. Starling foi a primeira a descer e as tranças de Evelda esvoaçaram quando virou a cabeça na sua direcção. Starling teve consciência dos homens ao seu lado, de armas aperreadas, gritando: Deitem-se no chão, deitem-se no chão! Evelda saiu do meio dos dois homens. Evelda transportava uma criança num porta-bebés que tinha à volta do pescoço. - Esperem, esperem. Não quero problemas - indicou aos homens, que se encontravam ao lado dela. - Esperem. - Deu um passo em frente, muito direita, segurando o bebé na frente até onde o porta-bebés podia esticar-se, com a fralda pendurada. Dar-lhe um sítio para onde ir. Starling tocou na arma e levantou os braços de mãos abertas. Evelda! Entregue-se. Venha até mim. - Atrás de Starling, o ruído de um grande V-8 e o guinchar de pneus. Não podia virar-se. Sê o reforço. Ignorando-a, Evelda avançou na direcção de Brigham e a fralda esvoaçou quando a MAC 10 disparou por trás dela e Brigham caiu por terra, com a protecção do rosto coberta de sangue. O homem branco e corpulento deixou cair a sacola. Burke detectou a metralhadora e levantou uma onda de pó inofensivo com os disparos da sua arma. Voltou a carregá-la, mas não a tempo. O robusto adversário disparou uma rajada trespassando o ventre de Burke por baixo do colete e virando-se para Starling no momento em que ela o atingia mesmo a meio da camisa colorida, sem lhe dar tempo a ripostar. Tiros nas costas de Starling, O negro magro tirou a arma de baixo da gabardine e refugiou-se no edifício, ao mesmo tempo que um golpe semelhante a um soco nas costas impelia Starling para diante, cortando-lhe a respiração.
Slide 10: HANNIBAL 17 Girou sobre os calcanhares e avistou o carro dos Crip na rua, um Cadillac preto, de vidros descidos, com dois atiradores sentados ao estilo Cheyerme nas janelas da direita disparando pelo tejadilho e um terceiro do banco das traseiras. Fumo e fogo de três canos, balas varrendo os ares à sua volta. Starling mergulhou entre dois carros estacionados e avistou Burke contorcendo-se no chão. Brighan mantinha-se imóvel, com um fio de sangue escoando do capacete. Hare e Bolton disparavam do meio de carros algures do outro lado da rua, de onde voavam vidros estilhaçados que aterravam na estrada e um pneu explodiu ao mesmo tempo que o fogo das automáticas do Cadillac os pregava ao chão. Starling, com um dos pés na sarjeta, levantou a cabeça para espreitar. Dois atiradores, sentados nas janelas, disparando pelo tejadilho do automóvel, enquanto o condutor despejava um revólver com a mão que lhe restava livre. Um quarto homem, no banco da retaguarda, tinha a porta aberta e puxava Evelda com o bebé para o interior. Evelda agarrava na sacola. Eles disparavam contra Bolton e Hare do outro lado da rua, os pneus de trás do Cadillac deitavam fumo e o carro começou a afastar-se. Starling pôs-se de pé, apontou e atingiu o condutor num dos lados da cabeça. Disparou duas vezes contra o atirador sentado na janela da frente e ele caiu de costas. Starling retirou o cartucho vazio da 45 e substituiu-o por outro antes que o vazio chegasse ao chão, sem desviar os olhos do carro. o Cadillac aflorou de raspão uma fila de carros estacionados do outro lado da rua e acabou por embater estrondosamente contra eles. Starling avançava agora na direcção do Cadillac. Um atirador continuava sentado na janela da retaguarda, de olhos injectados e as mãos fazendo força de encontro ao tejadilho, com o peito comprimido entre o Cadillac e um carro estacionado. A arma escorregou pelo tejadilho. Mãos vazias apareceram pela janela da retaguarda, ao lado. Um homem com uma camisa florida azul esfarrapada saiu de mãos erguidas e começou a correr. Starling ignorou-o. Tiros da direita e o corredor mergulhou, rastejando de rosto colado ao chão e tentando enfiar-se debaixo de um carro. As pás de um helicóptero roncando por cima dela. Alguém gritando no mercado de peixe. - Não se levantem. Não se levantem. - Gente debaixo dos balcões e a água da mesa de limpeza abandonada jorrando para o ar. Starling aproximando-se do Cadillac. Movimento nas traseiras do automóvel. Movimento no Cadillac. o carro balançando. o bebé chorando no interior. Disparos e os vidros da janela da retaguarda estilhaçados e espalhados.
Slide 11: 18 THOMAS HARRIS Starling ergueu o braço e gritou, sem se virar: - PAREM. Parem o fogo. Vigiem a porta. Atrás de mim. Vigiem a porta do mercado. - Evelda! - Movimento nas traseiras do carro. o bebé chorando no interior. - Evelda. Ponha as mãos fora da janela. Evelda Drumgo estava agora a sair. o bebé num choro gritado e La Macarena ribombando nos altifalantes do mercado de peixe. Evelda estava cá fora e caminhava na direcção de Starling, com a bela cabeça baixa e os braços à volta do bebé. Burke contorcia-se no chão que as separava. Golpes mais pequenos do seu corpo sangravam. La Macarena acompanhava o ritmo de Burke, prostrado no chão. Alguém, correndo encolhido, conseguiu chegar junto dele, deitou-se ao seu lado e comprimiu a ferida. Starling tinha a arma apontada para o chão em frente de Evelda. - Mostre-me as mãos, Evelda. Vá lá, por favor. Mostre-me as mãos. Um alto na fralda. Evelda, de tranças e olhos negros egípcios, ergueu a cabeça e fitou Starling. É então você, Starling! - exclamou. Não faça isso, Evelda. Pense no bebé. Vamos lá trocar fluidos corporais, cabra. A fralda esvoaçou e o ar estremeceu. Starling atingiu Evelda Drumgo através do lábio superior, desfazendo-lhe a nuca. Starling mantinha-se como que sentada com uma dor aguda num dos lados da cabeça e sem fôlego. Evelda também estava sentada no chão, caída para a frente sobre as pernas, enquanto o sangue lhe jorrava da boca para o bebé cujo choro saía sufocado pelo peso do corpo dela. Starling rastejou até junto de Evelda e puxou as fivelas do porta-bebés. Tirou a navalha de ponta e mola do soutien de Evelda, abriu-a sem a olhar e cortou a correia que prendia o bebé. o corpinho era escorregadio, vermelho e difícil de agarrar. Starling pegou-lhe e ergueu os olhos, angustiada. Avistava a água que se erguia num jorro proveniente do mercado de peixe e correu nessa direcção, transportando a criança ensanguentada. Afastou as facas e as entranhas de peixe e pousou a criança no balcão onde se cortavam as postas, virando o forte jacto de mão na sua direcção. o bebé negro estava ali deitado num balcão branco no meio das facas e das entranhas de peixe com a cabeça do tubarão ao lado dele, a ser lavado do sangue contaminado com o vírus do HIV, enquanto o próprio sangue de Starling se derramava sobre ele, correndo num fluxo comum com o sangue de Evelda, tão salgado como a água do mar. A água correndo, um arremesso de arco-íris da Promessa de Deus no jorro. Starling não detectava qualquer orifício na criança. o som estrondoso de La Macarena pelos altifalantes, uma sucessão de flashes até Hare arrastar o fotógrafo para longe dali.
Slide 12: capítulo dois Um beco sem saída num bairro operário de Arlington, Virgínia, pouco depois da meia-noite. É uma quente noite de Outono depois de uma chuvada. o ar move-se inquieto diante de uma frente fria. No meio do cheiro a terra molhada e folhas, um grilo entoa uma melodia. Cala-se no momento em que se apercebe de uma enorme vibração, o som abafado de um Mustang de 5 litros com carburadores de aço a virar para o beco, seguido do carro de um xerife. Os dois veículos sobem o acesso a um simpático duplex e param. o Mustang ainda estremece um pouco. Quando o motor se silencia, o grilo aguarda um momento e retoma a melodia, a última antes da geada, a última de sempre. Um xerife fardado sai do banco do condutor do Mustang. Dá a volta ao carro e abre a porta do lado dos passageiros a Clarice Starling. Ela sai. Tem uma ligadura branca à volta da cabeça por cima da orelha. o castanho alaranjado do Betadine mancha-lhe o pescoço por cima da bata verde de hospital que usa em vez de uma camisa. Transporta os objectos pessoais num saco de plástico com fecho de correr: rebuçados de mentol e chaves, a identificação como agente especial do Federal Bureau of Investigation, um carregador com cinco cartuchos e um spray de autoprotecção Mace. juntamente com o saco traz um cinto e um coldre vazio. o xerife estende-lhe as chaves do carro. - Obrigada, Bobby - Quer que eu e o Pharon entremos e fiquemos um bocado? Prefere que vá buscar a Sandra? Ela espera sempre por mim levantada. Trago-a para aqui um pouco. Precisa de companhia... - Não. Fico bem. A Ardelia estará em casa dentro em pouco. Obrigada, Bobby
Slide 13: 20 THOMAS HARRIS O xerife entra no carro onde o parceiro o aguarda e depois de se certificar que Starling está a salvo dentro de casa, o carro federal arranca. O quarto das lavagens da casa de Starling está quente e cheira a amaciador de roupa. Os tubos das máquinas de lavar e de secar estão seguros com anilhas de plástico. Starling pousa os objectos pessoais em cima da máquina de lavar. As chaves do carro produzem um ruído estridente no tampo metálico. Starling retira uma carga de roupa da máquina de lavar e mete-a na de secar. Despe as calças do uniforme, enfia-as na máquina de lavar juntamente com a bata de hospital e o soutien manchado de sangue e põe a máquina a trabalhar. Está em peúgas e cuecas e tem uma Especial de calibre 38 num coldre preso ao tornozelo. Ressaltam nódoas negras nas costas e costelas e uma escoriação no cotovelo. O olho e a face direita estão inchados. A máquina de lavar está a aquecer e começa a encher. Starling enrola-se numa grande toalha de praia e entra na sala de estar. Regressa com cinco centímetros de Jack Daniels puro num copo. Senta-se no tapete de borracha diante da máquina de lavar e encosta-se-lhe, enquanto a máquina estremece e se enche de água. Senta-se no chão com o rosto virado para cima e emite alguns soluços secos antes das lágrimas brotarem. Lágrimas escaldantes nas faces, caindo pelas faces. O acompanhante de Ardelia Mapp trouxe-a a casa por volta da meia-noite e quarenta e cinco depois de uma longa viagem de carro de Cape May e ela desejou-lhe boa-noite à porta, Mapp estava na casa de banho quando ouviu a água a correr e o estremecer dos canos, enquanto a máquina de lavar prosseguia o programa. Dirigiu-se às traseiras da casa e acendeu as luzes da cozinha que partilhava com Starling. De onde estava via a lavandaria. Avistou Starling, sentada no chão, com a ligadura à volta da cabeça. - Starling! Oh, pobre querida! - exclamou, ajoelhando-se ao lado dela. - O que aconteceu? - Um tiro atravessou-me a orelha, Ardelia. Trataram-me em Walter Reed. Não acendas a luz, okay? - Tudo bem. Vou preparar-te qualquer coisa. Não dei por nada... estávamos a ouvir cassetes no gravador do carro... Conta-me. - O John morreu, Ardelia. - Não o Johnny Brígham! - Mapp e Starling tinham tido um fraco por Brigham no tempo em que ele era instrutor de tiro na Academia do FBI. Tinham tentado ler-lhe a tatuagem através da manga da camisa. Starling esboçou um aceno afirmativo e limpou os olhos com as costas da mão, como uma criança. - Evelda Drumgo e alguns Crips.
Slide 14: HANNIBAL 21 Evelda abateu-o. Também atingiram Burke, Marquez Burke, do BATE Fomos todos. Evelda recebeu a dica antes e a equipa do telejornal chegou lá ao mesmo tempo que nós. Evelda era minha, Não se entregou, Ardelia. Não se entregou e tinha o bebé ao colo. Disparámos uma contra a outra. Ela está morta. Era a primeira vez que Mapp via Starling chorar. - Hoje matei cinco pessoas, Ardelia. Mapp sentou-se no chão ao lado de Starling e rodeou-lhe o ombro com o braço. Encostaram-se as duas à máquina de lavar em funcionamento. - E o bebé de Evelda? - Lavei-lhe o sangue e, tanto quanto vi, não tinha nenhuma ferida. O hospital afirma que fisicamente está bem, Vão entregá-lo à mãe de Evelda daqui a uns dias. Sabes a última coisa que Evelda me disse, Ardelia? Disse-me. «Vamos lá trocar fluidos corporais, cabra». - Deixa-me preparar-te qualquer coisa - replicou Mapp. - O quê? - retorquiu Starling.
Slide 15: capítulo três Com o alvorecer cinzento chegaram os jornais e os primeiros telejornais. Mapp apareceu com biscoitos quentes quando se apercebeu que Starling começara a andar de um lado para o outro e pregaram os olhos no ecrã. A CNN e todos os outros canais haviam comprado a cópia filmada pela câmara do helicóptero da estação televisiva WFUL. Era uma filmagem fantástica efectuada directamente por cima do cenário. Starling observou uma vez. Tinha de certificar-se que fora Evelda a primeira a disparar. Fixou o rosto de Mapp e detectou-lhe raiva no rosto de pele castanha. Depois Starling levantou-se a correr para ir vomitar. - É difícil de ver - comentou Starling quando voltou, pálida e com as pernas a tremer. Mapp, como de costume, foi direita ao assunto: - O teu problema reside no que sentes em ter morto aquela afro-americana com a criança ao colo. Aqui tens a resposta. Ela disparou primeiro. Quero que estejas viva. Pensa, Starling, em quem é o responsável por toda esta política de loucura. Que raio de linha de pensamento idiota te colocou e a Evelda Drumgo juntas naquele sítio lúgubre para resolverem o problema da droga entre as duas com umas malditas armas? O que tem isso de esperteza? Espero que reflictas se queres continuar a estar debaixo da pata deles. Mapp serviu um pouco de chá a nível de pausa. - Queres que fique contigo? Tiro um dia. - Obrigada. Não precisas de o fazer. Telefona-me. O National Tattler, primeiro beneficiário do boom dos tablóides na década de 90, fez uma edição especial que era extraordinária até a nível dos padrões por que se regia. Alguém o atirou para a porta da casa a meio da manhã. Starling encontrou-o quando foi até lá fora ver como estava o golpe. Esperava o pior e assim aconteceu: «ANJO
Slide 16: HANNIBAL 23 DA MORTE: A ARMA MORTIFERA DO FBI» anunciava o título do National Tattler em parangonas a itálico. As três fotos da primeira página eram: Clarice Starling, de uniforme, disparando uma pistola de calibre 45 numa atitude de competição, Evelda Drumgo dobrada sobre o bebé no chão, com a cabeça de lado semelhante à de uma Madonna de Cimabui, de miolos estoirados, e novamente Starling, pousando um bebé negro e nu em cima de um balcão de cortar peixe no meio de facas, entranhas de peixe e a cabeça de um tubarão. A legenda por baixo das fotografias dizia: «A agente especial do FBI, Clarice Starling, que eliminou o serial killerjame Gumb, acrescenta, pelo menos, cinco entalhes à sua arma. Mãe com o bebé nos braços e dois agentes da polícia entre os mortos após uma rusga de droga falhada. » A notícia de fundo referia as carreiras de traficantes de Evelda e Dijon Drumgo e o aparecimento do gang Crip no cenário devastado de Washington D.C. Referia-se de passagem o serviço militar do agente abatido John Brigham e citavam-se as suas condecorações. Starling teve direito a uma coluna lateral por baixo de uma simples fotografia de Starling num restaurante com um vestido de decote redondo e uma expressão animada. Claríce Starling, agente especial do FBI, teve os seus quinze minutos de fama quando abateu a tiro o serial killerjame Gumb, o assassino «Buffalo Bill», na casa dele, há sete anos. Agora, pode enfrentar acusações departamentais e responsabilidades civis na morte de quinta-feira de uma mãe de Washington acusada do fabrico de anfetaminas ilegais (ver história na primeira página. «Isto pode significar ofinal da sua carreira», afirmou umafonte do Bureau of Alcohol, Tobacco and Fireams, a co-agência do FBI. Desconhecemos todos os pormenores do que aconteceu, mas John Brigham deveria estar vivo, Era a última coisa de que o FBI precisava depois de Ruby Ridge, declarou a fonte que recusou identificar-se. A movimentada carreira de Clarice Starlíng ínicíou-se pouco depois de ter chegado à Academia do FBI como estagiária. Licenciada com distinção pela Universidade de Virginia em Psicologia e Criminología, foi indigitada para entrevistar o louco assassino Dr Hannibal Lecter. apelidado por este jornal de «Hanníbal, o Canibal» e dele recebeu informações que foram importantes na busca de Jame Gumb e salvação do seu ref Catherine Martin, filha da ex-senadora cle Tennessee. A agente Starling foi campeã de torneios de tiro interserviços durante três anos, antes de se retirar da competição. Ironicamente, o agente Brigham, que morreu ao lado dela, era ínstrutor de armas de fogo em Quantico quando Starling praticou ali e seu treinador em competição, Um porta-voz do FBI declarou que a agente Starling será dispensada do activo, com um salário dependendo do resultado da investigação interna
Slide 17: 24 THOMAS HARRIS do FBI. Espera-se um interrogatório ainda esta semana antes do Departamento de Responsabilidade Profissional, a temida inquisição do próprio FBI. Parentes da falecida Evelda Drumgo afirmaram que vão reclamar indemnizações ao governo americano e à pessoa de Starling por casos de morte ilegítima. O bebé de Drumgo, de três meses, visto nos braços da mãe nasfotografias dramáticas do tiroteio, saiu ileso. O advogado Telford Higgins, que defendeu afamília Drumgo em inúmeros processos crime, alegou que a arma da agente Starling, um Colt 45 semi-automático adaptado, não obedecia às normas de aplicação da lei da cidade de Washington. «É um instrumento letal e perigoso e inadequado na aplicação da lei», declarou Híggins. O seu uso corresponde a pôr em perigo a vida humana», acrescentou ofamoso advogado de defesa. O Tattler comprara o número de telefone de casa de Clarice Starling a um dos seus informadores e a campainha soou insistentemente até Starling retirar o auscultador do descanso e passar a servir-se do telemóvel do FBI para falar para o departamento. Starling não sentia muitas dores na orelha e no lado inchado da cara, desde que não tocasse na ligadura. Pelo menos, não latejava. Aguentou-se com dois Tylenol. Não precisava do Percoset que o médico lhe receitara. Passou pelo sono, encostada à cabeceira da cama, enquanto o Washington Post deslizava para o chão. Havia resíduos de pólvora nas mãos e de lágrimas secas nas faces.
Slide 18: Capítulo quatro Apaixonamo-nos pelo Bureau, mas o Bureau não se apaixona por nós. MáXIMA DA CONSULTORIA DE DELIGAMENTO DO FBI O ginásio do FBI no edifício J. Edgar Hoover estava praticamente vazio a esta hora matutina. Dois homens de meia-idade corriam na pista interior. O ruído de uma máquina de pesos num canto afastado e os ressaltos da bola de um jogo com raquetas ecoavam no salão. As vozes dos corredores não se ouviam. Jack Crawford corria com o director do FBI, Tunberry, a pedido do director. Tinham percorrido três quilómetros e começavam a arquejar. - Blaylock, do ATF, tem de dar tudo por tudo pela Waco. Não vai acontecer para já, mas está acabado e tem consciência disso - replicou o director. - Bem podia comunicar ao reverendo Moon que vai desocupar as instalações. - O facto do Bureau of Alcohol, Tobacco and Firearms alugar escritórios em Washington ao reverendo Sun Myung Moon é uma fonte de divertimento para o FBI. - E Farriday está de olho em Ruby Ridge - prosseguiu o director. - Não me parece - objectou Crawford. - Trabalhara em Nova Iorque com Farriday na década de 70, quando a malta ocupava os escritórios do FBI na Third Avenue e na 69th Street. - Farriday é bom homem. Não elaborou as regras de admissão. - Falei-lhe ontem de manhã. - E que tal? - interessou-se Crawford. - Digamos que defende os seus benefícios. Tempos perigosos estes, Jack. Os dois homens corriam com a cabeça para trás. Aceleraram um pouco o passo. Pelo canto do olho, Crawford. apercebeu-se que o director avaliava a sua condição física. - Tens quantos, Jack? 56? - Exacto.
Slide 19: 26 THOMAS HARRIS - Falta-te um ano para a reforma obrigatória. Muitos tipos saem aos 48, 50, enquanto ainda podem arranjar emprego, Nunca quiseste fazê-lo. Quiseste manter-te ocupado depois da morte de Bella. Quando Crawford correu meia volta sem lhe dar resposta, o director percebeu que cometera uma gafe. - Não pretendo encarar o assunto de ânimo leve, Jack. No outro dia, Doreen referia-se a quanto... - Ainda há umas coisas a tratar em Quantico. Viste no orçamento que queremos dinamizar o VICAP para que qualquer polícia possa utilizá-lo. - Alguma vez quiseste ser director, Jack? - Nunca achei que fosse o tipo de trabalho que se me adequasse. - E não é, Jack. Não és um tipo político. Nunca poderias ter sido director. Nunca poderias ter sido um Eisenhower, Jack, ou um Ornar Bradlcy - Fez sinal a Crawford para que parassem e detiveram-se, ofegantes, junto à pista. Poderias, contudo, ter sido um Patton, Jack. És homem para os guiar através do inferno e conseguir que te amem. É um dom que me falta. Tenho de empurrá-los. - Tunberry olhou rapidamente em redor, apanhou a sua toalha de cima de um banco e enrolou-a à volta dos ombros, como se se tratasse da toga de um juiz de pena capital. Os olhos brilhavam-lhe. «Há pessoas que precisam de despoletar a raiva para serem duros», reflectiu Crawford, atento aos movimentos da boca de Tunberry - No caso da falecida Mistress Drumgo com a MAC-10 e o laboratório de metanfetaminas, abatida a tiro com o bebé ao colo: a Polícia Judiciária quer um sacrifício de carne. Carne fresca e jovem. E os media também. O DEA tem de lhes atirar um pedaço de carne. O ATF também. E nós idem. Mas, no nosso caso talvez se satisfaçam com criação. Kendler acha que podemos entregar-lhes Clarice Starling e deixam-nos em paz. Concordo com ele. O ATF e o DEA aceitam as culpas por planearem a rusga. Starling puxou o gatilho. - Contra uma assassina de polícias que disparou primeiro. - É o quadro, Jack. Não estás a topar, pois não? O público não viu quando Evelda Drumgo abateu John Brigham. Nem viu Evelda a ser a primeira a disparar contra Starling. Não se vê, caso não se saiba para o que se está a olhar. Duzentos milhões de pessoas, um décimo das quais vota, viram Evelda drumgo sentada no chão numa postura protectora sobre o bebé, de miolos estoirados. Não me interrompas, Jack... Sei que por um tempo julgaste que Starling seria a tua protégé. Mas ela fala de mais Jack e começou mal com algumas pessoas... 1 Violent Apprehension Program. (N. da T)
Slide 20: HANNIBAL - Kendler é um chato. 27 - Ouve-me bem e não digas nada até eu chegar ao fim. De qualquer forma, a carreira de Starling estava parada. Receberá uma dispensa administrativa sem danos e a papelada será a de uma vulgar suspensão... conseguirá arranjar emprego. És responsável por um trabalho de monta no FBI, a Secção de Ciência Comportamental. Muita gente é de opinião que se tivesses defendido mais os teus interesses, serias muito mais do que um chefe de secção, que mereces muito mais. Serei o primeiro a declará-lo. Vais reformar-te como director-adjunto, Jack. Tens a minha palavra. - Se me mantiver fora disto, queres dizer? - No curso normal dos acontecimentos, Jack. Com paz por todo o reino, é o que acontecerá. Olha para mim, Jack. - Sim, director Tunberry? - Não estou a pedir-te, estou a dar-te uma ordem directa. Mantem-te afastado. Não desperdices oportunidades, Jack. Às vezes, é preciso virar a cara. já o fiz. Ouve bem. Sei que é difícil e acredita que sei como te sentes. - Como me sinto? Sinto que preciso de um duche - replicou Crawford.
Slide 21: Capítulo cinco Starling era uma dona de casa eficiente, mas não meticulosa. O seu lado do duplex estava limpo e conseguia encontrar tudo, mas as coisas tendiam a amontoar-se: roupa lavada e por separar e mais revistas do que sítios onde arrumá-las. Engomava tudo à última hora e não precisava ataviar-se, portanto tudo bem. Quando precisava de ordem, dirigia-se à cozinha comum do lado do duplex de Ardelia Mapp. Se Ardelia estava presente, beneficiava dos seus conselhos, que eram sempre úteis, embora por vezes mais pormenorizados do que desejaria. Se Ardelia não estava, era ponto assente que Starling podia instalar-se na absoluta ordem esquematizada por Mapp, desde que não deixasse nada. E foi exactamente o que fez nesse dia. Naquele tipo de casa que parece conter sempre o ocupante, quer ele esteja ou não. Starling sentou-se a observar a apólice do seguro de vida da avó de Mapp, pendurada na parede numa moldura feita à mão, como sempre estivera na herdade da avó e depois no apartamento dos Mapp, durante a infância de Ardelia. A avó dela vendera legumes e flores do jardim e economizara o suficiente para pagar os prémios do seguro e conseguira pedir empréstimos sobre a apólice para ajudar Ardelia quando ela trabalhava e ao mesmo tempo tirava o curso. Havia ainda uma fotografia da pequena e idosa senhora, que não fazia qualquer esforço para sorrir sobre a gola engomada, com os olhos negros emanando uma antiga sabedoria sob a aba do chapéu de palha. Ardelia estava consciente do seu passado e era nele que recolhia forças para o dia-a-dia. Agora, era Starling que tentava recompor-se. O Lar Luterano de Bozeman alimentara-a, vestira-a e deralhe um padrão decente de comportamento, mas para o que precisava nesse momento, tinha de apelar ao sangue.
Slide 22: HANNIBAL 29 O que se tem, quando se é originário de uma família branca e pobre? E se se nasceu de gente muitas vezes apelidada nas cidades universitárias como pobretanas, trabalhadores rurais ou, condescendentemente, mão-de-obra ou brancos pobres dos Apalaches? E quando a delicadeza incerta do Sul, que não atribui qualquer dignidade ao trabalho físico, se refere à nossa família como sucateiros... em que tradição se recolhem exemplos? No facto de os termos vencido em Bull Run? Ou do bisavó ter feito uma bela figura em Vicksburg ou ainda por um pedaço de Shiloh se ter transformado em Yazoo City? Há muito mais honra e sentido em se ter obtido sucesso com o legado, feito algo com os malditos 40 acres e uma mula, mas há que ver isso com os próprios olhos. Starling saíra-se bem no treino do FBI porque não tinha um passado a apoiá-la. Sobreviveu a maior parte da vida em instituições, respeitando-as e seguindo as normas. Nunca deixara de seguir em frente, obtivera a bolsa e ingressara na equipa. A impossibilidade de progredir no FBI depois de um começo brilhante constituía uma nova e terrível experiência. Embatia contra o tecto de vidro, como uma abelha dentro de uma garrafa. Dispusera de quatro dias para fazer o luto por John Brigham, abatido a tiro na sua frente. Há muito tempo, John Brigham fizera-lhe um pedido e respondera-lhe que não. E depois ele perguntara-lhe se podiam ser amigos e estava a ser sincero, ele respondera que sim e era verdade. Aceitara a realidade de que ela própria tinha morto cinco pessoas no Feliciana Fish Market. Ocorriam-lhe flashes sucessivos do membro do gang Crip com o peito esmagado entre os carros, agarrando-se ao tejadilho do carro, enquanto a arma lhe escorregava para longe. Uma vez e para aliviar a consciência foi ao hospital para examinar o bebé de Evelda. A mãe de Evelda estava presente, com a criança ao colo, preparando-se para a levar para casa. Reconheceu Starling das fotografias dos jornais, entregou o bebé à enfermeira e, sem dar tempo a que Starling se apercebesse das suas intenções, esbofeteou-a com força no lado da cara coberto pela ligadura. Starling não ripostou, mas imobilizou a mulher mais velha com um golpe de gancho de encontro à janela da ala da maternidade até ela deixar de lutar, com o rosto distorcido junto ao vidro sujo de espuma e de cuspo. O sangue corria pelo pescoço de Starling e a dor estonteava-a. Coseram-lhe novamente a orelha na sala de urgências e recusou-se a apresentar queixa. Uma auxiliar da sala de urgências deu uma dica ao TattIer e recebeu trezentos dólares. Teve de sair mais duas vezes, a fim de cumprir as últimas disposições de John Brigham e assistir ao seu funeral no Arlington National
Slide 23: 30 THOMAS HARRIS Cemetery Os parentes de Brigham eram poucos e afastados e, nos seus últimos pedidos por escrito, ele nomeava Starling para se ocupar dele. A extensão dos seus danos no rosto exigia um caixão fechado, mas ela cuidara da aparência dele o melhor que conseguira. Deitara-o vestido com o seu fato azul de fuzileiro, a estrela de prata e outras condecorações. Depois da cerimónia, o superior de Brigham entregou a Starling uma caixa com as armas pessoais de John Brigham, os distintivos e alguns objectos da sua secretária sempre desarrumada, incluindo o estúpido pássaro que bebia de um copo. Cinco dias depois, Starling enfrentou um interrogatório que podia destrui-la. É excepção de uma mensagem de Jack Crawford, o seu telefone de trabalho mantivera-se silencioso e deixara de poder falar com Brigham Telefonou para o seu representante na Associação de Agentes do FBI e ele aconselhou-a a que não se apresentasse com brincos de pendentes ou sapatos abertos na frente no interrogatório. A televisão e os jornais pegavam diariamente na história da morte de Evelda Drumgo e sacudiam-na como a um rato. Aqui, na ordem impecável da casa de Mapp, Starling tentava alinhar ideias. O verme que nos destrói é a tentação de concordar com os críticos, de conseguir a aprovação deles. Um barulho estava a interferir. Starling tentava lembrar-se das palavras exactas pronunciadas na carrinha de disfarce. «Teria dito mais do que o necessário?». Um barulho estava a interferir. Brigham indicara-lhe que informasse os outros sobre Evelda. «Teria deixado escapar alguma hostilidade, feito qualquer crítica. Um barulho estava a interferir. Voltou à realidade e apercebeu-se que estava a ouvir a campainha da porta. Provavelmente um repórter. Também esperava uma intimação civil. Afastou a cortina da janela da frente e ao espreitar lá para fora avistou o carteiro que regressava à furgoneta. Abriu a porta da frente e apanhou-o, virando as costas ao carro da imprensa que se encontrava do outro lado da rua, de lente atestada, enquanto assinava o recibo do correio expresso. O envelope era violeta, com laivos de seda no bonito papel de linho. Apesar da sua distracção, recordavalhe algo. No interior da casa e a salvo de olhares indiscretos, examinou a morada. Uma bela caligrafia. Um aviso disparou, sobrepondo-se ao permanente zumbido de medo no espírito de Starling. Sentiu que a pele do estômago tremia, como se tivesse deixado cair qualquer coisa fria em cima.
Slide 24: HANNIBAL 31 Starling pegou no envelope pelas pontas e levou-o para a cozinha. Tirou da bolsa as luvas brancas de recolha de provas que nunca a abandonavam. Premiu o envelope sobre a superfície dura da mesa da cozinha e apalpou-o todo com cuidado. Embora o papel fosse pesado, teria detectado o volume de uma bomba de relógio pronta a fazer explodir uma folha A-4. Sabia que deveria examiná-lo com um fluoroscópio. Caso o abrisse, podia meterse em sarilhos. Sarilhos. Exacto. Que se lixasse! Abriu o envelope com uma faca de cozinha e retirou do interior a única folha de papel de seda. Soube de imediato, antes mesmo de verificar a assinatura, quem lha escrevera. Querida Clarice, Acompanhei com interesse o percurso da sua infelicidade e humilhação pública. O meu nunca me incomodou, exceptuando o incómodo de estar prisioneiro, mas é possível que lhe falte perspectiva. Durante as nossas discussões no calabouço, não me restaram dúvidas de que o seu pai, o guarda-nocturno assassinado, ocupa um lugar de realce no seu sistema de valores. Julgo que o seu sucesso em terminar com a carreira de costureiro de Jame Gumb lhe deu sobretudo prazer por poder imaginar o seu pai a fazê-lo. Agora, tem má reputação no FBI. Sempre imaginou o seu pai acima de si, imaginou-o um chefe de departamento, ou - melhor ainda do que Jach Crawford - um director-adjunto, seguindo, orgulhoso, o seu progresso? E vê-o, agora, envergonhado e esmagado pela sua desonra? O seu fracasso? O final infeliz e mesquinho de uma carreira promissora? Vê-se a executar as tarefas domésticas a que a sua mãe ficou reduzida, depois dos drogados terem enfiado um balázio no seu PAI? Hummm? Será que o seu falhanço se reflectirá neles, será que as pessoas acreditarão erradamente que os seus pais eram lixo branco de um tornado que varreu um acampamento de roulottes? Diga-me a verdade, agente especial Starling. Reflicta um momento, antes de prosseguirmos. Vou referir-me a uma das suas qualidades e que a ajudará. não está cega pelas lágrimas, ainda pode continuar a ler. Eis um exercício que pode considerar útil. Quero que o faça fisícamente comigo: Tem uma caçarola preta de ferro? É uma rapariga das montanhas do Sul. Não consigo imaginála sem uma. Ponha-a em cima da mesa da cozinha. Acenda as luzes do tecto. Mapp herdara a caçarola da avó e utilizava-a com frequência. Tinha uma superfície preta e brilhante que nunca via detergente. Starling pousou-a em cima da mesa na sua frente.
Slide 25: 32 THOMAS HARRIS Olhe para a caçarola, Clarice. Incline-se e olhe-a. Se foi a caçarola da sua mãe, e pode muito bem ser, conservará entre as suas moléculas as vibrações de todas as conversas realizadas na sua presença. Todas as trocas de palavras, pequenas zangas, revelações fatais, os anúncios de infortúnio, os queixumes e a poesia do amor Sente-se à mesa, Clarice. Olhe para dentro da caçarola. Se estiver bem polida é um lago preto, não é? Assemelha-se a olhar para dentro de um poço. O seu reflexo pormenorizado não está no fundo, mas assoma nele, certo? A luz atrás de si, mostra-a a negro, com um halo luminoso à volta da cabeça, como se os cabelos estivessem em fogo. Todos somos produtos do carvão. Você e a caçarola, e o seu pai morto no chão, frio como a caçarola. Ainda está tudo ali. Ouça. Como eles ainda soam realmente a vida - ouça os seus pais a discutirem. As memórias concretas e não a imaginação que enche o seu coração. Por que é que o seu pai não era um ajudante de xerife, ligado à gente do tribunal? Por que é que a sua mãe se viu obrigada a limpar motéis para vos manter, embora não tivesse conseguido mantê-los a todos juntos até serem adultos? Qual é a sua memória mais nítida da cozinha? Não do hospital, da cozinha. A minha mãe a lavar o sangue do chapéu do meu pai. Qual é a sua melhor memória da cozinha? O meu pai a descascar laranjas com o seu velho canivete de bolso e a distribuir os gomos entre nós. O seu pai, Claríce, era um guarda-nocturno. A sua mãe era uma criada de quartos. Uma grande carreira federal era uma esperança sua ou deles? Até onde se curvaria o seu pai para ser bem sucedido nafedorenta burocracía? Quantos traseiros estaria disposto a beijar? Alguma vez na vida o viu bajular ou adular? Os seus supervisores demonstraram qualquer valor, Clarice? E os seus pais, demonstraram algum? Em caso afirmativo, esses valores são os mesmos? Olhe para o ferro honesto e responda-me. Falhou perante a sua família morta? Eles desejariam que se dobrasse? Era essa a perspectiva que tinham de coragem? Pode ter a força que quiser É uma guerreira. Claríce. O inimigo está morto e o bebé a salvo. É uma guerreira. Na tabela periódica, Clarice, os elementos mais estáveis aparecem classificados entre o ferro e a prata. Entre o ferro e a prata. Penso que isto se lhe adequa. Hannibal Lecter
Slide 26: HANNIBAL 33 PS, - Ainda me deve algumas informações, sabe? Diga-me se continua a acordar ouvindo os cordeiros. Em qualquer domingo ponha um anúncio na coluna de desaparecidos da edição nacional do Times, do International Herald Tribune e China Mail. Dirija-o a A. A. Aaron para que seja o primeiro e assine Hannah. Enquanto lia, Starling ouvia as palavras na mesma voz que troçara dela e a espicaçara, perscrutara a sua vida e a esclarecera na ala de segurança máxima da instituição psiquiátrica, quando tivera de negociar o mais íntimo da sua vida com Hannibal Lecter em troca do seu conhecimento vital de Buffalo Bill. O som metálico daquela voz raramente usada ainda ecoava nos seus sonhos. Havia uma nova teia de aranha no canto do tecto da cozinha. Starling não despregava os olhos dela, enquanto os pensamentos fluíam em turbilhão. Alegria e tristeza, tristeza e alegria. Alegria pela ajuda, alegria por divisar uma forma de cicatrização. Alegria e tristeza pelo facto dos serviços postais do Dr. Lecter em Los Angeles estarem a servir-se de uma ajuda vulgar - desta vez tinham-se servido de uma caixa postal. Jack Crawford ficaria deliciado com a carta, o mesmo acontecendo aos Serviços Postais e ao laboratório.
Slide 27: Capítulo seis O quarto onde Mason passa a sua vida é tranquilo, mas tem um pulsar próprio, o inalar e exalar da máquina por onde respira. Está às escuras com excepção do grande aquário onde uma exótica moreia volteia num infindável oito, enquanto a sua sombra negra se projecta como uma fita sobre o quarto. O cabelo apanhado de Mason descansa numa grossa trança em cima do invólucro do respirador que lhe cobre o peito na cama erguida. Diante dele encontra-se suspenso um emaranhado de tubos, semelhantes a flautas. A comprida língua de Mason desliza por entre os dentes. Enrola a língua à volta do último tubo e sopra com a pulsação seguinte do respirador. Uma voz responde imediatamente de um altifalante instalado na parede: - Sir? - O Tattler. - Os dois primeiros «t»I perdem-se, mas a voz ecoa profunda e ressonante, uma voz da rádio. - A primeira página tem... - Não a leias. Põe-a no ecrã. - Voltam a perder-se os primeiros sons do discurso de Mason. Ouve-se o estalido do grande ecrã de um monitor elevado. O brilho azul-esverdeado torna-se rosa quando o cabeçalho vermelho do Tattler surge. «ANJO DA MORTE: A ARMA MORTíFERA DO FBI», lê Mason, através de três lentas exalações do seu respirador. Pode aumentar o tamanho das imagens. Apenas um dos braços está fora dos cobertores da cama. A mão executa um movimento. Id~entica a uma pálida tenaz de santola a mão mexe-se, mais pelo movimento dos dedos do que pela força do braço Em inglês The Tattler. (N. da T)
Slide 28: HANNIBAL 35 perdido. Dado Mason não poder virar muito a cabeça para ver, o indicador e o médio apalpam como antenas, enquanto o polegar, o anelar e o dedo mínimo arrastam a mão. Esta encontra o comando que lhe permite aumentar e virar as páginas. Mason lê devagar. O tubo sobre a sua única vista provoca um leve silvo duas vezes por minuto quando espalham humidade sobre o globo ocular sem pálpebra e embacia frequentemente a lente. Leva vinte minutos a ler o artigo principal e a coluna. - Mostra a radiografia - ordenou ao terminar. Levou um momento. A grande chapa da radiografia necessitava de uma mesa iluminada para se ver bem no monitor. Aqui estava uma mão humana, aparentemente danificada. Depois, mais uma chapa, mostrando a mão e todo o braço. Uma marca colada na radiografia mostrava uma antiga fractura no úmero, mais ou menos a meio entre o cotovelo e o ombro. Mason fitou-a depois de muitas exalações. - Põe a carta - disse por fim. Uma bela caligrafia desenhou-se no ecrã com a letra absurdamente ampliada. - «Querida Clarice», leu Mason, acompanhei com interesse o percurso da sua infelicidade e humilhação pública... - O próprio ritmo da voz acordava velhos pensamentos no seu íntimo que o faziam girar e ao quarto também, punham a nu os seus indizíveis pesadelos, acelerando-lhe as batidas do coração. A máquina acusou a sua excitação e encheu-lhe os pulmões com mais rapidez. Leu-a toda, naquele seu ritmo doloroso, lendo sobre a maquina em movimento, como se lesse montado a cavalo. Mason não podia fechar o olho, mas quando terminou a leitura, a mente recolheu-se por detrás do olho, a fim de meditar um pouco. O respirador abrandou e ele soprou no tubo. - Sim, sir - Contacta o senador Vellirior. Traz-me o auscultador. Liga o altifalante. «Clarice Starling», disse de si para si juntamente com o próximo respirar que a máquina lhe permitiu. O nome não tem consoantes explosivas e pronunciou-o muito bem. Não se perdeu um único som. Enquanto aguardava a ligação, passou um pouco pelo sono com a sombra da moreia pairando sobre o lençol, o seu rosto e o cabelo apanhado.
Slide 29: Capítulo sete Buzzard’s Point, o quartel-general do FBI para Washington e o distrito de Columbia, é escolhido para uma reunião de abutres num hospital local da Guerra Civil. Na reunião de hoje participam membros intermédios da administraqfto da Drug Enforcement Agency, Bureau of Alcohol, Tobacco and Firearms e FBI, a fim de discutirem o destino de Clarice Starling. Starling encontrava-se de pé, sozinha, na espessa alcatifa do gabinete do seu chefe. Ouvia a própria pulsação por baixo da ligadura à volta da cabeça. Acima da pulsação, ouvia as vozes de homens, abafadas pela porta de vidro fosco de uma sala de conferências contígua. A chancela do FBI com o lema «Fidelidade, Bravura, Integridade» encontra-se elegantemente desenhada em folha dourada no vidro. As vozes por detrás da chancela sobem e descem acaloradas; Starling ouvia o seu nome quando não percebia mais nenhuma palavra. O gabinete dispunha de uma bela vista sobre a bacia com iates até ao Forte McNair, onde os conspiradores acusados do assassínio de Lincoln foram enforcados. Pela mente de Starling perspassaram instantâneos de fotografias que vira de Mary Surratt, passando junto ao seu próprio caixão e subindo os degraus do cadafalso de H. McNaír pendendo com o capuz sobre a cabeça sobre o alçapão, com as saias atadas à volta das pernas por uma questão de pudor, enquanto a largavam com um estrondo para o escuro. Para lá da porta, Starling ouviu o arrastar das cadeiras quando os homens se puseram de pé. Entravam agora neste gabinete. Reconheceu alguns dos rostos. Céus! Estava também Noonan, o subdirector da divisão de investigação.
Slide 30: HANNIBAL 37 E havia a sua némesis, Paul KrendIer, do Departamento de justiça, com o enorme pescoço e as orelhas redondas bem no cimo da cabeça, semelhantes às de uma hiena. KrendIer era um oportunista, o homemsombra do inspector-geral. Desde que ela o antecedera na prisão do serial hiller Buffalo Bill num famoso caso há sete anos, KrendIer nunca perdia uma oportunidade de despejar veneno no seu dossier pessoal e sussurava ao ouvido do Conselho de Promoções. Nenhum destes homens alguma vez estivera numa missão com ela, executara um mandado de captura, fora alvejado ou retirara dos cabelos estilhaços de vidro ao lado dela. Os homens não a olharam individualmente mas em conjunto, da mesma forma que um rebanho centra de súbito as atenções no coxo do grupo. - Sente-se, agente Starling - pronunciou-se o seu patrão, o agente especial Clint Pearsall, esfregando o pulso grosso, como se o relógio o magoasse. Sem a olhar de frente, esboçou um gesto na direcção de uma cadeira de braços de frente para as janelas. Num interrogatório, a cadeira não é o lugar de honra. Os sete homens permaneceram de pé, as silhuetas recortadas a negro com as janelas luminosas por trás. Agora, Starling não conseguia divisar-lhes os rostos, mas detectava-lhes as pernas e os pés, abaixo do brilho. Cinco deles usavam os mocassins de sola grossa preferidos pelos ratos do campo que conseguiram chegar a Washington. Um par de Thom McAnn de biqueira quadrada com solas Corfam e alguns Florsheim também de biqueira quadrada completavam o círculo dos sete. Um cheiro a pomada intensificada por pés quentes. - Na eventualidade de não conhecer todos, agente Starling, este é o director-adj unto Noonan, que estou certo de que sabe quem é; este é John Deldredge do DEA, Bob Sneed, BATF, Benny Holcomb é auxiliar do prefeito e Larkin Wainright um examinador do nosso Gabinete de Responsabilidade Profissional retorquiu Pearsall. - Paul KrendIer - conhece o Paul - está aqui particularmente como membro da Procuradoria- Geral da justiça. Paul está a fazer-nos um favor, ou seja, está aqui e não está, apenas para nos manter a cabeça fora de água, se é que me entende. Starling entendia perfeitamente: um examinador federal é alguém que chega ao campo de batalha depois da batalha acabar e enfia a baioneta nos feridos. As cabeças de algumas das silhuetas inclinaram-se num cumprimento. Os homens ergueram o pescoço e observaram a jovem mulher por causa de quem estavam ali reunidos. Durante o espaço de umas pulsações, ninguém falou.
Slide 31: 38 THOMAS HARRIS Bob Sneed quebrou o silêncio. Starling lembrava-se dele como o médico porta-voz do BATF que tentou abafar o desastre da Divisão Davidiana em Waco. Era um comparsa de KrendIer e considerado um oportunista. - Viu a cobertura da imprensa e da televisão, agente Starling. Foi amplamente identificada como a atiradora que causou a morte de Evelda Drumgo. Foi, infelizmente, como que endemoninhada. Starling não respondeu. - Agente Starling? - Nada tenho a ver com o que foi noticiado, Mister Sneed. - A mulher tinha o bebé ao colo e decerto tem consciência do problema que isso levanta. - Não nos braços, mas num porta-bebés pendurado ao peito, enquanto mantinha os braços e as mãos por baixo, sob uma fralda, que escondia a sua MAC-10. - Leu o protocolo da autópsia? - retorquiu Sneed. - Não. - Mas nunca negou ser a atiradora. - Julgou que o negaria, só porque não recuperou a bala? Virou-se para o seu chefe do Bureau. - Este é um encontro amigável, certo, Mister Pearsall? - Sem dúvida. - Então por que é que Mister Sneed tem um microfone? Há anos que a Divisão Técnica deixou de fabricar esses microfones de lapela. Mas ele tem um F-Bird no bolso do casaco que está a gravar tudo. Está agora na moda usarmos microfones entre membros do mesmo departamento? O rosto de Pearsall tornou-se escarlate. Caso Sneed tivesse, de facto, um microfone, constituía o pior tipo de traição, mas ninguém queria ficar com a voz gravada, ordenando a Sneed que o desligasse. - Não precisamos de qualquer atitude ou acusações da sua parte - replicou Sneed, pálido de raiva. - Todos estamos aqui com a intenção de ajudá-la. - Ajudar-me a fazer o quê? A sua agência telefonou para este departamento e fui destacada para o ajudar nesta incursão. Dei duas hipóteses a Evelda Drumgo de se entregar. Ela empunhava uma MAG-10 sob a fralda do bebé. já tinha alvejado John Brigham Gostaria que se tivesse entregue. Não o fez. Alvejou-me. Respondi. Pode verificar o seu microfone, Mister Sneed. - Tinha antecipado que Evelda Drumgo estaria lá? - quis saber Eldredge. - Antecipado? O agente Brigham comunicou-me na carrinha a caminho do local que Evelda Drumgo estava a preparar droga num
Slide 32: HANNIBAL 39 laboratório de metafetamina vigiado. Destacou-me para me haver com ela. - Lembre-se que Brigham está morto - replicou KrendIer e Burke também, qualquer deles agentes fantásticos. Não estão aqui para confirmarem ou negarem o que quer que seja. Starling sentiu um aperto no estômago ao ouvir pronunciar o nome de John Brigham. - Não é muito provável que eu esqueça que John Brigham está morto, Mister KrendIer, e ele era um bom agente e um bom amigo. A verdade é que me pediu que tratasse do caso de Evelda. - Brigham incumbiu-a dessa missão, embora soubesse que você e Evelda já tinham tido um confronto comentou KrendIer. - Então, Paul - interferiu Clint Pearsall. - Que confronto? - redarguiu Starling. - Uma detenção pacífica. já antes lutara com outros agentes por altura de detenções. Não me enfrentou quando a prendi antes e falámos um pouco... ela era esperta. Tratámo-nos com civismo. Esperava poder consegui-lo de novo. - Fez a afirmação verbal de que «se encarregaria dela»? - perguntou Sneed. - Reconheci as minhas instruções. Holcomb, do gabinete do prefeito, inclinou-se na direcção de Sneed. Sneed ajeitou os punhos da camisa, antes de prosseguir: - Miss Starling, fomos informados pelo agente Bolton, do Departamento de Polícia de Washington, que pronunciou declarações acaloradas sobre Miss Drumgo na carrinha, a caminho do confronto. Quer fazer algum comentário? - Seguindo as instruções do agente Brigham, expliquei aos outros agentes que Evelda tinha uma história de violência, que costumava andar armada e era seropositiva. Disse que lhe daríamos a oportunidade de se render pacificamente. Pedi ajuda física para a dominar, se fosse caso disso. Posso afirmar que não havia muitos voluntários. Clint Pearsall fez um esforço e interferiu. - Quando o carro dos atiradores do gang Crip chocou e um deles fugiu, avistou o carro a balouçar e ouviu o bebé a chorar no interior? - A gritar - corrigiu Starling. - Ergui a mão para que todos parassem o tiroteio e avancei sem cobertura. - O que constitui uma infracção à nossa forma de actuar observou Eldredge. Starling ignorou-o e prosseguiu: - Aproximei-me rapidamente do carro, de arma baixa e o cano baixo. Ron Burke estava moribundo no chão que nos separava. Alguém correu e pôs-lhe uma compressa. Evelda saiu cá para fora com o bebé. Pedi-lhe que me mostrasse as mãos, disse-lhe qualquer coisa como: «Evelda, não faça isso». - Ela disparou, você disparou. Ela caiu de imediato?
Slide 33: 40 THOMAS HARRIS - As pernas cederam e ficou sentada no chão, inclinada sobre o bebé - confirmou Starling com um aceno de cabeça. - Estava morta. - Agarrou no bebé e correu para a água. Mostrou preocupação - redarguiu Pearsall. - Ignoro o que mostrei. Ele estava coberto de sangue. Não sei se o bebé era ou não HIV positivo, mas sabia que ela era. - E pensou que a sua bala pudesse ter atingido o bebé - interferiu KrendIer. - Não. Sei para onde foi a bala. Posso falar francamente, Mister Pearsall? Pearsall não a olhou de frente e ela continuou: - Esta busca foi uma enorme confusão. Colocou-me numa posição em que tinha de optar entre morrer ou alvejar uma mulher com uma criança ao colo. Optei e o que tive de fazer queima-me. Disparei contra uma mulher com um bebé ao colo. Nem os animais irracionais o fazem. Pode verificar novamente o seu gravador, Mister Sneed, aí mesmo onde faço a confissão. Fiquei extremamente ressentida pela posição em que me vi. E continuo. - Ocorreu-lhe a imagem de Brigham estendido no chão de rosto para baixo e foi longe de mais. - Tê-los visto a todos a fugirem dá-me volta ao estômago. - Starling... - exclamou Pearsall, angustiado e fitando-a de frente pela primeira vez. - Sei que ainda não teve oportunidade de elaborar o seu relatório - interferiu Larkin Wainwright. - Quando o passarmos em revista... - Tive sim, sir - arguiu Starling. - Vai uma cópia a caminho do Gabinete de Responsabilidade Profissional. Tenho uma cópia comigo, se não quiser esperar. Escrevi tudo o que fiz e vi. Como vê, Mister Sneed, teve sempre tudo em seu poder. A visão de Starling estava um pouco clara de mais, um sinal de perigo que reconheceu e a levou a baixar conscientemente o tom de voz: - Esta rusga correu mal por uma série de motivos. O informador do BATF mentiu quanto à localização do bebé porque o informador queria desesperadamente que a rusga falhasse - antes do encontro com o júri federal em Illinois. E Evelda Drumgo sabia que íamos aparecer. Surgiu com o dinheiro num saco e o produto na outra. O beep ainda indicava o número da estação televisiva WFUL. Recebeu o beep cinco minutos antes da nossa chegada. O helicóptero da WFUL apareceu ao mesmo tempo que nós. Intime os telefonistas da WFUL e verifique quem é culpado da fuga de informação. É alguém com interesses locais, meus senhores. Se a fuga de informação
Slide 34: HANNIBAL 41 fosse do BATF, como aconteceu em Waco, ou do DEA, tê-lo-iam feito à imprensa nacional e não à televisão local. Benny Holcomb falou em nome da cidade: - Não há prova de que alguém do governo local ou do departamento da polícia de Washington tenha deixado escapar qualquer informação. - Proceda à intimação e verá - insistiu Starling. - Tem o beeper de Drumgo? - quis saber Pearsall. - Está selado e na sala de património da Academia de Quantico, o beeper do director-adj unto Noonan fez-se ouvir. Franziu o sobrolho ao verificar o número e ausentou-se da sala, pedindo desculpa. Momentos depois, chamou Pearsall para que fosse juntar-se-lhe lá fora. Wainwright, Eldredge e Holcomb olhavam através da janela na direcção do Fort McNair, com as mãos enfiadas nos bolsos. Poderiam estar à espera em qualquer unidade de cuidados intensivos. Paul Krendier trocou um olhar com Sneed e incitou-o a que se aproximasse de Starling. Sneed pousou a mão no espaldar da cadeira de Starling e inclinou-se sobre ela. - Se testemunhar no interrogatório que, enquanto se encontrava em missão para o FBI, a sua arma matou Evelda Drumgo, o BATF está disposto a assinar uma declaração de que Brigham lhe pediu que prestasse... atenção especial a Evelda, a fim de a deter pacificamente. Foi a sua arma que a matou e é nesse ponto que o seu departamento tem de assumir responsabilidades. Não ocorrerá uma desagradável disputa entre agências quanto às regras de envolvimento e não seremos obrigados a apresentar quaisquer declarações acaloradas ou hostis que tenha feito na carrinha sobre o tipo de pessoa que ela era. Starling divisou, por instantes, Evelda Drumgo transpondo a ombreira da porta, a sair do carro, divisou-lhe a cabeça e, mal-grado a idiotice e a perda da vida de Evelda, apercebeu-se da decisão que a tomava de levar a criança e enfrentar os carrascos em vez de fugir. Starling aproximou-se mais do microfone colocado na gravata de Sneed e declarou num tom de voz nítido: - Tenho o maior prazer em reconhecer o tipo de pessoa que ela era, Mister Sneed. Era melhor do que o senhor. Pearsall regressou ao gabinete sem Noonan e fechou a porta atrás de si. - O director-adj unto Noonan voltou ao seu escritório. Terei que interromper esta reunião, meus senhores, e mais tarde contacto-vos individualmente por telefone - esclareceu Pearsall. KrendIer ergueu a cabeça. Pairava no ar um cheiro a política que o alertou. - Temos de tomar algumas decisões - replicou Sneed. - Não, não temos. - Mas...
Slide 35: 42 THOMAS HARRIS - Acredita, Bob, que não temos de decidir seja o que for. já volto a falar consigo. E Bob? - Sim? Pearsall agarrou no fio que passava por detrás da gravata de Sneed, puxando-o com força, arrancando botões da camisa de Sneed e despegando-lhe o microfone do corpo. - Se voltar a aparecer com uma coisa destas, dou-lhe um pontapé no traseiro. Nenhum deles olhou para Starling quando saíram, exceptuando KrendIer. Avançando na direcção da porta e arrastando os pés para não ter de usar a vista, serviu-se do enorme pescoço para a enfrentar, como uma hiena se postaria na orla de um rebanho, fixando uma candidata a vítima. Um misto de desejos estampou-se-lhe no rosto. da natureza de KrendIer não se dissociava a apreciação das pernas de Starling e a melhor forma de lhe imobilizar o tendão.
Slide 36: Capítulo oito Ciência Comportamental é a secção do FBI que trata de casos de assassínios em série. Situado no rés-do-chão do edifício da Academia dispõe de uma atmosfera fresca e tranquila. Nos últimos anos, alguns decoradores tentaram dar mais cor ao espaço subterrâneo. O resultado não foi superior ao dos cosméticos utilizados por agências funerárias. O gabinete do chefe da secção mantém o castanho torrado original com as cortinas cor de café nas janelas altas. Ali, rodeado dos seus dossiers infernais, Jack Crawford estava sentado a trabalhar à secretária. Uma pancada na porta e, ao erguer os olhos, Crawford deparou com uma imagem que lhe agradou: Clarice Starling de pé, junto à ombreira da porta. Crawford sorriu e levantou-se da cadeira. Ele e Starling conversavam muitas vezes, de pé; era uma das tácitas formalidades que tinham imposto na sua relação. Não precisavam trocar um aperto de mão. - Ouvi dizer que foi ao hospital - disse Starling. - Lamento o desencontro. - Fiquei contente por lhe terem dado alta tão rapidamente. - E a sua orelha? Está bem? - óptima para quem gosta de couve-flor. Garantem-me que vai desinchar. - Tinha a orelha tapada pelo cabelo e não se ofereceu para a mostrar. Um breve silêncio. - Levaram-me a assumir responsabilidades pela rusga, Mister Crawford. Pela morte de Evelda Drumgo, por tudo. Eram como hienas e depois repentinamente tudo parou e escapuliram-se. Algo os afastou.
Slide 37: 44 THOMAS HARRIS - Talvez tenha um anjo, Starling. - Talvez tenha. O que lhe custou, Mister Crawford? Crawford abanou a cabeça. - Feche a porta, por favor, Starling - pediu, ao mesmo tempo que descobriu um Kleenex amachucado no bolso e se pôs a limpar as lentes. - Têlo-ia feito, se pudesse. Não era o caso. Se o senador Martin ainda estivesse ao serviço, teria disposto de alguma cobertura... Perderam John Brigham nessa incursão - desperdiçaram-no pura e simplesmente. Teria sido uma vergonha se a perdessem a si como perderam John. Era como se estivesse a empilhar os vossos corpos num jeep. As faces de Crawford ruborizaram-se e ela recordou-se da expressão do rosto dele, batida pelo vento agreste, sobre a sepultura de John Brigham. Crawford nunca lhe falara da sua guerra. - Fez algo, Mister Crawford. - Fiz algo - concordou com um aceno de cabeça. - Não sei até que ponto ficará satisfeita. É uma incumbência. Uma incumbência. «Incumbência» era uma palavra positiva no seu léxico particular. Significava uma tarefa específica e imediata e desanuviava a atmosfera. Sempre que era possível evitá-lo, nunca se referiam à complicada burocracia central do Federal Bureau of Investigation. Crawford e Starling assemelhavam-se a missionários médicos, com pouca paciência para teologia, cada um deles concentrando-se no que tinham pela frente, conscientes, sem o dizerem, que Deus não faria uma única coisa divina para os ajudar. Que não se incomodaria a fazer chover para salvar a vida de 50 mil crianças com o vírus de Ebola. - De forma indirecta, Starling, o seu benfeitor é o seu recente correspondente. - O Doutor Lecter - Há muito que se apercebera do desagrado de Crawford quanto a pronunciar o nome. - Sim, esse mesmo. Iludiu-nos durante todo este tempo... conseguiu pôr-se a são e salvo... e escreve-lhe uma carta. Porquê? Tinham passado sete anos desde que o Dr. Hannibal Lecter, um famoso assassino de nove pessoas, escapara da prisão em Menfis, tirando mais cinco vidas nesse processo. Era como se Lecter se tivesse esfumado da superfície da Terra. O caso mantinha-se aberto no FBI e assim permaneceria eternamente, ou até ele ser apanhado. Aplicava-se o mesmo a Termessee e outras jurisdições, mas deixara de existir uma força destacada para o perseguir, embora familiares das suas vítimas tivessem derramado lágrimas de raiva ante a legislatura do estado de Temessee e exigido actuação. Volumes inteiros de conjecturas eruditas sobre a sua mentalidade encontravam-se disponíveis, a maior parte da autoria de psicólogos,
Slide 38: HANNIBAL 45 que nunca tinham sido confrontados pessoalmente com o Doutor. Surgiram algumas obras escritas por psiquiatras que ele criticara duramente em revistas da especialidade e agora se achavam em segurança para se exporem. Vários afirmavam que as suas aberrações o levariam inevitavelmente ao suicídio e que era provável que já estivesse morto. Pelo menos no ciberespaço, o interesse pelo Dr. Lecter mantinha-se muito vivo. Do chão da Internet brotavam teorias Lecter como cogumelos e os sites do Doutor rivalizavam em número com os de Elvis. impostores infestavam as «chat-rooms» e no pântano da clandestinidade contrabandeavam-se a coleccionadores de mistérios de horrores fotografias da polícia dos seus ataques de violência. Ocupavam o segundo lugar de popularidade somente ultrapassado pela execução de Fou-Tchou-Li. Uma pista do Doutor, decorridos sete anos: a sua carta a Clarice Starling quando ela estava a ser crucificada pelos tablóides. A carta não acusava impressões digitais, mas o FBI possuía uma razoável certeza de que era genuína. Clarice Starling tinha a certeza absoluta. - Por que é que ele o fez, Starling?- inquiriu Crawford, quase parecendo irritado com ela. - Nunca dei a entender que o compreendia melhor do que esses estúpidos psiquiatras. Explique-me. - Ele pensou que o que me aconteceu... destruiria, me desiludiria quanto ao Bureau e ele gosta de assistir à destruição da fé, é do que mais gosta. Assemelha-se aos desmoronamentos de igrejas que costumava coleccionar. Adorou a pilha de destroços em Itália quando a fachada da igreja caiu sobre todas as avós naquela missa especial e alguém espetou uma árvore de Natal no cimo da pilha. Eu divirto-o, brinca comigo. Quando o entrevistei, deu-lhe imenso gozo apontar falhas na minha educação, acha-me muito ingénua. Crawford era porta-voz da sua própria idade e solidão ao sugerir. - Já alguma vez pensou que ele pudesse gostar de si, Starling? - Acho que o divirto. As coisas ou o divertem ou não. Se não... - Alguma vez sentiu que ele gostava de si? - perguntou Crawford, insistindo na distinção entre pensar e sentir, tal como um Baptista insiste no baptismo por imersão total. - Durante o nosso breve conhecimento, disse-me várias coisas sobre mim que eram verdadeiras. Penso que é fácil confundir compreensão com empatia - desejamos tanto a empatia. Talvez aprender a fazer essa distinção faça parte do crescimento. É difícil e horrível saber que alguém pode compreender-nos sem mesmo gostar de nós. Quando se encara a compreensão meramente usada como o instrumento de um predador, é o pior. Não... não faço ideia do que o Doutor Lecter sente a meu respeito.
Slide 39: 46 THOMAS HARRIS - Que tipo de coisas lhe disse, se é que não se importa de se abrir? - Disse-me que eu era uma provinciana ambiciosa e desenvolta e os meus olhos brilhavam como pedras zodiacais baratas. Disse-me que usava sapatos baratos, mas tinha gosto, um pouco de gosto. - Achou que era verdade? - Sim. Talvez ainda seja. Comprei sapatos de melhor qualidade. - Acha, Starling, que ele pudesse estar interessado em verificar se o denunciaria, caso lhe mandasse uma carta de encorajamento? - Sabia que o denunciaria, faria melhor em sabê-lo. - Ele matou seis, depois do tribunal o condenar - replicou Crawford. - Matou Miggs na instituição psiquiátrica por lhe atirar sémen para o rosto e mais cinco, quando fugiu. Na actual situação política, se o Doutor for apanhado, receberá uma injecção letal - redarguiu Crawford, com um sorriso ante a ideia. Crawford fora o pioneiro do estudo de serial killers. Agora estava sob reforma compulsiva e o monstro que mais o desafiara, continuava em liberdade. A perspectiva de morte para o Dr. Lecter agradava-lhe enormemente. Starling sabia que Crawford tinha mencionado a atitude de Migg para lhe fulcrar a atenção, para a fazer remontar aqueles dias horríveis em que tentava interrogar Hannibal, o Canibal no subterrâneo do Hospital Estadual para os Criminosamente Insanos de Baltimore. Na época em que Lecter se divertia com ela, enquanto uma jovem se agachava na cova de Jame Gunib, à espera de morrer. Crawford tinha por hábito agudizar a atenção quando se aproximava do âmago da questão, como era agora o caso. - Sabia, Starling, que uma das primeiras vítimas do Doutor Lecter ainda está viva? - O tal que era rico. A família ofereceu uma recompensa. - Exacto. Mason Verger. Encontra-se num respirador, em Maryland. O pai morreu este ano e deixou-lhe a fortuna de acondicionamento de carnes. O velho Verger deixou igualmente a Mason um congressista e um membro do Comité de Supervisão Judiciária que não conseguiam equilibrar o orçamento sem ele. Mason afirma que está de posse de algo que pode ajudar-nos a encontrar o Doutor. Quer falar consigo. - Comigo! - Consigo. É o que Mason pretende e, de súbito, todos acham que é, de facto, uma boa ideia. É o que Mason pretende depois de lho ter sugerido? Iam expulsá-la, Starling, livrar-se de si como se fosse um esfregão. Seria desperdiçada, tal como John Brigham Apenas para salvar a pele de alguns burocratas do BATF Medo. Pressão. É a linguagem que entendem. Mandei alguém meter uma moeda para falar com
Slide 40: HANNIBAL 47 Mason e informá-lo de até que ponto a caçada a Lecter ficaria prejudicada, se você fosse dentro. O que aconteceu em seguida, a quem quer que Mason possa ter telefonado depois, nem quero saber, provavelmente ao deputado VolImer. Há um ano, Crawford não teria feito esta jogada. Starling perscrutou-lhe o rosto em busca de qualquer ataque de loucura temporária que muitas vezes ataca os reformados iminentes. Não conseguiu detectá-la, mas ele parecia cansado. - Mason não é bonito, Starling, e não me refiro somente aos traços físicos. Descubra o que tem em seu poder. Traga-me o que quer que seja e iremos trabalhá-lo aqui. Finalmente. Starling sabia que há anos, desde que se formara pela Academia do FBI, que Crawford tentava destacá-la para a Ciência Comportamental. Agora que era uma veterana do Bureau, veterana de muitas missões secundárias, apercebia-se que o seu primeiro triunfo na captura do serial híller Jame Gumb, fazia parte da sua ruína no Bureau. Era uma estrela em ascensão que emperrara na subida. No processo de apanhar Gumb, arranjara pelo menos um inimigo poderoso e provocara a inveja de uma série de colegas. Tudo isso e uma certa dose de irritabilidade levara a anos de brigadas de assalto e de brigadas encarregues de assaltos a bancos, anos de mandados de captura, a ver Newark por um canudo. Por fim, rotulada de demasiado irascível para trabalhar em equipa, era uma agente técnica, que colocava sob escuta telefones e carros de gangster e pedófilos, ou fazia vigias solitárias de transmissões. E podia ser requisitada sempre que uma agência do Bureau precisava de uma pessoa de confiança numa rusga. Era robusta, rápida e cuidadosa no manejo de armas. Crawford. apercebeu-se que ela tinha aqui a sua oportunidade. Presupôs que ela sempre quisera caçar Lecter. A verdade não era assim tão simples. Nesse momento Crawford perscrutava-a. - Nunca chegou a apagar os vestígios de pólvora do rosto. Grãos de pólvora seca do revólver do falecido Jame Gurrib marcavam-lhe a face com um sinal preto. - Nunca tive tempo - arguiu Starling. - Sabe o que os franceses chamam a um sinal de beleza, um Mouche como esse, na face? Conhece o significado? - inquiriu Crawford, que era dono de uma biblioteca considerável sobre tatuagens, simbologia corporal e mutilação ritual. Starling sacudiu a cabeça. - Chamam-lhe «coragem» - prosseguiu Crawford. - Pode usá-lo. Eu mantinha-o, se estivesse no seu lugar.
Slide 41: Capítulo nove Muskrat Farrn, a mansão da família Verger, junto ao rio Susquehanna, a norte de Maryland possui uma beleza mágica. A dinastia Verger, de acondicionadores de carne, comprou-a na década de 30, quando se mudaram da parte oriental de Chicago para ficarem mais perto de Washington e bem podiam dar-se a esse luxo. Os negócios aliados à perspicácia política tinham permitido aos Vergers firmarem vantajosos contratos de carne com o Exército Americano desde a Guerra Civil. O escândalo da «carne embalsamada» durante a Guerra Hispano-Americana quase não afectou os Vergers. Quando Upton Sinclair e os funcionários de casos de corrupção investigaram condições perigosas de acondicionamento de carne em algumas fábricas, concluíram que alguns empregados haviam sido inadvertidamente transformados em banha, enlatados e vendidos como Durharns Pure Leaf Lard, uma banha da preferência dos padeiros. A culpa não foi imputada aos Vergers. O assunto não lhes custou um único contrato com o governo. Os Vergers furtaram-se a estas complicações políticas e muitas outras, dando dinheiro aos políticos, tendo sofrido como único contratempo a aprovação da Lei da Inspecção da Carne de 1906. Hoje em dia, os Vergers abatem 86 mil cabeças de gado por dia e cerca de 36 mil porcos, um número que varia ligeiramente com a estação do ano. Os relvados recentemente aparados de Muskrat Farm, a profusão dos seus lilazes ao vento, não cheiram de forma alguma a matadouro. Os únicos animais são póneis para as crianças que visitam o local e simpáticos bandos de gansos, pastando nos relvados, abanando as caudas e de cabeças enfiadas na relva. Não há cães. A casa, o celeiro e os terrenos encontram-se próximo do centro de seis quilómetros
Slide 42: HANNIBAL 49 de floresta nacional e ali se manterão eternamente a coberto de uma isenção especial concedido pelo Ministério do Interior. À semelhança de muitos enclaves dos abastados, Muski---at Farm não é muito fácil de encontrar numa primeira vez. Clarice Starling tomou por uma saída mais à frente na auto-estrada. Regressando pela estrada nacional, encontrou primeiro a entrada de serviço, um portão enorme com uma corrente e cadeado na elevada vedação que cercava a floresta. Para lá do portão, um atalho perdia-se ao longo das árvores arqueadas. Não havia cabine telefónica. Quatro quilómetros mais à frente, descobriu a casa do guarda, recuada a uns 100 metros num elegante acesso. O guarda uniformizado tinha o nome num cartão. Mais quatro quilómetros de uma estrada cuidada levaram-na até à herdade. Starling parou o retumbante Mustang para dar passagem a um bando de gansos. Avistou uma fila de crianças montadas em encorpados póneis Shetland, saindo de um bonito celeiro, a uns quatrocentos metros da casa. O edifício principal que tinha diante dos olhos era uma mansão de estilo Stanford-White graciosamente construída entre montes baixos. O lugar parecia sólido e fecundo, nascente de sonhos agradáveis. Starling sentiu-se atraída. Os Vergers; tinham tido a sensatez de deixar a casa como estava, à excepção de um único acréscimo que Starling ainda não podia divisar, uma ala moderna que desponta da elevação a oriente, semelhante a um limbo extra ligado a uma grotesca experiência médica. Starling estacionou sob o alpendre central. Quando desligou o motor, conseguia ouvir o som da própria respiração. Ao olhar pelo retrovisor, avistou alguém que se aproximava a cavalo. Agora, os cascos ecoavam no pavimento ao lado do carro, quando Starling saiu. Uma pessoa de ombros largos e cabelo louro cortado curto virou-se na sela e estendeu as rédeas a um criado, sem o olhar, - Leva-o de volta - ordenou num tom profundo e gutural. - Sou Margot Verger, - Ante uma análise mais atenta, revelou-se uma mulher que estendia a mão, com o braço bem esticado. Margot Verger defendia, indubitavelmente, o culto do corpo. A malha da T-shirt ressaltava sob o pescoço musculado, e os ombros e braços robustos. Os olhos emitiam um brilho seco e pareciam irritados, como alguém que não sabe chorar. Vestia calções de montar de sarja e calçava botas sem esporas. . - Que carro vem a conduzir? - perguntou. - Um Mustang antigo? - De 88. - Cinco litros? Do tipo do que assenta em cima dos pneus? - sin,. é um mustang Roush. - Agrada-lhe?
Slide 43: 50 THOMAS HARRIS - Muito. - Quanto dá? - Não sei. O suficiente, acho. - Tem medo dele? - Respeito-o. Diria que o uso com respeito - replicou Starling. - já o conhecia ou comprou-o por comprar? - Conhecia o suficiente para o comprar num leilão quando vi o que era. Aprendi mais sobre ele depois. - Acha que venceria o meu Porsche? - Depende do Porsche. Preciso falar com o seu irmão, Miss Verger. - Demorarão cerca de cinco minutos a prepará-lo. Podemos começar a dirigir-nos para lá. - Os calções de montar de sarja roçavam nas fartas coxas de Margot Verger, enquanto ela subia as escadas. O cabelo louro-palha caíra o suficiente nas têmporas para levar Starling a interrogar-se sobre se ela tomava esteróides e tivera de atar o clítoris. Aos olhos de Starling, que passou a maior parte da infância num orfanato Luterano, a casa assemelhava-se a um museu, com todos aqueles vastos espaços e vigas pintadas sobre a sua cabeça, e ainda as paredes exibindo retratos de gente morta de ar imponente. Os patamares eram forrados de esmalte cloasonado e os corredores cobertos de enormes tapetes marroquinos. Verifica-se uma brusca quebra de estilo na ala nova da mansão Verger. Impera a moderna estrutura funcional mediante portas duplas de vidro trabalhado e incongruentes no corredor abobadado. Margot Verger fez uma pausa do lado de fora das portas. Fitou Starling com o seu olhar aquoso e enraivecido. - Algumas pessoas têm dificuldade em falar com Mason - declarou. - Se se sentir incomodada ou não for capaz de aguentar, posso informá-la mais tarde sobre o que se tiver esquecido de lhe perguntar. Há uma emoção comum que todos reconhecemos e a que ainda não conseguimos dar um nome: a feliz antecipação de ser capaz de sentir desprezo. Starling detectou-a no rosto de Margot Verger. Starling limitou-se a um: - Obrigada. Starling verificou, surpreendida, que a primeira divisão da ala era uma enorme e bem equipada sala de diversões. Duas crianças afro-americanas brincavam no meio de enormes animais de peluche, uma delas montada numa grande roda e a outra puxando um camião pelo chão. Aos cantos havia uma série de triciclos e vagonetes e no centro aparelhos de ginástica com o chão almofadado por baixo. Num dos cantos da sala, um homem alto fardado de enfermeiro estava sentado num sofá a ler a Vogue. Havia câmaras de vídeo montadas nas paredes, umas mais altas e outras à altura dos
Slide 44: olhos.
Slide 45: HANNIBAL 51 Uma das que se encontrava no alto, a um canto, detectou Starling e Margot Verger e logo a lente rodou para posição de focagem. Starling já não se deixava afectar pela visão de uma criança de cor, mas tomou perfeita consciência destas crianças. Era agradável ver como brincavam alegremente, quando atravessou a sala acompanhada por Margot Verger. - Mason gosta de observar as crianças - informou Margot Verger. - Elas assustam-se ao vê-lo, excepto os mais pequenos, por isso adopta este processo. Depois vão montar os póneis. São crianças que frequentam instituições de beneficência de Baltimore durante o dia. O acesso ao quarto de Mason Verger apenas se faz através da sua casa de banho, uma instalação digna de uma estância, a toda a largura da ala. Tem um aspecto institucional, toda em aço cromado e alcatifada, com duches de portas largas, banheiras de aço inoxidável e aparelhos de elevação, tubos laranja de duche espiralados, sauna e amplos armários de unguentos da farmácia de Santa Maria Novella, em Florença. O ar na casa de banho ainda estava cheio de vapor devido a uso recente e pairavam os aromas a bálsamo e óleo de gualtéria. Starling avistava luz por baixo da porta do quarto de Mason Verger. Apagou-se, mal a irmã tocou na maçaneta. Uma área de convívio a um canto do quarto de Mason Verger recebia uma forte iluminação do tecto. Por cima do sofá estava pendurada uma gravura de The Ancient of Days de William Blake Deus medindo com os seus compassos. O quadro apresentava uma fita negra em honra do recente falecimento do patriarca Verger. O resto da divisão encontrava-se às escuras. Do escuro chegava-lhe o som de uma máquina a funcionar ritmicamente, suspirando a cada pancada. - Boa tarde, agente Starling. - Uma voz ressonante, amplificada mecanicamente, com o princípio fricativo da palavra «tarde» engolido. - Boa tarde, Mister Verger - replicou Starling no escuro, com a luz intensa sobre a cabeça. A tarde ficava num outro lugar. A tarde não entrava aqui. - Sente-se. «Vou ter de fazer isto. É bom. É necessárío». - A nossa troca de palavras, Mister Verger, terá forma de depoimento e precisarei de gravar. Tudo bem para si? - Seguramente. - A voz ouvia-se por entre os sopros da máquina, com a sibilante «s» retirada da palavra. - Acho que podes deixar-nos, Margot. Margot Verger saiu com um roçar dos calções de montar, sem um olhar para Starling.
Slide 46: 52 THOMAS HARRIS - Mister Verger, gostaria de prender este microfone à sua roupa ou à sua almofada, se não se importar, ou também posso chamar uma enfermeira, caso prefira. - Faz favor - redarguiu, sem pronunciar os «f». Ficou a aguardar que o sopro seguinte da máquina lhe desse forças. - Pode fazê-lo, agente Starling. Estou mesmo aqui. Starling não conseguiu encontrar quaisquer interruptores de imediato. Concluiu que veria melhor com a própria vista e aventurou-se pelo escuro, colocando uma mão na frente, na direcção do odor a gualtéria e bálsamo. Quando ele acendeu a luz, estava mais próximo da cama do que julgava. A expressão de Starling permaneceu imutável. A mão que segurava o microfone de lapela recuou um pouco, talvez uns dois centímetros e meio. O seu primeiro pensamento formulou-se em separado do que lhe ia no peito e no estômago; foi a conscencialização de que as anomalias da fala resultavam da ausência total de lábios. O segundo pensamento foi a verificação de que ele não era cego. O seu único olho azul fitava-a através de uma espécie de monóculo com um tubo preso que mantinha o olho humedecido, pois faltava-lhe uma pálpebra. Quanto ao resto, há anos que os cirurgiões tinham feito o que podiam a esticar a pele com enxertos por cima dos ossos. Mason Verger, sem nariz nem lábios, sem tecido mole a cobrir-lhe o rosto era todo dentes, semelhante a uma criatura das profundezas dos oceanos. Dado estarmos habituados a máscaras, o choque de uma tal visão protela-se. O choque instala-se com a percepção de que existe um rosto humano com uma mente por detrás. Fica-se siderado com o movimento do mesmo, a articulação do maxilar, a procura com aquele olho. A procura do nosso rosto normal. O cabelo de Mason Verger é bonito e, estranhamente, o mais difícil de contemplar. Preto salpicado de cinzento, encontra-se apanhado num rabo de cavalo com tamanho suficiente para chegar ao chão, se for puxado para trás da almofada. Hoje, o cabelo apanhado está preso num grande rolo no peito por cima do respirador em forma de concha de tartaruga. Cabelo humano por baixo dos destroços, uma trança brilhando como escamas amontoadas. Sob os lençóis, o corpo há muito paralizado de Mason Verger, reduzido a nada na cama de hospital elevada. Diante do rosto estava o comando que se assemelhava a flautas de Pá ou uma harmónica de plástico. Enrolou a língua como um tubo em redor da boca de um tubo e exalou com o sopro seguinte do respirador. A cama reagiu com um sussurro, virou-o um pouco para ficar de frente para Starling e aumentou a elevação da cabeça.
Slide 47: HANNIBAL 53 - Agradeço a Deus o que aconteceu - disse Verger. - Foi a minha salvação. Acredita em Jesus, Miss Starling? Tem fé? - Fui criada num ambiente muito religioso, Mister Verger. Tenho o que quer que nos resta nesse caso respondeu Starling. Agora, se não se importa, vou prender-lhe isto à sua almofada. Não o incomoda aqui, pois não? - A voz saiu-lhe num tom mais acelerado e protector do que pretendia. A mão dela junto à sua cabeça, a visão daquelas duas carnes juntas, não ajudava Starling, nem tão pouco a pulsação dele nos vasos esticados sobre os ossos da face para lhe fornecer sangue, a dilatação dos mesmos assemelhava-se a vermes engolindo. Ajeitou o microfone e recuou até junto da mesa, do seu gravador e do microfone separado. - Fala a agente especial Clarice Starling, do FBI, número 5143690, recolhendo o depoimento de Mason R.Verger, número de Segurança Social 475989823, em casa dele, na data acima indicada, sob juramento e autenticada. Mister Verger está a par que lhe foi concedida imunidade de acusação pelo promotor público do distrito 36 e pelas autoridades locais num memorando junto, sob juramento e autenticado. - Agora, Mister Verger... - Quero falar-lhe do acampamento - interrompeu com o sopro seguinte. - Foi uma maravilhosa experiência de infância que revivi na essência. - Podemos chegar lá, Mister Verger, mas julguei que... - Olhe! Podemos chegar lá agora, Miss Starling. Tudo se resume a dar à luz, sabe? Foi como conheci Jesus e nunca lhe direi nada mais importante. - Fez uma pausa para que a máquina deixasse sair o ar. - Era um acampamento cristão que o meu pai pagou. Pagou tudo, todos os cento e vinte e cinco campistas junto ao lago Michigan. Alguns deles eram uns infelizes e fariam tudo por uma barra de chocolate. Talvez me tivesse aproveitado, talvez os tratasse com dureza quando não aceitavam o chocolate e não faziam o que eu queria... Não estou a esconder nada, porque agora está tudo certo. - Mister Verger, examinemos algum material com o mesmo... Ele não a ouvia e esperava apenas que a maquina lhe desse fôlego. - Tenho imunidade, Miss Starling, e está tudo certo, agora. Tenho uma concessão de imunidade de Jesus. Tenho imunidade do promotor público dos EUA, tenho imunidade do promotor público de Owing Mills, aleluia! Estou livre, Miss Starling, e está tudo certo. Estou bem com Ele e está tudo certo. Ele é Jesus Ressuscitado e no acampamento chamávamos-lhe O Ressuscitado. Ninguém o vence. Tornámo-lo actual, sabe? Servi-o em África, aleluia, servi-o, em Chicago,
Slide 48: 54 THOMAS HARRIS louvo o Seu nome e sirvo-O agora e Ele erguer-me-á desta cama e Ele esmagará os meus inimigos, afugentá-los-á na minha frente e ouvirei os lamentos das mulheres deles e tudo está certo, agora. Engasgou-se com a saliva e parou, com os vasos sanguíneos na frente da cabeça escuros e pulsando. Starling levantou-se para ir chamar uma enfermeira, mas a voz dele deteve-a antes que chegasse à porta: - Estou bem. Está tudo bem, agora. Talvez uma pergunta directa fosse preferível a tentar conduzi-lo. - Mister Verger, alguma vez tinha visto o Doutor Lecter, antes do tribunal o designar para fazer terapia com ele? Conhecia-o socialmente? - Não. - Ambos faziam parte da administração da Filarmónica de Baltimore. - Não, o meu lugar devia-se apenas a contribuirmos. Mandava o meu advogado, quando havia votação. - Nunca prestou declarações durante o julgamento do Doutor Lecter. - Começava a aprender a intervalar as perguntas, dando-lhe o fôlego necessário para responder. - Afirmaram que tinham o suficiente para o condenar seis vezes, nove vezes. E ele venceu isso tudo com uma alegação de insanidade. - O tribunal considerou-o louco. O Doutor Lecter não alegou. - Acha que essa distinção é importante? - inquiriu Mason. A pergunta fez com que lhe sentisse a mente pela primeira vez, preênsil e muito diversa do vocabulário com que se lhe dirigia. A grande moreia, agora habituada à luz, saiu das rochas do seu aquário e iniciou o incansável círculo, semelhante a uma fita castanha ondulada e salpicada de um bonito padrão de manchas cremes irregulares. Starling até dela tomou consciência, recortada no seu olhar de relance. - É uma Muraena Kidaho - explicou Mason. - Há uma ainda maior, cativa em Tóquio. Esta é a segunda maior que existe, Chama-se-lhe vulgarmente a Moreia-Brutal. Gostaria de ver porquê? - Não - recusou Starling, virando uma página dos apontamentos. - Portanto, Mister Verger, no decorrer da terapia ordenada pelo tribunal, convidou o Doutor Lecter para ir a sua casa. - já não me sinto envergonhado. Conto-lhe o que quer que seja. Está tudo certo, agora. Livravame dessas acusações de assédio, se fizesse quinhentas horas de serviço cívico, trabalhasse no canil público e recebesse terapia do Doutor Lecter. Achei que se conseguisse envolver o Doutor Lecter em alguma coisa, ele teria de reduzir-me a
Slide 49: HANNIBAL 55 terapia e não violaria a minha liberdade condicional se faltasse ou aparecesse um pouco pedrado nas entrevistas. - Foi nessa altura que teve a casa em Owings Mills. - Sim. Tinha contado tudo ao Doutor Lecter, sobre África e tudo o mais e prometido que lhe mostraria algum do meu material. - Que lhe mostraria?... - Acessórios. Brinquedos. Ali naquele canto está a pequena guilhotina portátil que usei para Idi Amin. Pode atirar-se para a retaguarda de um jeep e partir até qualquer lado, a aldeia mais remota. Monta-se em quinze minutos. O condenado leva cerca de dez minutos a içá-la com um molinete, um pouco mais caso se trate de uma mulher ou de uma criança. Não me envergonho de nenhuma destas coisas, porque estou absolvido. - O Doutor Lecter foi a sua casa. - Sim. Fui atender a porta vestido com algumas peças de cabedal. Esperava qualquer reacção, mas enganeime. Preocupava-me que tivesse medo de mim, mas não me pareceu o caso. Medo de mim... É engraçado, à distância. Convidei-o a subir ao andar de cima. Mostrei-lhe que adoptara alguns cães do canil, dois cães que eram amigos e os mantinha juntos numa jaula com muita água fresca, mas sem comida. Tinha curiosidade em saber o que eventualmente aconteceria. Mostrei-lhe o meu nó corredio, sabe, asfixia autoerótica do género de nos enforcarmos mas não a sério, é bom enquanto se... entende? - Entendo. - Bom. Aparentemente, ele não me entendeu. Perguntou-me como funcionava e respondi-lhe que estranho psiquiatra ele era que não sabia uma coisa daquelas e ele disse, e nunca esquecerei o seu sorriso, ele disse: «Mostre-me». Pensei: Apanhei-te. - E mostrou-lhe. - Não me envergonho disso. Crescemos com os nossos erros. Estou absolvido. - Prossiga, por favor, Mister Verger, - Puxei, pois, o nó em frente do meu espelho de corpo inteiro, coloquei-o, segurei o desarme com uma das mãos, enquanto batia uma com a outra esperando a sua reacção, que não se verificou. Por regra, costumo ler as pessoas. Ele estava sentado numa cadeira, a um canto do quarto. Mantinha as pernas cruzadas e os dedos a tapar os joelhos. Depois, levantou-se e meteu a mão no bolso do casaco, muito elegante, qual James Mason a procurar o isqueiro e perguntou: «Quer uma pastilha de amilo?. Uau», pensei. «Se me dá uma agora, terá de me dar sempre para não perder a licença». Bom, se leu o relatório, sabe que era muito mais do que nitrato de amilo.
Slide 50: 56 THOMAS HARRIS - Pó de Anjo com algumas outras metanfetaminas e ácido redarguiu Starling. - Ele dirigiu-se ao espelho onde me mirava, deu um pontapé na parte inferior e arrancou um caco. Eu estava nas nuvens. Aproximou-se, entregou-me o pedaço de vidro, fitou-me nos olhos e sugeriu que pudesse agradar-me descascar o rosto com ele. Soltou os cães, Dei-lhes a minha cara a comer. Dizem que demorou muito tempo a tirar aquilo tudo. Não me lembro. O Doutor Lecter quebrou-me o pescoço com o nó. Recuperaram o meu nariz quando fizeram uma lavagem ao estômago dos cães no canil, mas o enxerto não pegou. Starling levou mais tempo do que o necessário a reordenar os papéis em cima da mesa. - Mister Verger, a sua família ofereceu uma recompensa depois do Doutor Lecter ter fugido da prisão, em Memphis. - Sim, um milhão de dólares. Um milhão. Anunciámos por todo o mundo. - E também se propuseram pagar qualquer tipo de informação relevante e não só a vulgar detenção e condenação. Era suposto partilharem essa informação connosco. Sempre o fizeram? - Não propriamente, mas nunca houve nada que valesse a pena partilhar. - Como o sabe? Seguiram algumas pistas por conta própria? - O suficiente para saber que não prestavam. E por que não havíamos de o fazer... vocês nunca nos disseram nada. Tivemos uma dica de Creta que deu em nada e outra do Uruguai que nunca conseguimos confirmar. Quero que compreenda que não se trata de uma vingança, Miss Starling. Perdoei ao Doutor Lecter, tal como o Nosso Salvador perdoou aos soldados romanos. - informou o meu gabinete, Mister Verger, que agora talvez tivesse algo. - Procure na gaveta da mesa do fundo. Starling tirou da bolsa as luvas brancas de algodão e calçou-as. Na gaveta havia um grande envelope lilás. Era duro e pesado. Retirou do interior uma radiografia e examinou-a à forte luz do tecto. A radiografia mostrava uma mão esquerda que parecia estar magoada. Contou os dedos. Quatro mais o polegar. - Veja os metacarpos. Sabe ao que estou a referir-me? - Sei. - Conte os nós dos dedos. Cinco nós dos dedos. - Contando com o polegar, esta pessoa tinha seis dedos na mão esquerda. Como o Doutor Lecter. - Como o Doutor Lecter. O canto onde deveria constar o número do dossier e origem da radiografia fora arrancado.
Slide 51: HANNIBAL 57 - De onde veio isto, Mister Verger? - Do Rio de janeiro. Para descobrir mais, tenho de pagar. Muito dinheiro. Pode dizer-me se é a mão do Doutor Lecter? Preciso saber se devo pagar. - Tentarei, Mister Verger. Faremos o melhor que pudermos. Tem a embalagem em que recebeu a radiografia? - Margot guardou-a num saco de plástico e dar-lha-á. Se não se importa, Miss Starling, estou bastante cansado e preciso de alguns cuidados. - Terá notícias do meu gabinete, Mister Verger. Starling ainda não saíra há muito do quarto quando Mason Verger fez soar o tubo mais afastado e chamou: - Cordell? - O enfermeiro que se encontrava na sala de diversões entrou e pôs-se a ler-lhe de um dossier assinalado com Departamento da Assistência Social infantil, cidade de Baltimore. - Franklín, é isso? Manda entrar o Franklin - ordenou Mason e apagou a luz da cama. O miúdo estava de pé, sozinho, sob a forte luz do tecto da área de convívio, piscando os olhos no escuro arquejante. Ouviu-se a voz ressoante: - És o Franklín? - Franklim - disse o miúdo. - Onde vives, Franklin? - Com a Mamã, Shirley e Stringbean. - Stringbean passa o tempo todo lá? - Entra e sai. - Disseste: «Entra e sai»? - Sim. A Mamã não é a tua verdadeira mamã, pois não, Franklin? É a minha mãe adoptiva. Não é a primeira mãe adoptiva que tiveste, pois não? Não. Gostas das coisas na tua casa, Franklin? Temos o Kítty Cat. A Mamã faz empadas no fogão. Há quanto tempo estás lá, na casa da Mamã? Não sei. Tiveste alguma festa de anos lá? - Uma vez tive. A Shirley fez Kool-Aid. - Gostas de Kool-Aíd? - De morango. - Gostas da Mamã e da Shirley? - Gosto, hum hum, e da Kitty Cat.
Slide 52: - Queres viver lá? Sentes-te seguro quando vais para a cama?
Slide 53: 58 THOMAS HARRIS Hum, hum. Durmo no quarto com a Shirley e uma rapariga crescida. - Não podes continuar a viver lá com a Mamã, Shirley e Kitty Cat, Franklin. Tens de te ir embora. - Quem diz? - O governo. A Mamã perdeu o emprego e a aprovação de lar de adopção. A polícia encontrou um cigarro de marijuana na vossa casa. Depois desta semana, não poderás ver mais a Mamã. Não podes ver mais a Shirley ou Kitty Cat depois desta semana. - Não! - opôs-se Franklin. - Ou talvez, eles já não te queiram, Franklín. Há alguma coisa de errado contigo? Tens alguma ferida ou algo de repugnante? Achas que a tua pele é escura de mais para que eles possam amarte? Franklim levantou a camisa e olhou para o pequeno estômago castanho. Abanou a cabeça. Estava a chorar. Sabes o que acontecerá à Kítty Cat? Qual é o nome da Kitty Cat? É mesmo Kítty Cat. É o nome dela. Sabes o que acontecerá à Kitty Cat? Os polícias vão levá-la para o depósito municipal e dão-lhe uma injecção. já apanhaste uma injecção no centro de dia? A enfermeira deu-te alguma injecção? Com uma agulha brilhante? Darao uma injecção à Kítty Cat. Ficará cheia de medo quando vir a agulha. Vão enfiar-lha e Kítty Cat terá muitas dores e morrerá. Franklin agarrou na fralda da camisa e levantou-a à altura da cara. Meteu o polegar na boca, algo que não acontecia há um ano, desde que a mamã lhe pedira para não o fazer. - Vem cá - chamou a voz do escuro. - Vem cá e digo-te como podes evitar que a Kitty Cat leve uma injecção. Queres que a Kitty Cat leve uma injecção, Franklin? Não? Então, vem cá, Franklín. Franklin, com as lágrimas a correrem e chupando o polegar, avançou devagar no escuro. Quando se encontrava a uns quinze centímetros da cama, Mason soprou a harmónica e as luzes acenderam-se. Devido a uma coragem nata, ou ao desejo de ajudar Kitty Cat ou à triste consciência de que já não tinha um lugar para onde fugir, Franklin não pestanejou. Manteve-se imóvel de olhos fixos no rosto de Mason. A testa de Mason ter-se-ia enrugado, caso ele tivesse testa. Ante este resultado desanimador. - Podes salvar a Kítty Cat de levar uma injecção, se tu próprio lhe deres veneno de rato - explicou Mason. - A consoante explosiva «p» perdeu-se, mas Franklim entendeu. Franklim tirou o polegar da boca. 1 Gatinha. (N. da T)
Slide 54: HANNIbAL - És velho e mau - acusou Franklim. - E feio também. Deu meia volta e saiu do quarto, atravessando pelo meio dos tubos enrolados, de volta à sala de diversões. Mason observou-o pela câmara de vídeo. o enfermeiro fitou o rapaz, observando-o atentamente enquanto fingia ler a sua Vogue. Franklim, já não ligou aos brinquedos. Foi sentar-se debaixo da girafa, virado para a parede. Era o que podia fazer para não chupar o polegar. Cordell examinava-o cuidadosamente, atento às lágrimas. Quando detectou os ombros da criança sacudidos pelo choro, o enfermeiro aproximou-se dele e limpou-lhe as lágrimas suavemente com amostras de tecido esterilizadas. Colocou as amostras molhadas dentro do copo de Martíni de Mason, a gelar no frigorífico da sala de diversões, ao lado do sumo de laranja e das Coca-Colas,
Slide 55: Capítulo dez Descobrir informações médicas sobre o Dr. Hannibal Lecter não era tarefa fácil. Tomando em consideração o seu profundo desprezo pelo establishment médico e a maior parte dos médicos em exercício, é natural que nunca tivesse tido um médico particular. O Hospital Estadual para os Criminalmente Insanos de Baltimore, onde o Dr. Lecter ficou detido até à sua desastrosa transferência para Memphis estava agora extinto, um edifício em ruínas à espera de ser demolido. A Polícia Estadual de Témessee tinham sido os últimos guardas do Dr. Lecter antes da fuga dele, mas declararam que nunca tinham recebido o seu ficheiro clínico. Os agentes que o tinham trazido de Baltimore para Memphis, agora falecidos, haviam acusado a recepção do preso e não de qualquer dossier clínico. Starling passou um dia ao telefone e no computador e depois revistou as salas de armazenamento de provas em Quantico e o Edifício J. Edgar Hoover. Passou uma manhã inteira a subir e descer escadas na poeirenta, enorme e malcheirosa sala de provas do Departamento de Polícia de Baltimore e viveu uma tarde de loucos às voltas com a colecção não catalogada Hannibal Lecter na Fitzhugh Memorial Law Library, onde o tempo pára enquanto os zeladores tentam encontrar as chaves. Por fim, restou-lhe uma única folha de papel - o exame físico norrrial a que o Dr. Lecter se submeteu quando foi preso pela primeira vez pela Polícia Estadual de Maryland. Não havia qualquer dossier clínico. Inelle Corey sobrevivera à extinção do Hospital Estadual para os Criminalmente Insanos de Baltimore e fizera uma mudança positiva para o conselho de administração dos Hospitais de Maryland. Não quis ser entrevistada por Starling no gabinete e avistaram-se, portanto, numa cafetaria do rés-do-chão.
Slide 56: HANNIBAL 61 Starling tinha por hábito chegar cedo às entrevistas e observar o ponto de encontro específico à distância. Corey chegou exactamente à hora marcada. Andava pelos 35 anos, era robusta e pálida e não usava maquilhagem nem jóias. O cabelo chegava-lhe quase à cintura e calçava sandálias brancas de tiras. Starling retirou pacotes de açúcar do expositor dos condimentos e observou Corey que se sentava à mesa combinada. Está errado quem pensa que todos os protestantes parecem iguais. Não é assim. Tal como uma pessoa das Caraíbas consegue frequentemente indicar a ilha específica de uma outra, Starling, criada pelos luteranos, olhou para esta mulher e disse de si para si: Igreja de Deus, talvez Nazarena. Starling tirou as jóias, uma pulseira simples e um brinco de ouro na orelha boa e meteu-os na mala. O relógio era de plástico, portanto não havia novidade. Não podia fazer muito mais quanto ao restante aspecto. - inelle Corey? Quer café? - perguntou Starling, que trazia duas chávenas na mão. - Pronuncia-se «Eyenelle». Não bebo café. - Bebo os dois. Deseja outra coisa qualquer? Sou Clarice Starling. - Não quero nada. Quer mostrar-me a sua identificação com fotografia? - Claro - anuiu Starling. - Miss Corey.. posso tratá-la por Inelle? A mulher encolheu os ombros. - Inelle, preciso de ajuda num assunto que, de facto, não tem nada a ver pessoalmente consigo. Preciso de orientação a fim de encontrar uns dossiers do Hospital Estadual de Baltimore. Inelle Corey fala com uma precisão exagerada quando está em causa expressar dignidade ou irritação. - Analisámos tudo isto com a administração na altura do encerramento, Miss... - Starling. - Miss Starling. Verificará que nenhum paciente saiu do hospital sem um dossier. Verificará que nenhum dossier saiu daquele hospital sem a aprovação de um supervisor. Relativamente aos falecidos, o Serviço de Saúde não precisava dos dossiers deles, o Departamento de Estatísticas Vitais não quis os dossiers deles e, tanto quanto sei, os dossiers mortos, ou seja os dossiers dos falecidos, Permaneceram no Hospital Estadual de Baltimore depois da data do meu afastamento e fui praticamente a última a sair. As evasões foram para a polícia da cidade e o departamento do xerife. - Evasões?
Slide 57: 62 THOMAS HARRIS - Sempre que alguém foge. Por vezes os internados fugiram, - Poderia o Doutor Hannibal Lecter ter sido tratado como uma evasão? Acha que o dossier dele pode ter seguido para a Aplicação da Lei? - Ele não foi uma evasão. Nunca foi considerado uma evasão da nossa instituição. Não estava sob a nossa custódia quando fugiu. Desci ao subterrâneo e examinei o Doutor Lecter uma vez, mostrei-o à minha irmã, quando ela esteve cá com os filhos. Sinto uma espécie de mal-estar e um arrepio quando penso nisso. Levou um daqueles outros a atirar alguns... - baixou a voz salpicos contra nós. Sabe o que é isso? - já ouvi o termo - anuiu Starling. - Foi por acaso, Mister Miggs? Ele tinha um bom lançamento. - Eliminei esse tipo de coisas da mente. Lembro-me de si. Apareceu no hospital e falou com Fred... o Doutor Chilton... e desceu àquele subterrâneo onde estava Lecter, não foi? - Sim. O Dr. Frederick Chilton era o director do Hospital Estadual para os Criminalmente Insanos de Baltimore que desapareceram enquanto estavam de férias, depois da fuga do Dr. Lecter. - Sabe que o Fred desapareceu. - Sim. Constou-me. Miss Corey começou a verter lágrimas rápidas e cristalinas. Era o meu noivo - explicou. - Desapareceu, o hospital fechou e foi como se o telhado me tivesse caído em cima. Se não fosse a minha igreja, não teria sobrevivido. - Lamento - redarguiu Starling. - Agora, tem um bom emprego. - Mas não tenho o Fred. Era um homem muito, muito bom. Partilhávamos um amor, um amor que não se encontra todos os dias. Ele foi eleito o jovem do Ano em Canton, quando andava no liceu de lá. - Bom. Vou andando. Contudo, deixe-me fazer-lhe uma pergunta, Inelle. Ele guardava os dossiers no gabinete ou estavam cá fora na recepção, onde a sua secretária... - Estavam nos armários de parede do gabinete dele e depois acabaram por ser tantos, que tinhamos grandes ficheiros na recepção. Estavam sempre, obviamente, fechados à chave. Quando nos mudámos, eles foram mudados para a clínica de metadona em regime temporário e houve grandes mexidas em todo o material. - Alguma vez viu ou tocou no dossier do Doutor Lecter? - Claro. - Lembra-se se continha alguma radiografia? As radiografias eram arquivadas com os dossiers clínicos ou em separado?
Slide 58: HANNIBAL 63 - Eram arquivadas com os dossiers. Eram maiores do que eles, o que dava pouco jeito. Tinhamos aparelho de raio-X, mas nenhum radiologista que mantivesse dossiers separados. Francamente não me recordo se havia alguma ou não no dele. Havia uma gravação de um electrocardiograma que Fred costumava mostrar às pessoas. o Doutor Lecter - nem sequer quero chamar-lhe doutor estava todo ligado ao electrocardiógrafo quando apanhou a pobre enfermeira. E foi uma coisa estranhíssima - a pulsação nem sequer se acelerou muito quando ele a atacou. Ficou com um ombro deslocado, quando todos os guardas o agarraram e o separaram dela. Tiveram de radiografá-lo por causa disso. E teriam feito muito mais do que deslocar-lhe um ombro, se me coubesse alguma palavra no assunto. - Se lhe ocorrer algo, o lugar onde o dossier possa estar, telefona-me? - Faremos o que se chama uma pesquisa global? - retorquiu Miss Corey, saboreando o termo -, mas não me parece que encontremos alguma coisa. Muito material foi abandonado, não por nós, mas pelo pessoal da clínica de metadona. As chávenas de café tinham marcas espessas de espuma nos bordos, que escorriam pelos lados. Starling ficou a ver Inelle Corey a afastar-se pesadamente e bebeu meia chávena, com o guardanapo posto por baixo do queixo, Starling começava a voltar um pouco a si. Sabia que estava farta de algo. Talvez fosse do descuido, ou pior do que o descuido, da falta de estilo. Uma indiferença a coisas que agradam à vista. Talvez estivesse sedenta por algum estilo. Até mesmo o estilo provocante fosse melhor do que nada, era uma forma de afirmação, quer se quisesse ou não. Starling examinou-se numa procura de snobismo e concluiu que tinha pouquíssimos motivos para se sentir snobe. Depois, pensando em estilo, sobreveio-lhe a imagem de Evelda Drumgo, que tinha montes dele. E esta ideia fez com que Starling desejasse novamente sair de si própria.
Slide 59: Capítulo onze E, assim, Starling regressou ao lugar onde tudo começou para ela: o Hospital Estadual para os Criminalmente Insanos de Baltimore, agora extinto. O velho edifício castanho, casa de dor, está com correntes e a entrada barrada, sujo de graffiti e à espera da bola de demolição. Há anos que se encontrava em decadência, antes do desaparecimento durante as férias do seu director, o Dr. Frederick Chilton. Posteriores revelações de esbanjamento e má gestão, aliadas à decripitude do próprio edifício fizeram com que o governo cortasse os subsídios. Vários pacientes foram transferidos para outras instituições estatais, vários morreram e alguns passaram a vaguear pelas ruas de Baltimore, quais mortos-vivos, na sequência de um deficiente programa de pacientes externos, que levou mais do que um a morrerem gelados. Parada diante do edifício, Clarice Starling tomou consciência de que esgotara primeiro todas as outras possibilidades, por não querer voltar a este lugar, O guarda chegou com quarenta e cinco minutos de atraso. Era um homem robusto e velho, com um sapato de salto mais alto do que o outro e que ressoava e um corte de cabelo à Europa Oriental que podia ter sido feito em casa. Ofegava enquanto a conduzia até uma porta lateral, situada a uns degraus abaixo do passeio. A fechadura fora arrancada por vândalos e a porta segura com uma corrente e dois cadeados. Havia teias de aranha entrelaçadas nos elos da corrente. A relva que crescia nas fendas dos degraus picava os tornozelos de Starling, enquanto o guarda remexia nas chaves. o fim de tarde apresentava-se toldado e a luz granulosa e sem sombras. - Não conheço bem este prédio. Apenas verifico os alarmes de incêndio - disse o homem.
Slide 60: HANNIBAL 65 - Sabe se estão aqui armazenados alguns papéis? Quaisquer ficheiros, dossiers? - A seguir ao hospital tiveram aqui a clínica de metadona durante uns meses - respondeu com um encolher de ombros. - Puseram tudo na cave, umas camas, umas roupas, não sei o quê. É mau já para a minha asma, o mofo, muito mau. Os colchões têm bafio. Não consigo respirar. As escadas são más. Mostrava-lhe, mas... Starling bem gostaria de alguma companhia, mesmo a dele, mas o homem só iria empatá-la, Então, vá. Onde é o seu escritório? - Ali ao fundo do quarteirão, onde antes ficava a Direcção de Viação. - Se eu não voltar dentro de uma hora... - Supostamente saio dentro de meia hora - retorquiu, consultando o relógio. Sorte malvada. - O que vai fazer por mim, sír, é esperar pelas chaves no seu escritório. Se eu não voltar dentro de uma hora, telefone para o número indicado neste cartão e diga-lhes onde fui. Se não estiver no seu posto, quando eu sair daqui... se tiver fechado a «loja» e ido para casa, visitarei pessoalmente o seu supervisor amanhã para apresentar queixa contra si. Além disso será ouvido pelo Serviço Aduaneiro e a sua situação analisada pelo Departamento de Imigração e... e de Naturalização. Percebe bem? Gostaria de uma resposta, sír. - Claro que teria esperado por si. Não precisa dizer essas coisas. - Muito obrigada, sir - agradeceu Starling. O guarda pousou as enormes mãos no corrimão para se apoiar enquanto subia até ao nível do passeio e Starling ouviu o passo irregular a afastar-se até restar o silêncio. Empurrou a porta e viu-se num patamar nas escadas de incêndio. janelas altas e com grades no poço das escadas deixavam entrar a luz cinzenta. Hesitou em fechar a porta à chave nas costas e optou por fazer um nó com a corrente do lado de dentro da porta, de maneira a poder abri-la se perdesse a chave. Nas suas anteriores deslocações ao hospital psiquiátrico para entrevistar o Dr. Hannibal Lecter, entrava pela porta da frente e agora levou um momento a orientar-se. Subiu as escadas de incêndio até ao andar principal. Lá à frente, as janelas cobertas de geada impediam a entrada da fraca luz do dia e a sala encontrava-se imersa na obscuridade. Servindo-se da potente lanterna, Starling descobriu um interruptor e ligou a luz do tecto, três lâmpadas ainda acesas e penduradas num arame em mau estado. As pontas a descoberto dos fios telefónicos estavam em cima da secretária da recepcionista, O edifício fora invadido por vândalos munidos de sPrays de tinta, Um falo de dois metros e meio com testículos decorava a parede da sala de recepção com os dizeres: BATE-ME UMA PUNHETA, MAMÂ.
Slide 61: 66 THOMAS HARRIS A porta do gabinete do director estava aberta. Starling deteve-se na ombreira. Fora aqui que se tinha apresentado na sua primeira missão para o FBI, quando era ainda uma estagiária, ainda acreditava em tudo, ainda pensava que se se cumprisse bem a tarefa, se se cortasse a direito, seria aceite, independentemente da raça, credo, cor, naturalidade ou de se ser boa ou má pessoa. De tudo isto, ficara um artigo de fé: Acreditava que podia cortar a direito. Tinha sido neste mesmo local que Chilton, o director do hospital, lhe estendera a mão gorda, avançando ao seu encontro. Tinha sido aqui que negociara segredos e bisbilhotices e, julgando-se tão esperto como Hannibal Lecter, tomara as decisões que permitira a Lecter escapar-se com tanto derramamento de sangue. A secretária de Chilton mantinha-se no gabinete, mas não havia cadeira, dado o tamanho ter permitido que a roubassem. As gavetas apresentavam-se vazias, à excepção de um Alka-Seltzer esmagado, Dois ficheiros permaneciam no gabinete. Tinham fechaduras simples e a ex-agente técnica Starling abriu-as em menos de um segundo. A gaveta do fundo continha uma sanduíche metida num saco de papel e alguns impressos da clínica de metadona, e ainda um spray para o hálito, um frasco de tónico capilar, uma escova e alguns preservativos. Starling pensou na cave semelhante a um subterrâneo do hospital psiquiátrico, onde o Dr. Lecter tinha vivido durante oito anos. Não queria descer até lá. Podia servir-se do celular e requisitar uma unidade da polícia da cidade para a acompanhar lá abaixo. Podia pedir ao Gabinete de Operações de Baltimore que lhe enviasse mais um agente do FBI. A tarde cinzenta ia adiantada e não havia maneira, mesmo agora, de evitar o trânsito intenso em Washington. Se esperasse, seria pior. Apesar do pó, encostou-se à secretária de Chilton e tentou resolver. «Achava mesmo que poderia haver ficheiros na cave, ou sentia-se atraída para o lugar onde tinha visto Hannibal Lecter pela primeira vez?». Se algum ensínamento Starling retirara da carreira de aplicação da lei era o seguinte. não era uma fã do suspense e ficaria feliz em nunca mais voltar a sentir medo. No entanto, poderia haver ficheiros na cave. Descobriria em cinco minutos se assim era. Ainda se lembrava do som dos portões de alta segurança a fecharem-se nas suas costas quando descera lá abaixo, há anos. Na eventualidade de um deles se fechar desta vez, telefonou ao Gabinete de Operações de Baltimore a dizer-lhes onde estava e a combinar telefonar de novo dali a uma hora para comunicar que saíra. As luzes da escada interior, por onde Chilton a acompanhara até à cave há anos atrás, funcionavam. Fora aqui que lhe explicara os processos de segurança para lidar com Hannibal Lecter e parara, sob
Slide 62: HANNIBAL 67 esta luz, para lhe mostrar a fotografia de parede da enfermeira cuja língua Lecter comera durante a tentativa de um exame físico. Se o ombro do Dr. Lecter tinha sido deslocado enquanto o dominavam, decerto haveria uma radiografia. Uma corrente de ar vinda das escadas aflorou-lhe o pescoço, como se houvesse uma janela aberta algures. Uma embalagem de hamburgers da McDonald’s estava aberta no patamar e havia guardanapos de papel espalhados. Uma chávena suja que contivera feijões. Comida de lata. Alguns excrementos e guardanapos a um canto. A luz terminava no patamar do último andar, antes do grande portão em aço que dava para a ala dos violentos, agora aberto e enganchado na parede. A lanterna de Starling produzia um bom feixe de luz. Passeou-a pelo comprido corredor da antiga ala de segurança máxima. Havia algo volumoso ao fundo, Era estranho deparar com as portas de todas as celas abertas. O chão estava pejado de invólucros de pão e chávenas. Uma lata de soda, escurecida pelo uso como cachimbo de craque, via-se no tampo da secretária do antigo guarda. Starling carregou nos interruptores por detrás do posto do guarda. Nada. Tirou o celular do bolso. A luz vermelha parecia muito intensa no meio daquela escuridão. O telefone era inútil no subterrâneo, mas falou em voz alta para o bocal: - Harry, recua a carrinha até à entrada lateral. Traz um projector. Vais precisar de ajuda para levar estas coisas pelas escadas... sim, vem cá abaixo. Depois, Starling sintonizou a voz para o escuro: - Atenção aí. Sou uma agente federal. Se está a viver aqui ilegalmente, pode desaparecer. Não vou prendê-lo. Não estou interessada em si. Se voltar depois de completar o meu trabalho, pouco me interessa. Agora, pode aparecer. Se tentar atacar-me, pode sofrer danos pessoais, quando lhe Meter uma bala no traseiro. Obrigada. A voz ecoou pelo corredor onde tantos internados haviam reduzido as vozes a um grasnar e mastigavam as barras com as gengivas quando os dentes caíam. Starling recordou a presença do corpulento guarda, Barney, quando tinha vindo entrevistar o Dr. Lecter. A estranha delicadeza com que Barney e Lecter se tratavam mutuamente. Agora, Barney não estava Presente. Algo dos tempos da escola tomou uma forma súbita na sua mente e, por uma questão de disciplina, forçou-se a lembrá-la. O som de passos ecoa na lembrança Da passagem por onde não seguimos Na direcção da porta que nunca abrimos Para o jardim das rosas.
Slide 63: 68 THOMAS HARRIS Isso mesmo, o jardim das rosas. Este não era sem sombra de dúvida o jardim das rosas. Starling, a quem os últimos editoriais haviam encorajado a odiar tanto a arma quanto a si própria, não achava o contacto da arma de forma alguma detestável quando se sentia nervosa. Mantinha a 45 encostada à perna e começou a percorrer o corredor protegida pelo feixe de luz da lanterna. É difícil vigiar os dois flancos em simultâneo é imperativo não deixar que alguém ataque por detrás. Água pingava algures. Estruturas de camas desmontadas e empilhadas nas celas. Noutras, colchões. Havia água no meio do chão do corredor e Starling, sempre cuidadosa com os seus sapatos, saltitava de um lado para o outro da poça à medida que avançava. Recordou-se do aviso que Barney lhe fizera há uns anos quando todas as celas estavam ocupadas. Mantenha-se no meio do corredor enquanto descer. Ficheiros, era o objectivo. No meio do corredor, um percurso negro à luz da lanterna. Cá estava a cela que fora ocupada por Miggs, aquela que mais lhe custara passar. Miggs que lhe sussurrou vulgaridades e lhe lançou fluidos corporais. Miggs, que o Dr. Lecter matou, dando-lhe instruções para que engolisse a sua vil língua. E, quando Miggs estava morto, foi Sammie a viver na cela. Sammie, cuja poesia o Dr. Lecter incentivou, causando um surpreendente efeito no poeta. Ainda agora, conseguia ouvir Sammie, uivando os seus versos: EU QUERO PRA JASUS EU QUERO COM CRISTE EU POSSO COM JASUS DESDE QUE BEM ME PORTE. Conservava algures o texto escrito com lápis de carvão. A cela estava agora empilhada com colchões e havia roupa de cama atada em lençóis. E, finalmente, a cela do Dr. Lecter. A sólida mesa, onde ele lia, continuava aparafusada ao chão no centro da divisão. As tábuas das prateleiras que seguravam os seus livros haviam desaparecido, mas os suportes ainda ressaltavam nas paredes. Starling devia virar para os gabinetes dos ficheiros, mas estava vidrada na cela. Fora aqui que tivera o encontro mais importante da sua vida. Fora aqui que se sentira sobressaltada, chocada, surpreendida. Fora aqui que ouvira verdades tão terríveis sobre si própria, que o coração ressoara como um sino. Desejava entrar lá dentro. Desejava entrar como se deseja saltar de uma varanda, da mesma forma que o luzir dos carris nos tenta ao ouvirmos o combóio a aproximar-se.
Slide 64: HANNIBAL 69 Starling fez incidir a lanterna à sua volta, perscrutou para lá dos ficheiros em linha e varreu as celas mais próximas com o feixe de luz. A curiosidade impeliu-a a transpor a ombreira. Deteve-se no meio da cela onde o Dr. Hannibal Lecter tinha passado oito anos. ocupou o espaço onde o vira de pé e esperava que um formigueiro lhe percorresse o corpo, mas tal não aconteceu. Colocou o revólver e a lanterna em cima da mesa dele, atenta a que a lanterna não rolasse para o chão, e pousou as mãos de palmas abertas na mesa dele, apenas sentindo migalhas por baixo. Globalmente, o efeito desapontava-a. A cela estava tão vazia do seu anterior ocupante como a pele abandonada de uma cobra. Starling pensou, então, que acabara de entender algo: a morte e o perigo não têm necessariamente de surgir com armadilhas. Podem surgir com o sopro suave do amado. Ou numa tarde soalheira num mercado de peixe com La Macarena a ribombar nos altifalantes. De volta à questão. Havia uma distância de cerca de dois metros e meio de ficheiros, quatro ao todo, à altura do queixo. Cada um tinha cinco gavetas, seguras com uma única fechadura simples, ao lado da gaveta superior. Nenhuma delas estava trancada. Todas estavam cheias de processos, alguns volumosos, todos em dossiers. Velhos dossiers de papel amarelecido pelo tempo e outros mais recentes em papel de cânhamo. Ficheiros sobre a saúde de homens mortos, datando à inauguração do hospital, em 1932. Estavam mais ou menos por ordem alfabética com algum material empilhado atrás dos dossiers nas enormes gavetas. Starling examinou-os, segurando a pesada lanterna com o ombro, passando os dedos da mão que tinha livre pelos dossiers, desejando ter trazido uma pequena luz que pudesse prender entre os dentes. Mal teve uma noção dos dossiers, passou em revista gavetas inteiras pelos J, alguns K, ao longo dos L e lá estava: Lecter, Hannibal. Starling tirou para fora o enorme dossier de papel de cânhamo, apalpou-o buscando a dureza de uma radiografia, pousou o dossier em cima dos outros ficheiros e ao abri-lo deparou com a história clínica do falecido J. Miggs. Raios! Miggs iria amaldiçoá-la da cova. Pousou o dossier em cima do armário e passou rapidamente aos M. O dossier de Miggs, estava no lugar que lhe competia por ordem alfabética. Mas vazio! Erro de arquivo? Será que alguém enfiara acidentalmente o relatório de Miggs no dossier de Hannibal Lecter? Procurou todos os M, em busca de uma divisão do ficheiro sem dossier. Voltou atrás aos J. Invadia-a uma irritação crescente. O cheiro daquele lugar perturbava-a agora mais. O guarda tinha razão. Era difícil respirar ali. Ia a meio dos J, quando se apercebeu que o odor fétido... se acentuava rapidamente.
Slide 65: 70 THOMAS HARRIS Um pequeno chapinhar nas suas costas e virou-se com a velocidade de um raio, de lanterna erguida para atacar e levando rapidamente a mão à arma sob o blaser. Um homem alto e coberto de farrapos andrajosos recortou-se no feixe de luz, com um dos enormes pés inchados dentro de água. Tinha uma das mãos afastadas do lado do corpo. Na outra segurava um bocado de uma bandeja partida. As pernas e os dois pés estavam atados com tiras de lençol. - Olá - saudou com a língua entaramelada. Starling sentia-lhe o hálito à distância de um metro e meio. Por baixo do casaco, moveu a mão do revólver para o spray de defesa Mace. - Olá - respondeu Starling. - Importa-se de se pôr ali encostado às grades? O homem não se mexeu. - Você é Jasus? - perguntou. - Não - respondeu Starling. - Não sou Jesus. - A voz. Starling lembrava-se da voz. Esta voz. Vá. Pensa. - Olá, Sammie - disse. - Como está? Estava a pensar precisamente em si. O que havia sobre Sammie? A informação, viera-lhe à memória não propriamente por ordem. Sammie pôs a cabeça da mãe na bandeja das esmolas enquanto a congregação cantava Dá o Melhor que Tiveres ao Senhor. Disse que era a melhor coisa que tinha. A Highway Baptist Church, algures. «Decepcionado porque Jesus se demora tanto», acrescentou o Dr Lecter - Você é Jasus? - insistiu ele, desta vez queixoso. - Levou a mão ao bolso, de onde tirou uma beata, com bastante mais de cinco centímetros. Colocou-a no bocado do prato e estendeu-a em oferta. - Lamento, Sammie, mas não sou. Sou... O rosto de Sammie tornou-se subitamente lívido, furioso por ela não ser Jesus, a sua voz ecoando no corredor húmido. EU QUERO PRA JASUS EU QUERO COM CRISTE! Ergueu o pedaço da bandeja, de rebordo afiado semelhante a uma ferradura, e avançou um passo para Starling, agora com os dois pés dentro de água e uma expressão distorcida, agitando a mão livre no ar que os separava. Ela sentiu os ficheiros de encontro às costas. - PODES IR COM JESUS... SE TE PORTARES BEM - recitou Starling num tom de voz nítido e claro como se lhe falasse de um lugar longínquo. - Hum, hum - exclamou Sammie, acalmando-se e parando. Starling remexeu na bolsa e descobriu a barra de chocolate. Tenho um Snickers, Sammie. Gosta de snickers?
Slide 66: HANNIBAL Ele não respondeu. 71 Starling pôs o Snickers em cima de um dossier de papel de cânhamo e estendeu-lho, como ele estendera a bandeja. Ele deu a primeira dentada sem retirar o invólucro, cuspiu o papel e deu mais uma dentada, comendo metade da barra de chocolate. - Alguém mais desceu aqui, Sammie? Ele ignorou a pergunta, pôs o resto da barra de chocolate na sua bandeja e desapareceu por detrás de uma pilha de colchões na sua antiga cela. - Que raio é isto? - soou uma voz de mulher. - Obrigada, Sammie. - Quem é você? - gritou Starling. - Não é da sua conta. - Vive aqui com o Sammie? - Claro que não. Isto é só um encontro. Acha que pode deixar-nos sós? - Sim. Responda à minha pergunta. Há quanto tempo está aqui? - Duas semanas. - Esteve aqui mais alguém? - Uns vadios com que o Sammie correu. - O Sammie protege-a? - Venha cá e veja com os seus olhos. Eu consigo andar bem. Arranjo comida e ele tem um lugar seguro para a comer. Muita gente tem acordos destes. - Algum de vocês está em qualquer programa, algures? Querem estar? Posso ajudar-vos. - Ele passou por tudo isso. Sai-se para o mundo, faz-se toda essa merda e volta-se para o que se conhece. De que está à procura? O que quer? - Uns ficheiros. - Se não estão aí, alguém os roubou. Não é preciso ser muito esperta para o pensar. - Sammie? - chamou Starling. - Sammie? Sammie não respondeu. - Ele está a dormir - informou a amiga. - Se deixar aqui algum dinheiro, compra comida? - perguntou Starling. - Não. Compro bebida. Comida arranja-se. A bebida não se arranja. Não fique presa pelo rabo na maçaneta da porta quando sair.
Slide 67: - Vou deixar o dinheiro em cima da secretária - anunciou Starling. Apetecia-lhe fugir, lembravase de deixar o Dr. Lecter, lembrava-se de se recolher em si própria enquanto caminhava de volta ao que era nessa altura a ilha calma do posto do guarda Barney
Slide 68: 72 THOMAS HARRIS À luz do poço das escadas, Starling tirou da carteira uma nota de vinte dólares. Pousou o dinheiro na secretária manchada e abandonada de Barney e prendeu-a com uma garrafa de vinho vazia. Desdobrou um saco de compras de plástico onde meteu o dossier de arquivo com a história clínica de Miggs e o dossier vazio de Miggs. - Adeus. Até à vista, Sammie - despediu-se do homem que andara em círculo pelo mundo e regressara ao inferno que conhecia. Desejava dizer-lhe que esperava que Jesus aparecesse depressa, mas pareceu-lhe uma frase disparatada. Starling subiu de volta até à luz, para continuar o seu círculo no mundo.
Slide 69: capítulo doze Se há depósitos a caminho do Inferno, devem assemelhar-se à entrada das ambulâncias para o Maryland-Misericordia General Hospital. Acima do gemido das sirenes, dos gemidos dos moribundos, ruído do pingar das goteiras, berros e gritos, as colunas de vapor dos esgotos, pintados de vermelho por uma enorme tabuleta de néon com os dizeres URGêNCIAS erguem-se como o próprio pilar de fogo de Moisés no escuro e transformam-se em nuvens durante o dia. Barney saiu do meio do vapor, com os corpulentos ombros encolhidos no casaco, a cabeça redonda e de cabelo cortado à escovinha inclinada para diante, enquanto percorria o pavimento arruinado, em grandes passadas, para oriente na direcção da manhã. Saíra com vinte e cinco minutos de atraso do emprego - a polícia trouxera um chulo drogado com um ferimento de bala que gostava de bater nas mulheres e a enfermeira-chefe tinha-lhe pedido que ficasse. Era hábito pedirem a Barney que ficasse, sempre que traziam um paciente violento. Clarice Starling perscrutou Barney sob o fundo capuz do casaco e deu-lhe um avanço de meio quarteirão do outro lado da rua, antes de pôr a mochila ao ombro e ir atrás dele. Sentiu-se aliviada quando ele não parou no parque de estacionamento nem na paragem de autocarro. Barney seria mais fácil de seguir a pé. Não sabia bem onde ele vivia e precisava descobrir antes que ele a visse. Os arredores das traseiras do hospital eram tranquilos, habitados por operários e gente de várias raças. Um bairro onde se punha uma fechadura Chapman no carro, mas não tinha que se levar a bateria para casa e onde as crianças podiam brincar cá fora. Decorridos três quarteirões, Barney esperou que uma carrinha desimpedisse o passeio e virou para norte por uma rua de casas estreitas, algumas com degraus de mármore e cuidados jardins na frente.
Slide 70: 74 THOMAS HARRIS As poucas lojas vazias apresentavam-se intactas e com as montras lavadas. As lojas começavam a abrir as portas e algumas pessoas saíam. Camiões estacionados de noite nos dois lados da rua bloquearam a visão de Starling durante meio minuto e ultrapassou Barney, antes de se aperceber que ele tinha parado. Estava mesmo do outro lado da rua quando o viu. Talvez também ele a tivesse visto, não podia afirmar com certeza. Mantinha-se de pé com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco, a cabeça inclinada para diante, observando de cenho franzido algo que se movia no meio da rua. Uma pomba morta jazia no pavimento com uma asa arrancada pela deslocação de ar dos carros que passavam. O companheiro da ave morta andava à volta do corpo, piscando o olho e abanando a pequena cabeça a cada passo das suas patas cor-de-rosa. Dava voltas e mais voltas, murmurando o suave arrulhar. Vários carros e uma furgoneta passaram e o pássaro sobrevivente mal se esquivou ao trânsito com pequenos voos no último minuto. Talvez Barney tivesse erguido os olhos na sua direcção, Starling não podia ter certezas. Tinha de continuar a andar ou arriscar-se a ser descoberta. Quando espreitou por cima do ombro, Barney estava agachado no meio da rua, de braço levantado para fazer parar o trânsito. Dobrou a esquina desaparecendo de vista, despiu o casaco de capuz, tirou uma camisola, um boné de basebol e um saco de ginástica da mochila e mudou-se rapidamente, enfiando o casaco e a mochila no saco de ginástica e escondendo o cabelo sob o boné. Misturou-se no meio de algumas empregadas da limpeza que regressavam a casa e virou de novo a esquina da rua onde deixara Barney Ele segurava a pomba morta nas mãos em concha. O parceiro voou com um bater de asas ruidoso até aos fios da electricidade por cima das suas cabeças e ficou a observá-lo. Barney deitou a ave morta na relva de um gramado e alisou-lhe as penas. Virou o rosto na direcção do pombo pousado nos fios da electricidade e disse algo. Quando prosseguiu caminho, o sobrevivente do casal desceu até à relva e continuou a dar voltas ao corpo, em pequenos passinhos na relva. Barney não olhou para trás. Ao vê-lo subir os degraus de um bloco de apartamentos a cem metros mais à frente, levando a mão ao bolso para tirar as chaves, Starling percorreu meio quarteirão em passo de corrida para o apanhar antes que abrisse a porta. - Barney. Olá. Ele virou-se nos degraus sem grande pressa e baixou o rosto na sua direcção. Starling tinha esquecido que os olhos de Barney se encontravam invulgarmente afastados. Detectou o brilho inteligente que emitiam e sentiu que se fazia luz no cérebro. Tirou o boné e deixou que os cabelos se soltassem. - Sou Clarice Starling. Lembra-se de mim? Sou...
Slide 71: HANNIBAL - A. - concluiu Barney num tom inexpressivo. Starling uniu as palmas das mãos e esboçou um aceno de cabeça. - Bom, sim, sou a G. Preciso falar consigo, Barney É apenas uma conversa informal. Só preciso perguntar-lhe umas coisas. Barney desceu os degraus. Quando já estava de pé no passeio em frente de Starling, ela continuava a ter de erguer o rosto para o olhar. Não se- sentia ameaçada pela sua altura, como aconteceria a um homem. - Concorda para que conste no relatório, agente Starling, que não me leram os meus direitos? - Expressavase num tom de voz elevado e duro semelhante ao de Tarzan interpretado por Johnny Weismuller. - Absolutamente. Não apliquei o código Miranda. Reconheço isso. - Que tal repeti-lo para dentro do saco? Starling abriu o saco e falou para o interior em voz alta, como se este contivesse um isco. - Não li o código de Miranda a Barney Ele desconhece os seus direitos. - Há café bastante bom mais abaixo nesta rua - propôs Barney - Quantos chapéus tem nesse saco? acrescentou, enquanto caminhavam. - Três - respondeu. Quando a carrinha com matrícula de deficientes passou junto deles, Starling apercebeu-se de que os ocupantes a fitavam, mas os incapacitados excitam-se frequentemente como é de seu pleno direito. Os jovens ocupantes de um carro no cruzamento seguinte também a examinaram, mas não fizeram comentários por causa de Barney Qualquer coisa que saísse das janelas teria chamado imediatamente a atenção de Starling - estava atenta à vingança dos Crip - mas há que aguentar o desejo sem palavras. Quando ela e Barney entraram no café, a furgoneta recuou para um beco a fim de fazer inversão de marcha e seguiu pelo mesmo lugar de onde tinha vindo. Tiveram de esperar lugar numa cabina no café a abarrotar, enquanto o criado gritava em Hindi ao cozinheiro que manipulava a carne com pinças enormes e uma expressão culpada. - Vamos comer - sugeriu Starling, quando já estavam sentados. - É por conta do Tio Sam. Que tal a vida, Barney? - O emprego é bom. - O que é? - Servente. - Julguei que já fosse enfermeiro diplomado, ou talvez frequentasse a Faculdade de Medicina. Barney encolheu os ombros e estendeu o braço para as natas. - Estão a encostá-la à parede por ter morto Evelda? - perguntou, erguendo os olhos para Starling.
Slide 72: 76 THOMAS HARRIS - Ainda é o que vamos ver. Conhecia-a? - Vi-a uma vez, quando trouxeram o marido, Dijon. Ele já estava morto, era uma poça de sangue antes de o meterem na ambulância. já só deitava soro quando chegou às nossas mãos. Ela não o largava e tentou lutar com as enfermeiras. Tive de... sabe... Uma bela mulher e forte também. Não voltaram a trazê-la depois disso... - Não. Foi condenada no local. - Logo me pareceu. - Barney, depois de entregar o Doutor Lecter à gente de Tennessee... - Não o trataram com civismo. - Depois de... - E agora estão todos mortos. - Sim. Os guardas conseguiram manter-se vivos durante três dias. Você guardou o Dr. Lecter durante oito anos. - Foram seis anos... ele já lá estava antes de eu chegar. - Como conseguiu, Barney? Se não se importa que lhe pergunte, como conseguiu sobreviver com ele? Não foi apenas com civismo. Barney contemplou o seu reflexo na colher, primeiro convexo, depois côncavo e pensou uns momentos antes de responder: - O Doutor Lecter era um homem de boas maneiras, sem arrogância, mas de bom trato e elegante. Eu andava a tirar uns cursos por correspondência e ele partilhava as opiniões comigo. Não queria dizer que não me matasse a qualquer momento, se tivesse oportunidade... O facto de uma pessoa ter uma característica não elimina as outras. Podem existir lado a lado, as boas e as terríveis. Sócrates assim o disse de uma forma muito melhor. É uma coisa que nunca se pode esquecer numa prisão de máxima segurança, nunca. Se se tiver sempre isso presente, fica-se a salvo. O Doutor Lecter pode ter-se arrependido de me ter ensinado Sócrates. - Para Barney, que tinha a desvantagem da falta de instrução, Sócrates era uma experiência nova, com a qualidade de um encontro. - A segurança não tinha nada a ver com a conversa, era uma coisa totalmente diferente - replicou. - A segurança nunca era pessoal, mesmo quando tinha de lhe interceptar o correio ou impor-lhe restrições. - Falava muito com o Doutor Lecter? - Às vezes, ele passava meses sem dizer uma palavra e outras falávamos pela noite fora, quando os gritos paravam. Na verdade eu estava a tirar esses cursos por correspondência e conhecia a conversa fiada - e ele mostrou-me literalmente todo um mundo de coisas: Seutónio, Gibbon, isso. - Barney pegou na chávena. Tinha uma pincelada de Betadine sobre um arranhão recente nas costas da mão. - Quando ele escapou, alguma vez lhe passou pela cabeça que pudesse vir atrás de si?
Slide 73: HANNIBAL 77 Barney abanou a enorme cabeça. - Uma vez disse-me que sempre que era viável, preferia comer os rústicos. «Rústicos ao natural», como lhes chamava - comentou com uma gargalhada, o que nele era raro. É um homem com dentes muito pequenos e a sua expressão de alegria tem um certo toque de maníaco, assemelhando-se ao gozo de um bebé quando cospe a comida para a cara de um tio chato. Starling interrogou-se sobre se ele não teria estado tempo de mais no subterrâneo com os insanos. - E você, alguma vez sentiu... um arrepio na espinha depois dele se ter escapado? Pensou que pudesse ir atrás de si? - perguntou Barney - Não. - Porquê? - Disse que não o faria. A resposta pareceu estranhamente satisfatória a ambos. Chegaram os ovos. Barney e Starling estavam com fome e comeram em silêncio durante uns minutos. Depois... - Barney, quando o Doutor Lecter foi transferido para Memphis, pedi-lhe que me trouxesse os desenhos que ele tinha na cela e assim fez. O que aconteceu ao resto das coisas: livros, papéis? O hospital não tinha o ficheiro clínico dele. - Houve esta grande confusão. - Barney fez uma pausa, batendo com o saleiro de encontro à palma da mão. - Houve uma grande revolução no hospital. Fui dispensado, muitas pessoas foram dispensadas e as coisas perderam-se. Não se sabe... - Desculpe? - interrompeu Starling. - Com todo este barulho, não consegui ouvir o que disse. Descobri a noite passada que o exemplar anotado e assinado pelo Doutor Lecter do Dicionário de Cuísine de Alexandre Dumas apareceu há dois anos num leilão privado em Nova lorque. Foi vendido por 16 000 dólares a um coleccionador particular. A declaração de propriedade do vendedor estava assinada com o nome de «Cary Phlox». Conhece «Cary Phlox», Barney? Espero bem que sim, pois ele preencheu o seu impresso de candidatura de emprego no hospital onde você trabalha, só que assinou «Barney». Preencheu igualmente a sua declaração de impostos. Desculpe, mas não ouvi o que me disse antes. Quer recomeçar? Quanto recebeu pelo livro, Barney? - Cerca de dez mil - respondeu Barney, olhando-a de frente. - O recibo indica dez mil e quinhentos - replicou Starling com um aceno de cabeça. - O que recebeu por aquela entrevista ao Tattler depois do Doutor Lecter escapar? - Quinze mil. - Fixe. Optimo para si. Inventou toda aquela treta que contou a essa gente.
Slide 74: 78 THOMAS HARRIS - Sabia que o Doutor Lecter não se importaria. Ficaria desapontado se eu não lhes desse um abanão. - Ele atacou a enfermeira antes da sua chegada ao Estadual de Baltimore? - Sim. Tinha um ombro deslocado. É o que me consta. Fizeram uma radiografia? Muito provável. Quero a radiografia. - Descobri que os autógrafos de Lecter se encontram divididos em dois grupos, os escritos a tinta, ou da pré-encarceração, e os a lápis ou com caneta de ponta de feltro do hospital psiquiátrico. Os de lápis valem mais, mas espero que o saiba. Barney, acho que tem todas essas coisas e tenciona distribui-los ao longo dos anos pelos negociantes de autógrafos. Barney encolheu os ombros e não deu resposta. - Acho que está à espera que ele volte a ser um tema escaldante. O que quer, Barney? - Quero ver todos os Vermeer do mundo antes de morrer. - Preciso perguntar quem lhe deu a conhecer Vermeer? - Falámos sobre muitas coisas a meio da noite. - Falaram sobre o que ele gostaria de fazer, se estivesse livre? - Não. O Doutor Lecter não se interessa por hipóteses. Não acredita em silogismos, sínteses ou em qualquer absoluto. - Em que é que ele acredita? - No caos. E nem sequer é preciso acreditar nele. É evidente por si. De momento, Starling queria mostrar-se do lado de Barney. - Diz tudo isso como se acreditasse - comentou _, mas o seu emprego no Estadual de Baltimore era manter a ordem. Era o servente-chefe. Estamos ambos no campo da ordem. O Doutor Lecter nunca se escapou de si. - já lho expliquei. - Porque nunca baixou as defesas. Embora em certa medida confraternizasse... - Não confraternizei - interrompeu Barney - Ele não é irmão de ninguém. Discutimos assuntos de interesse comum. Pelo menos, eu achava as coisas interessantes quando as descobria. - O Doutor Lecter nunca troçou de si por desconhecer algo? - Não. Fez troça de si? - Não - replicou, a fim de não ferir os sentimentos de Barney, pois dava-se conta pela primeira vez do elogio implícito no ridículo
Slide 75: HANNIBAL 79 do monstro. - Poderia ter troçado de mim, se assim o desejasse. Sabe onde estão as coisas, Barney? - Há qualquer recompensa por encontrá-las? Starling dobrou o guardanapo de papel e entalou-o por baixo do prato. - A recompensa é não o acusar de obstrução à justiça respondeu. -já lhe dei uma oportunidade quando pôs a minha secretária sob escuta no hospital. - O microfone pertencia ao falecido Doutor Chilton. O Dr. Fredrick Chilton era o director do Hospital Estadual para Criminalmente Insanos de Baltimore que desaparecera enquanto estava de férias, depois da fuga do Dr. Lecter. - Falecido? Como sabe que é o falecido Doutor Chilton? - Bom, para mim faleceu há sete anos - replicou Barney Não espero vê-lo em breve. Deixe-me perguntarlhe o que a satisfaria, agente especial Starling? - Quero ver a radiografia. Quero a radiografia. Se existirem livros do Doutor Lecter, quero vê-los. - Digamos que se as coisas aparecessem, o que lhes aconteceria depois? - Bom. A verdade é que não posso dar certezas. O procurador-geral poderia confiscar todo o material como prova na investigação da fuga. Depois, criaria bolor no seu Gabinete de Provas. Se eu examinar o material e não descobrir nada de útil nos livros e o declarar, pode reivindicar que lhe foi oferecido pelo Doutor Lecter. Há sete anos que está in absentia, portanto, pode recorrer a um direito civil. Não tem parentes conhecidos. Recomendaria que qualquer material inócuo lhe fosse entregue. Deve saber que a minha recomendação se encontra na parte mais baixa do totem. Provavelmente nem sequer voltaria a recuperar a radiografia nem a história clínica, pois nenhuma delas lhe pertencia. - E se lhe explicar que não tenho as coisas? - O material de Lecter tornar-se-á difícil de vender porque publicaremos um boletim a informar o mercado que prenderemos e perseguiremos por recepção e posse. Emitirei um mandado de busca e captura às suas instalações. - Agora que sabe onde ela é. Ou diz-se onde elas são? - Não tenho a certeza. Só posso dizer-lhe que se entregar o material não sofrerá qualquer represália por ter ficado com ele, tomando em consideração o que lhe teria acontecido, caso o deixasse no local. Quanto a prometer-lhe que o vai recuperar, é algo que não posso garantir-lhe. - Starling fez uma pausa. - Sabe, Barney, tenho a sensação que não se formou em Medicina, porque não quer laços. Talvez tenha uma prioridade algures. Agora, veja bem... Nunca lhe apliquei um golpe. Nunca o controlei.
Slide 76: 80 THOMAS HARRIS - Não. Apenas deu uma olhada na minha declaração de impostos e na candidatura de emprego, é tudo. Estou emocionado. - Se tem uma prioridade, talvez o promotor de justiça pudesse dar uma palavra, esquecê-lo. Barney limpou o prato com um bocado de pão. - já acabou? - inquiriu. - Vamos dar uma volta. - Vi o Sammie. Lembra-se que ele ocupou a cela do Miggs? Ainda vive nela - retorquiu Starling quando já estavam lá fora. - Julguei que o lugar estava interditado. - E está. - O Sammie está em algum programa? - Não. Apenas vive ali, no escuro. - Acho que devia metê-lo na ordem. Ele é diabético e morrerá. Sabe por que é que o Doutor Lecter fez com que Miggs engolisse a língua? - Penso que sim. - Matou-o por a ter ofendido. Foi esse o motivo específico. Não se sinta mal... podia tê-lo feito de qualquer maneira. Passaram junto ao bloco de apartamentos de Barney e seguiram até ao gramado onde o pombo continuava a voar em círculo sobre o corpo da sua companheira morta. Barney enxotou-o com as mãos. Vai - ordenou ao pássaro. - já basta de luto. Andarás por aí até o gato te apanhar. - O pombo afastou-se com um piar e perderam-no de vista. Barney pegou na ave morta. O corpo coberto de penas deslizou facilmente para dentro do seu bolso. - Sabe? Uma vez, o Doutor Lecter falou um pouco sobre si. Talvez na última vez que falei com ele, numa das últimas vezes. O pombo lembrou-me. Quer saber o que ele disse? - Claro - respondeu Starling. - Sentiu o pequeno-almoço um pouco às voltas, mas estava decidida a não pestanejar. - Falávamos de comportamento herdado. Ele estava a utilizar a genética em certo tipo de pombos, como exemplo. Aqueles que levantam voo e rolam, rolam pelos ares para trás, acabando por cair no chão. Há pombos de voo baixo e alto. Não se podem cruzar dois destes últimos ou a cria rolará em queda, acabando por se esmagar e morrer. O que ele disse foi: «A agente Starling é uma pomba de voo alto, Barney Esperemos que um de seus pais não o fosse». Starling tinha de reflectir sobre o assunto. - O que vai fazer com a ave? - inquiriu. - Depená-la e comê-la - elucidou Barney - Venha até lá a casa e dou-lhe a radiografia e os livros. Enquanto carregava o enorme embrulho de volta ao hospital e ao carro, Starling ouviu um chamamento do pombo enlutado e sobrevivente por entre as árvores.
Slide 77: capítulo treze Graças à consideração de um louco e à obsessão de outro, Starling tinha de momento o que sempre desejou, um gabinete no corredor subterrâneo da Ciência Comportamental. Era uma sensação amarga conseguir o gabinete desta forma. Starling nunca esperou chegar directamente à elite da Secção de Ciência Comportamental quando se formou pela Academia do FBI, mas acreditara que podia conseguir um lugar ali. Sabia que primeiro passaria vários anos em gabinetes de operações. Starling era boa na profissão, mas não na política de gabinetes e, assim, demorou alguns anos a perceber que nunca iria para a Ciência Comportamental, embora fosse esse o desejo do seu chefe, Jack Crawford. Nunca divisou uma razão significativa até, à semelhança de um astrónomo que localiza um buraco negro, haver detectado o ajudante do procurador-geral, Paul Krendier, pela influência que exercia nos que o rodeavam. Ele jamais lhe perdoara que tivesse descoberto o serial kíller Jame Gunib antes dele e não conseguira suportar a atenção que ela suscitara por parte da imprensa. Uma vez, KrendIer telefonou-lhe para casa numa chuvosa noite de Inverno. Atendeu o telefone de roupão, pantufas de pêlo com uns coelhinhos, e o cabelo enrolado numa toalha. Nunca se esqueceria da data exacta pois foi na primeira semana da Tempestade no Deserto. Nessa altura Starling era uma agente técnica e acabara de voltar de Nova lorque, onde estivera a substituir a rádio da limusina iraquiana da Missão dos EUA. A nova rádio era em tudo idêntica à antiga, só que transmitia conversas tidas no carro para um satélite do Departamento da Defesa. Fora uma manobra perigosa numa garagem privada e ainda se sentia nervosa, Por um breve instante ainda pensou que KrendIer lhe telefonara para a felicitar pelo trabalho.
Slide 78: 82 THOMAS HARRIS Lembrava-se da chuva batendo de encontro às janelas e da voz de KrendIer ao telefone, um tanto entaramelada e ruídos de um bar como fundo. Convidou-a para sair. Disse que apareceria dentro de meia hora. Era casado. - Acho que não aceito, Mister KrendIer - respondeu ao mesmo tempo que carregava no botão de «Record» do gravador que produziu o beep habitual, após o que a linha emudeceu. Agora, anos mais tarde, no gabinete que desejara obter, Starling escreveu o nome a lápis num pedaço de papel e prendeu-o com fita-cola na porta. Não tinha graça nenhuma e, portanto, rasgou-o e atirou-o para o lixo. Tinha correspondência no tabuleiro de correio interno. Era um questionário do Guiness de Recordes Mundiais que se preparava para inserir o seu nome como tendo abatido mais criminosos do que qualquer outra agente do sexo feminino na história dos EUA. O termo «criminosos» era utilizado intencionalmente, explicava o editor, pois todos os mortos tinham múltiplas condenações por crime e três deles mandados de captura. O questionário foi parar ao lixo juntamente com o seu nome. Há duas horas que estava às voltas com a central computorizada, afastando madeixas soltas do rosto, quando Crawford bateu à porta e meteu a cabeça dentro do gabinete. - Brian telefonou do laboratório, Starling. A radiografia de Mason e a que recebeu de Barney condizem. É o braço de Lecter. Vão digitar as imagens e compará-las, mas ele diz que não há dúvida. Mandaremos tudo por correio para o dossier Lecter do VICAP - E Mason Verger? - Vamos contar-lhe a verdade - redarguiu Crawford. - Ambos sabemos que ele só partílhará, Starling, se lhe for parar às mãos algo que não consiga resolver sozinho. Mas se tentarmos tomar conta da pista dele no Brasil, ela vai evaporar-se. - Disse-me que a abandonasse e assim fiz. - Esteve a fazer algo aqui. - A radiografia de Mason chegou por correio expresso D H L. A D H L retirou o código de barras e a informação da etiqueta e localizou a estação. É no Hotel Ibarra, no Rio de janeiro. - Starling ergueu a mão para obstar qualquer interrupção. - Tudo veio de fontes em Nova lorque. Não foi feita qualquer investigação no Brasil. - Mason faz muitos negócios por telefone através da central de uma agência de apostas desportivas em Las Vegas. Pode imaginar a quantidade de chamadas que recebem. - Será que quero saber como descobriu tudo isso?
Slide 79: HANNIBAL 83 - De uma forma perfeitamente legal - respondeu Starling. Bom... suficientemente legal... Não deixei nada na casa dele. Apenas tenho os códigos de acesso à sua conta telefónica. Todos os agentes técnicos os têm- Digamos que com a influência dele, quanto tempo teríamos de implorar um mandado de despiste? E, de qualquer forma, o que poderia fazer-se-lhe, caso fosse condenado? Mas serve-se de uma agência de apostas desportivas. - Percebo - replicou Crawford. - O comité de jogos de Nevada poderia pôr o telefone sob escuta ou apertar a agência de apostas quanto ao que precisamos de saber, ou seja o destino das chamadas. - Deixei Mason em paz, tal como me indicou - retorquiu com um aceno de cabeça. - Bem vejo - redarguiu Crawford. - Pode informar Mason que esperamos ajudar através da Interpol e da Embaixada. Diga-lhe que- precisamos de mandar gente para lá e iniciar o processo de extradição. Provavelmente, Lecter cometeu crimes na América do Sul e, assim, será melhor extraditá-lo antes que a polícia do Rio comece a procurar nos ficheiros em Canibalismo. Se é que ele está realmente na América do Sul. Mason mete-lhe nojo, Starling? - Tenho de entrar na onda. Deu-me um curso quando tratámos daquela «flutuante» na Virgínia Oriental. Era uma pessoa e chamava-se Fredericka Binimel e, a resposta é sim, Mason enoja-me. Ultimamente, tem havido muita coisa que me enoja, Jack. Starling calou-se surpreendida. Nunca se dirigira ao chefe da secção Jack Crawford pelo primeiro nome e nunca planeara chamar-lhe «Jack», o que a chocava. Estudou-lhe o rosto, um rosto famoso pela sua difícil leitura. - Também a mim, Starling - replicou com um aceno de cabeça e um sorriso seco e triste. - Quer chupar uma destas pastilhas Pepto-Bisrnol antes de falar com Mason? Mason Verger não se dignou atender a chamada de Starling. Uma secretária agradeceu-lhe a mensagem e disse que ele responderia mais tarde. Mas não o fez pessoalmente. Para Mason, que se encontrava vários pontos acima na lista de notificação comparativamente a Starling, a justaposição das radiografias não era novidade. Corpo retirado da água. (N. da T)
Slide 80: Capítulo catorze- Mason sabia que a sua radiografia era mesmo do braço do Dr. Lecter muito antes de Starling receber a informação, pois as fontes de Mason no interior do Departamento da justiça eram melhores do que as dela. Mason recebeu a comunicação por um e-mail assinado com o nome de código Token287. Ou seja o segundo nome de código do ajudante de Parton Vellinore do Comité de Supervisão judiciário americano. O gabinete de Velbriore recebera um e-mail de Cassius199, o segundo nome de código do próprio Paul KrendIer do Departamento de justiça. Mason estava excitado. Não achava que o Dr. Lecter estivesse no Brasil, mas a radiografia provava que o Doutor tinha agora o número normal de dedos na mão esquerda. Esta informação ajustava-se a uma nova pista vinda da Europa quanto ao paradeiro do Doutor. Mason acreditava que a informação provinha do interior da justiça italiana e era o mais forte sopro de Lecter que lhe chegava desde há anos. Mason não fazia tenção de partilhar a sua pista com o FBI. Devido a sete anos de esforço permanente, acesso a ficheiros federais confidenciais, distribuição de folhetos, ausência de restrições internacionais e dispêndio de elevadas somas de dinheiro, Mason ultrapassara o FBI na perseguição a Lecter. Só partilhava informações com o Bureau, quando precisava de servir-se dos recursos deles. Para manter as aparências, deu instruções à secretária para não deixar em paz Starling quanto a desenvolvimentos. A agenda de Mason indicava à secretária que lhe telefonasse pelo menos três vezes por dia. Mason enviou de imediato 5 mil dólares ao seu informador no Brasil para que seguisse a pista da radiografia. O fundo de despesas
Slide 81: HANNIBAL 85 de mancio que mandou para a Suíça foi muito superior e estava disposto a enviar mais quando tivesse informações de monta na sua Posse. Acreditava que a sua fonte na Europa encontrara o Dr. Lecter, mas Mason tinha sido frequentemente enganado com informações e aprendera a ser cuidadoso. Não tardaria a receber algumas provas. Até essa altura e para minorar a agonia da espera, Mason preocupava-se com o que aconteceria depois do doutor se encontrar nas suas mãos. Estas disposições há muito que estavam preparadas, pois Mason era um estudante do sofrimento... As opções de Deus na aplicação do sofrimento não são satisfatórias para nós nem tão pouco compreensíveis, a não ser que a inocência O ofenda. Ele necessita visivelmente de alguma ajuda quanto a direccionar a fuga cega com que açoita o mundo. Mason conseguiu entender o seu papel em tudo isto no 12.o ano da sua paralisia, quando o corpo se retraiu sob os lençóis e soube que nunca mais conseguiria levantar-se. Os seus aposentos na mansão de Muskrat Farra eram excelentes e tinha meios, mas não ilimitados, pois o patriarca Verger, Mason, continuava a tomar as rédeas. Era Natal no ano da fuga do Dr. Lecter. Preso do tipo de sentimentos que por norma caracterizam esta quadra, Mason desejava amargamente ter conseguido que o Dr. Lecter fosse assassinado no hospital psiquiátrico; Mason sabia que o Dr. Lecter andava de um lado para o outro algures pelo mundo e muito provavelmente a divertir-se. E Mason encontrava-se deitado sob o seu respirador, com um lençol macio cobrindo tudo, e uma enfermeira de pé, mudando o peso ora para uma perna ora para outra e desejando poder sentar-se. Algumas crianças pobres haviam sido enviadas de autocarro até Muskrat Farin para entoarem as canções natalícias. Com a permissão do médico, as janelas de Mason foram abertas por breves instantes para deixar entrar o ar agreste e, sob as janelas, segurando velas nas mãos em concha, as crianças cantavam. As luzes do quarto de Mason estavam apagadas e as estrelas pairavam no céu escuro sobre a herdade: Oh, cidadezinha de Belém, como te vemos calmamente imóvel! Como te vemos calmamente imóvel. Como te vemos calmamente imóvel. A ironia do refrão atingiu-o. Como te vemos calmamente imóvel, Mason!
Slide 82: 86 THOMAS HARRIS As estrelas de Natal do lado de fora da janela mantinham aquele silêncio sufocante. As estrelas não lhe disseram uma só palavra quando ergueu suplicante o olho humedecido na direcção delas e gesticulou com os dedos que conseguia mexer. Mason pensou que não conseguia respirar. Se estivesse a sufocar no espaço, pensou o último olhar seria para as belas, silenciosas e abafadas estrelas. Sentia-se a sufocar, o respirador não funcionava, tinha de esperar por ar as linhas dos seus sinais vitais nos ecrãs tremulavam, raminhos verdes de azevinho na noite da floresta negra dos ecrãs. Bloqueio da pulsação cardíaca, bloqueio sistólico, bloqueio diastólico. A enfermeira assustou-se, prestes a carregar no botão de alarme, prestes a buscar adrenalina. Ironia do refrão, Como te vemos calmamente imóvel, Mason. Uma Epifania, então, no Natal. Antes que a enfermeira premisse o botão, ou estendesse a mão para os medicamentos, os primeiros sinais da vingança de Mason afloraram a sua pálida e fantasmagórica mão semelhante a uma pinça e começaram a acalmá-lo. Nas comunhões de Natal pelo mundo inteiro, os devotos acreditam que, através do milagre da transubstanciação, lhes é dado a comer o corpo e a beber o sangue de Cristo. Mason iniciou os preparativos para uma cerimónia ainda mais impressionante sem necessidade da transubstanciação. Começou as disposições para que o Dr. Hannibal Lecter fosse comido vivo.
Slide 83: Capítulo quinze A educação de Mason era estranha mas perfeitamente adequada à vida que o pai imaginou para ele e à tarefa que agora tinha pela frente. Em criança frequentou um colégio interno que o pai pagou a peso de ouro e onde as frequentes ausências de Mason eram desculpadas. Durante semanas de cada vez, o velho Verger, dirigiu a verdadeira educação de Mason, levando o rapaz na sua companhia até aos currais e matadouros que constituíam a base da sua fortuna. Molson Verger foi um pioneiro em muitas áreas da criação de gado, sobretudo na área da economia. As suas primeiras experiências com rações alimentares baratas comparam-se às de Batterham de há cinquenta anos antes. Molson Verger adulterava a comida dos porcos com pêlo de porco, penas de galinha moídas, estrume em doses consideradas arriscadas na altura, Na década de 40, foi considerado um cruel visionário quando tirou a água fresca aos porcos e os obrigou a beber água das valetas feita de excrementos de animais fermentados a fim de acelerar o aumento de peso. A troça findou quando os lucros começaram a encher-lhe os cofres e os rivais se apressaram a imitá-lo. A liderança de Molson Verger na indústria das rações enlatadas não ficou por aqui. Lutou de armas e bagagens e com os seus próPrios fundos contra a Lei do Abate Humano, estritamente do ponto de vista económico, e conseguiu manter a legalidade da marca com ferro em brasa no focinho, embora pagando caro em compensações. Com Mason ao seu lado, supervisou experiências em larga escala em cercados para determinar quanto tempo se podia privar os animais de comida e de água antes do abate, sem significativas perdas de peso. Foi a pesquisa genética apadrinhada por Verger que conseguiu finalmente a pesada e musculada raça de porcos belga sem as perdas
Slide 84: 88 THOMAS HARRIS dos concorrentes que atingiram os belgas. Molson Verger comprou criação de todo o mundo e apadrinhou uma série de programas imternacionais de criação. Os matadouros são, contudo, basicamente um negócio do povo e ninguém entendia isso melhor do que Molson Verger. Conseguiu intimidar as chefias dos sindicatos quando tentaram interferir nos seus provemtos com exigências de salários e segurança. Nesta área, as suas sólidas relações com o crime organizado foram-lhe muito úteis durante 30 anos. Nessa época, Mason denotava fortes parecenças com o pai devido às escuras e brilhantes sobrancelhas encimando olhos azuis-claros de carniceiro e uma linha de cabelo por cima da testa, descendo, na oblíqua, da direita para a esquerda. Molson Verger costumava agarrar muitas vezes a cabeça do filho num gesto afectuoso e apalpá-la como se estivesse a confirmar a paternidade do filho através da fisionomia, tal como conseguia agarrar o focinho de um porco e saber a constituição genética pela estrutura óssea. Mason foi um bom aluno e, mesmo depois dos danos físicos sofridos o terem preso ao leito, era capaz de tomar importantes decisões de negócios a realizar pelos seus esbirros. Foi ideia do filho Mason levar o governo americano e as Nações Unidas a abaterem todos os porcos nativos do Haiti, citando o perigo da gripe suína africana que deles advinha. Conseguiu depois vender ao governo grandes porcos americanos, a fim de substituir os suínos nativos. Ao serem confrontados com as condições climatéricas do Haiti, os grandes e gordos suínos morriam em breve e tinham de ser continuamente substituídos por outros da criação de Mason até os haitianos terem substituído todos os seus porcos pelos resistentes e mexidos da República Dominicana. Agora, com todo o conhecimento e experiência de uma vida inteira, Mason sentia-se qual Stradivarius aproximando-se da mesa de trabalho, enquanto construía os motores da vingança. Que manancial de informação e recursos tinha Mason no seu cérebro sem rosto! Deitado na cama, compondo mentalmente como o surdo Beethoven, lembrava-se de percorrer as feiras de porcos na companhia do pai, testando a concorrência. O pequeno canivete de prata de Molson estava sempre pronto para deslizar do seu colete para o costado de um porco a fim de testar a profundidade da gordura, afastando-se depois do guincho raivoso, com um ar demasiado digno para que o desafiassem, com a mão de novo no bolso, testando a marca na lâmina. Se tivesse lábios, Mason riria ao lembrar-se do pai espetando o canivete num porco concorrente que julgava que todos eram amigos, do choro da criança que era dono dele. O pai da criança aproximando-se
Slide 85: HANNIbAL 89 furioso e os esbirros de Molson arrastando-o para fora da tenda. Oh! Tinham sido bons e divertidos esses tempos. Nas feiras de porcos, Mason tinha visto porcos exóticos do mundo inteiro. Para o seu novo objectivo, juntara os melhores de todos os que vira. Mason iniciou o seu programa de criação imediatamente a seguir à sua Epifania do Natal e centrou-a numa pequena instalação de criação de porcos que os Vergers possuíam na Sardenha, ao largo da costa de Itália. Escolheu o lugar pela sua distância e conveniência quanto à Europa. Mason acreditava - correctamente - que a primeira paragem do Doutor Lecter fora dos EUA depois da fuga tinha sido na América do Sul. Contudo, sempre estivera convencido que a Europa era onde um homem com os gostos do Doutor Lecter se instalaria e todos os anos colocava vigias no Festival de Música de Salzburgo e noutros eventos culturais. É isto o que Mason enviou aos seus criadores na Sardenha com o objectivo de prepararem o cenário da morte do Dr. Lecter: O porco gigante da floresta, HyIochoerus meinertzhageni, seis tetas e 38 cromossomas, um comedor de recursos, um omnívoro oportunista, como o homem. Dois metros de comprimento nas famílias das terras altas, pesa cerca de 275 quilos. O porco gigante da floresta é a base de Mason. O clássico javali europeu, S. scrofa scrofa, 36 cromossomas na sua forma mais pura, sem excrescências no focinho, coberto de espinhos e presas dilacerantes, um grande e feroz animal capaz de matar uma víbora com os cascos afiados e comê-la como se fosse um Slim Jim. Quando provocado, com cio ou a proteger as crias, atacará tudo o que o ameace. As fêmeas têm 12 tetas e são boas mães. No Scrofa scrofa, Mason. encontrou o tema e a configuração de focinho necessários para fornecer ao Dr, Lecter a consumação de uma derradeira e infernal visão de si próprio. (Consultar Harrís on the Pig, 1881). Trouxe o porco da Ilha de Ossabaw pela sua agressividade, e o Jiaxing Black pelos elevados níveis de estradiol. Uma nota falsa quando introduziu um Babirusa, Babyrousa babyrussa, da Indonésia Oriental, conhecido como o porco-veado devido ao comprimento excessivo das presas. Era de reprodução lenta com duas tetas apenas e com 100 quilos perdia no tamanho. Mas não se perdeu tempo, pois havia ninhadas idênticas que não incluíam o Babirusa. Quanto à dentição, havia pouca variedade de escolha para Mason. Quase todas as espécies tinham dentes adequados ao objectivo, três pares de afiados incisivos, um par de caninos alongados, quatro pares de prémolares e três pares de molares trituradores, superiores e inferiores, num total de quarenta e quatro dentes.
Slide 86: 90 THOMAS HARRIS Qualquer porco comerá um homem morto, mas é necessário algum treino para o levar a comer algum vivo. Os sardenhos de Mason estavam à altura da tarefa. Agora, depois de um esforço de sete anos e muitas ninhadas, os resultados eram notáveis.
Slide 87: Capítulo dezasseis Com todos os actores, à excepção do Dr. Lecter, a postos nas Montanhas Germargentu da Sardenha, Mason centrou as atenções em filmar a morte para a posteridade e para seu próprio gozo ao visioná-la. Há muito que tudo estava a postos, mas agora tinha de ser dado o alerta. Conduziu este delicado negócio por telefone através da sua central telefónica legal da agência de apostas desportivas próximo dos Castaways, em Las Vegas. Os seus telefonemas perdiam-se no grande volume de actividade de fim-de-semana que ali decorria. A voz radiofónica de Mason, exceptuando as consoantes explosivas e as fricativas, ressoou da Floresta Nacional junto da costa de Chesapeake até ao deserto e de volta através do Atlântico primeiro para Roma: Num apartamento do sétimo andar de um edifício na Via Archimede, nas traseiras do hotel com o mesmo nome, o telefone está a tocar, o toque irregular e rouco de um telefone a tocar em italiano. No escuro, vozes sonolentas. - Cósa? Cosa cè? - Accendi Ia luce, idiota. O candeeiro da mesa de cabeceira acende-se. Estão três pessoas na cama. O jovem que está mais próximo do telefone levanta o auscutador e estende-o a um homem corpulento e mais velho, no meio. No outro lado, uma rapariga loura na casa dos vinte. Ela ergue o rosto sonolento na direcção da luz e volta a deitar-se. - Pronto, chi? Chi parla? - Oreste, meu amigo. Fala Mason. O homem corpulento recompõe-se, e faz sinal ao mais novo para que lhe dê um copo de água mineral. - Ah, Mason, meu amigo, desculpa, estava a dormir. Que horas são aí?
Slide 88: - É tarde em todos os sítios, Oreste. Lembras-te do que disse que faria por ti e do que tens de fazer por mim? - Sim. Claro. - Chegou a altura, meu amigo. Sabes o que quero. Quero uma montagem com duas câmaras, quero uma qualidade de som superior à dos teus filmes pornográficos e, como tens de produzir a tua própria electricidade, quero um gerador longe do cenário. Quero também uns bons metros de filme de natureza para quando editarmos, e sons de pássaros. Quero que vás amanhã ao local e prepares tudo. Podes deixar o material que eu encarrego-me da segurança e podes regressar a Roma até à altura da filmagem. Quero, porém, que estejas pronto para filmar com um aviso de duas horas antes. Compreendes, Oreste? Tens um cheque à espera no Citibank no EUR, compreendeste? - Mason, neste momento estou a fazer... - Queres fazer isto, Oreste? Disseste que estavas cansado de fazer filmes porno, e treta histórica para a RAI. Queres mesmo fazer um filme a sério, Oreste? - Sim, Mason. - Então, vai hoje. O dinheiro está no Citibank. Quero que vás. - Onde, Mason? - Sardenha. Apanha o avião para Cagliari. Terás alguém à espera. O telefonema seguinte foi para Porto Torres, na costa oriental da Sardenha. A chamada foi breve. Não havia muito para dizer porque lá a maquinaria há muito que estava preparada e com a eficiência da guilhotina portátil de Mason. Ecologicamente era mais saudável, mas não tão rápida.
Slide 89: capítulo dezassete Noite no coração de Florença, a velha cidade artisticamente iluminada. O Palazzo Vecchio, ressaltando na escura piazza, inundado de luz, marcadamente medieval com as janelas em arco e ameias semelhantes à boca de uma daquelas abóboras recortadas, o campanário erguendo-se no céu negro. Morcegos perseguem mosquitos no mostrador brilhante do relógio até ao romper do dia, quando as andorinhas levantam voo, assustadas pelo toque dos sinos. O chefe da polícia Rinaldo Pazzi da Questura, com a gabardine preta contrastando com as estátuas de mármore erguidas em locais de violação e crime, surgiu das sombras do Loggia e atravessou a píazza, ao mesmo tempo que o rosto pálido se virava como um girassol para a luz do palácio. Parou no sítio onde o reformador Savonarola foi queimado e ergueu os olhos para as janelas de onde o seu próprio antepassado fez a descida ao inferno. Francesco de Pazzi tinha sido lançado daquela elevada janela, nu e com um nó corredio à volta do pescoço, acabando por morrer contorcendo-se e girando sobre o próprio corpo de encontro à parede dura. O arcebispo, enforcado ao lado dele com as suas vestes sagradas, não lhe deu qualquer conforto espiritual; de olhos desorbitados, e preso da raiva cega da asfixia, o arcebispo ferrou os dentes na carne de Pazzi. Toda a família Pazzi foi dizimada naquele domingo, 26 de Abril de 1478, por ter morto Giuliano de Medici e tentado matar LorenzO, o Magnífico na catedral, durante a missa. Agora, Rinaldo Pazzi, um Pazzi dos Pazzi, que odiava tanto o governo quanto o seu antepassado, humilhado e empobrecido, de ouvido à escuta do silvo do machado, viera a este lugar para decidir a melhor forma de utilizar um singular golpe de sorte:
Slide 90: 96 THOMAS HARRIS O chefe da polícia Pazzi acreditava que descobrira Hannibal Lecter a viver em Florença. Tinha uma oportunidade de recuperar a fama e usufruir das honras da profissão ao capturar o demónio. Pazzi tinha também a oportunidade de vender Hannibal Lecter a Mason Verger por mais dinheiro do que a sua imaginação alcançava... caso o suspeito fosse realmente Lecter. Claro que Pazzi venderia assim igualmente a sua própria honra esfarrapada. Pazzi não chegara por acaso à chefia da divisão de investigação da Questura; era dotado e na sua época fora impelido por um desejo voraz de ser bem sucedido na sua profissão. Exibia ainda as cicatrizes de um homem que, na pressa e calor da sua ambição, agarrou uma vez o dom pelo gume. Escolhera este sítio para lançar os dados, pois tinha vivido aqui um momento de epifania que o tornou famoso para depois o lançar na ruína. Pazzi tinha o forte sentido de ironia que caracteriza os italianos: a sua revelação final ocorrera nem de propósito debaixo desta Janela, onde o espírito enfurecido do seu antepassado podia continuar a girar de encontro à parede. Neste mesmo lugar podia mudar para sempre a sorte dos Pazzi. Foi a perseguição de um outro autor de assassínios em série, Il Monstro, que trouxe a fama a Pazzi e, em seguida, o tornou vítima dos abutres. Essa experiência possibilitou a sua nova descoberta. Contudo, o encerramento do caso do Il Monstro deixara um sabor a cinzas na boca de Pazzi e levava-o agora a pender para um jogo arriscado e ilegal. Il Monstro, O Monstro de Florença, atacou amantes na Toscana durante dezassete anos, nas décadas de 80 e 90. O Monstro caía sobre as vitimas quando elas se beijavam nos muitos relvados dos amantes da Toscana. Costumava matar os amantes com um revólver de pequeno calibre, dispô-los cuidadosamente num tableau com flores e expor o seio esquerdo da mulher. Os seus tableaux emanavam uma estranha familiaridade, proporcionavam uma sensação de déjà-vu. O Monstro também amputava troféus anatómicos, à excepção de um único caso quando matou um casal homossexual alemão de cabelos compridos, aparentemente por engano. A pressão pública sobre a Questura para que apanhassem Il Monstro era intensa e determinou o afastamento do antecessor de Rinaldo Pazzi. Quando Pazzi assumiu o cargo de investigador-chefe assemelhava-se a um homem a lutar contra um enxame de abelhas, com a imprensa a invadir-lhe o gabinete sempre que lhes era dada permissão e os repórteres fotográficos à espreita na Via Zara, por detrás da sede da Questura, por onde ele tinha de sair. Os turistas que viajaram até Florença nessa altura lembrar-se-ão de verem colados por todo o lado os cartazes com um olho vigilante que avisava os casais a precaverem-se contra o Monstro.
Slide 91: HANNIBAL 97 Pazzi trabalhou como um homem possuído pelo demónio. Telefonou para a Secção de Ciência Comportamental americana do FBI, pedindo ajuda para traçar o perfil do assassino e leu tudo o que conseguiu descobrir sobre os métodos utilizados pelo FBI neste âmbito. Utilizou medidas proactivas: alguns relvados de enamorados e pontos de encontro em cemitérios tinham mais polícia do que casais, sentados aos pares, nos carros. Não havia mulheres bastantes na polícia para esse efeito. Durante o tempo quente, casais de homens actuaram por turnos com perucas e muitos bigodes foram sacrificados. Pazzi deu o exemplo ao rapar o seu próprio bigode, O Monstro era cuidadoso. Atacava, mas as suas necessidades não o forçavam a atacar muitas vezes. Pazzi reparou que em anos passados havia longos períodos em que o Monstro nem sequer atacava - um intervalo de oito anos. Pazzi agarrou neste pormenor. Esforçada e laboriosamente, arrancando ajuda burocrática de todas as agências que podia ameaçar, confiscando o computador do sobrinho de que se serviu juntamente com a única máquina da Questura, Pazzi elaborou uma lista de todos os criminosos do Norte de Itália cujos períodos de prisão coincidiam com as lacunas de tempo na série de crimes do Il Monstro. O número era de 97. Pazzi assenhoreou-se de um veloz, confortável e antigo Alfa Romeo GT que pertencia a um assaltante de bancos preso e, somando mais de 5000 km ao carro no espaço de um mês, visitou pessoalmente e interrogou noventa e quatro dos condenados. Os outros estavam incapacitados ou mortos. Nos cenários dos crimes quase não havia provas que o ajudassem a reduzir a lista. Nem fluidos corporais do criminoso, nem impressões digitais. Um único cartucho de bala foi recuperado no local de um crime, em Impruneta. Tratava-se de uma Wínchester-Western 22 com marcas de extractor compatíveis com um Colt semi-automático, talvez uma Woodrnan. As balas de todos os crimes eram de calibre 22, disparadas pela mesma arma. As balas não denotavam marcas de aplicação de um silenciador, mas a hipótese de um silenciador não podia ser excluída. Um Pazzi era um Pazzi, mais do que tudo ambicioso, e ele tinha uma jovem e encantadora mulher cheia de exigências. Os esforÇos feitos levaram-lhe seis quilos do magro corpo. Os membros mais jovens da Questura comentavam entre si a propósito da sua semelhança com a personagem de desenhos animados Wile E. Coyote. Quando alguns jovens espertalhões inseriram um programa no computador da Questura que transformava os rostos dos Três Tenores
Slide 92: 98 THUMAS HARRIS nos de um burro, um porco e um bode, Pazzi examinou os desenhos durante uns minutos e sentiu o seu próprio rosto a mudar intermitentemente para o do burro. Ajancla do laboratório da Questura está enfeitada com alho para manter afastados os espíritos maus. Depois de ter visitado e interrogado inutilmente o último dos suspeitos, Pazzi mantinha-se de pé junto à janela, contemplando desesperado o pátio poeirento. Pensava na sua jovem mulher, nos tornozelos bem delineados e na penugem ao fundo das costas. Pensava em como os seios estremeciam para cima e para baixo quando escovava os dentes e como ela ria ao sentir-se observada. Pensava nas coisas que desejava dar-lhe. Imaginou-a a abrir os presentes. Pensava na mulher em termos visuais; emanava um odor muito pessoal e tinha um toque maravilhoso, mas era o visual que se situava em primeiro lugar na sua memória. Reflectiu na forma como desejava aparecer aos olhos dela. De forma alguma como no seu presente papel de alvo da imprensa... a sede da Questura em Florença situa-se num antigo hospital psiquiátrico e os cartoonistas tiravam o máximo partido deste facto. Pazzi achava que o sucesso era fruto da inspiração. Tinha uma memória visual excelente e, à semelhança de muitas pessoas para quem a vista é o sentido mais importante, pensava na revelação como o desenvolvimento de uma imagem, primeiro enevoada e depois tornando-se nítida. Ruminava pelo processo com que a maioria de nós encara um objecto perdido: revemos a imagem na mente e comparamos a imagem com o que vemos, renovando mentalmente a imagem muitas vezes por minuto e volteando-a no espaço. Depois, um atentado político é bomba nas traseiras do Museu Uffizzi apoderou-se da atenção do público e do tempo de Pazzi. Mesmo enquanto se ocupava do importante atentado bombista do museu, as imagens criadas de Il Monstro permaneceram na mente de Pazzi. Via perifericamente os tableaux do Monstro, tal como olhamos ao lado de um objecto para o divisar no escuro. Detinha-se sobretudo no casal encontrado morto na cama de uma furgoneta em Impruneta, os corpos cuidadosamente dispostos pelo monstro, adornados e engrinaldados de flores, com o seio esquerdo da mulher exposto. Pazzi saíra ao princípio de uma tarde do Museu Uffizzi e atravessava a Piazza Signoria mesmo ao lado, quando uma imagem lhe saltou aos olhos da banca de um vendedor de postais. Sem ter certezas de onde lhe vinha a imagem, parou mesmo no sítio onde Savonarola foi queimado. Virou-se e olhou em volta. Os turistas enchiam a piazza. Pazzi sentiu um arrepio na espinha. Talvez tudo aquilo estivesse apenas na sua cabeça, a imagem, a chamada de atenção. Voltou atrás e regressou ao mesmo sítio.
Slide 93: HANNIBAL 99 Lá estava: um pequeno poster salpicado de manchas de moscas e pingos de chuva do quadro Primavera de Botticelli. A pintura original encontrava-se atrás dele, no Museu Uffizi. Primavera. A ninfa engrinaldada à direita, com o seio esquerdo exposto, e flores saindo-lhe da boca, enquanto o pálido Záfiro tentava alcançá-la vindo da floresta. Lá estava. A imagem do casal morto no chão da furgoneta, enfeitados de flores, flores na boca da rapariga. Igual. Igual. Neste local onde o seu antepassado girara, morrendo por asfixia, de encontro à parede, surgiu-lhe a ideia, a imagem principal que Pazzi procurava era uma imagem criada há quinhentos anos por Sandro Botticelli... o mesmo artista que, por quarenta florins, pintara a imagem do enforcado Francesco de Pazzi na parede da prisão Bargello, com nó corredio e tudo. Como podia Pazzi resistir a esta inspiração, de uma tão espantosa origem? Tinha de se sentar. Todos os bancos estavam cheios. Restou-lhe a alternativa de mostrar o distintivo e exigir um lugar num banco a um homem de idade cujas muletas apenas viu, sinceramente, quando o velho veterano se levantou equilibrado na única perna e se expressou num tom bem elevado e brusco. Pazzi estava excitado por dois motivos. Descobrir a imagem que Il Monstro usava constituía um triunfo, mas muito mais importante era o facto de Pazzi ter visto uma cópia da Primavera quando fizera a ronda pelos suspeitos de crime. Atormentar a memória não era um método que lhe agradasse; recostou-se, pôs-se a divagar e chamou recordações. Regressou ao Uffizi e manteve-se algum tempo diante da Primavera original, mas não demasiado. Caminhou devagar até à feira da ladra, tocou no focinho de bronze do urso Il Porcellino, conduziu até ao Ippocampo e, encostando-se ao capot do seu carro coberto de pó, com o cheiro a óleo aquecido, observou as crianças a jogarem futebol... Reveu mentalmente as escadas e o patamar por cima, sendo o topo do poster da Primavera a primeira imagem quando subiu os degraus; conseguiu recuar e divisar por um segundo a porta de entrada, mas a memória falhava quanto à rua ou rostos. Sabedor dos processos de interrogatório, questionou-se a si próprio, recorrendo aos sentidos secundários: Quando viste o poster, o que ouviste?... Panelas a tilintarem na cozinha de um rés-do-chão. Quando subiste até ao patamar e paraste diante do poster, o que ouviste? A televisão. Uma televisão numa sala de estar Robert Stack fazendo o papel de Eliot Ness nos Gli Intoccabile. Cheirou-te a cozinhados? Sim, cozinhados. Cheirou-te a mais alguma coisa? Vi o poster - NÃO, não o que viste. Cheirou-te a mais alguma coisa? Ainda conseguia cheirar o Alfa, quente por dentro, continuava no meu nariz, cheiro a óleo aquecido... aquecido da Raccordo, rodando velozmente pela
Slide 94: 100 THOMAS HARRIS Raccordo Autoestrada para onde? San Casciano. Ouvi também um cão a ladrar em San Casciano, um assaltante e violador chamado Girolamo qualquer coisa. Nesse momento em que se estabelece o contacto, nesse espasmo sinático de finalização em que o pensamento se liga ao fusível vermelho, atinge-se o pico do prazer. Rinaldo Pazzi vivera o melhor momento da sua existência. Hora e meia depois, Pazzi procedera à detenção de Girolamo Tocca. A mulher de Tocca atirou pedras à pequena comitiva que lhe levava o marido.
Slide 95: Capítulo dezoito Tócca era o suspeito perfeito. Enquanto jovem, cumprira nove anos de prisão pelo assassínio de um homem que apanhou a beijar a noiva dele num relvado. Enfrentara também acusações por molestar sexualmente as filhas e outros abusos domésticos e cumprira uma sentença na prisão por violação. A Questura quase destruiu a casa de Tocca a tentar encontrar provas. Por fim, o próprio Pazzi, numa busca aos terrenos de Tocca, descobrira um cartucho vazio que foi uma das poucas provas físicas apresentadas pela acusação. O julgamento causou sensação. Realizou-se num edifício de alta segurança chamado Bunker, onde se efectuavam os julgamentos de terroristas na década de 70, em frente às instalações do jornal La Nazíone em Florença. O júri, constituído por cinco homens e cinco mulheres sob juramento, condenaram Tocca quase sem provas, exceptuando o seu carácter. A maioria do público achava que ele era inocente, mas muitos afirmaram que Tocca era um asco e estava muito bem na prisão. Aos 65 anos recebeu uma condenação de 40 anos em Volterra. Os meses seguintes foram uma época áurea. Nunca um Pazzi tinha sido tão famoso nos últimos quinhentos anos, desde que Pazzo de Pazzi regressou da Primeira Cruzada com lascas do Santo Sepulcro. Rinaldo Pazzi e a sua bonita mulher ficaram ao lado do arcebispo na Duomo quando, segundo o ritual tradicional da Páscoa, estas mesmas lascas foram utilizadas para acender a pomba despoletada por um foguete que voou da igreja ao longo do fio metálico e accionou o fogo de artifício destinado a uma multidão exultante. Os jornais beberam todas as palavras que Pazzi pronunciou disPensando moderados elogios aos subordinados pelo trabalho que haviam executado. A Signora Pazzi era consultada sobre moda e ficava lindíssima com a roupa que os estilistas a encorajavam a vestir.
Slide 96: 102 THOMAS HARRIS Eram convidados para luxuosos chás nas casas dos poderosos e jantaram com um conde no seu castelo, rodeados por armaduras. Pazzi foi sugerido para cargos políticos, elogiado acima do barulho geral no parlamento e incumbido de dirigir o esforço de cooperação entre Itália e o FBI americano contra a máfia. Essa missão e uma bolsa para estudar e participar em seminários de criminologia na Georgetown University levaram os Pazzi até Washington D.C. O chefe da polícia passou muito tempo na Ciência Comportamental em Quantico e sonhava criar uma secção de Ciência Comportamental em Roma. Depois, passados dois anos, a calamidade: numa atmosfera mais calma, um tribunal de apelação que não estava submetido à pressão pública concordou em rever a condenação de Tócca. Pazzi foi chamado ao seu país, a fim de enfrentar a investigação. Entre os ex-colegas que deixara para trás, os punhais estavam desembainhados contra ele. Um júri de apelação anulou a condenação de Tócca e repreendeu Pazzi, afirmando que o tribunal acreditava que ele falsificara provas. Os seus ex-apoiantes com cargos de relevo fugiram dele como se estivesse empestado. Continuava a ser um funcionário importante da Questura, mas era um incompetente e todos o sabiam. O governo italiano actua lentamente, mas o machado não tardaria a abater-se.
Slide 97: Capítulo dezanove Foi nesse terrível tempo de pausa, enquanto Pazzi aguardava o machado que viu pela primeira vez o homem conhecido pelos eruditos de Florença como Dr. Fell. Rinaldo Pazzi subia as escadas do Palazzo Vecchio numa missão insignificante, uma das muitas que lhe descobriam os seus ex-subordinados da Questura, enquanto saboreavam a sua queda do trono. Pazzi via somente as biqueiras dos seus sapatos na pedra irregular e não as maravilhas que o rodeavam, enquanto subia junto à parede com frescos. Há quinhentos anos, o seu antepassado fora arrastado a esvair-se em sangue por estas escadas. Num patamar, endireitou os ombros num gesto viril e obrigou-se a fixar os olhos das pessoas pintadas nos frescos, algumas delas suas familiares, já lhe chegava o ruído das vozes acaloradas do Salão dos Lírios sobre a sua cabeça, onde os directores da Galeria Uffizzi e a Comissão Belle Arti se encontravam reunidos. Era esta a missão de Pazzi desse dia. desaparecera o conservador do Palazzo Cappono. Acreditava-se que o velho senhor fugira com uma mulher, o dinheiro de alguém ou as duas coisas. Não comparecera às últimas quatro reuniões mensais com o corpo governamental aqui no Palazzo Vecchio. Pazzi recebera ordens para prosseguir a investigação. O inspector-chefe Pazzi, que fizera uma dura prelecção a estes mesmos sombrios directores do Uffizzi e membros da rival Comissão Belle Arti sobre a segurança depois do atentado à bomba ao museu, tinha agora de comparecer diante deles numa posição de inferioridade para fazer perguntas sobre a vida amorosa de um conservador de museu. Não estava muito ansioso pelo momento. Os dois comités formavam uma assembléia briguenta e irritadiça - há anos que nem sequer concordavam sobre um local de reunião,
Slide 98: 104 THOMAS HARRIS nem se dispunham a reunir-se nos gabinetes uns dos outros. Optavam em vez disso pelo magnífico Salão dos Lírios no Palazzo Vecchio, pois todos os membros achavam que a bonita sala se adequava à sua própria eminência e distinção. Uma vez instalados aqui, recusavam encontrar-se em qualquer outro lugar, embora o Palazzo Vecchio estivesse a atravessar uma das suas milhares de restaurações com andaimes, panos caídos e máquinas por todo o lado. O professor Ricci, um velho colega de escola de Rinaldo Pazzi, estava no corredor do lado de fora de salão com um ataque de espirros provocado pelo pó da caliça. Quando se recompôs o suficiente, revirou os olhos lacrimejantes na direcção de Pazzi. - La solita arringa - comentou Ricci. - Estão a discutir como de costume. Vieste por causa do desaparecido conservador Capponi? Estão a debater precisamente o cargo dele. Sogliato quer o lugar para o sobrinho. Os eruditos mostram-se impressionados com o conservador temporário que nomearam há uns meses, Doutor Fell. Querem mantê-lo. Pazzi deixou o amigo à procura de lenços de papel nos bolsos e dirigiu-se ao histórico salão com o seu tecto de lírios dourados. Panos pendurados em duas das paredes ajudavam a minorar o barulho. O nepotista, Sogliato, tinha a palavra e marcava o discurso pelo volume da voz: - A correspondência dos Cappom remonta ao século xiii. O Doutor Fell pode ter na mão, na sua mão nãoitaliana, um bilhete do próprio Dante Alighieri. Reconhecè-lo-ia? Não me parece. Examinou-o em italiano medieval e admito que a sua linguagem é admirável. Para um straniero. Mas estará familiarizado com as personalidades da Florença pré-renascentista? Não me parece. E se encontrasse por exemplo um bilhete na biblioteca Cappom de... de Guido di Cavalcanti por exemplo? Reconhecê-lo-ia? Não me parece. Quer comentar, Doutor Fell? Rinaldo Pazzi perscrutou o salão e não viu ninguém que identificasse como Doutor Fell, embora ainda não há uma hora tivesse examinado uma fotografia do homem. Não viu o Doutor Fell, porque o doutor não estava sentado com os outros. Primeiro, Pazzi ouviu-lhe a voz e depois localizou-o. O Dr. Fell mantinha-se muito quieto ao lado da grande estátua em bronze de Judite e Holofernes, virado de costas para o orador e a assistência. Falou sem se virar e era difícil saber de que figura vinha a voz, se... de Judite, com a espada permanentemente erguida para atingir o rei embriagado, ou de Holofernes, agarrado pelos cabelos, ou do Dr. Fell, baixo e calmo ao lado das figuras em bronze de Donatello. A voz cortou o barulho com a intensidade de um raio laser através do fumo e os altercadores silenciaram-se: - Cavalcanti respondeu publicamente ao primeiro soneto de Dante de La Vita Nuova, em que Dante descreve o seu estranho sonho
Slide 99: HANNIBAL 105 sobre Beatrice Portinari - disse o Dr. Fell. - Talvez Cavalcanti também tivesse feito comentários privados. Se escrevesse a um Capponi, seria a Andrea, que era mais votado à literatura do que os irmãos. O Dr. Fell voltou-se para enfrentar o grupo com o seu próprio ritmo, depois de um intervalo incomodativo para todos menos para ele, Conhece o primeiro soneto de Dante, Professor Sogliato? Conhece? Fascinou Cavalcanti e vale o seu tempo. Diz em parte... ... Quase se tinha atingido a hora em que a luz estelar mais viva nos parece, quando de súbito o amor se me mostrou, e de talforma que lembrá-lo me horroriza. Alegre me parecia, tendo numa das mãos meu coração, e nos braços envolta num cendal, minha dama, adormecida. Despertou-a: e desse coração que ardia, Ela comia, receosa, humildemente; Vi-o depois afastar-se soluçando. Escutem a maneira como ele instrumentiza o vernáculo italiano, no que chamava a vulgari eloquentía do povo: ... Allegro mi sembrava Amor tenendo Meo core in mano, e ne le braccia avea Madonna involta in un drappo dormendo. Poi Ia svegliava, e Xesto core ardendo Lei paventosa umílmente pascea Appreso gir lo ne vedea piangendo. Até mesmo os mais litigiosos Florentinos mostravam-se incapazes de resistir aos versos de Dante, ressoando nestas paredes cobertas de frescos, pronunciados no impecável toscano do Dr. Fell. Às palmas seguiram-se os fortes aplausos com olhos humedecidos de lágrimas e os membros aclamaram o Dr. Fell como mestre do Palazzo CaPpom, apagando Sogliato. Pazzi não poderia afirmar se a vitória agradava ao Doutor, pois ele tinha virado novamente as costas. Contudo, Sogliato ainda não acabara: - Se ele é, na realidade, um perito em Dante, que discurse sobre Dante nafrente do Studiolo. - Sogilato sibilou o nome, como se se tratasse da Inquisição. - Que o enfrente ex tempore, na sexta-feira, se puder. - O Studiolo, que devia o nome a um pequeno e adornado estúdio 1 Vida Nova, Dante Alighieri. Tradução de Carlos Eduardo Soveral, Guimarães Editores. (N.da T)
Slide 100: 106 THOMAS HARRIS privado, era um reduzido e implacável grupo de eruditos que havia rojado pela lama uma série de reputações académicas e se reunia com frequência no Palazzo Vecchio. Preparar-se para eles era considerado uma tarefa de monta e enfrentá-los um risco. O tio de Sogliato apoiou a moção e o cunhado de Sogliato apelou à votação, que a irmã registou nos minutos seguintes. A moção passou. A nomeação manteve-se, mas o Dr. Fell teria de satisfazer o Studiolo para a conservar. Os comités tinham um novo conservador para o Palazzo Capponi, não sentiam a falta do antigo conservador e deram respostas muito breves às perguntas do infeliz Pazzi sobre o homem desaparecido. Pazzi aguentou-se de uma forma espantosa. Qual bom investigador, pesava cuidadosamente as circunstâncias. Quem beneficiaria do desaparecimento do ex-conservador? O conservador desaparecido era um homem solteiro, um respeitado e calmo erudito que levava um quotidiano normal. Tinha algumas economias, nada de significativo. Vivia do emprego e usufruía do privilégio de ocupar o sótão do Palazzo Capponi. E aqui estava o recém-nomeado, confirmado pelo conselho depois de um detalhado interrogatório sobre a história de Florença e Italiano arcaico. Pazzi tinha examinado os impressos de candidatura do Dr. Fell e os certificados do Serviço Nacional de Saúde. Pazzi aproximou-se dele no momento em que os membros do conselho directivo estavam a arrumar as pastas para regressar a casa. - Doutor Fell. - Sim, Conmendatore? O novo conservador era baixo e untuoso de modos. Tinha a parte de cima das lentes dos óculos fumadas e as roupas escuras eram de corte elegante, mesmo para Itália. - Perguntava a mim mesmo se teria conhecido o seu antecessor? - As antenas de um polícia experiente estão sintonizadas para detectar o medo. Ao observar cuidadosamente o Dr. Fell, Pazzi registou uma calma absoluta. - Nunca o conheci. Li várias das suas monografias na Nuova Antologia. - O toscano coloquial do Doutor era tão claro quanto o discursivo. Se existia algum sotaque, Pazzi não conseguia detectá-lo. - Sei que os agentes encarregados da primeira investigação revistaram o Palazzo Capponi em busca de qualquer bilhete, um bilhete de despedida, um bilhete de suicídio e não descobriram nada. Se encontrar algo nos documentos, algo de pessoal ainda que insignificante, telefona-me? - Claro, Conmendatore Pazzi. - Os objectos pessoais dele ainda se encontram no Palazzo? - Metidos em duas malas, com um inventário. - Mandarei... virei aqui buscá-los.
Slide 101: HANNIBAL 107 - Telefona-me primeiro, Commendatore? Posso desligar o sistema de segurança antes da sua chegada e poupar-lhe tempo. o homem demasiado calmo. Normalmente, deveria recear-me um pouco. Pede-me que lhe telefone antes de aparecer. A comissão tinha irritado Pazzi. Nada podia contra esta realidade. Agora, sentia-se picado pela arrogância deste homem. E correspondeu na mesma moeda: - Posso fazer-lhe uma pergunta pessoal, Doutor Fell? - Se o seu dever assim o exigir, Commendatore. - Tem uma cicatriz relativamente recente nas costas da mão esquerda. - E o senhor tem uma aliança nova na sua: La Vita Nuova? sorriu o Doutor Fell. Tem dentes pequenos, muito brancos. Naquele instante de surpresa antes de dar tempo a Pazzi para se resolver sentir-se ofendido, o Dr. Fell levantou a mão com a cicatriz e acrescentou: - Síndrome do túnel de carpal, Commendatore. A História é uma profissão perigosa. - Por que é que não mencionou o síndrome do túnel de carpal nos impressos do Serviço de Saúde, quando veio trabalhar para aqui? - Estava certo, Commendatore, que os danos só são relevantes quando se recebe pensão de invalidez. Não é esse o meu caso. Não estou inválido. - A cirurgia foi, portanto, efectuada no Brasil, o seu país de origem. - Não foi em Itália. Não recebi nada do governo italiano - retorquiu o Dr. Fell, como que ciente de ter dado uma resposta satisfatória. Foram os últimos a abandonar a sala de conselho. Pazzi chegara junto da porta, quando o Dr. Fell o chamou. - Commendatore Pazzi? O Dr. Fell era uma silhueta escura recortada nas janelas altas. Atrás dele, à distância, erguia-se a Duomo. - Sim? - Acho que é um Pazzi dos Pazzi, acertei? - Sim. Como o soube? - Pazzi consideraria extremamente indelicada qualquer alusão à recente cobertura jornalística. - Parece-se com uma das figuras dos baixos-relevos de Della Robbia na capela da sua família, em Santa Croce. - Ah! Esse era Andrea de Pazzi representado como João Baptista - elucidou Pazzi com uma pequena chama de satisfação no coração amargo. Quando Rinaldo Pazzi abandonou a figura baixa, em pé na sala do conselho, a última impressão que lhe ficou do Dr. Fell foi a de uma calma extraordinária. Não tardaria a acrescentar mais a essa impressão.
Slide 102: Capítulo vinte Agora que a permanente exposição nos imunizou à lascívia e vulgaridade, torna-se educativo descobrir o que ainda nos parece perverso. O que ainda agita a flacidez do nosso submisso inconsciente com força bastante para nos chamar a atenção? Em Florença, foi a exposição intitulada Instrumentos de Tortura Atrozes e foi aqui que Rinaldo Pazzi encontrou o Dr. Fell pela segunda vez. A exposição, que revelava mais de 20 instrumentos clássicos de tortura com uma extensa documentação, foi montada no assustador Forte de Belvedere, uma fortaleza dos Medici do século xvi, que defende a muralha a sul da cidade. A exposição foi visitada por uma imensa e inesperada multidão; a excitação provocava o efeito de uma truta aprisionada dentro de umas calças. A mostra dos Instrumentos de Tortura Atrozes estava programada para um mês e durou seis meses, igualando o chamariz das Galerias Uffizi e ultrapassando o Museu do Palácio Pitti. Os promotores, dois taxidermistas falhados que dantes sobreviviam comendo os restos dos troféus que montavam, tornaram-se milionários e iniciaram uma digressão triunfal pela Europa com a sua exposição, fazendo gala nos hings novos. Os visitantes chegavam em casais, na maioria de toda a Europa, aproveitando o horário prolongado para formarem fila entre os engenhos de dor e lerem atentamente, em qualquer das quatro línguas, a proveniência dos aparelhos e como os usarem. Ilustrações de Dürer e de outros, juntamente com diários contemporâneos, elucidavam as multidões sobre assuntos como os processos mais requintados de quebrar os membros da vítima com a roda, A indicação de um dos placards:
Slide 103: HANNIBAL 109 os príncípes italianos preferiam quebrar os ossos das vítimas no chão servindo-se da roda deferro como agente e blocos sob os membros segundo se mostra, enquanto no Norte da Europa o método popular consistia em atar a vítima à roda, quebrá-lo ou quebrá-la com uma barra de ferro e depois enfiar os membros através dos espigões a toda a periferia da roda, com as fracturas fornecendo a necessária flexibilidade e a cabeça e o tronco ainda em funcionamento no centro. Este último método oferecia um espectáculo mais satisfatório, mas a diversão podia ser breve se um bocado da medula se dirigisse ao coração. A exposição dos Instrumentos de Tortura Atrozes agradaria indubitavelmente a um conhecedor do pior da humanidade. Contudo, a essência do pior, a assa-fétida do espírito humano, não se encontra na Dama de Ferro, nem no gume afiado; a Fealdade Elementar encontra-se nos rostos da multidão. Na obscuridade desta grande sala de pedra, sob as jaulas pendentes e iluminadas dos condenados, encontrava-se o Doutor Fell, conhecedor de expressões distorcidas, segurando os óculos na mão da cicatriz, com uma ponta da haste nos lábios, observando extasiado os rostos das pessoas que formavam filas. Foi aí que Rinaldo Pazzi o avistou. Pazzi cumpria a sua segunda tarefa insignificante do dia. Em vez de jantar com a mulher, abria caminho por entre a multidão, a fim de colar novos avisos para os casais sobre o Monstro de Florença, que não conseguira apanhar. Um destes cartazes ressaltava sobre a sua secretária, aí colocado pelos novos superiores, juntamente com outros cartazes de «procurados» no mundo inteiro. Os taxidermistas, ambos de serviço à bilheteira, ficaram satisfeitos por poderem adicionar um pouco de horror contemporâneo à exposição, mas pediram a Pazzi que fosse ele a colocar o cartaz, pois nenhum parecia disposto a deixar o companheiro sozinho com o dinheiro. Alguns moradores locais reconheceram Pazzi e assobiaram-lhe protegidos pelo anonimato da multidão. Pazzi pregou pionaises nos quatro cantos do cartaz azul, com o seu único olho vigilante, num placard próximo da saída onde chamaria mais as atenções e acendeu uma luz por cima, a fim de o iluminar. Enquanto observava a saída dos casais, Pazzi verificou que Muitos estavam excitados e se esfregavam uns nos outros, no meio da multidão. Não desejava ver mais tableaux, nem sangue ou flores. Pazzi queria falar com o Dr. Fell - seria conveniente levar os objectos pessoais do conservador desaparecido já que estava tão próximo do Palazzo Capponi. Quando, porém, Pazzi virou costas ao placard, o doutor tinha desaparecido. Não se encontrava entre o fluxo das pessoas que saíam. Havia somente a parede de pedra a que ele
Slide 104: 110 THOMAS HARRIS se encostara, por baixo da jaula pendurada da morte pela fome, com o esqueleto em posição fetal ainda suplicando que lhe dessem de comer. Pazzi ficou irritado. Abriu caminho pelo meio da multidão até à rua, mas não encontrou o doutor. O guarda à saída reconheceu Pazzi e não disse nada quando ele passou por cima da corda e desapareceu nos terrenos escuros do Forte de Belvedere. Dirigiu-se ao parapeito e olhou para norte, do outro lado do Arno. A velha Florença estendia-se aos seus pés, com a curva pronunciada da Duomo e a torre do Palazzo Vecchio recortada na luz. Pazzi era um espírito muito velho, contorcendo-se no espigão do ridículo. A cidade troçava dele. O FBI americano aplicara o torção final na faca espetada nas costas de Pazzi, declarando à imprensa que o perfil do FBI de Il Monstro nada tinha a ver com o homem detido por Pazzi. La Nazione acrescentou que Pazzi «enviara Tocca para a prisão sob um falso pretexto». A última vez que Pazzi colocara o cartaz azul de Il Monstro foi na América; era um orgulhoso troféu que pendurou na parede da secção de Ciência Comportamental e assinara-o a pedido dos agentes do FBI americano. Eles sabiam tudo a respeito dele, admiravam-no, convidavam-no para suas casas. juntamente com a mulher tinha frequentado as casas de Maryland. De pé, junto ao escuro parapeito, contemplando a sua cidade mergulhada na escuridão, cheirava o ar salgado de Chesapeake, via a mulher na praia com os ténis brancos novos. Havia um quadro de Florença que lhe mostraram a título de curiosidade na Ciência Comportamental, em Quantico. Tratava-se da mesma vista que tinha agora diante dos olhos, a velha Florença olhada do Belvedere, a melhor paisagem que existe. Só que não era a cores. Era um desenho a lápis, com sombras de carvão. O desenho inseria-se numa fotografia, no fundo de uma fotografia. Era uma foto do serial killer americano, Dr. Hannibal Lecter. Hannibal, o Canibal. Lecter desenhara Florença de memória e o desenho encontrava-se pendurado na sua cela do hospital psiquiátrico, um lugar tão sombrio como este. Quando ocorrera este esboço de ideia a Pazzi? Duas imagens, Florença estendida aos seus pés e o desenho de que se recordava. Ao colocar o cartaz de Il Monstro, há uns minutos. O cartaz de Mason Verger de Hannibal Lecter no seu próprio gabinete, com a elevada recompensa e indicações: O DOUTOR LECTER TERÁ DE ESCONDER A MÃO ESQUERDA E PODE TENTAR ALTERÁ-LA CIRURGICAMENTE, POIS O SEU TIPO DE POLIDACTILIA, O APARECIMENTO DE DEDOS EXTRAPERFEITOS, É EXTREMAMENTE RARA E IMEDIATAMENTE IDENTIFICÁVEL.
Slide 105: HANNIBAL 111 O Dr. Fell segurando os óculos junto aos lábios com a mão marcada pela cicatriz. Um esboço detalhado desta vista na parede da cela de Hannibal Lecter. Teria a ideia ocorrido a Pazzi quando ele observava a cidade de Florença aos seus pés ou surgido do escuro que encimava as nuvens? E por que é que trazia o cheiro da brisa salgada de Chesapeake? Para um homem que considerava a vista como o sentido principal, a ligação verificou-se através de um som, um som feito por uma gota caindo num lago a encher. Hannibal Lecter fugira para Florença plop Hannibal Lecter era o Doutor Fell. A voz interior de Rinaldo Pazzi segredava-lhe que ele podia ter enlouquecido na jaula do seu sofrimento; a sua mente agitada poderia estar a destruir-se contra as grades, como o esqueleto na jaula da morte pela fome. Sem qualquer recordação de movimento, viu-se no portão renascentista que proporcionava a passagem do Belvedere para a íngreme Costa San Giorgio, uma rua estreita em ziguezague e que mergulha no coração da velha Florença, em menos de oitocentos metros. Os passos pareciam transportá-lo ao longo das pedras irregulares sem desígnio da vontade, avançava mais rapidamente do que desejava, procurando na sua frente o homem chamado Dr. Fell, pois era este o percurso até casa dele - a meio caminho, Pazzi virou para a Costa Scarpuccia, descendo sempre até ir dar à Via de Bardi, junto ao rio. Próximo do Palazzo Capponi, a casa do Dr. Fell. Pazzi, ofegante da descida, descobriu um lugar protegido da luz dos candeeiros da rua, na entrada de um bloco de apartamentos do lado oposto ao palazzo. Se alguém aparecesse, podia virar-se e fingir que carregava numa campainha. O palazzo estava escuro. Por cima das grandes portas duplas, Pazzi divisava a luz vermelha de uma câmara de vigilância. Não podia ter certezas quanto a se trabalhava a tempo inteiro ou era somente accionada quando alguém tocava à campainha. Estava bastante inserida na entrada coberta. Pazzi não achava que pudesse inspeccionar ao longo da fachada. Aguardou meia hora, escutando o som da própria respiração e o doutor não apareceu. Talvez se encontrasse no interior, de luzes apagadas.
Slide 106: 112 THOMAS HARRIS A rua apresentava-se vazia. Pazzi atravessou rapidamente e manteve-se encostado à parede. Fraco, muito fraco, um som vindo do interior. Pazzi encostou a cabeça às grades frias da janela e pôs-se à escuta. Um cravo, as Variações Goldberg de Bach bem tocadas. Pazzi tinha de esperar, mover-se lentamente e reflectir. Era demasiado cedo para espantar a caça. Precisava decidir o que fazer. Não queria voltar a fazer figura de idiota, Ao recuar até à sombra do outro lado da rua, o nariz foi a última coisa a desaparecer.
Slide 107: capítulo vinte e um Reza a tradição que o mártir cristão São Miniato levantou a sua cabeça degolada da areia do anfiteatro romano em Florença e levou-a, debaixo do braço, até às montanhas do outro lado do rio, onde jaz na sua maravilhosa igreja. Não há dúvida que o corpo de São Miniato, erguido ou não, percorreu a antiga rua onde agora nos encontramos, a Via de Bardi. A noite adensa-se, a rua está vazia e o desenho das pedras brilha sob os chuviscos de Inverno sem o frio bastante para eliminarem o cheiro a ratos. Encontramo-nos no meio dos palácios construídos há seiscentos anos pelos príncipes mercadores e coniventes da Florença Renascentista. À distância de um disparo de seta do outro lado do rio situam-se o cruel espigão da Signoria onde o monge Savaranola foi enforcado e queimado e o grande matadouro de Cristos crucificados, o Museu Uffizi. Todos estes palácios de família, unidos numa rua antiga, congelados na moderna burocracia italiana, denotam uma arquitectura prisional no exterior, mas contêm grandes e graciosos espaços, altos e silenciosos corredores que nunca ninguém vê, revestidos de reposteiros apodrecidos e estragados pela chuva onde obras menores de mestres renascentistas se mantêm no escuro durante anos e apenas são iluminados pelos relâmpagos quando os reposteiros caem. Ao vosso lado ergue-se o palazzo dos Capponi, uma família distinta durante mil anos, que rasgou o ultimato de um rei francês diante dele e originou um papa. As janelas do Palazzo Cappom estão agora imersas na escuridão, Por detrás dos portões de ferro. As argolas das tochas apresentam-se vazias. Naquele caixilho de vidro antigo há o buraco de uma bala da década de 40. Aproximem-se mais. Encostem a cabeça ao ferro frio tal como o polícia fez e escutem. Conseguem ouvir o som abafado
Slide 108: 114 THOMAS HARRIS de um cravo. As Variações Goldberg de Bach tocadas, não primorosamente, mas muito bem, com uma magnífica compreensão da música. Tocadas não primorosamente, mas muito bem, há talvez uma leve rigidez na mão esquerda. Se acreditarem que estão imunes ao perigo, entrarão? Entrarão neste palácio tão cheio de sangue e glória, seguirão através do escuro pejado de teias de aranha, na direcção do toque requintado do cravo? Os alarmes não podem ver-nos. O polícia molhado e escondido na ombreira da porta não pode ver-nos. Venham... Nofoyer o escuro é quase total. Uma comprida escadaria de pedra, o corrimão frio das escadas sob a nossa mão escorregadia, os degraus escavados pelas centenas de anos de passos, irregulares sob os nossos pés à medida que subimos na direcção da música. As elevadas portas duplas do salão principal guinchariam e uivariam nos gonzos, se tivéssemos de abri-las. Para vocês estão abertas. A música vem do mais remoto canto e do canto chega a única luz, luz de muitas velas derramando um brilho avermelhado através da pequena porta de uma capela a seguir ao canto da sala. Atravessem até junto da música. Mal nos damos conta de passar junto a enormes conjuntos de peças de mobiliário tapadas, formas vagas ondulantes à luz da vela, como um rebanho adormecido. Sobre as nossas cabeças a altura da divisão funde-se no escuro. A luz incide em tons de brasa num cravo adornado e no homem conhecido entre os eruditos renascentistas como Dr. Fell, o elegante doutor, de costas direitas que se inclinam para a música, enquanto a luz reflecte o cabelo e também as costas do roupão de seda almofadado com um brilho de pêlo. A tampa erguida do cravo está decorada com a intrincada cena de um banquete e as figurinhas parecem pairar à luz da vela sobre as cordas. Toca de olhos fechados. Não precisa de pauta. Diante dele, na estante de música em forma de lira, está um exemplar do tablóide sensacionalista americano The National TattIer. Está dobrado de maneira a mostrar apenas o rosto na primeira página, o rosto de Clarice Starling. O nosso músico sorri, termina a peça, repete uma vez a sarabanda para seu próprio prazer e quando a última corda puxada vibra até se silenciar na imensa sala, abre os olhos, cada uma das pupilas de um castanho avermelhado escuro, reflectindo a luz em pontinhos vermelhos. inclina a cabeça de lado e fixa o jornal que tem na frente. Levanta-se sem fazer ruído e leva o tablóide americano para a minúscula e adornada capela, construída antes da descoberta da América. Enquanto o ergue à luz das velas e o desdobra, os ícones religiosos sobre o altar parecem ler o tablóide por cima do seu ombro, como o fariam numa fila para a mercearia. O tipo de letra à Raílroad
Slide 109: HANNIBAL 115 Gothic e diz: ANJO DA MORTE: CLARICE STARLING, A ARMA MORTíFERA DO FBI. Rostos pintados em agonia e beatitude à volta do altar desvanecem-se quando ele apaga as velas. Não precisa de luz para atravessar o imenso corredor. Uma corrente de ar quando o Dr. Hannibal Lecter passa ao nosso lado. A grande porta chia, fecha-se com um baque que podemos sentir repercutido no chão. Silêncio. Passos entrando numa outra sala. Nas ressonâncias deste lugar, as paredes estão mais próximas, o tecto ainda se perde na altura sons agudos ecoam do cimo - e a atmosfera parada detém o cheiro a pergaminho e pavios extintos. o restolhar de papel no escuro, o ranger e chiar de uma cadeira. O Doutor Lecter senta-se numa grande cadeira de braços na imponente biblioteca Capponi. Os olhos reflectem a luz em pontinhos vermelhos, mas não são brasas no escuro, como alguns dos seus guardas o juraram. A escuridão é total. Está a reflectir... É verdade que o Dr. Lecter criou a vaga no Palazzo Capponi desfazendo-se do antigo conservador - um processo simples exigindo um trabalho de escassos segundos no velho e o modesto preço de dois sacos de cimento -, mas uma vez desimpedido o caminho, ganhou justamente o emprego, demonstrando frente ao Comité Belli Arte uma eximia capacidade linguística, traduzindo manuscritos em italiano medieval e latim, baseados em densos manuscritos góticos. Encontrou aqui uma paz que está decidido a preservar - não matou ninguém, exceptuando o seu antecessor, desde que reside em Florença. O seu cargo de tradutor e conservador da Biblioteca Capponi é bastante valioso para ele por vários motivos: Os espaços, a altura das salas do palácio são importantes para o Dr. Lecter, depois de anos de prisão restritiva. Mais importante ainda, sente uma sintonia com o palácio; é o único edifício privado que conhece que se aproxima, em dimensão e detalhe, do Palácio da Memória que manteve desde a juventude. Na biblioteca, com esta colecção única de manuscritos e correspondência remontando ao princípio do século xiii, pode satisfazer uma certa curiosidade sobre si próprio. Com base em registos familiares fragmentados, o Dr. Lecter acreditava que descendia de um tal Giuliano Bevisangue, uma temível figura do século XII da Toscana e também dos Machiavelli e dos Visconti. Este era o lugar ideal para pesquisa. Embora nutrisse uma certa curiosidade abstracta sobre o assunto, não se relacionava com o ego. O Dr. Lecter não necessita de reforço convencional. O seu ego, tal como o coeficiente intelectual e o grau da sua racionalidade, não se mede por meios convencionais.
Slide 110: 116 THOMAS HARRIS Não existe, de facto, consenso na comunidade psiquiátrica, quanto a intitular-se o Dr. Lecter de homem. Há longo tempo que foi encarado pelos seus colegas profissionais de psiquiatria, muitos dos quais receiam a sua ácida pena nos jornais da especialidade, inteiramente como outro. Por uma questão de conveniência, chamam-lhe «monstro». O monstro senta-se na biblioteca imersa na obscuridade, enquanto a sua mente pinta cores no escuro e uma atmosfera medieval domina a sua mente. Está a reflectir no polícia. Ruído de um interruptor e uma lâmpada fraca acende-se. Agora, podemos ver o Dr. Lecter sentado a uma mesa de refeitório do século xvi, na biblioteca Capponi. Nas suas costas há uma parede de manuscritos metidos em compartimentos e grandes livros tapados com oleados, datando de há oitocentos anos. Correspondência do século xiv com um ministro da República de Veneza está empilhada na sua frente, tendo em cima um pequeno molde que Miguel Ângelo fez como estudo para o seu chifrado Moisés, e diante do porta-canetas, um computador portátil com capacidade de pesquisa através da Universidade de Milão. Em grandes letras vermelhas e azuis por entre as escuras e amareladas pilhas de pergaminho está um exemplar do National TattIer. E, ao lado, a edição florentina do Le Nazione. O Dr. Lecter escolhe o jornal italiano e lê o seu último ataque a Rinaldo Pazzi, incitado pela rejeição do FBI no caso de Il Monstro. O nosso perfil nunca se assemelhou ao de Tocca», declarava um porta-voz do FBI. Le Nazione citava a formação e treino de Pazzi na América, na famosa Academia de Quantico, e afirmava que ele deveria ter agido melhor. O caso de Il Monstro em nada interessava o Dr. Lecter, mas o mesmo não acontecia quanto à formação de Pazzi. Que pena ter encontrado um polícia treinado em Quantico, onde Hannibal Lecter era um caso de manual. Quando o Dr. Lecter fixou o rosto de Rinaldo Pazzi no Palazzo Vecchio e se aproximou o suficiente para o cheirar, ficou certo que Pazzi de nada suspeitava, embora ele tivesse indagado sobre a cicatriz na mão do Dr. Lecter. Pazzi nem sequer tinha qualquer sério interesse a seu respeito quanto ao desaparecimento do conservador. O polícia viu-o na exposição de instrumentos de tortura. Teria sido preferível encontrá-lo numa exposição de orquídeas. O Dr. Lecter tinha perfeita consciência de que todos os elementos da epifania estavam presentes na mente do polícia, agitados no meio das milhões de outras coisas que ele sabia.
Slide 111: HANNIBAL 117 Deveria Rinaldo Pazzi ir fazer companhia ao falecido conservador do Palazzo Vecchio, nos pântanos? Deveria o corpo de Pazzi ser encontrado após um suicídio aparente? La Nazione teria todo o prazer em persegui-lo até à morte. «Agora não», reflectiu o monstro e focou a atenção nos seus enormes rolos de manuscritos de velo e pergaminho. O Dr. Lecter não se sentia preocupado. Deliciou-se com o estilo literário de Neri Capponi, banqueiro e emissário a Veneza no século xv, lendo as suas cartas em voz alta, a espaços, para seu próprio prazer pela noite dentro.
Slide 112: Capítulo vinte e dois Antes do alvorecer, Pazzi tinha nas mãos as fotografias tiradas para a licença de trabalho do Dr. Fell, juntamente com os negativos do seu Permiso di Soggíorno dos ficheiros dos Carabinieri. Pazzi tinha também na sua posse os excelentes instantâneos de cara reproduzidos no cartaz de Mason Verger. Os rostos tinham uma forma semelhante, mas se o Dr. Fell era Dr. Hannibal Lecter, efectuara-se algum trabalho no nariz e faces, talvez injecções de colagénio. Quanto às orelhas, eram promissoras. À semelhança de Alphonse Bertillon, cem anos antes, Pazzi examinou as orelhas com a lupa. Pareciam ser as mesmas. Servindo-se do computador antiquado da Questura, marcou o seu código de acesso da Interpol ao Violent Aprchension Program do FBI americano e abriu o volumoso ficheiro Lecter. Amaldiçoou o seu lento modem e tentou ler o texto indistinto do ecrã, até as letras se lhe misturarem diante dos olhos. Conhecia o mais importante do caso. Duas coisas levaram-no a suster a respiração. Um dado antigo e um novo. O mais recente citava uma radiografia indicativa de que Lecter fizera provavelmente uma cirurgia à mão. O antigo, um scan de um relatório da polícia de Temessee escrito à mão indicava que, enquanto matou os guardas em Memphis, Hannibal Lecter pusera a tocar uma cassete das Variações Goldberg. O cartaz posto a circular pela rica vítima americana, Mason Verger, encorajava informadores a telefonar para o número de telefone do FBI indicado. Fornecia o aviso quanto ao Dr. Lecter estar armado e, ser perigoso. Também indicava um número de telefone particular, mesmo por baixo do parágrafo referente à elevada recompensa. A passagem de avião de Florença para Paris é ridiculamente cara e Pazzi teve de pagá-la do seu bolso. Não confiava que a polícia francesa
Slide 113: HANNIBAL 119 lhe dispensasse uma linha telefónica temporária sem se intrometer e não conhecia outra forma de conseguir uma. Servindo-se de uma cabine telefónica do American Express próximo da ópera, telefonou para o número particular indicado no poster de Mason. Partiu do princípio que a chamada seria localizada. Pazzi falava bastante bem inglês, mas sabia que o sotaque o atraiçoaria como italiano. A voz era de homem, americana, muito calma. - Diz-me, por favor, o que pretende? - Talvez tenha informações sobre Hannibal Lecter. - Bom. Obrigado por telefonar. Sabe onde ele se encontra agora? - Acho que sim. A recompensa ainda está de pé? - Sim, está. Que provas seguras tem de que se trata dele? Tem de compreender que recebemos muitos telefonemas falsos. - Digo-lhe que se submeteu a uma cirurgia plástica ao rosto e fez uma operação à mão esquerda. Ainda consegue tocar as Variações Goldberg. Tem documentos brasileiros. Uma pausa. Depois: - Por que não telefonou à polícia? Tenho ordens para o encorajar a fazê-lo. - A recompensa é válida em todas as circunstâncias? - A recompensa é paga por informação que conduza à prisão e condenação. - A recompensa será paga em... circunstâncias especiais? - Refere-se a um prémio pelo Doutor Lecter? Digamos, no caso de alguém que por norma não pode aceitar uma recompensa? - Sim. - Estamos ambos a trabalhar para o mesmo objectivo. Portanto, não desligue enquanto lhe faço uma sugestão. É contra a convenção internacional e a lei americana oferecer um prémio pela morte de alguém, sír Não desligue, por favor. Posso perguntar-lhe se está a telefonar da Europa? - Sim, estou, e é tudo o que lhe direi. - Bom, então, ouça... Sugiro-lhe que contacte um advogado para discutir a legalidade dos prémios e não execute qualquer acto ilegal contra o Doutor Lecter. Posso recomendar um advogado? Há um em Génova e que é excelente nestas questões. Posso dar-lhe o número sem taxa? Aconselho-o firmemente a telefonar-lhe e a ser franco com ele. Pazzi comprou um cartão de telefone com porte pago e fez o próximo telefonema de uma cabina no armazém do Bon Marché. Falou com uma pessoa com uma voz seca de suíço. Levou menos de cinco minutos. Mason pagaria um milhão de dólares americanos pela cabeça e as mãos do Dr. Hannibal Lecter. Pagaria a mesma soma por informação passível de dar prisão. Pagaria particularmente três milhões de dólares pelo Doutor vivo, sem perguntas e com garantia de discrição.
Slide 114: 120 THOMAS HARRIS As condições incluíam 100 mil dólares adiantados. Para se candidatar ao adiantamento, Pazzi teria de fornecer uma impressão digital identificável do Dr. Lecter, uma impressão in situ sobre um objecto. Se o fizesse, teria o resto do dinheiro à sua disposição em notas num cofre titular num banco suíço. Antes de sair do Bon Marché a caminho do aeroporto, Pazzi comprou um peígnoir para a mulher em Noire de seda cor de pêssego.
Slide 115: Capítulo vinte e três Como é que uma pessoa se comporta, sabendo que as honras convencionais são puro desperdício? Quando passou a acreditar, como Marco Aurélio, que a opinião das gerações futuras não valerá mais do que a opinião da actual? É possível comportar-se bem, então? É desejável comportar-se bem, então? Neste momento, Rinaldo Pazzi, um Pazzi dos Pazzi, inspector-chefe da Questura florentina, tinha de decidir qual o valor da sua honra ou se existe uma sabedoria mais durável do que considerações de honra. Regressou de Paris à hora do jantar e dormiu um pouco. Desejava fazer a pergunta à mulher, mas não podia, embora a tivesse procurado como conforto. Manteve-se depois acordado durante muito tempo ouvindo a respiração calma dela. A noite ia adiantada quando desistiu de dormir e foi até lá fora dar um passeio e pensar. A avareza não é desconhecida em Itália e Rinaldo Pazzi absorvera uma grande quantidade ao respirar o ar nativo. No entanto, a sua natural tendência consumista e ambição tinham sido estimuladas na América, onde todas as influências se sentem mais rapidamente, inclusive a morte de Jeová e a missão de Mamon. Quando Pazzi saiu das sombras do Loggia e se deteve no lugar Onde Savanarola foi queimado na Piazza Signoria, quando ergueu os olhos para a janela do iluminado Palazzo Vecchio onde morreu o seu antepassado, acreditava que estava a deliberar. Não estava. Já tinha decidido pouco a pouco. Atribuímos um momento à decisão para dignificar o processo como o resultado esmerado de uma linha de pensamento racional e consciente, Contudo, as decisões são feitas de um entrelaçar de sentimentos-, são mais frequentemente um fragmento do que um todo.
Slide 116: 122 THOMAS HARRIS Pazzi decidira quando entrou no avião em Paris. E decidira há uma hora, depois da mulher, vestida com o seu peígnoir novo, apenas demonstrar a receptividade do dever. E minutos depois quando, deitado no escuro, estendera a mão para lhe tocar na face e dar um terno beijo de boas-noites e sentira uma lágrima na palma da mão. Em seguida e inconscientemente, ela comeu-lhe o coração. De novo as honras? Mais uma oportunidade de aguentar a respiração do arcebispo, enquanto as lascas sagradas de pedra eram ateadas no foguete colocado na cauda da pomba de pano? Mais elogios dos políticos cujas vidas particulares conhecia bem de mais? Valia a pena ser conhecido como o polícia que prendeu o Dr. Hannibal Lecter? Para um polícia, a glória tem uma vida curta, Melhor seria VENDÊ-LO. O pensamento trespassou e martelou o cérebro de Rinaldo, deixando-o pálido e determinado e quando o visual Rinaldo se recompôs tinha dois odores incutidos na mente, o da mulher e o da margem costeira de Chesapeake. VENDE-O. VENDE-O. VENDE-O. VENDE-O. VENDE-O. VENDE-O. Francesco de Pazzi não apunhalou com mais força em 1478 quando teve Gitiliano à mercê no chão da catedral, quando no frenesim que o avassalou, trespassou a própria coxa com o punhal.
Slide 117: Capítulo vinte e quatro cartão com as impressões digitais do Dr. Hannibal Lecter é uma curiosidade e tem algo de um objecto de culto. O original está emoldurado na parede da Secção de Identificação do FBI. Em obediência ao costume do FBI de tirar as impressões digitais a pessoas com mais de cinco dedos, mostra o polegar e os quatro dedos adjacentes na parte da frente do cartão e o sexto nas costas do mesmo. Cópias do cartão com as impressões digitais percorreram o mundo quando o Doutor escapou pela primeira vez e a impressão do polegar aparece aumentada no poster de «Procurado» de Mason Verger e com a quantidade bastante de pontos assinalada para que um observador minimamente treinado faça sucesso. A simples recolha de impressões digitais não é uma tarefa difícil e Pazzi estava à altura de fazer um trabalho quase profissional desse tipo e proceder a uma vulgar comparação para tirar dúvidas. Contudo, Mason Verger exigia uma impressão digital fresca, in situ e não retirada para ser independentemente examinada pelos seus peritos; Mason já antes tinha sido ludibriado com antigas impressões digitais recolhidas há anos em locais dos primeiros crimes do Dr. Lecter. Mas como conseguir as impressões digitais do Dr. Fell sem o alertar? Era extremamente importante não alertar o Doutor. O homem podia desaparecer e Pazzi ficaria de mãos a abanar. O Doutor não saía frequentemente do Palazzo Capponi e a próxima reunião da Belli Arti apenas se verificaria dali a um mês. TemPO demasiado para esperar a oportunidade de colocar um copo de água no lugar dele, em todos os lugares, pois o comité não providenciava este género de atenções. Depois de ter resolvido vender Hannibal Lecter a Mason Verger, Pazzi tinha de operar pelos seus próprios meios. Não podia permitir-se chamar a atenção da Questura para o Dr. Fell, conseguindo um O
Slide 118: 124 THOMAS HARRIS mandado para entrar no palazzo e o edifício estava demasiado protegido com alarmes para que tentasse introduzir-se furtivamente e tirar impressões digitais. O caixote do lixo do Dr. Fell era muito mais limpo e novo do que os outros do quarteirão. Pazzi comprou um outro caixote e, na calada da noite, trocou as tampas do caixote do Palazzo Capponi. A superfície de ferro galvanizado não era a ideal e o esforço de Pazzi de toda uma noite resultou num pesadelo rendilhado de impressões digitais que jamais conseguiria decifrar. Na manhã seguinte, apareceu de olhos congestionados na Ponte Vecchio. Numa ourivesaria da velha ponte comprou uma grossa pulseira de prata reluzente e a caixa forrada de veludo, onde era exibida. No sector artesanal, a sul do Arno, nas ruas estreitas do lado oposto do Palazzo Pitti, mandou um outro ourives retirar o nome do fabricante da pulseira. O ourives dispôs-se a aplicar um revestimento para que a prata conservasse o brilho, mas Pazzi recusou. Temam Sollicciano, a prisão florentina, a caminho de Prato. No segundo andar da ala das mulheres, Rómula Cjesku, inclinada sobre um fundo tanque de roupa, mergulhava os seios, lavando-se e secando-se com cuidado, antes de vestir uma camisa limpa e larga de algodão, Uma outra cigana, que regressava da sala de visitas, dirigiu-se de passagem a Rómula, na língua dos ciganos. Uma fina linha formou-se entre os olhos de Rómula. O rosto bonito manteve a costumada expressão solene. Teve ordem para sair da fila como habitualmente às oito e meia, mas quando se aproximou da sala das visitas, um carcereiro interceptou-a e levou-a para uma sala de entrevistas privada no résdo-chão da prisão. Lá dentro e no lugar da costumada enfermeira, Rinaldo Pazzi tinha ao colo o seu filho bebé. - Olá, Rómula - saudou. Ela dirigíu-se de imediato ao alto polícia e ele entregou-lhe logo a criança. O bebé queria mamar e começou a procurar o peito. Pazzi indicou com o queixo um biombo no canto da sala, - Há ali uma cadeira - disse. - Podemos falar, enquanto o alimentas. - Falar de quê, Dottore? - O italiano de Rómula era aceitável. Tal como o seu francês, inglês, espanhol e dialecto cigano. Expressava-se sem emoção - os seus melhores dotes teatrais não a tinham salvo destes três meses de prisão por roubar carteiras. Foi para detrás do biombo. Num saco de plástico, escondido nos cueiros do bebé, havia quarenta cigarros e 50000 liras, um pouco mais de 41 dólares, em notas amachucadas. Restava-lhe uma opção. Se o polícia tivesse revistado o bebé, podia acusá-la quando retirasse o contrabando e privá-la de todos os privilégios. Pensou uns
Slide 119: HANNIBAL 125 momentos, de olhos postos no tecto, enquanto o bebé mamava. Por que é que ele se dera a este trabalho? Estava numa posição de vantagem Pegou no saco e escondeu-o na roupa interior. A voz dele chegou-lhe por cima do biombo. - Não passas de um impecilho aqui, Rómula. As mães presas em período de aleitamento são uma perda de tempo. Há aqui pessoas com doenças legítimas que precisam dos cuidados das enfermeiras. Não odeias ter de entregar o bebé quando acaba a hora da visita? O que é que ele podia desejar?» Sabia bem quem ele era, um chefe, um filho da mãe de um Pesonovante. Rómula sobrevivia a ler a sina nas ruas e roubar carteiras vinha em segundo lugar. Tinha 35 anos gastos e umas antenas gigantes. Este polícia, reflectiu, observando-o por cima do biombo tinha um ar aprumado - a aliança, os sapatos engraxados, vivia com a mulher mas tinha uma boa criada - os botões do colarinho eram abotoados depois do colarinho estar engomado. Carteira no bolso do casaco, chaves no bolso da frente das calças, dinheiro no bolso esquerdo da frente das calças, dobrado e provavelmente apertado com um elástico. O sexo no meio. Era magro e viril, com uma pequena marca na orelha e a cicatriz de uma facada junto à linha do cabelo. Não ia pedír-lhe sexo - se fosse essa a ideia, não teria trazido o bebé. Não era um pêssego, mas não lhe parecia que tivesse de procurar sexo em mulheres presas. Seria preferível não lhe fitar os penetrantes olhos negros, enquanto o bebé mamava. Por que trouxera o bebé? Porque quer que ela lhe veja o poder, dar a entender que podia tirar-lho. O que quer, afinal? Informação? Dir-lhe-ei o que ele quiser ouvir sobre quinze ciganos que nunca existiram. Muito bem, o que posso ganhar com isto? Vejamos. Mostremos-lhe um pouco do castanho. Perscrutou-lhe as feições quando saiu de trás do biombo, um crescente de auréola ao lado do rosto do bebé. - Está calor aqui - retorquiu. - Pode abrir uma janela? isso. - Podia fazer melhor ainda, Rómula. Podia abrir a porta e sabe isso. Silêncio na sala. Lá fora, o ruído da Sollicciano semelhante a uma permanente e incómoda dor de cabeça. - Diga-me o que quer. Faria qualquer coisa de bom grado, mas não tudo. - O instinto segredava-lhe correctamente que ele a resPeitaria pelo aviso. - É apenas la tua solita cosa, o trabalho que costumas fazer redarguiu Pazzi -, mas quero que o atamanques.
Slide 120: Capítulo vinte e cinco Durante o dia, vigiavam a fachada do Palazzo Capponi da alta janela com persianas de um apartamento situado do outro lado da rua: Rómula, uma cigana mais velha que ajudava a cuidar do bebé e podia ser prima de Rómula, e Pazzi que roubava o máximo de tempo possível ao gabinete. O braço de madeira que Rómula utilizava no negócio esperava em cima de uma cadeira, no quarto. Pazzi conseguira o empréstimo do apartamento durante o dia através de uma professora da Escola de Dante Alighieri situada nas proximidades. Rómula insistiu dispor de uma prateleira do pequeno frigorífico para si e para o bebé. A espera não foi longa. Às nove e meia do segundo dia, a ajudante de Rómula assobiou do assento ao canto da janela. Um vazio negro recortou-se do outro lado da rua, quando uma das maciças portas do palazzo se abriu para dentro. Lá estava ele, o homem conhecido em Florença como Dr. Fell, baixo e vestido de preto, manhoso como um vison, curvando-se para cheirar o ar e examinar a rua nos dois sentidos. Carregou nos botões de um comando à distância para accionar os alarmes e fechou a porta com a grande maçaneta de ferro forjado, cheia de ferrugem e impossibilitando a recolha de impressões digitais. Levava um saco de compras. Ao avistar o Dr. Fell pela primeira vez através da abertura das persianas, a cigana mais velha agarrou na mão de Rómula, como que a detê-la, fixou Rómula no rosto e abanou a cabeça bruscamente numa altura em que o polícia não estava a olhar. Pazzi soube de imediato onde ele ia. No lixo do Dr. Fell, Pazzi encontrara embalagens da requintada loja de comida Vera dal 1926, na Via San Jacopo, próximo da ponte
Slide 121: HANNIBAL 127 de Santa Trinita. o Doutor seguiu nessa direcção, enquanto Rómula enfiava o vestido e Pazzi vigiava pela janela. - Dunque, são coisas de mercearia - disse Pazzi, sem conseguir deixar de repetir as instruções a Rómula pela quinta vez. - Segue-o, Rómula. Espera deste lado da Ponte Vecchio. Vais apanhá-lo no regresso, de saco cheio na mão. Irei meio quarteirão na frente dele e é a mim que verás primeiro. Manter-me-ei por perto. Se houver problema, se fores presa, encarrego-me do assunto. Se ele for a outro lado, regressa ao apartamento. Telefono-te. Põe este passe no pára-brisas de um táxi e vem ter comigo. - Emínenza - disse Rómula, mencionando o título honorífico num tom de voz irónico - se houver problema e outra pessoa me ajudar, não lhe faça mal, o meu amigo não levará nada, deixe-o, fugir. Pazzi não esperou pelo elevador, mas desceu as escadas a correr com um fato de operário gorduroso e boné. É difícil seguir alguém em Florença, porque os passeios são estreitos e a vida é coisa de pouca valia na rua. Pazzi tinha uma motorino em mau estado na curva, com uma dúzia de vassouras atadas. A vespa arrancou à primeira e, envolto numa nuvem de fumo azulado, o inspector-chefe seguiu ao longo das pedras da calçada, na pequena máquina saltitante, como que num burro a trote. Pazzi continuou devagar, foi alvo das buzinadelas do trânsito movimentado, comprou cigarros, matou o tempo para se manter atrás, até ter a certeza do destino do Dr. Fell. Ao fundo da Via Bardi, o Borgo San Jacopo tinha apenas um sentido na sua direcção. Pazzi deixou a vespa junto ao passeio e continuou a pé, esgueirando o corpo magro através da multidão de turistas, a sul da Ponte Vecchio. Os Florentinos dizem que a Vera dal 1926 com a sua variedade de queijos e trufas cheira como os pés de Deus. o Doutor demorou-se bastante por ali. Estava a fazer uma selecção das primeiras trufas brancas da época. Pazzi via-lhe as costas através das montras, para lá da maravilhosa exposição de presuntos e pastas. Pazzi foi até à esquina e voltou, lavou a cara na fonte que deitava água da cabeça em formato de leão e com bigodes: - Terias de rapar isso para trabalhares para mim - dirigiu-se à fonte, acima do nó frio que se lhe formara no estômago. o Doutor saía nesse momento, com alguns embrulhos leves no saco. Começou a descer o Borgo San Jacopo rumo a casa. Pazzi adiantou-se-lhe, no outro lado da rua. A multidão que seguia pelo passeio obrigou Pazzi a descer para a calçada e o espelho retrovisor de um carro de patrulha dos Carabinieri bateu-lhe no relógio de pulso, magoando-o. - Stronzo! Analfabeto! - gritou o condutor pela janela e
Slide 122: 128 THOMAS HARRIS Pazzi jurou vingança. Quando chegou à Ponte Vecchio, levava quarenta metros de avanço. Rómula estava na ombreira de uma porta, com o bebé apoiado no braço de madeira, a outra mão estendida a pedir esmola e o braço livre por baixo da roupa larga, pronto a apoderar-se de uma carteira para juntar às outras duzentas que roubara ao longo da vida. No braço escondido havia a larga e reluzente pulseira de prata. Dali a um momento, a vítima atravessaria a multidão que saía da velha ponte. Exactamente quando ele se afastasse do mar de gente pela Via deBardi, Rómula iria ao encontro dele, cumpriria a sua missão e perderse-ia no meio dos turistas que atravessavam a ponte. Na multidão, Rómula tinha um amigo de quem podia depender. Nada sabia da vítima e não confiava no polícia para a proteger. Giles Prevert, conhecido em alguns ficheiros da polícia como Giles Dumain, ou Roger Le Duc, mas tratado localmente por Gnocco, aguardava por entre toda aquela gente, a sul da Ponte Vecchio, que Rómula desse o golpe. Gnocco estava fragilizado pelos seus hábitos de vida e o rosto começava a encovar-se, mas ainda era resistente e forte e capaz de ajudar Rómula se o roubo desse para o torto. Com roupas de padre, misturava-se na multidão, erguendo a cabeça de vez em quando. Se a vítima em causa agarrasse Rómula e a prendesse, Gnocco poderia tropeçar nas vestes, cair por cima da vítima e embrulhar-se com ela, desfazendo-se em desculpas até Rómula estar bem longe. Já não seria a primeira vez que actuava desta forma. Pazzi passou junto dela e meteu-se na fila de uma venda de sumos, de onde podia vê-la. Rómula saiu da ombreira da porta. Com um olhar experiente avaliou o trânsito no passeio que a separava da figura baixa aproximando-se na sua direcção. Podia movimentar-se com toda a facilidade através das pessoas com o bebé na frente, apoiado pelo braço falso de lona e madeira. Muito bem. Beijaria, como habitualmente, os dedos da mão visível que ergueria para depositar o beijo no rosto da vítima. Com a mão livre, revistar-lhe-ia o lado junto à carteira, até ele lhe agarrar o pulso. Depois, soltar-se-ia dele. Pazzi tinha prometido que este homem não podia permitir-se entregá-la à polícia, que desejaria afastar-se dela. Em todas as suas tentativas de roubar carteiras, nunca ninguém se mostrara violento para uma mulher com um bebé ao colo. A vítima pensava sempre que era outra pessoa que estava a mexer-lhe no bolso. A própria Rómula denunciara transeuntes inocentes como carteiristas, a fim de evitar ser apanhada. Rómula misturou-se com as pessoas que circulavam no passeio, libertou o braço escondido, mas conservou-o debaixo do braço falso
Slide 123: HANNIBAL 129 que amparava o bebé. Avistava o alvo avançando por aquele mar de cabeças a dez metros e aproximandose. Madonna! O Dr. Fell deu uma guinada no meio da multidão e afastou-se com a torrente de turistas sobre a Ponte Vecchio. Não se dirígia a casa. Esgueirou-se pelo meio de toda aquela gente, mas não conseguiu chegar perto dele. O rosto de Gnocco, ainda à frente do Doutor, fitando-a, interrogando-a. Abanou a cabeça e Gnocco deiXou-o passar. De nada serviria se Gnocco lhe roubasse a carteira. Pazzi rosnou ao seu lado, como se ela tivesse culpa: - Vai para o apartamento. Telefono-te. Tens o passe do táxi para a cidade velha? Vai. Vai. Pazzi recuperou a vespa e empurrou-a através da Ponte Vecchio, sobre o Amo com uma opacidade de jade. julgou que tinha perdido o Doutor de vista, mas lá estava ele, do outro lado do rio sob a arcada, ao lado do Lungamo, espreitando uns momentos por cima do ombro de um retratista de rua, avançando com passo ligeiro. Pazzi concluiu que o Dr. Fell se dirigia à Igreja de Santa Croce e seguiu-o à distância no meio daquele trânsito infernal.
Slide 124: Capítulo vinte e seis A Igreja de Santa Croce, sede dos Franciscanos, com o vasto interior ressoando em oito línguas, enquanto a horde de turistas a visita, seguindo os coloridos guarda-sóis dos seus guias, procurando duzentas liras nos bolsos para poderem iluminar, durante um precioso minuto das suas vidas, os grandes frescos das capelas. Rómula entrou ofuscada pelo sol da luminosa manhã e teve de fazer uma pausa junto ao túmulo de Miguel Ângelo até adaptar os olhos. Quando viu que se encontrava de pé sobre uma sepultura no chão, sussurrou: - Mí dispíace! - e afastou-se rapidamente da lápide; para Rómula, a quantidade de mortos debaixo do chão era tão real como as pessoas que se encontravam por cima dele e talvez mais influentes. Era filha e neta de espíritas e quiromantes e encarava as pessoas sobre a terra e as que se encontravam enterradas, como duas espécies com o painel da morte a separá-las. As que se encontravam por baixo, sendo mais espertas e mais velhas, detinham, no seu parecer, a situação da vantagem. Olhou em volta à procura do sacristão-mor, um homem cheio de preconceitos contra os ciganos e refugiou-se junto à primeira coluna sob a protecção da Madonna del Latte de Rossellino, enquanto o bebé lhe procurava o seio. Pazzi, escondido próximo da sepultura de Galileu, encontrou-a ali. Apontou com o queixo na direcção do fundo da igreja onde, através do transepto, os flashes das máquinas fotográficas proibidas brilhavam como relâmpagos riscando a vasta escuridão, enquanto os contadores devoravam com um clique as duzentas liras e as ocasionais moedas australianas. Cristo nascia vezes sem conta, era atraiçoado e os pregos cravavam-se, enquanto os frescos enormes se iluminavam e voltavam a mergulhar numa imensa e preenchida escuridão, com a enchente de
Slide 125: HANNIBAL 131 peregrinos segurando guias que não conseguiam ler, um misto de transpiração e cheiro a incenso fervendo sob as lâmpadas. No transepto esquerdo, o Dr. Fell estava ocupado na Capela Capponi. A magnífica Capela Cappom situa-se em Santa Felicita. Esta, reconstruída no século XIX, interessava o Dr. Fell, pois a restauração permitia-lhe um olhar sobre o passado. Elaborava um esboço a carvão de uma inscrição em pedra, tão gasta que nem mesmo a iluminação oblíqua a ressaltava. observando através do seu pequeno monocular, Pazzi descobriu porque é que o Doutor saíra de casa apenas com o saco das compras - ele guardava os acessórios artísticos atrás do altar da capela. Por momentos, Pazzi considerou a hipótese de dispensar Rómula e deixá-la ir embora. Talvez conseguisse recolher impressões digitais nos materiais artísticos. Não, o Doutor usava luvas de algodão para que o carvão não lhe sujasse as mãos. Seria difícil. A técnica de Rómula destinava-se a espaços livres. Ela representava, contudo, aquilo que um criminoso não temeria. Era a pessoa com menos probabilidades de afugentar um criminoso. Não. Se o Doutor a agarrasse, entregá-la-ia nas mãos do sacristão e Pazzi poderia intervir mais tarde. O homem era louco. E se a matasse? E se matasse o bebé? Pazzi fez duas perguntas de si para si: «Lutaria com o Doutor se a situação parecesse letal?» «Sim.» «Estava disposto a arriscar danos menores em Rómula e no bebé para deitar a mão ao dinheiro? » « Sim. » Teriam simplesmente de esperar até o Dr. Fell descalçar as luvas para ir almoçar. Um vaguear de um lado para o outro no transepto permitia que Pazzi e Rómula sussurrassem. Pazzi detectou um rosto na multidão. - Quem está a seguir-te, Rómula? É melhor dizeres-me. já vi o rosto dele na prisão. - Um amigo meu, apenas para bloquear o caminho, se eu tiver de fugir. Não sabe nada. É melhor para si. Não terá de meter-se em trabalhos. Para gastarem o tempo, rezaram em várias capelas, Rómula murmurando numa língua que Rinaldo não compreendia e Pazzi, detentor de uma extensa lista para pedir, sobretudo a casa na margem costeira de Chesapeake e algo mais em que não deveria pensar na igreja. Vozes suaves do coro que ensaiava, sobrepondo-se ao restante barulho. Um sino e chegou a hora do encerramento, ao meio-dia. Os sacristãos apareceram, fazendo tilintar as chaves, prontos para esvaziar as caixas das moedas. O Dr. Fell levantou-se, abandonou o trabalho e saiu de trás da Pietà de Andreotti na capela, descalçou as luvas e vestiu o casaco.
Slide 126: 132 THOMAS HARRIS Um grande grupo de japoneses, aglomerados em frente do santuário, tendo gasto todo o fornecimento de moedas, mantinham-se, surpreendidos, no escuro, sem perceberem que tinham de ir embora. Pazzi deu uma cotovelada desnecessária a Rómula. Ela sabia que chegara o momento. Beijou a cabecinha do bebé, que descansava no seu braço de madeira. O Doutor aproximava-se. A multidão obrigá-lo-ia a passar junto dela e Rómula deu três grandes passadas ao encontro dele, agachou-se na frente dele, ergueu a mão para lhe chamar a atenção, beijou os dedos e preparava-se para depositar o beijo na face dele, com o braço escondido pronto a dar o golpe. Luzes acenderam-se quando alguém no meio da multidão descobriu uma moeda de duzentas liras e no momento de tocar no Dr. Fell, Rómula fitou-o no rosto, sentiu-se sugada pelos pontinhos vermelhos dos olhos, sentiu o enorme vácuo frio que lhe encostava o coração às costas e a mão afastou-se para tapar a cara do bebé, ao mesmo tempo que ouvia a sua própria voz murmurar: Perdonami, perdonamí, Eminenza, se virava e fugia. O Doutor seguiu-a com o olhar durante um longo momento até as luzes se apagarem e era de novo uma silhueta recortada na sombra das velas de uma capela, prosseguindo caminho com passos rápidos e leves. Pazzi, pálido de raiva, foi encontrar Rómula apoiada à fonte, banhando repetidamente a cabeça do bebé com água benta, banhando-lhe os olhos também na eventualidade de ter fixado o Dr. Fell. Pragas e maldições morreram-lhe nos lábios quando deparou com o rosto assustado da mulher. Os olhos de Rómula pareciam imensos no escuro. - É o Diabo - declarou. - Shaitan, filho da Manhã. Agora, vi-o. - Ponho-te novamente na prisão - ameaçou Pazzi. Rómula fixou o rosto do bebé e emitiu um suspiro de animal num matadouro, tão fundo e resignado que era terrível ouvi-lo. Desembaraçou-se da grossa pulseira de prata e lavou-a em água benta. - Ainda não - disse.
Slide 127: Capítulo vinte e sete Se Rinaldo Pazzi tivesse decidido cumprir o seu dever como agente da lei, poderia haver detido o Dr. Fell e concluído rapidamente se o homem era Hannibal Lecter. Meia hora depois, poderia ter obtido um mandado para levar o Dr. Fell do Palazzo Capponi e nem todos os alarmes do palazzo o deteriam. Com base na autoridade de que dispunha, poderia acusá-lo o tempo suficiente para lhe determinar a identidade. A recolha de impressões digitais na sede da Questura revelaria em dez minutos se Fell era o Dr. Lecter. O teste do AI)N confirmaria a identificação. Todos estes recursos estavam agora fora do alcance de Pazzi. Ao decidir vender o Dr. Lecter, o polícia tornou-se um caçador de cabeças, marginal e sozinho. Os próprios bufos da polícia não lhe serviam para nada, pois seriam os primeiros a denunciá-lo a ele, Pazzi. Os atrasos frustravam Pazzi, mas estava firme na sua resolução. Faria um acordo com estes malditos ciganos... - Gnocco seria capaz de fazê-lo em teu lugar, Rómula? Consegues encontrá-lo? - Estavam na sala de entrada do apartamento emprestado na Via Bardi, do outro lado do Palazzo Capponi, doze horas depois do malogro na Igreja de Santa Croce. Um candeeiro pousado numa mesa baixa iluminava a sala até à altura da cintura. Acima da luz, os olhos negros de Pazzi brilhavam na semiobscuridade. - Eu própria o farei, mas não com o bebé - replicou Rómula. - Mas tem de dar-me... - Não. Não posso deixar que ele te veja duas vezes. Gnocco fá-lo-ia no teu lugar? Rómula sentou-se, dobrada e envolta no comprido vestido colorido com os seios rasando as coxas e a cabeça quase nos joelhos. O braço de madeira jazia, vazio, em cima de uma cadeira. Ao canto,
Slide 128: 134 THOMAS HARRIS sentava-se a mulher mais velha, possivelmente a prima de Rómula, com o bebé ao colo, Os reposteiros estavam corridos, Perscrutando através de uma ínfima abertura, Pazzi conseguia avistar uma luz fraca no cimo do Palazzo Capponi. - Posso fazer isto. Posso transformar-me, de maneira a que não me conheça. Posso... - Não. - Então, pode ser a Esmeralda. - Não. - Esta voz vinha do canto, da boca da mulher de mais idade, que falava pela primeira vez. - Cuidarei do teu bebé até morrer, Rómula. jamais tocarei em Shaitan. - Pazzi quase não entendia o italiano dela. - Endireita-te, Rómula - ordenou Pazzi. - Olha para mim. Gnocco fá-lo-ia em teu lugar? Vais regressar a Sollicciano esta noite, Rómula. Faltam-te mais três meses de pena. É possível que da próxima vez que tires o dinheiro e os cigarros da roupa do bebé, sejas apanhada... Posso obter seis meses de pena adicional por aquela última vez que o fizeste. Seria fácil ter-te declarado uma mãe incapaz. O Estado ficaria com a criança. Mas se eu conseguir as impressões digitais, sais em liberdade, recebes dois milhões de liras, o teu cadastro desaparece e ajudo-te com visas australianos. Gnocco fá-lo-ia por ti? Rómula não respondeu. - És capaz de encontrar Gnocco? - resfolegou Pazzi. - Senti, reúne as tuas coisas, podes ir buscar o teu braço falso à sala de material daqui a três meses, ou algures no próximo ano. O bebé terá de ir para o asilo. A velha pode visitá-lo lá, - Visitá-LO, Commendatore? Ele chama-se... - Abanou a cabeça, sem querer revelar o nome da criança a este homem. Rómula ocultou a cara, sentindo as pulsações do rosto e das mãos soando em uníssono e, depois, acrescentou, por detrás das mãos: - Posso encontrá-lo. - Onde? - Piazza Santo Spirito, junto à fonte. Fazem uma fogueira e alguém leva o vinho. Irei contigo. É melhor não - arguiu Rómula. - Arruinaria a reputação dele. Terá Esmeralda e o bebé aqui... Sabe que voltarei. A Piazza Santo Spirito, uma bonita praça na margem esquerda do Arrio envolta de tristeza à noite, a igreja escura e fechada à chave àquela hora tardia, ruído e cheiros a comida fumegante de Casalinga, a popular trattoria.
Slide 129: HANNIBAL 135 Próximo da fonte, as chamas de uma pequena fogueira e o som de uma guitarra cigana, tocada com mais alegria do que talento. Há ura bom cantor defado na multidão. Na altura em que o descobrem, o cantor é empurrado para diante e lubrificado com vinho de várias garrafas. Começa com uma canção sobre o destino, mas é interrompido com exigências de uma melodia mais alegre. Roger LeDue, também conhecido por Gnocco, está sentado na beira da fonte. Fumou algo. Tem os olhos toldados, mas detecta imediatamente Rómula, por detrás de multidão, do outro lado da fogueira. Compra duas laranjas a um vendedor e segue-a até longe das canções. Param junto a um candeeiro de rua, afastado da fogueira. Aqui a luz é mais fria do que a chama da fogueira e manchada pelas folhas de um ácer. A luz reflecte-se esverdeada na palidez de Gnocco, as sombras das folhas assemelham-se a nódoas negras em movimento no seu rosto, enquanto Rómula o fita, pousando-lhe a mão no braço. Uma faca surge-lhe do punho, qual uma pequena língua afiada e ele descasca as laranjas, e a casca pende num comprido pedaço único. Dá-lhe a primeira e ela leva um gomo à boca, enquanto ele descasca a segunda. Trocam umas breves palavras na língua cigana. Ele encolheu os ombros uma vez. Ela deu-lhe um telefone celular e mostrou-lhe os botões. Depois, a voz de Pazzi chegou ao ouvido de Gnocco. Decorrido um momento, Gnocco dobrou o telefone e meteu-o no bolso. Rómula tirou algo de uma corrente que trazia ao pescoço, beijou o pequeno amuleto e colocou-o no homem baixo, de pescoço de touro. Ele baixou os olhos, dançou um pouco, fingindo que a imagem sagrada o queimava e arrancou um pequeno sorriso a Rómula. Ela pegou na grossa pulseira e pô-la no braço dele. Coube facilmente. O braço de Gnocco não era maior do que o dela. - Podes ficar uma hora comigo? - perguntou Gnocco. - Posso - respondeu.
Slide 130: Capítulo vinte e oito Novamente noite e o Dr. Fell na ampla sala em pedra da exposição dos Instrumentos de Tortura Atrozes no Forti di Belvedere, estando o Doutor encostado descontraidamente à parede, debaixo das jaulas dos malditos. Regista aspectos da maldição, observando os rostos ávidos dos espectadores que se comprimem à volta dos instrumentos de tortura e se comprimem uns aos outros numa acalorada frottage de olhos esbugalhados, os pêlos dos antebraços arrepiados, a quente respiração mútua nos pescoços e faces daquela massa humana. Por vezes, o Doutor aproxima um lenço perfumado do rosto em defesa contra uma overdose de colónia e suor. Os que perseguem o Doutor aguardam lá fora. As horas passam. O Dr. Fell, que somente prestou uma atenção passageira às exposições, parece não se fartar da multidão. Alguns detectam a sua atenção e sentem-se incomodados. No meio da multidão, mulheres fitam-no frequentemente com particular interesse antes que o movimento vagaroso da fila ao longo da exposição as obrigue a continuar. Uma quantia paga aos dois taxidermistas que lideram a exposição permite ao Doutor mover-se sem constrangimentos, intocável por detrás das cordas, muito quieto, encostado às paredes. Lá fora, à saída, esperando no parapeito sob uma chuva persistente, Rinaldo Pazzi não abandonava a vigília. Estava habituado a esperar. Pazzi sabia que o Doutor não regressaria a casa a pé. Lá em baixo, atrás do Forte, numa pequena píazza, estava o automóvel do Dr, Fell. Era um Jaguar preto, um elegante Mark Il de há 30 anos, reluzindo àquela chuva de molha-tolos, o melhor que Pazzi alguma vez vira e com matrícula suíça. O Dr. Fell não precisava obviamente de
Slide 131: HANNIBAL 137 trabalhar para um salário. Pazzi anotou a matrícula, mas não podia correr o risco de dar a conhecê-la à Interpol. Gnocco aguardava na rua de empedrado irregular da Via San Leonardo, entre o Forti di Belvedere e o carro. A rua mal iluminada apresentava-se ladeada por altos muros de pedra, que protegiam as villas situadas atrás deles. Gnocco descobrira um nicho escuro em frente de um portão gradeado, onde podia manter-se afastado da torrente de turistas que saíam do Forte. De dez em dez minutos, o telefone celular que tinha no bolso vibrava de encontro à coxa e tinha de confirmar que se encontrava na sua posição. Enquanto passavam perto, alguns dos turistas seguravam mapas e programas por cima das cabeças para se protegerem dos chuviscos; o estreito passeio estava cheio e as pessoas dispersavam-se pela calçada, mandando parar os poucos táxis que desciam do forte. Na câmara abobadada dos instrumentos de tortura, o Dr. Fell afastou-se, por fim, da parede onde estava encostado, revirou os olhos na direcção do esqueleto, que estava na jaula da morte pela fome, como se partilhassem um segredo, e abriu caminho pelo meio da multidão até à saída. Pazzi divisou-lhe a figura recortada na ombreira da porta e, de novo, sob um projector, no terreno circundante. Seguiu-o à distância. Quando teve a certeza de que o Doutor iniciava a descida para o carro abriu a tampa do celular e avisou Gnocco. A cabeça do cigano surgiu do colarinho como a de uma tartaruga, de olhos encovados, mostrando tal como a tartaruga, o cérebro por baixo da pele. Enrolou a manga até acima do cotovelo e cuspiu na pulseira, limpando-a com um trapo. Agora que a prata estava polida com cuspo e água benta, pôs a mão atrás das costas por baixo do casaco, a fim de o manter seco, enquanto perscrutava a encosta. Um mar de cabeças erguidas começava a tornar-se visível. Gnocco abriu caminho por entre a multidão até à rua, onde podia avançar na direcção contrária à da torrente e ver melhor. Sem ajudante, teria de encarregar-se do encontrão e do golpe o que não era problema, dado tencionar falhar na última parte. Nessa altura, o indivíduo baixo apareceu... graças a Deus próximo da curva. Pazzi vinha a 30 metros do Doutor, descendo o caminho. Gnocco executou um movimento ágil do meio da rua. Aproveitando-se da passagem de um táxi, esgueirando-se como que a fugir ao trânsito, olhou para trás para insultar o motorista e embateu contra o Dr. Fell, enquanto os dedos rebuscavam a parte de dentro do casaco, Sentiu o braço agarrado num gancho de ferro, sentiu um golpe e soltou-se. O Dr. Fell mal fez uma pausa, antes de desaparecer no meio dos turistas e Gnocco estava livre e bem longe.
Slide 132: 138 THOMAS HARRIS Pazzi chegou quase logo junto dele, ficou ao lado no nicho diante do portão de ferro, enquanto Gnocco se dobrava, para depois se endireitar, respirando com dificuldade. - Consegui. Ele agarrou-me com força. o Cornuto tentou dar-me cabo dos tomates, mas falhou - disse Gnocco. Pazzi dobrado cuidadosamente sobre um joelho, tentando tirar a pulseira do braço de Gnocco quando Gnocco sentiu uma humidade e calor que lhe escorria pela perna e, ao mover o corpo, um jacto quente de sangue arterial esguichou de um rasgão na frente das calças, para a cara e as mãos de Pazzi, enquanto ele tentava tirar a pulseira, agarrando-a somente pelas bordas. Sangue jorrando por todos os lados, para o próprio rosto de Gnocco quando ele se dobrou para se olhar, as pernas cedendo. o corpo escorregou ao longo do portão, agarrou-se-lhe com uma das mãos e pôs o trapo contra a juntura da perna e corpo numa tentativa de parar o sangue da artéria femural rasgada. Com a frieza que o caracterizava sempre que estava em acção, Pazzi rodeou o corpo de Gnocco com os braços e manteve-o afastado da multidão, segurando-o naquele jorro que atravessava as grades do portão, acabando por deitá-lo no chão, de lado. Pazzi tirou o celular do bolso e falou como se estivesse a chamar uma ambulância, mas nem sequer ligou o aparelho. Desabotoou o casaco e estendeu-o como um abutre cobrindo a presa. A multidão movimentavase, indiferente, nas suas costas. Pazzi tirou a pulseira do braço de Gnocco e pô-la na caixinha que trazia consigo. Meteu o celular de Gnocco no bolso. Os lábios de Gnocco moveram-se: - Madonna, chefreddo! Num rasgo de força de vontade, Pazzi afastou a mão de Gnocco da ferida, segurou-a como que a confortá-lo e deixou-o esvair-se em sangue. Quando teve a certeza de que Gnocco estava morto, Pazzi abandonou-o estendido junto ao portão, a cabeça apoiada no braço como se estivesse a dormir e misturou-se com a multidão. Na piazza, Pazzi deteve-se a observar o local de estacionamento vazio, com a chuva começando a molhar o empedrado onde estivera o jaguar do Dr. Lecter. Doutor Lecter.. Pazzi deixara de pensar nele como Dr. Fell. Ele era o Dr. Hannibal Lecter. Provas bastantes para Mason podiam estar no bolso da gabardina de Pazzi. Provas bastantes para Pazzi pingavam da gabardina para os sapatos.
Slide 133: Capítulo vinte e nove A estrela da manhã sobre Génova foi obscurecida pelo luminoso Oriente, quando o velho Alfa de Rinaldo Pazzi ronronou na descida para o cais. Um vento gelado varria o porto. Num cargueiro atracado ao largo, alguém estava a soldar e as chispas laranja derramavam-se em chispas sobre a água escura. Rómula mantinha-se no carro ao abrigo do vento, com o bebé no colo. Esmeralda encolhia-se no pequeno lugar traseiro do descapotável berlinetta, com as pernas de lado. Não voltara a pronunciar uma palavra desde que tinha recusado tocar em Shaitan. Tomaram café forte em copos de papel e comeram empadas agonflotto. Rinaldo Pazzi dirigiu-se à agência de navegação. Quando voltou a sair, o sol já ia alto, reflectindo-se em tons de laranja no casco enferrujado do cargueiro Astra Philogenes, que terminava a descarga na doca. Acenou às mulheres que se encontravam no carro. o Astra Philogenes, de 27 mil toneladas, e registo grego, podia transportar legalmente 12 passageiros sem médico de bordo, em rota para o Rio. Então, Pazzi explicou a Rómula que fariam o transbordo para Sidney, Austrália, e o transbordo sena supervisionado, pelo comissário de bordo do Astra. As passagens estavam totalmente pagas e não eram reembolsáveis. Em Itália, a Austrália é considerada uma atraente alternativa, onde se encontra emprego e tem uma vasta população cigana. Pazzi prometera a Rómula dois milhões de liras, cerca de 1800 dólares ao câmbio corrente e entregou-lhe o dinheiro num grosso envelope. A bagagem das ciganas era muito reduzida, compondo-se de uma pequena mala e o braço de madeira de Rómula metido num estojo de trompa. As ciganas estariam no mar e incomunicáveis durante grande Parte do próximo mês,
Slide 134: 140 THOMAS HARRIS - Gnocco vem - disse Pazzi a Rómula pela décima vez. Não podia, contudo, aparecer naquele dia. Gnocco deixaria notícias para elas nos correios de Sidney - Manterei a minha promessa para com ele, como fiz com vocês - garantiu-lhes, enquanto estavam junto à escada de acesso, com os primeiros raios de sol desenhando as sombras deles na áspera superfície da doca. No momento da partida, com Rómula e o bebé já a subirem a escada do costado do cargueiro, a cigana de idade falou pela segunda e última vez na experiência de Pazzi. Os olhos tão negros como as azeitonas de Kalarnata fixaram-lhe o rosto. - Entregaste Gnocco a Shaitan pronunciou num tom calmo. - Gnocco está morto. - Inclinando-se numa postura rígida, como o faria se estivesse a dar milho às galinhas. Esmeralda cuspiu cuidadosamente na sombra de Pazzi e subiu apressadamente a escada para o barco, atrás de Rómula e da criança.
Slide 135: capítulo trinta A embalagem de correio expresso estava bem montada. o perito de impressões digitais, sentado numa mesa, sob luzes fortes, na área da sala do quarto de Mason, retirou cuidadosamente os parafusos com uma chave de fendas eléctrica. A grossa pulseira de prata vinha acondicionada numa caixa de veludo de ourives, preparada no interior de forma a que as superfícies externas da pulseira não tocassem em nada. - Traga-a aqui - disse Mason. A recolha de impressões digitais da pulseira teria sido muito mais fácil de fazer na Secção de Identificação do Departamento de Polícia de Baltimore, onde o perito trabalhava durante o dia, mas Mason estava a pagar uma quantia muito elevada e secreta em dinheiro e insistiu para que o trabalho fosse executado diante dos seus olhos. «Ou diante do olho», reflectiu o perito azedamente, enquanto colocava a pulseira, com caixa e tudo, numa bandeja de louça da China segura por um empregado. o empregado segurava a bandeja diante do olho arregalado de Mason. Não podia colocá-la sobre o rolo de cabelo junto ao coração de Mason, porque o respirador movia-lhe constantemente o peito, para cima e para baixo. A pesada pulseira estava manchada e incrustada de sangue. Pedaços de sangue seco caíram na bandeja de louça da China. Mason examinou-a com o seu olho arregalado. Dada a ausência de carne facial, não tinha expressão, mas o olho brilhava. - Ponha o pó - ordenou. o perito tinha uma cópia das impressões tiradas da parte da frente do cartão de impressões digitais de Lecter do FBI. A sexta impressão nas costas do cartão e a identificação não estavam reproduzidas.
Slide 136: 142 THOMAS HARRIS Começou a aplicar o pó entre as crostas de sangue. o pó Dragons Blood que preferia usar, assemelhava-se em demasia ao sangue seco da pulseira e, portanto, optou pelo preto, prosseguindo cuidadosamente o trabalho. - Temos impressões digitais - anunciou, parando para limpar o suor da testa, sob as luzes quentes da área da sala. A luz era boa para fotografar e tirou fotografias das impresssões digitais in situ, antes de as erguer para proceder a uma comparação microscópica. Dedo médio e polegar da mão esquerda, semelhança de 16 pontos... seria válida em tribunal - declarou finalmente. - Não há dúvida que se trata do mesmo indivíduo. Mason não estava interessado no tribunal. A sua mão lívida já rastejava sobre a colcha para o telefone.
Slide 137: Capítulo trinta e um Manhã soalheira num pasto nas profundezas das montanhas Gennargentu da Sardenha central. Sete homens, quatro sardenhos e dois romanos, trabalham sob um barracão arejado construído de toros cortados da floresta circundante. Os pequenos sons que produzem parecem ampliados no vasto silêncio das montanhas. Sob o barracão, pendendo de vigas com a madeira ainda por descascar, está um grande espelho com uma moldura dourada de estilo rococó. o espelho está suspenso sobre um enorme curral com dois portões, um deles abrindo para o pasto. o outro portão foi construído tipo porta holandesa, de forma a que a metade superior e a inferior possam ser abertas em separado. A área sob o portão holandês está pavimentada de cimento, mas no resto do curral há palha limpa espalhada à maneira do cadafalso de um carrasco. o espelho, com a moldura talhada de querubins, pode ser ajustado a fim de proporcionar uma vista superior do curral, tal como o espelho de uma aula de culinária fornece aos alunos uma visão superior do fogão. o realizador, Oreste Pini, e o braço direito de Mason, um raptor profissional de nome Carlo, antipatizaram um com o outro à primeira vista. Carlo Deogràcias era um homem entroncado e rubicundo, que usava um chapéu alpino com pêlo de javali na orla. Tinha o hábito de mastigar a cartilagem de um par de dentes de veado que guardava no bolso do colete. Carlo era um exímio praticante da antiga profissão sardenha de rapto e também um vingador profissional. Dizem os italianos abastados que se se for raptado para resgate, melhor será cair nas mãos dos sardenhos. Pelo menos são profissionais
Slide 138: 144 THOMAS HARRIS e não matam por acidente ou um ataque de pânico. Se os parentes pagarem, pode ser-se devolvido intocável, sem violação, nem mutilações. Se não pagarem, os familiares podem esperar receber um picadinho pelo correio. Os complicados preparativos de Mason desagradavam a Carlo. Tinha experiência neste campo e dera, de facto, a comer um homem aos porcos, na Toscana, há vinte anos - um nazi reformado e falso conde que impunha relações sexuais a crianças de uma aldeia toscana, rapazes e raparigas. Carlo foi contratado para o trabalho, arrancou o homem do seu jardim a cinco quilómetros da Badia di Passignano e deu-o a comer a cinco grandes porcos domésticos de uma herdade sob o Poggio alle Corti. Teve de subtrair as rações aos porcos durante três dias e o nazi lutava por se libertar dos laços, implorando e suando com os pés sobre o curral e, mesmo assim, os porcos hesitavam em começar pelos dedos dos pés que se retorciam, até que Carlo, com um certo toque de culpa por violar o acordo, deu ao nazi uma salada das vagens favoritas dos porcos e depois degolou-o para lhes facilitar a tarefa. Carlo era um homem jovial e dinâmico, mas a presença do realizador irritava-o... Carlo trouxera o espelho de um bordel que possuía em Cagliari, por ordem de Mason Verger, para conveniência deste pomógrafo, Oreste Pitti. o espelho era uma verdadeira dádiva para Oreste que já se servira dos espelhos como um dispositivo favorito nos seus filmes pornográficos e no único filme de qualidade que rodara na Mauritânia. Inspirado pelas instruções do seu espelho retrovisor, foi o pioneiro do uso de imagens distorcidas, a fim de fazer com que alguns objectos parecessem maiores do que eram ao olhar desprevenido. Segundo as ordens de Mason, Oreste teria de usar um conjunto de duas câmaras com som de qualidade e sair-se bem à primeira. Mason pretendia um close-up ininterrupto do rosto, em paralelo com as demais cenas. Aos olhos de Carlo, ele parecia perder um tempo infindo. - Pode ficar aí a tagarelar como uma mulher, ou observar a acção e perguntar-me o que não compreende disse-lhe Carlo. - Quero filmar a actuação. - Va biene. Monte essa merda e comecemos. Enquanto Oreste dispunha as câmaras, Carlo e os três sardenhos silenciosos que o acompanhavam, procederam aos preparativos. Oreste, que adorava dinheiro, surpreendia-se sempre com o que o dinheiro pode comprar. Numa comprida mesa de suporte colocada a um canto do barracão, Matteo, o irmão de Carlo, desembrulhou uma trouxa de roupa
Slide 139: HANNIBAL 145 usada. Escolheu uma camisa e umas calças da pilha, enquanto os outros dois sardenhos, de nome Piero e Tommaso, faziam rolar uma maca de ambulância para o interior do barracão, empurrando-a devagar sobre a relva- A maca estava manchada e em mau estado. Matteo tinha prontos vários baldes de ração composta por uma série de galinhas mortas ainda por depenar, alguma fruta estragada, já atraindo as moscas, e um balde com tripas e intestinos de boi. Matteo estendeu um par de calças de caqui usadas em cima da maca e começou a atufalhá-las com umas galinhas, alguma carne e fruta. Pegou depois num par de luvas de algodão, enchendoas de carne e bolotas, engrossando cada dedo com cuidado e colocando-as ao fundo das pernas das calças. Estendeu também a camisa em cima da maca de rodas, enchendo-a de tripas e intestinos e ajeitando os contornos com pão, antes de abotoar a camisa, metendo a fralda nas calças. Um par de luvas igualmente cheias foram postas ao fundo das mangas. o melão que usou como cabeça estava coberto com uma rede de cabelo, atufalhada de carne, em que o rosto se compunha com dois ovos cozidos a fazer de olhos. Quando terminou, o resultado assemelhava-se a um volumoso manequim, com melhor aspecto em cima da maca do que alguns corpos verdadeiros quando transportados. Como toque final, Matteo salpicou um excelente aftershave na frente do melão e nas luvas ao fundo das mangas. Carlo apontou o queixo na direcção do magro assistente de Oreste, inclinado na vedação e que estendia o microfone sobre o curral, medindo o alcance. - Diga a esse filho da mãe que se ele cair, não vou apanhá-lo. Por fim, tudo estava a postos. Piero e Tômmaso desceram a maca até à posição mais baixa, com as pernas dobradas e empurraram-na até ao portão do curral. Carlo trouxe um gravador da casa com um amplificador separado. Tinha uma série de cassetes algumas das quais ele próprio gravara enquanto cortava as orelhas a vítimas raptadas para as enviar por correio aos familiares. Carlo punha sempre estas gravações para que os animais as ouvissem enquanto comiam. Não precisaria das gravaÇões quando tivesse uma verdadeira vítima que soltasse os gritos. Dois altifalanteS de exterior foram pregados aos postes do barracão. o sol brilhava com intensidade sobre o bonito prado que descia até aos bosques. A sólida vedação à volta do prado prolongava-se pela floresta. Cortando o silêncio do meio-dia, Oreste ouvia o zumbido de uma abelha-do-pau sob o tecto do barracão. - Está pronto? - perguntou Carlo. Foi o próprio Oreste a ligar a câmara fixa. - Gíríamo - ordenou ao seu cameraman.
Slide 140: 146 THOMAS HARRIS - Pronti! - obteve como resposta. - Motore! - As câmaras estavam a filmar. - Partito! - o som acompanhava o filme. - Azione! - Oreste deu uma cotovelada em Carlo. o sardenho carregou no botão de play do gravador e desencadeou uma sequência infernal de gritos, soluços e súplicas. o cameramen sobressaltou-se com o som e depois recompòs-se. Toda aquela guincharia era horrível de se ouvir, mas constituía uma abertura apropriada para os focinhos que apareceram dos bosques, atraídos pelos gritos que anunciavam o jantar.
Slide 141: Capítulo trinta e dois Viagem de ida e volta a Génova num dia para pôr a vista no dinheiro. o voo doméstico para Milão, um ruidoso Aerospatiale a jacto, descolou de Florença de manhã cedo, avançando sobre os vinhedos de carreiros espaçados, qual modelo em bruto de um lavrador da Toscana. Algo estava errado nas cores da paisagem... as piscinas novas junto às vivendas dos abastados estrangeiros tinham um azul falso. Aos olhos de Pazzi, que observava através da janela do avião, as piscinas emitiam o azul leitoso de um velho olho inglês, um azul deslocado no meio dos escuros ciprestes e das oliveiras prateadas. o humor de Rinaldo Pazzi subiu com o avião, ciente no íntimo que não envelheceria aqui, dependente dos caprichos dos seus superiores da polícia, tentando aguentar para receberem a reforma. Sentira um medo horrível de que o Dr. Lecter desaparecesse depois de matar Gnocco. Quando Pazzi detectou novamente o candeeiro de trabalho do Dr. Lecter em Santa Croce, invadiu-o algo semelhante à salvação; o Doutor acreditava estar a salvo. A morte do cigano não causara a mínima perturbação na calma da Questura e fora atribuída à droga - por sorte, havia seringas descartáveis espalhadas no chão à volta dele, um espectáculo vulgar em Florença, onde as seringas eram distribuídas gratuitamente. Ir ver o dinheiro com os próprios olhos. Pazzi insistira em que assim fosse. o visual Rinaldo Pazzi lembrava-se totalmente das imagens: a Primeira vez que viu o pénis em erecção, a primeira vez que viu o seu próprio sangue, a primeira mulher que viu nua, a mancha do priMeiro punho que avançou ao seu encontro. Lembrava-se de entrar por acaso na capela lateral de uma igreja Sienense e deparar inesperadamente com o rosto de Santa Catarina de Siena, a sua cabeça mumificada
Slide 142: 148 THOMAS HARRIS com a touca de um branco imaculado assente num relicário com a forma de uma igreja. A visão de três milhões de dólares americanos produziu-lhe o mesmo impacto. Trezentos maços presos com um elástico de notas de cem dólares em séries sem sequência de números. Numa divisão severa, semelhante a uma capela, no Geneva Crêdit Suisse, o advogado de Mason Verger mostrara o dinheiro a Rinaldo Pazzi. Foi empurrado sobre rodas da casa-forte em quatro cofres fundos com placas numeradas. o Crédit Suisse forneceu igualmente uma máquina de contagem de notas, uma balança e um funcionário que as pôsem funcionamento. Pazzi dispensou o funcionário. Colocou uma vez as mãos em cima do dinheiro. Rinaldo Pazzi era um investigador de grande competência. Descobrira e prendera artistas da escumalha durante vinte anos. De pé, na presença deste dinheiro, de ouvido atento aos preparativos, não detectou uma única nota falsa; se lhes entregasse Hannibal Lecter, Mason dava-lhe o dinheiro. Envolto numa agradável onda de calor, Pazzi tomou consciência de que esta gente não brincava em serviço... Mason Verger pagaria mesmo o dinheiro. E não tinha ilusões quanto ao destino de Lecter. Estava a vender o homem à tortura e morte. Pazzi reconheceu intimamente o que estava a fazer. Pazzi viu que a ansiedade insana de Mason de pagar pela dor do Dr. Lecter não era mais invulgar nem aberrante do que as vis extravagâncias de Deus ao cumular de bençãos homens indignos como os novos superiores de Pazzi. A nossa liberdade vale mais do que a vida do monstro. A nossa felicidade é mais importante do que o sofrimento dele, pensou, com o frio egoísmo dos malditos. Se o nossa era dogmático ou se referia a Rinaldo e à mulher é uma pergunta difícil e pode haver mais do que uma resposta. Nesta sala, esfregada à boa maneira suíça, com a brancura de uma touca, Pazzi fez o juramento final. Afastou-se do dinheiro e esboçou um aceno de cabeça a Mister Konie, o advogado. Este contou cem mil dólares do primeiro cofre e entregou-os a Pazzi. Mister Konie falou rapidamente a um telefone e estendeu o auscultador a Pazzi. - É uma linha por baixo do solo - explicou. A voz americana que Pazzi ouviu tinha um ritmo peculiar, as palavras precipitavam-se de um fôlego com uma pausa no meio e as consoantes explosivas perdiam-se. o som provocou uma ligeira tontura em Pazzi, como se também lhe faltasse o fôlego em uníssono com o interlocutor. Sem preâmbulo, a pergunta: - Onde está o Doutor Lecter?
Slide 143: HANNIBAL 149 Com o dinheiro numa das mãos e o auscultador na outra, Pazzi não hesitou em responder: - É o que estuda no Palazzo Capponi, em Florença. É o... conservador. - Importa-se de mostrar a sua identificação a Mister Konie e passar-lhe o telefone? Ele não pronunciará o seu nome. Mister Konie consultou uma lista que tirou do bolso e disse algumas palavras num código précombinado a Mason, depois do que entregou de novo o auscultador a Pazzi. - Receberá o resto do dinheiro quando ele estiver vivo nas nossas mãos - prometeu Mason. - Não tem de prender o Doutor, mas tem de identificá-lo e colocá-lo nas nossas mãos. Quero igualmente a sua documentação, tudo o que possui sobre ele. Regressa a Florença esta noite? Receberá instruções esta noite para um encontro próximo de Florença. o encontro não será posterior a amanhã à noite. Aí obterá instruções do homem que prenderá o Doutor Lecter. Ele vai perguntarlhe se conhece uma florista. Responda que todas as floristas são ladras. Compreende-me? Quero que colabore com ele. - Não quero o Doutor Lecter na minha... Não o quero próximo de Florença quando... - Entendo a sua preocupação. Descanse que não estará. A linha ficou silenciosa. Decorridos alguns minutos de burocracia, os dois milhões e novecentos mil dólares passaram a título. Mason Verger não podia recuperá-los, mas podia dar ordem para que Pazzi os recebesse. Um funcionário do Crédit Suisse convocado à sala de reuniões informou Pazzi que o banco lhe cobraria um juro negativo para lhe facilitar um depósito se ele convertesse o dinheiro em francos suíços e pagaria três por cento de juro composto somente sobre os primeiros cem mil francos. o funcionário apresentou a Pazzi uma cópia do artigo 47 do Bundesgesetz uber Banken und Sparhassen da lei de sigilo do Banco e concordou em proceder a uma transferência para o banco da Nova Scotia ou das Ilhas Caimãs mal os fundos estivessem à disposição, caso Pazzi o desejasse. Na presença de um notário, Pazzi garantiu poder de uma segunda assinatura para a conta da mulher na eventualidade da sua morte. Concluído o negócio, só o funcionário do banco suíço lhe estendeu a mão. Pazzi e Mister Konie não se fitaram directamente, embora Mister Konie se tivesse despedido à porta. A última etapa até casa, o avião de Milão atravessando uma tempestade, o propulsor do lado de Pazzi, um círculo negro recortado no céu cinzento escuro. Relâmpagos e trovões enquanto sobrevoavam a velha cidade, o campanário e abóbada da catedral debaixo deles, luzes surgindo ao cair da noite, umflash e um estrondo semelhantes
Slide 144: 150 THOMAS HARRIS aos que Pazzi se recordava dos tempos de infância, quando os alemães explodiram as pontes sobre o Arno, poupando apenas a Ponte Vecchio. E durante o espaço minimo de um relâmpago recordou-se de ver, quando rapazinho, um atirador acorrentado à Madonna das Correntes, rezando antes de ser alvejado. Descendo através do cheiro a ozono dos relâmpagos, ouvindo o ribombar dos trovões contra o metal do avião, Pazzi dos antigos Pazzi regressou à sua antiga cidade, preso de objectivos com a idade do tempo.
Slide 145: Capítulo trinta e três Rinaldo Pazzi teria preferido manter uma cerrada vigilância sobre a sua presa no Palazzo Capponi, mas eralhe impossível. Em vez disso, Pazzi, ainda arrebatado pela visão de todo aquele dinheiro, teve de vestir o smoking e ir juntar-se à mulher para assistir a um concerto há muito marcado da Orquestra de câmara de Florença. o Teatro Picollonimi, uma cópia feita no século XIX a média escala do glorioso Teatro La Fenice de Veneza é uma jóia barroca de dourados e veludos, com querubins desafiando as leis da aerodinâmica em todo o seu maravilhoso tecto. Também é bom que o teatro seja belo, pois os executantes necessitam frequentemente de toda a ajuda possível. É injusto mas inevitável que a música em Florença seja implacavelmente avaliada pelos elevados padrões da arte da cidade. Os Florentinos são um conhecedor e vasto grupo de amantes da música, típicos de Itália, mas sentem-se, por vezes, famintos de artistas musicais. Pazzi deslizou para o assento ao lado da mulher durante os aplausos que se seguiram à abertura. Ela ofereceu-lhe a face perfumada. Ele sentiu o coração acelerado ao olhá-la com aquele vestido de noite, decotado bastante para emanar uma quente fragância do rego entre os seios, segurando a partitura na elegante capa Gucci que Pazzi lhe dera. - Melhoraram cem por cento com o novo viola - sussurrou ao ouvido de Pazzi. - Este excelente viola viera substituir um outro extremamente inepto, primo de Sogliato, que desaparecera estranhamente há umas semanas. o Dr. Hannibal Lecter olhou para baixo de um camarote, só, imaculado com o seu laço branco, com o rosto e a frente da camisa
Slide 146: 152 THOMAS HARRIS parecendo flutuar na moldura escura formada pela talha de barroco dourada. Pazzi detectou-o quando as luzes se acenderam por momentos depois do primeiro movimento e, antes de Pazzí conseguir desviar os olhos, a cabeça do Doutor virou-se como a de uma coruja e fixaram-se. Pazzi apertou involuntariamente a mão da mulher com força bastante para a levar a voltar-se e a fitá-lo. Em seguida, Pazzi manteve o olhar resolutamente no palco, sentindo nas costas da mão o calor da coxa da mulher, que não desprendera a mão da dele. No intervalo, quando Pazzi voltou do bar e lhe estendeu uma bebida, o Dr. Lecter encontrava-se ao seu lado. - Boa noite, Doutor... Fell - cumprimentou Pazzi. - Boa noite, Commendatore - respondeu o Doutor, esperando com uma leve inclinação de cabeça até Pazzi se ver obrigado a proceder às apresentações. - Quero apresentar-te o Doutor Fell, Laura. Doutor, esta é a Signora Pazzi, a minha mulher. A Signora Pazzi, acostumada a ser elogiada pela sua beleza, considerou encantador o que se seguiu, embora o marido não fosse da mesma opinião. - Obrigado por este privilégio, Commendatore - agradeceu o Doutor. A língua vermelha e ponteaguda surgiu por momentos, antes de se inclinar sobre a mão da Signora Pazzi, talvez com os lábios mais próximos da pele do que é hábito em Florença, sem dúvida à distância bastante para que ela lhe sentisse a respiração na pele. Os olhos fitaram-na antes de erguer novamente o rosto. - Acho que gosta particularmente de Scarlatti, Signora Pazzi. - Sim. É verdade. - Foi agradável vê-la seguir a partitura. Quase ninguém o faz hoje em dia. Esperei que isto pudesse interessá-la. - Tirou um portfolio debaixo do braço. Era uma partitura antiga em pergaminho, copiada à mão. É do Teatro Capranica em Roma, de 1688, o ano em que a peça foi escrita. - Meraviglioso! Olha para isto, Rinaldo! - Assinalei à margem algumas das diferenças da partitura moderna, enquanto se processou o primeiro movimento - replicou o Dr. Lecter. - Talvez a divirta continuar no segundo. Aceite-a, por favor. Posso recuperá-la depois por intermédio do Signore Pazzi... Permite, Commendatore? o Doutor perscrutando como ao profundo de um poço, quando Pazzi respondeu. - Se te der prazer, Laura - concordou, acrescentando após uma breve reflexão. - Vai comparecer diante do Studiolo, Doutor?
Slide 147: HANNIBAL 153 - Sim. De facto, sexta-feira à noite. Soglioto está ansioso por me ver desacreditado. - Tenho de ir à parte antiga da cidade - redarguiu Pazzi. Nessa altura, devolvo-lhe a partitura. Laura, o Doutor Fell tem de lutar pelo sustento diante dos dragões do Studiolo. - Estou certa de que o fará lindamente, Doutor - replicou com um fixar dos grandes olhos escuros... dentro dos limites do decoro, mas a rasá-los. o Dr. Lecter sorriu, mostrando os dentes pequenos e brancos. - Se fabricasse Fleur du Ciel, Madame, oferecia-lhe o Diamante do Cabo para que o usasse. Até sexta à noite, Commendatore. Pazzi certificou-se de que o Doutor voltava para o camarote e não voltou a fixá-lo, até acenarem um boa-noite de despedida, à distância, nos degraus do teatro. - Dei-te esse Fleur du Ciel nos teus anos - comentou Pazzi. - Deste sim e adoro-o, Rinaldi - anuiu a Signora Pazzi. Tens um gosto maravilhoso.
Slide 148: Capítulo trinta e quatro Impruneta é uma antiga cidade toscana onde foram fabricadas as telhas do telhado da Duomo, o seu cemitério avista-se à noite das vivendas situadas no alto das encostas a uma distância de quilómetros devido às lâmpadas que estão sempre acesas nas campas. A luz ambiente é reduzida mas suficiente para que os visitantes possam mover-se por entre os mortos, embora seja necessária uma lanterna para ler os epitáfios. Rinaldo Pazzi chegou às cinco para as nove com um pequeno ramo de flores que tencionava colocar numa sepultura ao acaso. Avançou devagar ao longo de um caminho de cascalho entre os túmulos. Sentiu a presença de Carlo, embora não o visse. Carlo falou-lhe do outro lado de um mausoléu, acima da altura da cabeça: - Conhece uma boa florista na cidade? o homem parecia um sardenho. óptimo. Talvez soubesse o que estava a fazer. - As floristas são todas ladras - replicou Pazzi. Carlo surgiu bruscamente por detrás da construção em mármore, sem espreitar. Pazzi achou-o selvagem, baixo, rubicundo e forte, mas de movimentos ágeis. Usava um colete de cabedal e tinha pêlo de javali no chapéu. Pazzi calculou que tinha uns sete centímetros mais de alcance de braço e era dez centímetros mais alto do que Carlo, Supunha que eram mais ou menos do mesmo peso. Carlo não tinha um polegar, Pazzi imaginou que conseguiria encontrá-lo nos registos da Questura com uns cinco minutos de esforço, Os dois homens eram iluminados por baixo pelas lâmpadas das sepulturas. - A casa dele tem bons alarmes - informou Pazzi. -já a examinei. Tem de mo indicar.
Slide 149: HANNIBAL 155 - Ele tem de discursar numa reunião amanhã à noite, a noite de sexta-feira. Consegue agir com um prazo tão curto? - Tudo bem. - Carlo desejava provocar um pouco o polícia, avaliar a sua capacidade de controlo. Vai entrar com ele ou mete-lhe medo? Fará o que lhe pagam para fazer. Vai apontar-mo. - Veja como fala. Farei o que me pagam para fazer, mas também se lhe aplica a regra. Ou pode passar à reforma como um cabrão de Volterra. A escolha é sua. No trabalho, Carlo era tão impermeável aos insultos como aos gritos de dor. Concluiu que avaliara mal o polícia. Abriu as mãos. Diga-me o que preciso saber - retorquiu Carlo, avançando e pondo-se ao lado do polícia, como se partilhassem o mesmo luto junto ao pequeno mausoléu. Um casal percorria o caminho da mão dada. Carlo tirou o chapéu e os dois homens mantiveramse de pé e de cabeça baixa. Pazzi depôs as suas flores na porta do jazigo. Chegava-lhe o cheiro do chapéu de Carlo, um cheiro acre, semelhante à pila de um animal mal castrado. - É rápido com a navalha - declarou Pazzi, erguendo o rosto para se afastar do cheiro. - Ataca as partes baixas. - Tem revólver? - Não sei. Que eu saiba, nunca usou nenhum. - Não quero ter de tirá-lo para fora de um carro. Quero-o na rua, ao ar livre, rodeado de muita gente. - Como conseguirá derrubá-lo? - Isso é comigo - respondeu Carlo, enfiando o dente de um veado na boca e mastigando a cartilagem, fazendo aparecer ocasionalmente o dente por entre os lábios. - Ele tem de discursar numa reunião. Começa às sete no Palazzo Vecchio. Se for trabalhar até à Capela Capponi em Santa Croce na sexta-feira, terá de percorrer a pé a distância que o separa do Palazzo Vecchio. Conhece Florença? - Conheço-a bem, Arranja-me um passe de transportes para a cidade velha? - Arranjo. - Não vou arrancá-lo à igreja - disse Carlo. Pazzi esboçou um aceno de concordância e prosseguiu: bom que ele apareça na reunião, pois assim não darão pela sua falta durante duas semanas. Tenho um motivo para o acompanhar até ao Palazzo Capponi depois da reunião... - Não quero apanhá-lo na casa dele. Estará no seu terreno. Conhece-o e eu não, Estará em guarda e olhará à volta junto à porta. Quero-o em campo aberto.
Slide 150: - Nesse caso, ouça-me... Sairemos pela porta da frente do Palazzo Vecchio, pois o lado da Via dei Leoni estará fechado. Seguiremos

   
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